ANÉPSIOS É SUFICIENTE?

Em vários debates sobre a virgindade de Maria, é comum que no desenrolar dos fatos, cheguemos à discussão do grego e ai entram os termos “adelphos” e “anépsios” para definir questões de parentesco. Não sou perito na língua, pelo contrário, eu Érick, pouco sei, mas, o que quero demonstrar aqui neste texto é que o uso de “anépsios” para primo deve ser muito bem analisado já que conforme registros da septuaginta, ambos os termos também podem significar “irmãos“. Não digo isso como propriedade minha e sim, com base em algumas últimas pesquisas realizei.

(Para você que está chegando agora e talvez não saiba do que estou escrevendo, procure em qualquer servidor de pesquisas os termos gregos para parentesco e a forma teológica usada por católicos, ortodoxos e protestantes para entender o texto escrito).

A primeira coisa que devemos entender é que nos escritos neotestamentários a ÚNICA referencia que é mencionada pelo apóstolo Paulo a respeito de primo encontra-se na passagem de Cl 4,10:

“Aristarco, que está preso comigo, vos saúda, e Marcos, o primo de Barnabé, acerca do qual já recebestes mandamentos; se ele for ter convosco, recebei-o”.

Fora essa passagem que também é traduzida por “o sobrinho de Barnabé” por algumas versões protestantes, não há mais nem um ponto o qual algum primo seja designado por “anépsios” no novo testamento, isto é, o que possuímos é o termo “adelphos” que é traduzido ora como irmão sanguíneo, ora espiritual ou membro de uma mesma tribo. Quando o mesmo apóstolo Paulo escreve aos coríntios, diz que Cristo apareceu a mais de 500 irmãos e a palavra usada é a mesma no qual concernem os irmãos de Nosso Senhor:

1 Cor 15,6 – “Depois apareceu a mais de quinhentos IRMÃOS de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos)”;

1 Cor 15,6 – ἔπειτα ὤφθη ἐπάνω πεντακοσίοις (δελφος / IRMÃOS) ἐφάπαξ, ἐξ ὧν οἱ πλείους μένουσιν ἕως ἄρτι, τινὲς δὲ καὶ ἐκοιμήθησαν·

Em qualquer passagem bíblica, quando falamos de irmãos, seja lá qual grau for, temos a palavra “adelphos“.

Assim como Paulo usa esse termo para 500 irmãos, assim está discriminado para os irmãos de Cristo, assim está para Tiago e João filhos de Zebedeu, assim está para Marta e Maria.

Temos algumas variações, quando alguns textos citam “parentes“. Por exemplo, ao lermos que Maria visitou Isabel, a palavra usada é “suggenes” que defini apenas parentesco.

Lc 1,36 – “Também Isabel, tua PARENTA, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril”. 

Lc 1,36 – καὶ ἰδοὺ ἐλισάβετ ἡ συγγενίς σου καὶ αὐτὴ συνείληφεν υἱὸν ἐν γήρει αὐτῆς, καὶ οὖτος μὴν ἕκτος ἐστὶν αὐτῇ τῇ καλουμένῃ στείρᾳ·

De qualquer forma, muitos utilizam a passagem de Colossenses 4,10 para dizer que se de fato os irmãos do Senhor fossem seus “primos“, a palavra usada seria Anépsios e não Adelphos, porém, será que seria certo afirmar isso já que como já mencionado, o único emprego dessa palavra  na literatura neotestamentária é nesta única passagem?

Pois bem, a língua falada na época por Cristo era o aramaico e o antigo testamento inicialmente, fora escrito em hebraico e posteriormente traduzido para o grego através da versão dos setenta sábios (LXX – Septuaginta). Para essas duas línguas (aramaico e hebraico), não existiam um termo que definisse parentesco, isto é, para definir irmãos, primos, sobrinhos o único termo presente era o “AHA” (Aramaico) e o “AH” (Hebraico), sendo assim, o primeiro argumento que temos da insuficiência daqueles que pensam que em Cl 4,10 possa existir algum respaldo, se está em entender que quando Paulo escrevia aos Colossenses, ele não estava traduzindo ou refletindo qualquer momento vivido pelos evangelhos que já retratavam acontecimentos passados e sim, escrevendo em grego e utilizando de todas as suas propriedades para manifestar as palavras. No caso dos evangelhos, para traduzir o ambiente “semítico“, foi conservado os termos hebraicos e aramaicos e a única palavra que corresponderia seria “adelphos“.

