QUAL TIAGO ERA O IRMÃO DO SENHOR?

“O irmão do Senhor, Tiago, com os apóstolos governou a Igreja. Desde o tempo do Senhor até nós. Todos lhe davam o apelativo de Justo, visto serem muitos do mesmo nome” [1]

INTRODUÇÃO

Um dos nomes bíblicos mais discutidos entre teólogos e estudiosos cristãos, sem dúvida é Tiago, chamado pelo apóstolo Paulo de “irmão do Senhor” (Gl 1,19).  A discussão sempre acarretou dúvidas sobre quantos e quais Tiagos têm ligações diretas com o parentesco de Cristo e o que isso implicaria na doutrina da virgindade perpétua de Maria. É muito comum que a exegese (interpretação profunda de um texto bíblico) protestante identifique Tiago como o irmão direto de Cristo, enquanto a interpretação católica defenda que o líder da Igreja de Jerusalém era parente de Jesus, muito provavelmente seu primo.

O ponto de vista católico sustenta duas interpretações para entender quem de fato era Tiago.

Neste artigo, analisarei ambas as interpretações com um único fundamento: defender a verdade católica!

QUAIS ERAM OS TIAGOS?

Os intérpretes católicos identificam três os Tiagos com ligações diretas ao Senhor, sendo eles:

  • Tiago, filho de Alfeu

Era um dos doze apóstolos (Mt 10,3). É comumente confundido com o parente do Senhor, pelo fato de Judas ser seu irmão (At 1,13) e seu pai ter um nome que no “hebraico antigo” pode significar “Cleófas”, que viria a ser o tio de Jesus, esposo de Maria, a irmã da mãe de Cristo (Jo 19,25).

  • Tiago, filho de Zebedeu (o maior)

Irmão de João, o apóstolo amado. Aparece sempre junto de Pedro e seu irmão (Mc 5,37). Foi morto a espada por Herodes (At 12,2).

  •  Tiago o menor / Tiago irmão do Senhor

Embora os protestantes afirmem que esses Tiagos sejam diferentes e assim, teríamos quatro tipos distintos, a interpretação católica identifica “Tiago o Menor” (Mt 27,44 – Mc 15,40) sendo o Tiago irmão do Senhor (Gl 1,19), assim, teríamos apenas três, sendo o denominado “menor” o parente de Cristo.

Sendo três os Tiagos que possuem ligações diretas com Jesus, temos a seguinte definição:

– Tiago, filho de Alfeu e Apóstolo (Mt 10,3);

– Tiago, filho de Zebedeu e Apóstolo (Mc 5,37);

– Tiago Menor (Mc 15,40), filho da outra Maria (Mt 28,1) que é irmã da Mãe de Cristo (Jo 19,25) e considerado irmão do Senhor (Gl 1,19).

 Tendo em vista as referências aplicadas, vamos agora explorar as duas interpretações e entender como cada uma é aplicada em seus respectivos contextos. Como sabemos pela própria escritura que Tiago de Zebedeu – irmão de João – foi morto por Herodes (At 12,2), já conseguimos descartar qualquer hipótese que parta desse “Tiago”, sendo assim, nos restam apenas dois: O filho de Alfeu (At 1,13) e o chamado de “menor” (Mc 15,40).

PRIMEIRA INTERPRETAÇÃO: TIAGO FILHO DE ALFEU, APÓSTOLO E IRMÃO DO SENHOR.

Muito se especula se no grupo dos doze apóstolos, o Tiago chamado de “filho de Alfeu” seria o irmão do Senhor. Embora tal interpretação tenha sido usada por muitos católicos, é pouco provável que ela seja coerente com os fatos. A base argumentativa se pressupõe de algumas passagens que inicialmente propõem uma relação real com as informações, mas, nos deixam algumas lacunas.

O apóstolo Paulo em sua epístola aos gálatas, cita que ao subir a Jerusalém para conhecer Cefas (Gl 1,18), não vê nenhum outro apóstolo, a não ser a “Tiago, irmão do Senhor” (Gl 1,19).

Ao olharmos a lista dos doze apóstolos no evangelho de Lucas, verificamos que dos dois Tiagos apresentados, um é o filho de Alfeu (Lc 6,15) irmão de Judas (Lc 6,16). Embora os Atos dos Apóstolos não narre qual seria o fim de “Tiago de Alfeu”, é pouco provável que o “irmão do Senhor” visto por Paulo em seu relato aos Gálatas, tivesse sido um dos doze chamados inicialmente pelo próprio Cristo. Esse Tiago visto por Paulo pela primeira vez ao ir a Jerusalém (At 9,26-29), é o mesmo que aparece catorze anos depois juntos dos apóstolos (At 15,2) na controvérsia da circuncisão (At 15,13) e não possui nenhuma ligação com Alfeu.

Por outro lado, um argumento que poderia favorecer tal interpretação é o fato de que, no início do livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo dois, Lucas concede-nos uma lista de todos os apóstolos e situa Tiago de Zebedeu e de Alfeu juntos com o grupo (At 1,13). Como já mencionando no parágrafo anterior, a figura de “Tiago de Alfeu” desaparece, isto é, o escritor não narra um possível fim ou viagem feita por ele. Dessa forma, quatorze anos mais tarde, quando Paulo volta a Jerusalém, Tiago maior já estava morto (At 12,2) e o único Tiago provável que teria sido visto, poderia ser o filho de Alfeu. A partir desses registros, apenas um Tiago é mencionado (At 15,13) e é esse que alguns interpretes, o classificam como sendo o antigo apóstolo que esteve com o Senhor na época em que Cristo ainda pregava. O fato do evangelista não mencionar mais a ligação com Alfeu, poderia se dar por já não existir outro apóstolo com o mesmo nome, e por esse motivo, o parente de Jesus seria citado apenas com o nome simples.

Entretanto, sabemos pela própria escritura que quando Cristo, ainda no exercício de seu ministério, não tinha o apoio de seus familiares que não acreditavam em sua missão (Jo 7,5). Sendo assim, as probabilidades de “Tiago, filho de Alfeu” ser de fato o irmão do Senhor, podem ser pequenas já que seus irmãos só passariam a acreditar no seu plano de salvação após a ressurreição (At 1,14).  O uso do “apóstolo” também pode ser tomado pelo sentido lato (Rm 1,1).

CONCLUINDO

Embora essa argumentação seja incerta, não pode ser descartada. Muitos santos da Igreja viram no apóstolo, filho de Alfeu, o irmão do Senhor que seria filho da outra Maria (Mt 28,1). Essa é uma das interpretações aceitas pela Igreja, porém, creio que não seja tão assertiva por conta de algumas informações que se desencontram ao cruzarmos alguns fatos bíblicos.

O argumento aqui analisado é também usado por S. Jerônimo em seu tratado contra Helvídio.

Para ler o texto o santo, acesse o link abaixo:

http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/a_virgindade_perpetua_de_maria.html

SEGUNDA INTERPRETAÇÃO: TIAGO MENOR, PÓS-APÓSTOLO E IRMÃO DO SENHOR.

Maria, a mãe do Cristo, tinha outra irmã chamada também de Maria e a própria escritura atesta tal fato:

Jo 19,25 – Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.

Partindo do princípio que Nossa Senhora possuía uma irmã – também chamada de Maria – conseguimos ver em outros textos dos evangelhos que a mesma situação narrada por João, é semelhante a outros relatos que indicam que essa irmã da mãe do Senhor, tinha um filho chamado de “Tiago”.

Vejamos nas escrituras:

Mt 27,55-56 – Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe. Haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia, a servi-lo. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Mc 15,40 – E também estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago o Menor, e de José, e Salomé.

Essa Maria, mãe de “Tiago o Menor” e irmã da mãe do salvador é a que aparece frequentemente nas sagradas escrituras denominada como a “outra Maria” (Mt 28,1) e é sempre associada como a “mãe de Tiago” (Mc 16,1 – Lc 24,10). Esse Tiago é o que aparece nas listas onde os “irmãos do Senhor” são identificados (Mt 13,55). Inicialmente, ele não creu no Senhor, confirmando aquilo que a bíblia relatou (Jo 7,5) e só viria a acreditar em Cristo quando o mesmo, após ter ressuscitado, apareceu a ele:

1 Cor 15,4-7 – Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram.Posteriormente, apareceu a Tiago, e depois, a todos os apóstolos. Em último lugar, apareceu também a mim como a um abortivo.

Após confirmar sua crença no Cristo, assumiu com total primazia o posto de líder da Igreja de Jerusalém e é chamado por Paulo como um dos pilares da comunidade (Gl 2,9). É chamado de “Tiago o menor” pelo evangelista Marcos para diferenciar justamento de Tiago o maior, irmão de João.

Observem que os relatos de Paulo no livro aos gálatas, condizem exatamente com os narrados por Lucas nos Atos dos Apóstolos. Ao subir à Jerusalém para conhecer Cefas (Pedro) (At 9,26-30 – Gl 1,18), Paulo não vê nenhum outro apóstolo, a não ser Tiago que é chamado por ele como “irmão do Senhor” (Gl 1,19). Ainda nessa época, Tiago de Zebedeu e Tiago de Alfeu estavam vivos, porém, Paulo vê apenas o Tiago chamado “menor” e é esse que é assumido como irmão por conta de seu parentesco com Cristo que conforme vimos anteriormente, tinha uma mãe cujo nome também era Maria (Jo 19,25).

Paulo, ao retornar a Jerusalém quatorze anos mais tarde (At 15,2 – Gl 2,1), Tiago filho de Zebedeu já havia morrido (At 12,2) e Tiago de Alfeu, de acordo com algumas tradições teria sido crucificado no Egito, porém, não sabemos se quando Paulo esteve na cidade santa, este apóstolo estava em missão ou já estava morto, sendo assim, Paulo vê Tiago, o irmão do Senhor, filho de Maria que é irmã da Mãe de Jesus, grande líder da Igreja primitiva (At 15,13-19 – Gl 2,9).

O Catecismo da Igreja Católica aponta:

CIC 500 – “A isto objeta-se  por vezes que a Escritura menciona irmãos e irmãs de Jesus. A Igreja sempre entendeu que essas passagens não designam outros filhos da Virgem Maria: com efeito, Tiago e José, “irmãos de Jesus” (Mt 13,55), são filhos de uma Maria discípula de Cristo que significativamente é designada como “a outra Maria” (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos de Jesus, consoante uma expressão conhecida do Antigo Testamento.   

CONCLUSÃO

A tarefa de descobrir os “Tiagos” que existem nas escrituras não representa facilidade. Durante séculos muitos estudiosos procuraram entender quem de fato seria o tão especulado “irmão do Senhor” mencionado por Paulo, entretanto, a análise acima das interpretações aceitas pela Igreja, nos faz aceitar que sendo ele “filho de Alfeu / Cleófas” ou apenas o “Tiago menor”, a crença de um parentesco (primo) próximo (e não um conceito de irmão sanguíneo como os protestantes sugerem) é real.

BIBLIOGRAFIA 

[1]    Hegesipo, Memórios – segundo Eusébio; “História Eclesiástica”, cap 23,4

Escrito por: Érick Augusto Gomes



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