A IMORTALIDADE DA ALMA

Gênesis 4,10 – Iahweh disse: “Que fizeste! Ouço o sangue do teu irmão, do solo, clamar para mim”!

INTRODUÇÃO

A imortalidade da alma sempre foi um tema debatido desde o início da era cristã. Durante a história, inúmeros foram os casos onde os cristãos se dividiram em se acreditar em um estado intermediário onde, encontrariam diretamente com o Senhor, enquanto outros, apenas encaravam a ressurreição sem que a alma passasse por outro estado. Ao olharmos a história dos dois mil anos de cristianismo, teremos muitas informações sobre o tema e assim como em outros artigos, pretendo “penetrar” em um campo que atualmente é motivo de várias controvérsias (até mesmo no mundo protestante). Sendo assim, o que cremos a respeito da alma? O que a Igreja ensina desde os primórdios? A “imortalidade da alma” de fato, foi influenciada pela cultura grega? Para responder tais questionamentos, teremos que analisar um mundo de motivos.

O VELHO TESTAMENTO ACREDITAVA NA ALMA IMORTAL?

Antes de tentarmos entender essa questão, teríamos que visualizar qual a composição unitária do homem. Sendo assim, lemos que em Gênesis, na criação, ao ser criado por Deus, o homem tornou-se um “ser vivente”:

Gn 2,7 – “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser (alma) vivente”.

A palavra hebraica que determina essa “animação do corpo (alma)” é o termo nefesh (grego: psyche), que ora também é compreendido pelo termo ruah (grego: pneuma) que corresponde ao espírito. Muitos teólogos da atualidade, procuram dividir o homem em “três partes”, onde, o espírito corresponde à parte “elevada”, a alma animadora do corpo e a carne, o pó oriundo da terra. Essa afirmação é creditada com base nas palavras de São Paulo que aos escrever aos tessalonicenses, intercede a Deus para que o ser inteiro dos cristãos fosse mantido para a vinda do Senhor.

1 Ts 5,23 – “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita; e que o vosso ser inteiro, o espírito, a alma e corpo sejam guardados de modo irrepreensível para o dia da Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Tal conceito aparece única e exclusivamente nesta carta, sendo que em momento algum, o apóstolo sugere que o homem fosse parte de uma tricotomia, mesmo porque, Paulo não mantém certa coerência, já que espírito e alma é em outras ocasiões tidas como a mesma coisa, sendo que as diferenças são entendidas pela forma como as palavras são colocadas. Enquanto a alma tem forte relação com a criatura, pessoa, mente, o espírito designa uma relação do eu e Deus:

Lc 1,47 – “Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”.

É possível que para São Paulo na passagem aos tessalonicenses, o emprego de “espírito” seja o princípio divino da vida nova em Cristo Jesus (Rm 5,5) ou uma relação em sentido lato na entrega total de “corpo e alma” ao Senhor. De qualquer forma, o que temos por ciência é que o homem é formado de corpo e alma.

Mt 10,28 – “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”.

Pois bem, quando pensamos no velho testamento, dificilmente saberemos se de fato existia tal crença para os antigos patriarcas. A ideia judaica de vida após morte se restringia a um local onde não existia recordação da matéria. Ideia até normal, já que para a época, a revelação ainda estava em processo de desenvolvimento e a crença de uma alma que sobrevive sem um corpo, seria apenas concretizada com o advento de Jesus Cristo. Embora possamos encontrar determinados versículos que nos revelam a consciência da alma, atestamos em muitas outras passagens vétero-testamentária um local denominado de “Xeol” (Hades no Grego / Mansão dos Mortos) que diminui ou silencia a alma. Em Salmos, lemos que o louvor não existe neste local:

Sl 6,6 – “Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?”

No livro do profeta Isaías, encontramos outra definição para este  estado: os que descem a cova (morrem) já não esperam pela fidelidade de Deus:

Is 38,18 – “Com efeito, não é o Xeol que te louva, nem a morte que te glorifica, pois já não esperam em tua fidelidade aqueles que descem à cova”.

Curiosamente, ao lermos o livro de números, verificamos que um grupo de pessoas se rebelaram contra Deus e contra as ordens de Moisés e como castigo, os mesmos “desceram vivos” ao Xeol, isto é, antes mesmo que morressem, já estavam neste local onde bons e maus se confundem (1 Sm 2,6):

Nm 16,33 – “Desceram vivos ao Xeol, eles e tudo aquilo que lhes pertencia. A terra os recobriu e desapareceram do meio da assembléia”. 

Assim como lemos em 2 Samuel que Davi, toma a esposa de Urias e por castigo, Deus faz com que o filho que nascesse dessa união, pereceria. Dessa forma, o rei sabendo que sua criança não voltaria a vida, afirma que ele sim, após a morte, iria ir aonde seu filho se encontrava (xeol – local da habitação dos mortos):

2 Sm 12,23 – “Agora que o menino está morto, porque jejuarei? Poderei fazê-lo voltar? Eu, sim, IREI aonde ele está, mas ele não voltará para mim.” 

Entre as passagens que ilustram a imortalidade da alma, encontramos no livro de Macabeus, uma prova importante de que antes de Cristo, já existiam registros históricos de que após a morte, a alma mantinha suas faculdades psíquicas. Há quem pense que em determinada época (200 A.C), uma forte influencia helênica já se fazia presente, entretanto, sendo influenciados ou não, devemos afirmar que a história corrobora com o desenvolvimento da doutrina. A primeira parte que registra essa crença, encontra-se no versículo 45 do capítulo 12 do segundo livro de Macabeus.

Assim, segue a escritura divinamente inspirada:

2 Mc 12,45 – “Mas se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado”.

No contexto apresentado pela passagem, vemos que Judas, age piedosamente ao oferecer um sacrifício de expiação pelos mortos rogando a solicitude da graça divina. Aqui já encontramos indícios de um campo da teologia judaica que atribuía que as almas dos mortos, possuem vivência perante a separação do corpo. Ainda no mesmo livro, encontramos outro registro interessante que comprova essa verdade. Onias que foi sumo sacerdote e Jeremias que sofreu duramente por seu povo, já faziam parte do número dos mortos, entretanto, em uma visão (sonho) de Judas, tais homens aparecem intercedendo incessantemente pela cidade santa.

2 Mc 15,14 – “Tomando então a palavra, disse Onias: “Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus”.

É muito provável que essa fé da “alma separada do corpo”, tenha se firmado por forte influência grega, porém, não podemos descartar que embora os livros hebraicos não afirmem com total clareza a alma imortal, é possível ler em Jó que sua esperança era “habitar no Xeol”:

Jó 17,13a – “Ora, minha esperança é habitar no Xeol”.

Podemos também tomar nota de que o rei Salomão, homem sábio e escritor do livro do Eclesiastes, apresenta outras diferentes alternativas para a condição dos mortos. Essa condição, não se assemelha com outras fontes já apresentadas até aqui. O livro traz uma composição literária um tanto quanto distinta. Salomão em determinados versículos, equipara o homem ao animal, porém, ao fim da obra afirma que o espírito volta a Deus que o criou:

Ecl 3,19-21 – “Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade. Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó. Quem sabe se o alento do homem sobe para o alto e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?”

Ecl 12,7 – “Antes que o pó volte à terra de onde veio e o sopro volte a Deus que o concedeu”.

Sendo assim, entendo que utilizar o velho testamento para basear determinada crença, seria um grande erro. As revelações anteriores a Cristo, por não estarem concluídas, apresentam poucas provas (tanto da mortalidade, quanto da imortalidade da alma).

O NOVO TESTAMENTO E A IGREJA PRIMITIVA ACREDITAVAM NA ALMA IMORTAL?

Se iniciarmos nossa pesquisa pela tradição da Igreja, veremos que existem muitos testemunhos dos primeiros padres que acreditavam que antes da ressurreição, ficaríamos em um estado de plena consciência. De acordo com a “História Eclesiástica segundo Eusébio de Cesaréia”, na época de Orígenes (185 d.C +), algumas divergências já faziam menção a respeito da doutrina da alma.

Assim escreve Eusébio:

Aparentemente ainda, na Arábia, no tempo a que nos referimos introdutores de uma doutrina alheia à verdade, asseveravam que a alma humana neste mundo, no momento final provisoriamente morre com o corpo, e com ele se corrompe, mas no futuro, por ocasião da ressurreição, com ele reviverá. Então, foi convocado um importante concílio. Orígenes novamente foi chamado, e após ter discursado perante a assembleia sobre a questão disputada, saiu-se de tal forma que alterou o modo de pensar dos que primeiramente havia sido iludidos” [1]

O mesmo Orígenes que é um dos grandes pais da Igreja Antiga, em um de seus escritos a respeito dos santos, mencionou que “o Pontífice não é o único a se unir aos orantes. Os anjos e as almas dos justos também se unem a eles na oração” [2]Santo Agostinho, doutor da Igreja Católica, era um férreo defensor da doutrina. Dizia ele que a alma “é a substância dotada de razão, apta a reger um corpo”[3].

Ireneu de Lião (180) em sua obra “Contra as Heresias” escreveu:

O Senhor ensinou clarissimamente que as almas não só perduram sem passar de corpo em corpo, mas conservam imutadas as características dos corpos em que foram colocadas e se lembram das ações que fizeram aqui na terra e das que deixaram de fazer (…). Abraão possuía o dom da profecia e que cada alma recebe o lugar merecido antes do dia do juízo” [4].

Baseado pelos séculos correspondentes a tradição e nas escrituras canônicas, o catecismo católico coloca a seguinte definição sobre as almas dos que partiram em amizade de Deus:

“As testemunhas que nos precederam no Reino (Hb 12.1), especialmente as que a Igreja reconhece como “santos”, participam da tradição viva da oração pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão de seus escritos e por sua oração hoje. Contemplam a Deus, louvam-no e não deixam de velar por aqueles que deixaram a terra. Sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus” [5]

A concepção cristã desde os primórdios, se fundamenta nos princípios oferecidos pelo próprio Jesus Cristo, quando o mesmo questionado pelos Saduceus (grupo religioso que não acreditava na ressurreição) no evangelho de São Mateus, menciona que:

Mt 22,32 – “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas sim de vivos”.

Pois bem, já verificamos que antes do advento do Senhor, tal crença ainda era inconcebível aos olhos do povo, sendo assim, nós cristãos tivemos um novo olhar teológico correspondente à nova aliança que condiz com nosso pensamento pós Cristo, sendo que, Deus em sua infinita majestade, como criador das coisas visíveis e invisíveis, não permite que o homem dotado de inteligência seja entregue ao esquecimento após a vida terrena, porém, como já vimos, essa concepção lógica que o novo testamento apresenta não era tão clara aos antigos. O centro do problema para aqueles que defendem o “sono da alma”, é querer definir igualdade para o estado pós-morte atribuindo condições interpretativas entre o antigo testamento e o novo. É certo dizer que o entendimento de ambos era distinto. O conhecimento dos patriarcas era limitado, pois, a expansão dessa doutrina só foi possível com a chegada de Jesus.

O novo testamento apresenta novas propostas para alma. Enquanto ímpios e justos possuíam a “mesma sorte” (Ecl 9,2), a novidade em Cristo traz a verdadeira forma do entendimento acerca deste mistério, por isso, usar o velho testamento para elucidar a respeito da doutrina não é correto já que a visão neotestamentária é distinta, desenvolvida e completa.  E por qual motivo seria completa? Apesar dos antigos textos em alguns momentos mostrarem o contrário, o novo testamento lança sobre nós a luz de Jesus e tudo aquilo que estava incompleto, passou a ser revelado. Muitos, na tentativa de desqualificar a imortalidade da alma, procuram dizer que as referencias escritas no período pós-messias são simbólicas. Usam de passagens que descrevem que os santos dormem e com isso, anexando os dois períodos, procuram interação entre as palavras do evangelho e dos antigos homens de Deus. Quando os escritos do novo testamento citam a respeito dos que dormem (1 Cor 15,20-23 / 1 Ts 4,13-14,16), enfatiza o fato daqueles que morreram e não que seu estado seja de sono profundo. Tal afirmação contradiz todas as outras referências que possuímos de forma clara (sendo que é sempre necessário não esquecer que as visões vetero e neotestamentárias são distintas).