Entretanto, através da própria obra grega, podemos entender que até mesmo “anépsios” em alguns momentos pode designar um laço sanguíneo de “irmãos“. Para uma melhor elucidação, utilizarei a versão Grega do Antigo Testamento para demonstrar o que estou dizendo. A versão primária que coloco aqui é das Igrejas Ortodoxas Gregas, mas, entendam, não estou aqui a discutir inspiração (antes que alguém reclame que o livro é “apócrifo” e não é) e sim a definição da palavra.

Na obra de Tobias, no capítulo 7, Raguel é apresentado como parente de Tobit que é pai de Tobias. Podemos ver que no verso dois Raguel vira a sua esposa e intrigado pela aparência do garoto (para entender o contexto da história, pegue sua bíblia e leia a história do jovem Tobias), menciona que Tobias, parecia muito com seu “primo”:

Tb 7,2 – καὶ εἶπε Ραγουὴλ ῎Εδνᾳ τῇ γυναικὶ αὐτοῦ· ὡς ὅμοιος ὁ νεανίσκος Τωβὶτ τῷ (νεψι / primo)

Tb 7,2 – Disse à sua esposa Efna: “Como esse rapaz se parece com meu primo Tobit!”

Andando mais dois versos (4), percebemos que a palavra usada já não é mais primo (νεψι) e sim irmão (δελφν), ambas, possuindo aqui o mesmo significado:

Tb7,4 καὶ εἶπεν αὐτοῖς· γινώσκετε Τωβὶτ τὸν δελφν ἡμῶν; οἱ δὲ εἶπον· γινώσκομεν. καὶ εἶπεν αὐτοῖς· ὑγιαίνει

Tb 7,4 – “Conheceis Tobit, nosso irmão? – Conhecemos sim, responderam – Ele está bem?”

É fato que Tobias e Raguel faziam parte da mesma tribo que era a de Neftali, porém, Tobias era filho de Tobiel ou Tobit enquanto Raguel poderia ser primo ou irmão de seu pai, porém em primeira momento o chama de primo (vr 2) e logo após irmão (vr 4). Aqui, são usados os dois empregos das palavras para designar uma questão de parentesco por um mesmo clã.

Para deixar a questão ainda mais clara, estou recorrendo ao “Codex Sinaiticus” que é uma das versões mais antigas do velho testamento já encontrada (1600 anos atrás) e como será possível ver, apesar de algumas traduções trazerem o termo “anépsios“, o manuscrito original, traz a palavra “adelphos“:

Tb7,2 του και ειπεν εδνα τη γυναικι αυτου ωϲ ομοιοϲ ο νεανιϲκοϲ ουτοϲ τωβια τω αδελφω μου.

Isto é, ambos os termos no grego também podem significar a mesma coisa, assim como Ló, mesmo sendo sobrinho de Abraão (Gn 12,5) foi chamado de seu irmão através de “adelphos“:

Gn13,8 εἶπεν δὲ Αβραμ τῷ Λωτ Μὴ ἔστω μάχη ἀνὰ μέσον ἐμοῦ καὶ σοῦ καὶ ἀνὰ μέσον τῶνποιμένων μου καὶ ἀνὰ μέσον τῶν ποιμένων σου. ὅτιἄνθρωποι (δελφο/IRMÃO) ἡμεῖς ἐσμεν.

Gn 13,8 – And Abram said to Lot, Let there not be a strife between me and thee, and between my herdmen and thy herdmen, for we are brethren.

Assim, “Tobit” e “Raguel” são tratados como parentes sanguíneos na utilização das duas palavras.

Dessa forma, podemos entender que o fato do novo testamento possuir uma única fonte que traz a palavra anépsios como primo ou sobrinho (Cl 4,10), não encerra a questão já que a versão grega do VT nos mostra que ambas também podem possuir o mesmo significado.

FONTES BÍBLICAS UTILIZADAS

http://www.ellopos.net/elpenor/physis/septuagint-genesis/default.asp

http://www.codex-sinaiticus.net/en/

Escrito por: Érick Augusto Gomes



Categorias:Mariologia

1 resposta

Trackbacks

  1. JOSET (JOSÉ) ERA FILHO DE MARIA, A MÃE DO CRISTO?

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: