NOSSAS CRENÇAS SÃO BASEADAS NA TRADIÇÃO?

2 Tessalonicenses 2,15 – “Assim, pois, irmãos, ficais firmes e conservai os ensinamentos de nós aprendestes, seja ORALMENTE, seja por carta nossa”.

INTRODUÇÃO

A Igreja Católica possui uma base de fé que se constitui de três pilares: Magistério, Escritura e Tradição. O Magistério é constituído do oficio de interpretar a palavra de Deus, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo (CIC 85), sendo ele (magistério) a serviço da palavra e não acima dela. As Santas Escrituras compõem os livros canônicos que regem a Igreja com os ensinos apostólicos deixados por aqueles que foram testemunhas oculares das manifestações de Deus, seja pelo velho ou pelo novo testamento. Já a tradição (que será aqui comentada) constitui o que conhecemos e recebemos pela fé apostólica através da manutenção do Espírito Santo que interage pelos séculos de forma ORAL, isto é, sem papel ou tinta [1]. Essa “Tradição” constitui os pontos de fé que interpretam as escrituras sagradas, os registros históricos da Igreja antiga e conceitos e costumes vividos e aplicados por muitos padres através dos anos. Para nós católicos, a tradição é um dos pontos de apoio da fé, já que ela representa o cuidado de Deus para com a comunidade cristã, entretanto, um dos frequentes questionamentos por parte de outras confissões cristãs é a alegação de que as doutrinas católicas possuem base apenas na tradição e não nas sagradas escrituras. Embora saibamos que a Igreja nasceu primeiro que os registros bíblicos do novo testamento, os adeptos da “sola scriptura” insistem em associar as doutrinas universais unicamente com a tradição da Igreja. Por conta disso, colocarei alguns pontos da fé e faremos alguns comparativos entre a tradição e as sagradas escrituras e assim, verificaremos que ambas se completam. Não quero aqui propor um aprofundamento teológico e sim, manifestar a simplicidade da fé católica tão erradamente contestada por alguns.

IMORTALIDADE DA ALMA

O que as sagradas escrituras ensinam?

A Bíblia é recheada de afirmações a respeito da alma imortal. Embora o velho testamento não tenha uma alusão clara sobre esse tema (tendo em vista que a revelação não estava concluída), o novo testamento apresenta provas de que após a morte o espírito preserva suas faculdades e lembranças. Na transfiguração de Cristo, Moisés que já havia morrido, aparece ao Senhor e tinha consciência das coisas que se passavam (Mc 9,4). O apostolo São Paulo escreve aos filipenses que embora na carne o evangelho de Cristo tenha se fortificado, seu desejo era partir para estar com o Senhor:

Fp 1,23 – “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”. 

Assim como diz na segunda carta aos Coríntios que tem o desejo de deixar o corpo para habitar com o Senhor:

2 Cor 5,8-9 – “Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor. Pois que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes”.

O que a Sagrada Tradição ensina?

A história da Igreja confirma aquilo que os apóstolos acreditavam: que após a morte, encontramos o Senhor e esse estado caracterizado como “intermediário” prefigura a esperados justos (ou injustos / Hades) pela tão aguardada ressurreição. Santo Irineu de Lião (180 d.C) escreveu em seu livro “Contra as Heresias” que o Senhor deixou claro o ensino a respeito das almas após a morte:

“O Senhor ensinou de forma clara que as almas não só perduram sem passar de corpo em corpo, mas conservam imutadas as características dos corpos em que foram colocadas e se lembram das ações que fizeram aqui na terra e das que deixaram de fazer” [2].

Eusébio, importante historiador da Igreja, deixou claro em um de seus escritos que a “morte” ou “sono” da alma era uma doutrina alheia à verdade:

“Apareceram ainda, na Arábia, no tempo a que nos referimos, introdutores de uma doutrina alheia a verdade. Asseveravam que a alma humana neste mundo, no momento final provisoriamente morre com o corpo e com ele se corrompe, mas no futuro, por ocasião da ressurreição, com ele reviverá. Então, foi convocado um IMPORTANTE concílio” [3].

INTERCESSÃO DOS SANTOS E ANJOS

O que as sagradas escrituras ensinam?

Os santos estão no céu e por nós intercedem incessantemente. Pouco antes do advento de Jesus Cristo, lemos um relado interessante no livro de Macabeus onde Jeremias que já estava morto, intercedia muito pela cidade santa e pelo povo judeu (2 Mc 15,12), assim como lemos no livro de Tobias que um dos sete anjos (Rafael) que assiste perante o Senhor (Ap 8,2) intercedia por Tobias (Tb 12,12). No livro de Gênesis, lemos que o sangue de Abel que havia morrido, clamava a Deus (Gn 4,10). Já no novo testamento, possuímos vários testemunhos de que aqueles que morrem em estado de graça intercedem pelos vivos. Em Hebreus, lemos que existe uma nuvem de testemunhas (santos) que nos rodeia (Hb 12,1), sendo que esses espíritos aperfeiçoados fazem parte da Igreja celeste (Hb 12,22-23). No Apocalipse, as almas dos justos “clamam a Deus por justiça” (Ap 6,9-10).

É verdadeiramente claro que as sagradas escrituras manifestam essa possibilidade.

O que a Sagrada Tradição ensina? 