Dessa forma, colocarei as principais provas encontradas no novo testamento sobre a alma imortal e a consciência e conhecimento que as mesmas possuem após se separar do corpo. Tratarei também de responder alguns questionamentos importantes dos que não acreditam que a alma possa sobreviver sem essa “habitação mortal”.

O RICO E O MENDIGO

A primeira referencia que demonstra essa realidade encontra-se nas palavras do próprio Cristo no evangelho de São Lucas:

Lc 16,22-23 e 27 – “E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai”.

Nessa passagem, Jesus apresenta uma condição estabelecida após a morte: o céu e o inferno. De forma clara, é possível visualizar a alma do rico em tormentos no Hades e a alma (que não morre) do mendigo no seio de Abraão, ambas, gozando de plena consciência. Note que no verso 27, o ímpio entendendo seu destino, intercede por seus parentes, porém, como o inferno é a ausência Deus, seu pedido é negado. No enredo dessa história, é visível a mensagem que Nosso Senhor dividia com os apóstolos, porém, há quem diga que nessa parábola, tudo não passava de mera simbologia e que não existem provas suficientes para afirmar a imortalidade da alma já que se tratava apenas de uma história, porém, não é isso que absorvemos ao analisar o evangelho.

Se lermos as parábolas deixadas por Cristo, veremos que todas retratam um cotidiano integrado no ambiente daquele povo e por mais que o “Rico e o Lazaro” possuísse elementos diferentes para um conto, qual seria o motivo para simplesmente não pensarmos que tirando os conceitos não aplicáveis, não poderíamos crer em um “céu” e um “lugar de tormento” após a morte? De qualquer forma amigos, confesso que essa parábola esta muito mais ligada em retratar a vida exuberante de muitos judeus “burgueses” que já não tinham tanto amor pela lei de Deus do que ensinar que o céu e inferno existem para a alma imortal. A questão é que muitos questionam o cenário da parábola por parte irreal devido à conversa entre o Rico e Abraão, entretanto, não é necessário questionar o cenário da parábola, já que é uma existência, agora, o enredo do conto, sim isso até pode ser. Lemos em 2 Reis 14,9 que as árvores falavam e embora saibamos que as mesmas não podem dizer qualquer palavra, temos ciência que existem.

Cenário real, com partes irreais.

Dessa forma, não vejo qualquer motivo para desacreditar na história do rico e do mendigo simplesmente por pensar que o “cenário” parece absurdo. O fato é que Cristo queria demonstrar uma série de ensinos (entre eles a piedade) e utilizou de elementos reais conhecidos pelo povo judeus: após a morte, existe o juízo (Hb 9,27) e ali, habitaremos até a ressurreição dos mortos.

MOISÉS NO MONTE TABOR

O novo testamento é recheado de provas a favor da imortalidade da alma. No evangelho de São Marcos capítulo 9, podemos ver claramente a existia da sobrevivência no estado intermediário e ainda mais: os espíritos dos justos por participarem da visão beatífica de Deus, conhecem nossos assuntos e necessidades. Na transfiguração no monte Tabor, Moisés que já estava morto (Dt 34,5-6), junto de Elias, conversavam com Cristo e ambos, sabiam do seu futuro sofredor.

Mc 9,2-7 – “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou, sozinhos, para um lugar retirado sobre uma montanha. Ali foi transfigurado diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas, de alvura tal como nenhum lavadeiro na terra as poderia alvejar. E lhes apareceram Elias com Moisés, conversando com Jesus:        Então Pedro, tomando a palavra, diz a Jesus: “Rabi, é bom estarmos aqui. Façamos, pois, três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pois não saiba o que dizer, porque estavam atemorizados. E uma nuvem desceu cobrindo-os com sua sombra”.

Na tentativa de desqualificar o fato descrito no evangelho, os defensores da mortalidade da alma costumam usar de alguns argumentos a fim de ensinar que não era o “espírito” de Moisés que ali estava, mas sim seu corpo, já que, baseado em um livro apócrifo (Assunção de Moisés) o mesmo teria ressuscitado e o que os apóstolos teriam visto, seria seu corpo “glorificado”. Pois bem, isso seria no mínimo duvidoso já que as escrituras nada dizem sobre uma possível ressurreição de Moisés. Utilizar de tal argumento não passa de conjectura. Primeiro que o escritor de Hebreus no capítulo onze, deixa claro que Moisés estava morto e que ainda não havia sido beneficiado pelas promessas realizadas (Hb 11,39), sendo assim, não poderia ter ressuscitado. Segundo que o texto utilizado da epístola de Judas (verso 9) onde diz que o diabo brigou pelo corpo de Moisés com o arcanjo Miguel, nada fala da glorificação do corpo e sim de uma briga pelo corpo que o fim, desconhecemos. Terceiro que o fato do apóstolo Pedro querer montar três tendas para Jesus, Elias e Moisés, não significa necessariamente que ele estivesse vendo os “três corpos”, mesmo porque, Cristo estava transfigurado e o assombro foi tão grande que eles (apóstolos) nem “sabiam o que diziam” (Mc 9,6). Quarto e último argumento: A figura de Moisés foi a mais importante para a comunidade judaica já que a lei veio através de seu intermédio e se caso ele tivesse sido “assunto aos céus”, seria estranho e totalmente emblemático saber que em muitos anos, nunca ninguém havia registrado tal acontecimento. Sendo assim, nada mais justo que pensarmos o básico: No monte Tabor, a ALMA de Moisés estava junto de Cristo, uma vez que ele, estava morto fisicamente.

O HABITAR / ESTAR COM CRISTO

Em toda a trajetória do apóstolo São Paulo, durante seus escritos, ele sempre manifestou a ressurreição de nossos corpos no momento em que entraremos na plenitude do tempo, onde o Reino de Jesus Cristo será instalado. A questão é que o apóstolo Paulo acreditava, pelo menos é o que indica, que essa ressurreição ainda aconteceria enquanto ele estivesse em vida, talvez por isso ele tenha escrito que “nem todos dormiremos (morreremos), mas TODOS seremos transformados (1 Cor 15,51)” e complementando que “num abrir e fechar de olhos, os mortos ressuscitarão e NÓS seremos transformados (1 Cor 15,52)”. Essa transformação não fere o que pensamos a respeito da alma após a morte, pelo contrário. Morremos nesta esperança e descansando no Senhor, aguardamos a ressurreição dos nossos corpos que dessa forma, serão absorvidos pela imortalidade. O corpo é pó e é esse corpo que será absorvido pelo imortal, pois, é ele quem morre.  Nosso espírito que retornará a Deus, aguarda ansiosamente e assim será no glorioso retorno de Jesus Cristo, a saber, a sua segunda vinda com TODOS os seus santos:

1 Ts 3,13 – “Para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos”. 

Dessa forma, entendemos que se estamos neste corpo, estamos ausentes do Senhor, porém, sabemos que é esse mesmo corpo que nos trará o esplendor da glorificação. Entretanto, enquanto essa ressurreição tão esperada não chega, temos o desejo de deixar esta mansão para já HABITAR com o Senhor (2 Cor 5,8). Quando falamos de habitação, estamos literalmente querendo deixar essa vida para contemplar a face de Deus. Paulo confirma isso ao dizer que nosso desejo não era simplesmente em habitar com o Senhor, mas em também servi-lo já que estando neste corpo (vivo), ou não (morto), continuaremos em nos esforçar por agradar-lhe (2 Cor 5,9). Além de que, quando lemos o contexto de Filipenses 1,23, não há como pensarmos que Paulo, sequer nem imaginava em não desfrutar de um contato com o Senhor após a morte. Primeiro que o mesmo diz que para ele o “viver é para Cristo e o morrer é lucro (Fl 1,21)”. Paulo vivia pelo evangelho e esse viver em Jesus significava pregar a sua palavra e anunciar aquilo que levaria a salvação a todos os homens. Em caso de morte, seu lucro seria grande. Não simplesmente porque ele se salvaria, ou porque seu corpo seria ressuscitado no último dia, mas sim, pelo fato de que ele teria um encontro com o seu Senhor. Se a morte simplesmente não tivesse nenhuma serventia, seria vão Paulo ter escrito que:

Fp 1,22 – “Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher”. 

Ele tinha uma dúvida, pois em sua carne, as obras frutificavam, porém, se pensarmos que a morte seria o “fim“, qual seria a necessidade de se pensar que o apóstolo dos gentios, estava indeciso? O que seria melhor? Continuar na carne para que o evangelho continuasse a ser pregado ou morrer para assim, aguardar o grande dia? Paulo tinha a certeza de que ao morrer, estaria com Jesus. E é assim que ele manifesta seu desejo, embora, ainda não fosse à vontade de Deus:

Fp 1,23 – “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”.

O ápice da ideia não está em identificar se Paulo pensava que morreria e por estar “fora do tempo” já estaria ao encontro de Cristo, pelo contrário, ele sabia da sua importância na carne na pregação do evangelho de Jesus, por ou lado, ele sabia que o partir do “corpo” era habitar com o Senhor que para ele seria muito melhor. Entretanto, por entender que sua missão ainda era continuar neste corpo, ele julga ser necessário ficar na carne.

Fp 1,24 – “Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne”.

Isto é, Paulo poderia muito bem dizer que sabia que após a morte, por não “ter uma alma” e sim “ser uma alma“, morreria e não teria qualquer encontro com Cristo, dessa forma, preferia ficar na carne para auxiliar seus irmãos, mas, não é isso que constatamos ao ler o contexto. Paulo tinha dúvidas, pois seu desejo era de estar com Cristo após a morte, mesmo que isso, comprometesse a pregação do evangelho, contudo, por saber da sua importância no corpo, confia em sua permanência para proveito e gozo da fé.

Dessa forma, entendemos que ao morrer, estaremos habitando com o Senhor.

O PARAÍSO PRÉ-RESSURREIÇÃO

Embora saibamos que na ressurreição, teremos a habitação da “Nova Jerusalém” (Ap 21,1-2), sabemos pela própria escritura denominada de “terceiro céu” que o paraíso existe, sendo a morada dos justos (Hb 12,22-23). São Paulo narra com total emoção a alegria da alma separada do corpo ao relatar o testemunho de um homem em Cristo que foi arrebatado até esse local:

2 Cor 12,2-3 – “Conheço um homem em Cristo que há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu – se em seu corpo, não sei: se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! E sei que esse homem – se no corpo ou fora do corpo não sei; Deus o sabe! – foi arrebatado até o PARAÍSO e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir”.

O LADRÃO NA CRUZ

Jesus Cristo disse ao ladrão que ainda hoje, ele estaria com o Cristo no paraíso (2 Cor 12,2-3):

Lc 23,43 – “Ele (Jesus) respondeu: <Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso>”.

Não bastaria muitas linhas para termos a certeza que aqui, existe mais uma prova de que  na morte, gozaremos da companhia de Deus, entretanto, os defensores do sono ou da aniquilação da alma, costumam mencionar que esta passagem de Lucas foi “adulterada” e que na verdade, Nosso Senhor teria dito para o ladrão que sua promessa era dita hoje, mas, que só se concretizaria no futuro.  Pois bem, como já mencionei em outro artigo, não sou perito na língua, porém, tenho algumas noções. Primordialmente, o que define a interpretação dessa passagem, de fato, é a questão simples de uma “vírgula“. É interessante mencionar que embora, atualmente alguns protestante defendam tal doutrina (morte da alma), o único lugar onde encontramos afirmação semelhante é na tradução “Torre de Vigia” das testemunhas de Jeová, onde se lê:

Lc 23,43 (Torre de Vigia) – “E ele lhe disse: “Deveras, eu te digo hoje: Estarás comigo no Paraíso””.

Temos por conhecimento que nas traduções católicas e protestantes, o HOJE faz parte do instante e não de uma promessa futura que se concluiria no fim dos tempos. Para embasar a vírgula depois do hoje, alguns teólogos tem usado uma fonte bíblica oriunda do grego (Vaticanus 1209), já que como o grego não possuí originalmente “pontos”, verificaram que nesta passagem, exclusivamente nesse manuscrito, existe um “ponto” após o hoje (grego: semeron). Realmente, o grego antigo não possuía qualquer pontuação. O próprio Codex Sinaiticus na passagem referida (Lc 23,43), nada aponta para qualquer local de pontuação, tanto que os tradutores da obra, ao converterem o texto para o inglês, colocaram a linguagem como a conhecemos:

Lc 23,43 – And He Said to him: Verily I say to thee, THIS DAY thou shalt be with me in Paradise.

O que me chama atenção neste manuscrito é o fato de que por ser mais novo que o “Codex Vaticanus”, acredito que a passagem deveria ter qualquer sinal de pontuação, contudo, nós não vemos absolutamente nada. É estranho imaginar que o Vaticanus 1209, é antigo e possui uma referencia desse ponto enquanto o outro, mais novo, nada aparece e isso me leva a pensar que esta questão não pode ser absorvida simplesmente por levar em consideração um escrito e o outro não. São Jerônimo, conhecedor profundo do grego, em sua vulgada, concede a mesma compreensão que a da Igreja:

Evangelium secundum Lucam 23,43 – Et dixit illi: “Amen dico tibi: HODIE mecum eris in paradiso ”.

Isto é, mais uma vez, temos informações que não podem ser tomadas unicamente por uma fonte concreta de dados, mesmo porque, se olharmos na maioria das passagens (que a Igreja crê) onde Jesus Cristo diz: “Em verdade te digo”, em nenhum momento ele necessitou usar o hoje como forma de complemento da promessa ou ensino, pelo contrário, as terminações de Cristo sempre eram uma consequência do próprio inicio da sua afirmação e aqui, fica a minha pergunta: por que no caso de Lucas 23,43, o hoje, deveria ser usado diferentemente?

Jo 3,11 – “Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos”.

De qualquer forma, tirando a questão a respeito do “hoje” dito ao ladrão da Cruz, o outro emprego usado por Jesus em Marcos 14,30, mostra claramente que o “hoje” demonstrava aquilo que de fato deveria acontecer:

Mc 14,30 – E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás.

Na passagem em questão, Jesus diz, “Em verdade te digo hoje”, porém, o fato manifestado pelo Senhor, se concretizaria naquela mesma noite, no tempo presente. Outro argumento fortemente usado é o fato de Cristo ter prometido que estaria com o ladrão naquele dia, porém, após a sua morte, as escrituras atestam que o mesmo esteve nas profundezas do Hades (Ef 4,9-10), sendo assim, como devemos pensar a respeito da promessa? Bom, a própria escritura deixa claro que para Deus, “Um dia é como mil anos e mil anos como um dia” (2 Pe 3,8). Desta forma, entendemos o hoje como função do agora, porém, sem necessidade de pensar que o ladrão deveria estar com Jesus nas próximas horas, já que o nosso tempo não é o do Senhor. Aguardamos a Jerusalém celeste (Ap 21,10) onde nossos corpos estarão glorificados e incorruptíveis, porém, cremos no paraíso (2 Cor 12,2-5) do qual faremos parte após a morte, aguardaremos na graça com a Igreja Celeste, enquanto esperamos a plenitude da nossa esperança: a ressurreição. Entendemos assim que o ladrão, esteve e está com Jesus no paraíso celeste, aguardando a imortalidade dos corpos.

A GRANDIOSA NUVEM DE TESTEMUNHAS

Pegue sua bíblia e abra no capitulo onze da carta aos hebreus. Leia todo o texto e você verá que o enredo das palavras do escritor, trata de um assunto totalmente importante para nós cristãos: a fé exemplar dos que já morreram. O autor da carta, ao que indica, venerava com grande piedade os grandiosos exemplos deixados pelos patriarcas e não só exaltava, mas sim, pregava que todos ali tiveram grandes conquistas devido à fé. Sim, a fé que é a prova das coisas que não se veem (Hb 11,1). A fé que nos move a crer no invisível, a crer na morte e ressurreição de nosso salvador Jesus Cristo.

Ao lermos cada verso, entendemos que todas as pessoas ali citadas, já faziam parte do número dos mortos e que de alguma forma, embora fossem pessoas de fé, não haviam sido beneficiados pelas promessas já que padeceram antes do advento de Cristo (Hb 11,39), entretanto, após a vinda de Cristo, essas almas que aguardavam pelo salvador, foram alegremente inseridas no paraíso celeste. As comportas dos céus foram abertas e assim, todos puderam adentrar na glória de Deus, sendo assim, lemos a conclusão do autor no capítulo doze, onde defini sua crença a respeito desses homens e mulheres que serviram ao Pai antes de nós:

Hb 12,1 – “Portanto, também nós, com tal NUVEM DE TESTEMUNHAS AO NOSSO REDOR, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é o indicador e consumador da fé, Jesus, que em vez da alegria que lhe foi proposta, sofreu a cruz, desprezando a vergonha, e se assentou a direita do trono de Deus”.

Aqui fica a pergunta: O que compõe essa “misteriosa nuvem”? A resposta é muito simples, todos os santos, de todas as almas que morreram na amizade do Pai! Sim, o autor deixa claro que existe uma nuvem que nos cerca, que nos rodeia! Essa nuvem nos acompanha todos os dias, é como se fosse uma “manifestação portátil do espírito” assim como João narra no livro de Apocalipse:

Ap 1,10a – “No dia do Senhor fui movido pelo espírito”.

Essa nuvem está repleta de irmãos que torcem por nós, que intercedem por nós, que estão junto de nós, para que conquistemos a coroa de nossas vitórias mediante a fé em Jesus! Façamos como está escrito nas sagradas escrituras: corramos com perseverança ao que é proposto, pois temos ao nosso redor uma nuvem que nos acompanha para que possamos conquistar a vitória em Deus!

Eis mais uma prova direta das escrituras que as almas, sobrevivem à separação do corpo,

Há testemunhas que nos rodeiam!

A IGREJA CELESTE

Hb 12,22-24 – “Mas vós aproximastes do monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestes e de milhões de anjos reunidos em festa, e da ASSEMBLÉIA dos PRIMOGÊNITOS cujos nomes estão inscritos nos céus, e de Deus, o Juiz de todos, e dos ESPÍRITOS dos justos que chegaram à perfeição, e de Jesus, mediador da nova aliança (…)”.

Embora haja quem diga que após a morte caíamos em um sono profundo, ao nos depararmos com tão bela passagem, fica difícil sustentar tal conceito, já que ao lermos os versos acima, enxergamos a “Igreja Celeste já inaugurada por Cristo Jesus”. É notável mencionar que o autor da carta, deixa claro que a assembleia dos primogênitos é composta pelos “espíritos aperfeiçoados que chegaram à perfeição”. Embora o escritor das palavras acreditasse na ressurreição dos corpos, em nenhum momento, deixa de manifestar a verdade de um céu para os “espíritos” que alcançaram a santidade, isto é, a sagrada escritura deixa claro que antes de nossos corpos serem absorvidos pela imortalidade (1 Cor 15,53), nossos espíritos habitarão no paraíso junto dos anjos e junto de Cristo.

O original grego contém o termo “pneuma (espírito)”, provando mais uma vez que a passagem falava do ser espiritual e não do corpo físico.

Hb 12,23 – panhgurei kai ekklhsia prwtotokwn en ouranoiV apogegrammenwn kai krith qew pantwn kai pneumasin dikaiwn teteleiwmenwn.

A FAMÍLIA NO CÉU

Como já vimos em situações já escritas nos tópicos anteriores, o apóstolo Paulo em duas ocasiões, manifestou sua vontade de partir e estar com Cristo (Fl 1,23) e de deixar o corpo para ir habitar com o Senhor (2 Cor 5,8). Com seu desejo, o pregador dos gentios, deixou uma rica tradição para a Igreja ensinando sobre o gozo no céu para os que partiam (morte) e se encontravam com Jesus. Nesse mesmo sentimento, Paulo escreve aos Efésios e corroborando com o escritor de Hebreus, nos concede o conhecimento de uma “família no céu” que se assemelha a assembleia dos primogênitos (Hb 12,22-23):

Ef 3,14-18 – “Por essa razão dobro os joelhos diante do Pai – de quem TOMA NOME TODA FAMÍLIA NO CÉU E NA TERRA – para pedir-lhe que conceda, segundo a riqueza de sua glória, que vós sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé em vossos corações e que sejais arraigados e fundados no amor. Assim tereis condições para compreender com TODOS OS SANTOS qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade”.

A Igreja desde os temos mais antigos, sempre ensinou sobre a comunhão com todos os santos que compreende a família do céu e da terra em perfeita unidade. Sendo assim, por que atualmente deveria ser diferente? Com tantas provas já expostas, como não crer na alma imortal que desfruta da presença do Senhor após a morte?

PREGAÇÃO AOS “MORTOS (OS ESPÍRITOS EM PRISÃO)”

Eis aqui mais uma prova direta da alma que sobrevive a separação do corpo. Rezamos no credo apostólico que cremos que “Cristo desceu a mansão dos mortos”, pois assim está manifestado através das sagradas escrituras:

Ef 4,9 – “Que significa <subiu>, senão que ele também DESCEU às profundezas da terra”?

Antes que Jesus ressuscitasse, a palavra de Deus deixa claro que o mesmo esteve nas regiões subterrâneas (Nm 16,33). São Pedro ao escrever de Roma sua primeira epístola (1 Pe 5,13), afirma que Cristo “pregou aos espíritos”:

1 Pe 3,18-19 – “Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão”.

E anunciou a boa nova da salvação:

1 Pe 4,6 – “Eis por que a Boa Nova foi pregada também aos mortos, a fim de que sejam julgados como os homens na carne, mas vivam no espírito, segundo Deus”.

Estes versos são emblemáticos, entretanto, temos aqui a mais clara prova de um local onde as almas ficavam antes do advento do Senhor, sendo assim, como podemos decifrar essas duas enigmáticas passagens? Bom, o ponto gerador de toda a dificuldade na interpretação desses versos é em tentar  entender como Jesus Cristo, teria descido as profundezas da terra para pregar a boa nova se a própria escritura ensina que após a morte vem o juízo (Hb 9,27)? Pois bem, Cristo não esteve ali na “mansão dos mortos” para libertar os condenados como alguns teólogos sugerem erroneamente, pelo contrário, essa libertação registrada pelo príncipe dos apóstolos, consiste nas almas dos justos que o precediam, isto é, todos esses “espíritos” eram os que esperavam no Salvador o paraíso celeste. Nada mais eram que os santos que pela fé, tinham recebido um bom testemunho, porém “não se beneficiaram das realizações das promessas (Hb 11,39)”, sendo que, tiveram que aguardar a ressurreição de Nosso Senhor que inaugurou essa nova etapa concedendo acesso a vida celeste e por isso as escrituras dizem: “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro(Ef 4,8)”. Cremos que essa descida as profundezas da terra, ressuscitaram alguns dos santos que aguardavam essa ressurreição de Jesus Cristo para assim, entrar em Jerusalém, a cidade santa (Mt 27,53).

Sendo assim, fica impossível não crer na imortalidade da alma ao nos depararmos com este perfeito registro apostólico que nos ensina que Jesus vivificado no espírito, desceu as “profundezas da terra” a fim de resgatar os mortos.

AS ORAÇÕES DE TODOS OS SANTOS E A CONSCIÊNCIA DAS ALMAS QUE CLAMAM POR JUSTIÇA

O livro do apocalipse, talvez, seja a obra em que presta maior serviço no entendimento das condições em que alma se encontra antes “do dia do Senhor”, isto porque, o ambiente em que foi escrito, embora repleto de visões, nos passa um cenário de pessoas que haviam morrido e já contemplavam a face de Deus e aguardavam o julgamento universal e a ressurreição de seus corpos. Para tanto, existem alguns versículos que são considerados pontos chaves para que entendamos definitivamente o que temos escrito até aqui sobre a imortalidade da alma. Como já mencionado nos tópicos anteriores, existe um céu e esse céu é o local onde a família de Deus habita. São João descreve esse cenário com total maestria, já que embora ele estivesse vivenciando “visões proféticas” a respeito do que aconteceria, ele,  tinha a certeza que os elementos do oráculo eram reais, já que seu espírito estava presente em tudo o que o precedia (Ap 4,2). Sendo assim, o apóstolo descreve que no céu havia um trono onde Deus se assentava (Ap 4,3), ao seu redor existiam vinte e quatro anciões (Ap 4,4), diante do trono haviam os sete Espíritos de Deus (Ap 4,5), no meio do trono haviam quatro viventes cheios de olhos (Ap 4,6) e se ouvia um clamor de milhares de anjos (Ap 5,11).

Percebam que até aqui, o relato joanino se assemelha a Igreja Celeste já narrada pelo escritor da epístola aos hebreus anos anteriores aos registros de apocalipse:

Hb 12,22-24 – “Mas vós aproximastes do monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestes e de milhões de anjos reunidos em festa, e da ASSEMBLÉIA dos PRIMOGÊNITOS cujos nomes estão inscritos nos céus, e de Deus, o Juiz de todos, e dos ESPÍRITOS dos justos que chegaram à perfeição, e de Jesus, mediador da nova aliança (…)”.

Ao ler tais passagens, conseguimos entender o porquê de Paulo, ao escrever a comunidade de Corinto, registrou que conheceu um homem que havia sido arrebatado ao paraíso e que o mesmo ouviu palavras “inefáveis” que ao homem, não seria lícito repetir (2 Cor 12,2-3). Ficamos maravilhados ao entender que o céu é nossa morada após a morte enquanto aguardamos pela ressurreição. Sendo assim, um pouco adiante, nas palavras de João, percebemos o primeiro indício do serviço que os santos prestam à Igreja. Ao narrar o momento em que o cordeiro recebe o livro, percebemos que os anciãos ao redor do trono, possuíam taças cheias de incenso que correspondem às orações de todos os santos:

Ap 5,8 – “E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos”.

Há quem argumente dizendo que essas orações seriam das pessoas vivas, entretanto, será que poderíamos considerar essa posição? Bom, dificilmente. A primeira coisa a se pensar é que as sagradas escrituras, ao denominar o povo escolhido, os chamam de “santos” (At 9,13) e isso, implica em vivos e mortos. Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses, escreve que Cristo ao retornar, virá com todos os seus santos (1 Ts 3,13), isto é, todos os que já morreram, pois os que aqui estão, serão transformados:

1 Cor 15,51-52 – “Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas  todos seremos transformados. Num instantes, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final, sim a trombeta tocará e os mortos ressurgirão incorruptíveis e NÓS (vivos) SEREMOS TRANSFORMADOS”.

Segundo que ao lermos alguns versículos do livro do Apocalipse, posteriores a esse (5,8), veremos que as pessoas que compõem o cenário do céu, são de homens e mulheres que já partiram. Lemos que as almas, clamam por justiça contra os habitantes da terra que os haviam martirizado pelo bom testemunho:

Ap 6,9-10 – “E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra”? 

Assim como vemos que a multidão perante o cordeiro já estava morta, mesmo estando apenas com suas almas, não cessavam de servir a Deus diariamente:

Ap 7,9-15 – “Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas em suas mãos; E clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro. E todos os anjos estavam ao redor do trono, e dos anciãos, e dos quatro animais; e prostraram-se diante do trono sobre seus rostos, e adoraram a Deus, Dizendo: Amém. Louvor, e glória, e sabedoria, e ação de graças, e honra, e poder, e força ao nosso Deus, para todo o sempre. Amém. E um dos anciãos me falou, dizendo: Estes que estão vestidos de vestes brancas, quem são, e de onde vieram? E eu disse-lhe: Senhor, tu sabes. E ele disse-me: Estes são os que VIERAM DA GRANDE TRIBULAÇÃO da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo; e aquele que está assentado sobre o trono os cobrirá com a sua sombra”.

Paulo em sua segunda carta aos Coríntios, deixa claro que nós, estando neste corpo (vivo) ou fora dele (morto), continuamos a nos esforçar em agradar ao Senhor:

2 Cor 5,9 – “É também por isso que vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe”.

Definitivamente, é difícil pensar que as orações sejam somente dos “santos vivos”, quando temos infindáveis provas de que todos aqueles que compõem a nuvem de testemunhas (Hb 12,1), estão diante do altar de Deus. É por isso que o livro das revelações deixa claro, que de todos os habitantes do céu, os santos intercedem por nós pelos méritos de Jesus Cristo, Nosso Senhor!

Ap 8.3 – “Deram-lhe grande quantidade de incenso para que oferecesse com as orações de todos os santos, sobre o altar de ouro que está diante do trono. E, da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus”. 

COMO ENTENDER JOÃO 3,13?

Até o presente momento, procurei detalhar as principais provas que se encontram nas escrituras canônicas a respeito do que a Igreja crê desde o início dos séculos sobre a doutrina da imortalidade da alma e como a visualizamos. Nas escrituras, existem as mais variadas verdades sobre a consciência da alma após a morte, entretanto, é necessário que entendamos um único versículo que em muitos casos, é sempre utilizado para desmerecer o que cremos, sendo assim, como entender João 3,13 que ensina que “ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu (Jesus)”?

Assim diz a palavra de Deus:

Jo 3,13 – “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem”.

Parece confuso, porém, basta um olhar sincero sobre o contexto da narrativa para entender que Cristo não fazia alusão a uma possível “ascensão”, pelo contrário, Nosso Senhor manifestava uma verdade que tinha a ver com os “entendimentos celestiais” daquele que desceu dos céus e nos fez conhecer a verdade da salvação. Quando Jesus proferiu essas palavras, o mesmo conversava com Nicodemos (Fariseu de grande reputação entre os judeus) a respeito do “nascer de novo”, porém, a palavra não era entendida por aquele velho homem que indagava a Cristo sobre como ele poderia estar novamente do ventre de sua mãe já que a idade não permitia (Jo 3,4). Nosso Senhor, respondeu de forma categórica ao afirmar que se Nicodemos não entendia as explicações feitas na terra, como poderia ele entender as vindas do céu (Jo 3,12)? Na continuação na passagem, Cristo afirma que ninguém havia subido ao céu, a não ser ele mesmo que de lá desceu, fazendo assim, alusões a determinados textos do antigo testamento que já tratavam de temas semelhantes:

Dt 30,12b – “Quem subirá por nós até o céu, para trazê-lo a nós, para que possamos ouvi-lo e pô-lo em prática”?

Br 3,29 – “Quem subiu ao céu e apoderou-se dela, e a fez descer do alto das nuvens”?

Isto é, quando Jesus afirma esse mistério, faz menção que ele foi o único a estar no mais alto dos céus (2 Cor 12,1-3) e a direita do Pai (Ap 12,5). O único que pode nos dar a conhecer os mistérios da vontade divina (Sb 9,16-17). Quando o Senhor afirma que “ninguém subiu aos céus”, significa que de fato, não existiu qualquer homem que possa ter estado lá e descido à terra a fim que de que nos trouxesse o pleno conhecimento das “coisas do alto”. Este, encontra-se somente no nome do único filho de Deus. Além de que, essa interpretação corrobora com o fato de que antes da chegada do messias, Elias e Henoc já haviam “subido ao céu”:

Gn 5,24 – “Henoc andou com Deus, depois desapareceu, pois Deus o arrebatou”.

2 Rs 2,11 – “E aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão”.

Outro ponto de grande importância que devemos entender é que quando Jesus disse tais palavras a Nicodemos, o mesmo ainda estava no meio dos homens em sua condição humana, sendo que de fato, até ali, conforme já visto até o presente momento, no velho testamento, os mortos habitavam no xeol. Com sua morte e ressurreição, a ida das almas ao paraíso foi possível. O céu Foi aberto e os santos puderam adentrar e isso incluiu os justos do antigo testamento que aguardavam por esse grande momento (Hb 11,39-40).

Como costumo dizer, caros leitores, fundamentar uma ideia, sem analisar o contexto proposto pelas palavras do Senhor, na passa de mera conjectura e como é possível ver, nosso salvador nada disse sobre “ascensão” e sim, sobre o conhecimento trazido do alto. Sendo assim, entendemos que ninguém foi capaz de subir aos céus a fim de nos trazer toda a redenção da parte de Deus Pai, o único, foi aquele que desceu: Cristo Jesus Nosso Senhor!

CONCLUSÃO

Ap 7,13-15 – “Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: “Estes que estão trajados com vestes brancas, quem são e de onde vieram”? Eu lhe respondi: “Meu Senhor, és tu quem o sabe”! Ele então me explicou: “Estes são os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestes e alvejaram-nas no sangue do Cordeiro. É por isso que estão diante do Trono de Deus, servindo-o dia e noite em seu templo”.

Irmãos;

Quando iniciei a escrita deste artigo, tinha um único desejo: demonstrar através das escrituras e da tradição da Igreja que a imortalidade da alma não foi uma doutrina adotada dos gregos, mas sim, uma crença genuinamente cristã que tomou forma e conhecimento a partir do advento de Jesus Cristo que nos concedeu acesso livre ao paraíso celeste.

São Paulo manifestou seu desejo de partir, de abandonar seu corpo para estar, para habitar com Senhor. Penso que os mortalistas não podem desfrutar de tamanha esperança já que acreditam que após a morte, exista um “vácuo” que se completará apenas na ressurreição. Dizem eles que se cremos, é por influência platônica, mas, se esquecem de que na Grécia antiga, um filósofo chamado “Epícuro” também não acreditava que a alma se perpetuava após a morte, pelo contrário, pensava que a mesma morria com o corpo, sendo assim, sempre questiono-me qual seria o critério para os defensores da alma mortal em anexar influências helênicas a doutrina cristã, se a própria crença dos mesmos se baseia em uma ideia de um também filósofo grego? Coisas a se pensar ou quem sabe a se avaliar.

Neste artigo, foram colocadas diversas fontes bíblicas e assim, peço a Virgem Maria, Mãe da Igreja que rogue por todos afim de que nós, conheçamos as verdades cristãs deixadas por nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Embora saiba que muitos não creem, ainda sim, prefiro ficar com as palavras de Jesus:

Mt 10,28a – “Não temais os que matam o corpo, mas NÃO PODEM matar alma”.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Jerusalém; Editora: Paulus; Ano: 2006

[1] Editora Paulus, História Eclesiástica, Pg 322, Divergência dos Árabes – 37
[2] Da oração, Orígenes (185-254 d.C)
[3] AGOSTINHO, Sobre a Potencialidade da Alma. Petrópolis, Rio de Janeiro. 1ª Edição, 1997, Pg 67
[4] Editora Paulus, Santo Irineu, Contra as Heresias – Livro 2; 34.1
[5] Catecismo da Igreja Católica – Parágrafo 2683

Escrito por: Érick Augusto Gomes



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