A Sagrada Tradição, por sua vez, manifesta o que a patrística sempre entendeu: que os espíritos aperfeiçoados (Hb 12,22-23) intercedem pela Igreja. Vejamos alguns relatos da tradição que corrobora com a bíblia:

“O Pontífice não é o único a se unir aos orantes. Os anjos e as almas dos justos também se unem a eles na oração” [4]

“Se um de nós partirmos primeiro deste mundo, não cesse as nossas orações pelos irmãos” [5].

“Em seguida (oração eucarística), mencionamos os que já partiram: primeiro os patriarcas, profetas, apóstolos e mártires, para que Deus, em virtude de suas preces e intercessões, receba nossa oração” [6].

UTILIZAÇÃO DE IMAGENS

O que as sagradas escrituras ensinam?

Ao contrário do que muitos pensam, o uso de imagens por parte da Igreja não foi um costume adotado do paganismo. É claro que analisando o contexto histórico que o cristianismo cresceu, veremos que  algumas culturas foram cristianizadas e a aderência de ícones e imagens passou a ter uma grande receptividade no seio da comunidade, entretanto, é importante salientar que a veneração de imagens, começou muito antes do advento de Cristo. A religião judaica fazia grande uso desses objetos que para os judeus, retratavam um modelo do paraíso (Ex 25,40; Hb 8,5) que foi consagrado (Ex 40,9) e um local onde Deus habitava (Ex 25,8; Ex 40,34). Sendo assim, quais eram as imagens que faziam parte desse templo? Veremos abaixo, que tanto o tabernáculo construído por Moisés, quanto o templo erguido por Salomão possuíam muitas imagens!

TABERNÁCULO

  • Cortinas e véus do templo pintados com imagens de querubins (Ex 26,1; 26,31);
  • Duas imagens de querubins no propiciatório da arca (Ex 25,18).

TEMPLO

  • Duas imagens de querubins no oráculo (1 Rs 6,23);
  • Paredes (internas e externas) estavam entalhadas de anjos e palmas (1 Rs 6,29);
  • Portas entalhadas e cobertas de ouro com querubins, palmas e flores (1 Rs 6,32);
  • Almofadas e Juntas continham imagens de leões, bois e querubins (1 Rs 7,29);
  • Na placa do templo haviam lavrados querubins, leões e palmas (1 Rs 7,36);
  • Acima da porta, no interior do templo e por toda a parte, estavam coberto por figuras (Ez 41,17);
  • Dois querubins esculpidos da seguinte forma: um lado da face era humano e o outro lado era de um leão (Ez 41,18-19);
  • Na parede do templo, do piso até a porta, mais representações de querubins (Ez 41,20);
  • Figuras de querubins esculpidas (Ez 41,25);
  • Figuras de bois (2 Cr 4,3);
  • Doze imagens de Bois que estavam apontados para locais distintos (2 Cr 4,4)


COBRA ERGUIDA POR MOISÉS

Além de tantos exemplos colocados, ainda possuímos a passagem onde Moisés constrói uma serpente de metal para curar o povo Deus. Todo aquele que olhasse para a cobra, era curado da “picada”.

Nm 21,8 – “E Iahweh respondeu-lhe: “Faze uma serpente abrasadora e coloca-a em uma haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá”

O que a Sagrada Tradição ensina?

Desde o início da era cristã, o uso de imagens era amplamente difundido (basta verificar as catacumbas do primeiro século), não só por ascender aos olhos detalhes do que seria o paraíso (Hb 8,5), mas também por funções catequéticas onde a imagem, ensinava os menos instruídos. Aquilo que a bíblia ensinava através das letras, a imagem evangelizava por cores. O segundo concílio de Nicéia (787) confirmou a fé católica, reafirmando a crença na veneração das imagens.

Assim ensina o catecismo da Igreja Católica:

CIC 1161 – “Na trilha da doutrina divinamente inspirada dos nossos santos Padres, e da Tradição da Igreja Católica, que sabemos ser a tradição do Espírito Santo que habita nela, definimos com toda a certeza e acerto que as veneráveis e santas imagens, bem como a representação da cruz preciosa e vivificante, sejam elas pintadas, de mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser colocadas nas santas igrejas de Deus, sobre os utensílios e as vestes sacras, sobre paredes e em quadros, nas casas e nos caminhos, tanto a imagem de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto a de Nossa Senhora, a puríssima e santíssima mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e dos justos”.

Assim os padres ensinaram:

“O desenho mudo sabe falar sobre paredes das Igrejas e ajuda grandemente” [7].

“O que a bíblia é para os que sabem ler, a imagem é para os iletrados” [8]

CELIBATO SACERDOTAL

O que as sagradas escrituras ensinam?

Muitos questionam o celibato católico já que as sagradas escrituras ensinam o matrimônio como benção divina, entretanto, aprendemos com o próprio Cristo que muitos, por amor ao Reino de Deus, fizeram-se eunucos:

Mt 19,12 – “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o”.

No início da Igreja Cristã, o celibato não era uma regra obrigatória, mas sim, aqueles que poderiam “receber” está dádiva o faziam com a alegria no coração. São Paulo diz que o casado se preocuparia em cuidar de sua mulher, já o solteiro, cuidaria das coisas de Deus:

1 Cor 7,32-33 – “E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; Mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher”.

O mesmo apóstolo na continuidade de sua linha celibatária, posteriormente, enfatiza que o que se casa faz bem, mas aquele que se guarda para o Senhor, o faz ainda melhor:

1 Cor 7,38 – “De sorte que, o que a dá em casamento faz bem; mas o que não a dá em casamento faz melhor”.

Nesses pequenos textos, conseguimos visualizar o motivo pelo qual a Igreja nasceu celibatária. O processo pelo qual isso se tornou regra disciplinar, transcende os séculos e não fere os ensinamentos bíblicos, já que só se vira sacerdote, aquele que realmente possui o chamado e se faz de eunuco pelo reino dos céus

E estes, são os que seguem o cordeiro para onde quer que ELE vá!

Ap 14,4 – “Estes são os que não estão contaminados com mulheres; porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que dentre os homens foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro”. 

O que a Sagrada Tradição ensina?

Conforme o Cristianismo ia se difundindo sobre a terra, o celibato passava a ser observado com mais sacralidade. Embora não tivesse um direto aplicado a essa normal que existe atualmente, no passado, foram muitos os concílios e padres que defenderam sua conduta para o clero. No concílio de Elvira (300 – 305), em seu cânon 33, reza o celibato para Bispos, Sacerdotes e até diáconos e isso se confirma no cânon 3 do concílio Ecumênico de Nicéia (325).

São Jerônimo em um de seus escritos diz:

Cristo é virgem, virgem é Maria; mostraram a cada um dos sexos a preeminência da virgindade. Os Apóstolos são ou virgens, ou após o casamento, continentes. Escolhem-se para bispos, sacerdotes e diáconos, quer virgens, quer viúvos, ou pessoas que em todo caso, depois do sacerdócio, observam para sempre a continência” [9].

O PURGATÓRIO

O que as sagradas escrituras ensinam?

Embora a sagrada escritura não mostre ao leitor o nome “purgatório” (assim como não existe a palavra “Trindade”), a Igreja sempre reconheceu o estado de purgação dos pecados após a morte, isto é, dos pecados não perdoados durante a vida. Alguns protestantes sempre procuram afirmar que uma vez que o sangue de Cristo nos limpa de todo pecado, seria uma absurdo acreditar em tal local, entretanto, os mesmos se esquecem que embora acreditem que Jesus morreu por nossas faltas, enquanto estamos em vida, nunca deixamos de clamar pela misericórdia de Deus, afim de que nossos pecados sejam perdoados, sendo assim, as possibilidades de partirmos sem antes nos redimirmos com o Pai é um fato provável. Não sabemos nem o dia e nem à hora de nossa morte. Se o argumento protestante tivesse algum valor, teríamos que pensar que não precisaríamos que nossas falhas fossem redimidas diariamente, já que o sangue redentor nos limpou uma única vez, porém, sabemos que o sacrifício de Cristo foi perfeito, mas nós como humanos, continuamos a pecar e precisamos do seu perdão e isso conseguimos na carne. Para as faltas “deixadas” por consequência da morte, conquistamos posteriormente através do estado de purificação.

Sendo assim, no que consiste o purgatório?

Gosto de pensar no purgatório como o “fogo do amor de Deus”. Embora a palavra não exista nas sagradas escrituras, já que foi a Igreja que nomeou esse estado, podemos facilmente encontrar passagens bíblicas que relatam uma chama purificadora que limpa e purga os nossos pecados. Como já vimos anteriormente, a alma é imortal e após deixarmos esse mundo, retornamos a Deus que nos criou (Ecl 12,7). Sabemos pela própria bíblia que o pecado não entra no céu (Ap 21,27), sendo assim, se ao morrermos, não tivermos a chance de alcançar o perdão de algum pecado, sabemos que antes de adentrar ao céu, passaremos por essa purificação. O estado de purgação é exclusivo dos salvos em Cristo, logo, é um lugar que pertence à pessoas que morreram na amizade de Deus.

Encontramos no livro do profeta Isaías, fontes importantíssimas que afirmam a existência de uma “brasa” ou um “fogo” que purifica os pecados:

Is 6,5-8 – “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos. Porém um do serafins voou para  mim, trazendo na sua mãe uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; e com a brasa tocou a minha boca e  disse: Eis que isto que tocou os teus lábios; e a tua iniquidade foi tirada, e expiada o teu pecado”.

Conforme lemos, o profeta Isaías se achava indigno de estar na presença e Deus por conta de seus pecados. A fim de expiar suas faltas, uma “brasa” tocou em seus lábios e limpou sua alma. Lemos situações semelhantes em outros textos bíblicos. Em Malaquias, o mesmo “fogo” que purifica é afirmado (Ml 3,1-5). No novo testamento, alguns textos, continuam a fazer referência ao fogo que purifica e salva. Essa manifestação divina, foi entendida pela Igreja como o estado de expiação dos pecados que não foram perdoados durante a vida.

No evangelho segundo São Marcos 9,47-49, o escritor afirma a existência de um “fogo” que castiga, entretanto, existe outro que nos “salga” fazendo referência a nossa purificação. Da mesma forma São Paulo, confirma essa ideia ao dizer que nossas obras serão provadas e seremos salvos como que através do fogo:

1 Cor 3,13,15 – “A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo”.

Dessa forma, o magistério católico apenas nomeou o que conhecemos por purgatório, porém, pelas próprias escrituras, conhecemos o fogo do amor de Deus que nos purifica nas faltas e expia o nosso pecado. Provavelmente, por isso, Nosso Senhor tenha dito que os “pecados contra o Espirito Santo” não podem ser perdoados nesse mundo e muito menos no outro (Mt 12,32).

O que a Sagrada Tradição ensina?

Muitos alegam que o purgatório foi uma invenção do Papa Gregório no ano 593. Como já mencionamos, embora a bíblia não afirme um nome propriamente dito para esse estado, o lugar de purgação dos pecados já era referenciado e os antigos cristãos, anos antes de Gregório já manifestavam essa verdade. É certo afirmar que a Igreja posteriormente reconheceu esse estado chamando-o de purgatório, entretanto, os cristãos primitivos já intercediam em favor dos falecidos. Como poderemos ler nas citações abaixo, o fogo purificador era entendido como aquele que “limpa a alma”.

“Imediatamente, nessa mesma noite, isto me foi mostrado em uma visão: eu vi Dinocrate saindo de um lugar sombrio, onde se encontravam também outras pessoas; e ele estava magro e com muita sede, com uma aparência suja e pálida, com o ferimento de seu rosto quando havia morrido. Dinocrate foi meu irmão de carne, tendo falecido há 7 anos de uma terrível enfermidade… Porém, eu confiei que a minha oração haveria de ajudá-lo em seu sofrimento e orei por ele todo dia, até irmos para o campo de prisioneiros… Fiz minha oração por meu irmão dia e noite, gemendo e lamentando para que [tal graça] me fosse concedida. Então, certo dia, estando ainda prisioneira, isto me foi mostrado: vi que o lugar sombrio que eu tinha observado antes estava agora iluminado e Dinocrate, com um corpo limpo e bem vestido, procurava algo para se refrescar; e onde havia a ferida, vi agora uma cicatriz; e essa piscina que havia visto antes, vi que seus níveis haviam descido até o umbigo do rapaz. E alguém incessantemente extraía água da tina e próximo da orla havia uma taça cheia de água; e Dinocrate se aproximou e começou a beber dela e a taça não reduziu [o seu nível]; e quando ele ficou saciado, saiu pulando da água, feliz, como fazem as crianças; e então acordei. Assim, entendi que ele havia sido levado do lugar do castigo” [10].

“E após a exibição, Trifena novamente a recebeu. Sua filha Falconila havia morrido e disse para ela em sonhos: ‘Mãe: deverias ter esta estrangeira, Tecla, como a mim, para que ela ore por mim e eu possa ser levada para o lugar dos justos” [11].

“Porém, nós dizemos que o fogo santifica não a carne, mas as almas pecadoras; referindo-se não ao fogo comum, mas o da sabedoria, que penetra na alma que passa pelo fogo” [12]. 

“Por isso, é muito conveniente que a alma, sem esperar a carne, sofra um castigo pelo que tenha cometido sem a cumplicidade da carne. E, igualmente, é justo que, em recompensa pelos bons e piedosos pensamentos que tenha tido sem a cooperação da carne, receba consolos sem a carne. Mais ainda: as próprias obras realizadas com a carne, ela é a primeira a conceber, dispor, ordenar e pô-las em alerta. E ainda naqueles casos em que ela não consente em pô-las em alerta, no entanto, é a primeira a examinar o que logo fará no corpo. Enfim, a consciência não será nunca posterior ao fato. Consequentemente, também a partir deste ponto de vista, é conveniente que a substância que foi a primeira a merecer a recompensa seja também a primeira a recebê-la. Em suma: já que por esta lição que nos ensina o Evangelho entendemos o inferno, já que ‘por esta dívida, devemos pagar até o último centavo’, compreendemos que é necessário purificar-se das faltas mais ligeiras nesses mesmos lugares, no intervalo anterior à ressurreição; ninguém poderá duvidar que a alma recebe logo algum castigo no inferno sem prejuízo da plenitude da ressurreição, quando receberá a recompensa juntamente com a carne” [13].

“Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa, receber simultaneamente o valor e o salário da fé. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purificado pelo fogo; outra coisa é ter sido purificado de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser coroado pelo Senhor” [14].

“Pois se sobre o fundamento de Cristo construístes não apenas ouro e prata mas pedras preciosas e ainda madeira, cana e palha, o que esperas que ocorra quando a alma seja separada do corpo? Entrarias no céu com tua madeira, cana e palha e, deste modo, mancharias o reino de Deus? Ou em razão destes obstáculos poderias ficar sem receber o prêmio por teu ouro, prata e pedras preciosas? Nenhum destes casos seria justo. Com efeito, serás submetido ao fogo que queimará os materiais levianos. Para nosso Deus, àqueles que podem compreender as coisas do céu, encontra-se o chamado ‘fogo purificador’. Porém, este fogo não consome a criatura, mas aquilo que ela construiu: madeira, cana ou palha. É manifesto que o fogo destrói a madeira de nossas transgressões e logo nos devolve o prêmio de nossas grandes obras” [15].

DOGMAS MARIANOS

Maternidade Divina

O que as sagradas escrituras ensinam?

Jesus Cristo ao se encarnar no seio da virgem Maria, era, foi e sempre continuará sendo divino. Por esse motivo, é ponto de fé de qualquer cristão crer que Nosso Senhor, enquanto esteve no corpo foi totalmente homem e totalmente Deus. Dessa forma, a Igreja crê que Nossa Senhora foi agraciada com a maternidade divina. Não porque ela seja Mãe de Deus segundo a eternidade, mas sim, porque gerou o “Emanuel – Deus Conosco (Mt 1,23)”, o “Verbo de Deus (Jo 1,1 e 1,14)”, aquele que é o “Deus de Isaque, Abraão e Jacó (Mt 22,32)”

Maria cooperou no plano de salvação, já que com o seu sim generoso (Lc 1,38), abriu as portas para que o redentor entrasse no mundo. Maria “advogou” o erro de Eva. Assim como o pecado entrou no mundo através da desobediência de uma mulher, a salvação chegou até nós por meio da obediência de Maria. Dessa forma, lemos que a Virgem Santíssima ao visitar sua parenta Isabel (Lc 1,41) foi chamada por ela de “Mãe do meu Senhor (Lc 1,43)”. Esse pequeno trecho da sagrada escritura, constitui um dos dogmas marianos mais importantes da Igreja já que confirma que Maria, sendo verdadeiramente a Mãe do Senhor, tem por seu fruto o próprio Deus.

A Maternidade Divina de Maria possui a importância de confirmar a divindade de Jesus.

O que a Sagrada Tradição ensina? 

A Tradição a exemplo das escrituras, segue a crença bíblica. No ano 431 d.C, no concílio de Éfeso, Maria foi confirmada como “Mãe de Deus” para que a divindade de Cristo fosse afirmada. Desde o início, os pais da Igreja enxergavam em Maria o exemplo de mulher, a nova Eva, aquela que cuidou e alimentou o homem Deus.

Vejamos alguns testemunhos da patrística, onde a tradição se faz presente nesta crença genuinamente cristã:

“Sabemos que ele assumiu o corpo da Virgem, que revestiu o homem velho mediante uma nova criança, que passou através de toda idade da vida, para se converter em norma de toda idade. Sabemos que esse homem nasceu de uma massa como a nossa: se não tivesse sido de nossa mesma massa, vã seria a lei de imitar o mestre. Se esse homem tivesse sido de outra substância, por que me teria mandado tais coisas a mim, que sou fraco por natureza? Seria bom e justo”? [16]

“Nosso Senhor Jesus Cristo recebeu real e não aparentemente um corpo da Theotokos Maria” [17].

“A Sagrada Escritura, como tantas vezes fizemos notar, tem por finalidade e característica afirmar de Cristo Salvador essa duas coisas: que Ele é Deus e nunca deixou de o ser, visto que é a palavra do Pai, seu esplendor e sabedoria e também que nestes últimos tempos, por causa de nós, se fez homem, assumindo um corpo da Virgem Maria, Mãe de Deus” [18].

“Sob a vossa proteção procuramos refúgio, santa Mãe de Deus: não desprezeis as nossas súplicas, pois estamos sendo provados, mas livrai-nos de todo o perigo, ó Virgem gloriosa e bendita” [19].

Lutero, o precursor da reforma protestante, acreditava na maternidade divina de Maria:

“As grandes coisas que Deus realizou em Maria se reduzem a ser a Mãe de Deus. Com isso lhe foram concedidos muitíssimos outros bens, que ninguém poderá nunca compreender. Daí deriva toda a sua honra, toda a sua bem-aventurança e que ela seja no meio de toda a raça humana uma pessoa de todo singular e incomparável. Ela teve com o Pai celeste um filho, e um filho tal. Compreende-se toda a sua honra, quando se chama a ela de Mãe de Deus. Ninguém pode dizer coisa maior dela, mesmo que tivesse tantas línguas como folhagem tem a erva, como estrelas têm o céu ou areia têm as praias. Deve-se meditar no coração o que significa ser Mãe de Deus” [20].

Virgindade Perpétua

O que as sagradas escrituras ensinam?

Embora o novo testamento manifeste a ideia de que o Senhor possuía irmãos, não há qualquer registro histórico que esses filhos sejam de Maria ou de José. Em todas as passagens que se encontram aspectos familiares dessa tribo, Jesus é o único a ser chamado de filho de Maria (Mc 6,3) ou filho do carpinteiro (Mt 13,55), ainda soma-se a alguns fatos importantes como a não presença desses irmãos na subida dos pais de Jesus a Jerusalém (Lc 2,42) ou quando o próprio Cristo, no alto da cruz, entrega sua mãe aos cuidados do apóstolo amado (Jo 19,26-27), sendo que o mesmo não fazia parte da família. Fatos como esses, até hoje, não são bem explicados por aqueles que não acreditam na virgindade perpétua de Maria. A Igreja desde os tempos mais remotos, viu nestes irmãos, membros da família, mas não irmãos uterinos. Vemos por exemplo que a própria Maria, mãe de Jesus, tinha uma irmã ou cunhada também chamada Maria (esposa de Clopas / Jo 19,25) cujos filhos são chamados de “Tiago Menor e José (Mc 15,40)”, nomes esses que são parecidos aos supostos irmãos do Senhor. Lemos também que São Paulo em sua epístola aos Gálatas diz que ao ir para Jerusalém, encontrou além de Cefas (Pedro) o apóstolo Tiago, “irmão do Senhor” (Gl 1,19). Embora não existam afirmações concretas que esse Tiago possa ser um dos doze chamados inicialmente, há que interprete que este apostolo citado por Paulo, seja o filho de Alfeu (Mc 3,18) e aqui, teríamos mais uma prova que de fato esses irmãos não passam de membros do mesmo clã, já que Alfeu poderia ser “Clopas”, esposo da outra Maria (Mt 28,1), mãe de Tiago e José. Judas também afirma ser irmão deste Tiago (Jd 1,1).

O que a Sagrada Tradição ensina?

A virgindade perpétua de Maria nunca foi um tema que tivesse trazido discórdia da Igreja antiga. Embora existissem casos esporádicos, como foi o caso de Elvídeo e Bonoso de Naiso (Bispo na Dácia), a maioria esmagadora dos Padres defendia que Nossa Senhora nunca teve outros filhos, a não ser Jesus, o Senhor. O dogma da virgindade não foi confirmado em determinado ano e sim, entendido e abrigado nos corações das comunidades desde os primórdios do cristianismo.

Vejamos algumas declarações:

“Esta mãe santa, honrada, semelhante a Maria, dá a luz e é virgem” [21].

“Efetivamente, a Igreja de Cristo está ali onde se prega a encarnação de Cristo por meio da virgem” [22].

“Uma virgem nos fez expulsar do paraíso, por meio de uma virgem encontramos a vida eterna” [23].

“Como teria sido possível que aquela que foi morada do Espírito, que esteve coberta com a sombra do poder de Deus, se convertesse em mulher de um mortal e desse à luz na dor, segundo a primeira maldição”? [24]

“Maria conservou sua virgindade até o fim para que o corpo que estava destinado a servir à palavra não conhecesse uma relação sexual com um homem” [25].

“O anjo lhe anunciou o nascimento e ela se agarra à virgindade, por que pensa que manter-se intacta é superior à mensagem do anjo” [26].

Imaculada Conceição

O que as sagradas escrituras ensinam? 

As sagradas escrituras não ensinam de forma clara e objetiva que Maria tenha sido concebida de forma imaculada, entretanto, não menciona qualquer pecado ou falta que a Mãe de Deus tenha cometido. Um dos argumentos escriturísticos que frequentemente tem sido utilizado para indicar a primícia desse ensinamento, diz respeito à saudação do Anjo no momento da anunciação da maternidade divina. Lemos no evangelho de São Lucas a seguinte afirmação:

Lc 1,26-30 – “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entretanto onde ela estava, disse-lhe: “Alegra-te, CHEIA DE GRAÇA, o Senhor está contigo”! Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação. O Anjo, porém, acrescentou: “Não temas, Maria! Encontraste GRAÇA junto de Deus”.

Dentro de toda a literatura bíblica, a única vez que aparece o termo κεχαριτωμένη (Cheia de graça) é nesta passagem de Lucas que e é destinada única e exclusivamente a Virgem. Através dos tempos, a Igreja entendeu que o fato de Nossa Senhora ser “cumulada de graça por Deus (Lc 1,28)” fez com que ela tivesse sido redimida desde a concepção, uma vez que Nosso Senhor, sendo Deus e não possuindo pecados, o ventre o qual abrigaria o santo de Deus, deveria ser puro e livre de qualquer mancha do pecado.

Embora a Bíblia não dê como assertiva a isenção de pecados de Maria, temos como primícia a declaração do Anjo que originou as profundas reflexões pelos séculos que levaram a confirmação dessa verdade de fé.

O que a Sagrada Tradição ensina?

A tradição comumente afirmava que Maria havia sido isenta de pecados pessoais e isso se dava ao fato de sua intima relação com o Espírito Santo uma vez que Jesus Cristo havia nascido do ventre que foi tomado pela “Sombra do Altíssimo (Lc 1,35)”. Era tão grande a manifestação dessa crença na Igreja Antiga que alguns padres chamavam Maria de “templo santo”. Vemos isso ao ler a declaração de Cirilo de Alexandria no Concílio de Éfeso (431):

“Salva, Maria, templo onde Deus habita, templo santo, como o chama o profeta Davi quando diz: “Teu templo é santo e admirável em sua justiça (SL 64.6)”. Salve Maria, a criatura mais preciosa da criação; salve Maria, pomba puríssima” [27].

Gregório de Nissa (335) e André de Creta (650), seguiam a mesma linha de pensamento:

“A plenitude da divindade que residia em Cristo, brilhou através de Maria, a imaculada” [28].

“Eu proclamo Maria a única santa, a mais santa entre todos os santos” [29].

Encontramos semelhantes afirmações de outros estudiosos que viam na virgem, o templo no qual Deus habitou por nove meses, sendo que por méritos desse mesmo Senhor, Ele, antecipou em Maria a graça de ser concebida sem a macha do pecado de Adão.

Alguns teólogos como Raimundo Lúlio (1315), manifestaram a ideia dessa isenção da culpa original:

“A semente da qual procede Maria não herdou o pecado original de seus pais” [30].

O teólogo Franciscano Duns Scoto (1308) afirmou que:

“Não poderíamos chamar Cristo perfeitíssimo Redentor nem Maria perfeitíssima redimida se não afirmássemos a preservação do pecado original” [31].

O dogma da Imaculada Conceição foi oficializado somente no dia oito de dezembro de 1854, porém, como lemos em alguns relatos, as afirmações sobre a santidade da virgem derivaram de muitos séculos atrás e muitas das afirmações aqui colocadas, foram as responsáveis pela definição desse ponto de fé.

Para aqueles que não acreditam, fica o ônus da questão de provar pelas próprias escrituras que Maria tinha pecados.

Assunção / Dormição

O que as sagradas escrituras ensinam?

Não há qualquer livro canônico que mencione o destino final de Maria, quanto a isso, o único registro histórico que confirma o destino da virgem é através da tradição.

O que temos por conhecimento, pelo pouco que o novo testamento informa-nos é que após a Crucificação, João passou a receber Maria em sua casa (Jo 19,26-27) e que no Cenáculo, relatado por Lucas, a Mãe de Jesus, juntamente com sua família, perseverava em oração (At 1,14).

O que a Sagrada Tradição ensina?

O registro histórico da tradição diverge no que diz respeito à morte ou sono da virgem. Alguns mencionam que Maria teria morrido, ressuscitado e posteriormente havia sido assunta aos céus, enquanto outras descrevem que a Mãe de Deus, no fim do curso de sua vida, adormeceu e foi também elevada aos céus.

O texto que coloco abaixo, foi transcrito por um “pseudo-Melitão” e é tido pela tradição como o “Trânsito B“. O relato está registrado no livro de “José Cristo Rey García Paredes” [32]. A narração segue à morte, sepultamento, ressurreição e assunção da Virgem.

“Quando o Senhor estava crucificado, viu a Virgem e João, o evangelista, a quem amava mais que aos outros apóstolos porque havia se conservado virgem, que estava junto da cruz. A ele recomendou o cuidado de Santa Maria dizendo-lhe…e quando os apóstolos se dispersaram pelo mundo para pregar, segundo lhe coube em sorte, ela ficou em casa de seus pais no monte das Oliveira (N.2) No segundo ano depois que Cristo, vencia a morte, havia subido ao céu, Maria começou a chorar sozinha no refúgio de sua câmara. E um anjo de vestes refulgentes se apresentou diante dela e a saudou dizendo: ‘Salve, bendita do Senhor. Recebe a saudação daquele que mandou a salvação a Jacó por meio dos pobres. Vê este ramo de palma; eu o trouxe do Paraíso do Senhor; tu o farás levar diante do teu féretro quando, daqui a três dias, sereis levada do teu corpo. Teu filho te espera acompanhado dos coros angélicos’. Maria disse ao anjo: ‘Peço-te que se reúnam junto de mim todos os apóstolos do Senhor Jesus Cristo. Rogo-te que me abençoes, para que no momento em que minha alma saia do corpo, não encontre nenhum poder infernal nem veja o príncipe das trevas’. O anjo respondeu: ‘As potencias infernais não te causarão dano, pois teu Senhor te deu tua bênção eterna; mas o não ver o príncipe das trevas não posso conceder-te eu, e sim Aquele a quem levaste em teu seio. É Ele quem tem o poder sobre tudo, pelos séculos dos séculos’. Dizendo isso, retirou-se o anjo com grande resplendor. Porém, a palma ficou resplandecente com uma grande luz. Maria então vestiu suas melhores veste. E tomando a palma que havia recebido da mão do anjo, subiu para orar no monte das Oliveiras. Isso feito, retornou para sua cama (N.3). De repente, no domingo, na hora terceira, quando São João pregava em Éfeso, houve um grande terremoto; uma nuvem o elevou, o tirou dos olhos de todos e o depositou diante da porta da casa onde estava Maria (N.4)”.

Depois, há um diálogo entre Maria e João:

“Daqui a três dias abandonarei o corpo”

Maria ainda acrescenta que os judeus estão esperando o momento de sua morte para queimar seu corpo. Dá instruções a João para que a sepultasse com uma determinada veste e lhe pediu que fizesse levar diante do féretro, ao ir para o sepulcro, a palma luminosa que havia recebido do anjo (N.4).

“No momento foram trazidos em uma nuvem todos os apóstolos desde os lugares nos quais pregavam e se perguntavam uns aos outros ao ser depositados em terra na porta da casa da Virgem: ‘Para que nos reuniu o Senhor’? (N.5). ‘O Senhor vos trouxe aqui para que me consoleis nas tribulações que me aguardam. Peço-vos que vigiemos juntos sem interrupção até o momento no qual o Senhor vier e eu seja separada do corpo’ (N.6). Passaram três dias louvando a Deus. No terceiro dia, lá pela hora terceira, adormeceram todos os que estavam na casa, com exceção dos apóstolos e três virgens que estavam ali. De repente veio o Senhor Jesus Cristo com grande resplendor e disse: ‘Vem pérola preciosíssima; entra na morada da vida eterna’ (N.7)”.

Depois de uma oração ajoelhados, Maria se levantou do solo, deitou-se na cama e dando graças a Deus, entregou o espírito.

“Os apóstolos viram que sua alma era tão cândida que nenhuma língua humana podia descrevê-la de maneira digna: irradiava tamanha claridade que superava a brancura da neve, da prata e de todos os metais (N.8). O Senhor pediu a Pedro que sepultasse o corpo de Maria em um sepulcro novo, e entregou a Miguel – guardião do Paraíso e príncipe do povo judeu – a alma de Maria. Gabriel o acompanhava (N.9) O corpo de Maria era semelhante a uma flor de lírio e exalava um perfume tão suave que não se pode encontrar outro igual (N.10)”.

“Perguntam-se Pedro e João quem deverá levar a palma diante do féretro. Pedro achou que obrigado era João, o discípulo amado. Ao tomar o corpo e levá-lo ao lugar da sepultura, Pedro começou a cantar: ‘Saiu Israel do Egito. Aleluia’! Os apóstolos levavam o corpo e cantavam suavemente (N.11). O cortejo era de uma multidão de cerca de umas quinze mil pessoas. Um príncipe dos sacerdotes, cheio de ira, disse aos outros: Vede que glória recebe o tabernáculo daquele que nos confundiu! Aproximando-se, quis derrubar o féretro e lançar o corpo por terra. Mas suas mãos secaram desde o cotovelo e ficaram agarradas ao féretro. Os anjos que estavam na nuvem golpearam o povo de cegueira (N.12). O sacerdote pedia para ser curado. Pedro lhe disse que o curaria se acreditasse ‘de todo o coração no poder de Jesus Cristo, a quem Maria levou em seu seio ficando virgem depois do parto’ (N.13). Acreditou e foi curado. João lhe deu a palma. Entrou na cidade e aos que impunham a palma sobre os olhos recobravam a visão (N.15)”.

“Os apóstolos levaram Maria ao vale de Josafá e a depositaram em um sepulcro novo. Apareceu-lhes então o Senhor. E lhes disse: ‘Por ordem de meu Pai escolhi esta dentre todas as tribos de Israel para nela habitar. Que quereis que lhe faça’? Pedro e os outros apóstolos lhe responderam: ‘Se possível à graça do teu poder, nós teus servos veríamos com bons olhos que ressuscitasses o corpo de tua mãe e o conduzisse contigo ao céu, do mesmo modo que Tu vencias a morte, reinas na glória’ (N.16). Então Jesus ordenou ao arcanjo Miguel trazer a alma de Santa Maria; girou a pedra do sepulcro. O Senhor disse: ‘Sai amiga minha, tu que não aceitaste a corrupção do coito, não sofrerás a dissolução do corpo no sepulcro’. E no instante ressuscitou Maria e se prostrou aos pés de Jesus adorando-o (N.17). O Senhor a beijou e se retirou, entregando-a aos anjos para que a levassem ao céu. A seus apóstolos também os beijou e se elevou em uma nuvem e entrou no céu e com ele os anjos que levavam Maria para o Paraíso de Deus. Os apóstolos foram devolvidos pelas nuvens cada um ao lugar onde estava pregando (N.18)”.

CONCLUSÃO

Amigos leitores;

Conforme vimos nestas poucas linhas, conseguimos visualizar que as doutrinas católicas, estão respaldadas também nas sagradas escrituras e se caso, dentro da bíblia, houve insuficiência para a comprovação, temos os registros históricos através da tradição da Igreja.

Que Deus nos conceda o verdadeiro discernimento!

BIBLIOGRAFIA

[1] Editora Paulus, Santo Irineu, Contra as Heresias – livro 3; 4,1-2
[2] Editora Paulus, Santo Irineu, Contra as Heresias – livro 2; 34,1
[3] Editora Paulus, História Eclesiástica, Pg 322, Divergência dos Árabes – 37
[4] Da oração, Orígenes (185-254 d.C)
[5] Epístola 57, Cipriano de Cartago (200-258 d.C)
[6] Catequeses Mistagógicas, São Cirilo de Jerusalém (315-386 d.C)
[7] Católico sim, Idólatra Não, pg 65 – São Gregório de Nissa (335-394 d.C)
[8] Católico sim, Idólatra Não, pg 123 – São João Damasceno (749 d.C)
[9] Ad Pammachium, São Jerônimo (392 d.C)
[10] Paixão de Perpétua e Felicidade, Santa Perpétua (203 d.C) – 2,3-4
[11] Atos de Paulo e Tecla (160 d.C)
[12] Stromata, Clemente de Alexandria (215 d.C) – 8,6
[13] Da Alma, PL2.751, Tertuliano (195 d.C) – 58
[14] Epístola de São Cipriano (246 d.C) – 51,20
[15] Orígenes, 231 / P.G 13,col. 445, 448
[16] Hipólito, 170, Philosophoumena, X,33: PG 16,34-51
[17] Alexandre de Alexandria, Ep. Ad Alex. Const. N. 12, em Teodoreto, História Ecclesiastica, 1,3: PG 82,908
[18] Da Trindade, Santo Atanásio de Alexandria (318 d.C)
[19] Oração Egípcia, Sob a Vossa Proteção (Século III)
[20] Auslegung dês Magnificat, Martinho Lutero, 1522: LW 7,572
[21] Santo Agostinho, Sermo 72A,8: PL 46,938
[22] Cromácio de Aquileia, Sermo 30,1-2; SC 164,135-136
[23] João Crisóstomo, In psalmum 44,7: PG 55,193
[24] Efrém, Diatessaron, 2,6: SC 121,69-70; cf. id, Himni de Nativitate, 10,6-9: CSCO 187,59
[25] Orígenes, In Mt. Comm. 10,17: GCS 10,21
[26] Gregório de Nissa, Hom, in Nativ.: PG 46,1140s
[27] Cirilo de Alexandria, Discurso pronunciado em el Concilo de Efeso: PL 77,1029-1040
[28] Gregório de Nissa, De virginitate, 2
[29] André de Creta, Encom. II in dies Natalis: PG 97,832B
[30] Raimundo Lúlio, Dispotatio Eremitae ET Raymundi, q.96
[31] Cf. A. Villamonte, Qué ES ló que celebramos em La fiesta de La inmaculada?, em EphMar 35, 323
[32] Mariologia, Síntese bíblica, histórica e sistemática, José Cristo Rey García Paredes – Pg 261.

Escrito por: Érick Augusto Gomes



Categorias:Tradição

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