A SEPTUAGINTA E OS TESTEMUNHOS PRIMITIVOS DA IGREJA

Podem eles ainda encontrar outra prova do que dissemos, em certos livros, aos quais atribuem grande autoridade (…). Nós não podemos admitir a autoridade desse livro (evangelho apócrifo de São Tomé), pois, não faz parte do cânon da Igreja Católica” (Sto. Agostinho; o sermão da montanha; 65)

INTRODUÇÃO

 – “Em 1546 a Igreja Católica adicionou 7 (sete) livros na bíblia. Estas obras são tidas como apócrifas por não possuirem inspiração”.

Talvez, você já tenha deparado-se com essa frase em algum site ou blog. Pode ser que em algum debate, algum protestante tenha lhe dito que a Igreja Católica – “maldosamente” – adicionou livros que não são inspirados e que por isso, não merecem crédito.

Pode ser que ao ser confrontado com algum ataque desse gênero, você não tenha conseguido responder ou quem sabe, respondido, porém, o acusador continuou afirmando que apenas em “1546” esses livros passaram a figurar no cânon oficial da Igreja Ocidental. Infelizmente, os livros deuterocanônicos representam mais uma das mentiras propagadas por aqueles que por falta de conhecimento bíblico e histórico, continuam a manifestar inverdades sobre aquilo que por si próprios, não sabem.

Não precisaríamos ir muito longe para refutar facilmente tal falácia. Com três únicos argumentos, já derrubamos o sofisma.

Vejamos:

1 – A bíblia hebraica foi traduzida para o grego por 70 sábios judeus em Alexandria, a pedido do rei do Egito Ptolomeu II. Essa tradução aconteceu por volta do século III antes de Cristo. Isto é, quando Jesus nasceu, a tradução já existia e era bem aceita pelos judeus da diáspora;

2 – O novo testamento foi escrito em grego. Justamente por ser a língua falada no mundo “grego-romano”, os escritores neotestamentários utilizavam a LXX para facilitar na propagação do evangelho e para confirmar as profecias da salvação do Cristo;

3 – A Igreja Ortodoxa separou-se de Roma no ano de 1054. Se os livros da versão dos setenta foram colocados em Trento apenas no ano de 1546, como explicar o uso da septuaginta pelos orientais, uma vez que, no ano da suposta adição, os ortodoxos já não possuíam comunhão com a Igreja Católica?

Para esses três argumentos, dificilmente você encontrará respostas coerentes e que possam representar o mínimo de verdade que venha a sair de alguns grupos ditos “cristãos”. A grande verdade é que desde a era apostólica, a septuaginta era bem aceita e muito utilizada. Grande parte das referências bíblicas que encontramos no novo testamento é associada diretamente a tradução grega.

Assim como nos demais artigos relacionados aos escritos primitivos, iremos passar os principais fatos bíblicos que atestam o uso da LXX e posteriormente, mostraremos que há abundante fonte patrística no que diz respeito ao uso da versão dos setenta anteriormente ao concílio de Trento (século XV).

 

I SÉCULO (0 a 100 d.C)

São Paulo (5 a 67 d.C)sao-paulo-apostolo.jpg

1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios (55 d.C):

São Paulo, ao escrever sua epístola aos cristãos de corinto, provavelmente, tenha tido em mente uma passagem do livro de Judite que trata especificamente sobre os mistérios entre a relação do “eu” humano e do profundo conhecimento de Deus:

1Mas, como está escrito: o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, tudo o que Deus preparou para os que o amam. A nós porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus. Quem , pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem nele está?” (1 Cor 2,9-11).

1Se não descobrir o íntimo do coração do homem e não entendeis as razões do seu pensamento, como, então, penetrareis o Deus que fez essas coisas? Como conhecereis seu pensamento?” (Jd 8,14).

Na mesma epístola, Paulo sendo familiarizado com livro (Judite), utiliza outra referência da obra:

2 – “Nem murmureis, como murmuraram alguns deles, e foram mortos pelo exterminador. Todas essas desgraças lhes aconteceram para nosso exemplo; foram escritas para advertência nossa, para nós, que tocamos o final dos tempos (1 Cor 10,10-11).

2 – “Que também se lembrem a quantas provas Isaac foi submetido e de tudo o que aconteceu a Jacó, na Mesopotâmia da Síria, quando apascentava os rebanhos de Labão, irmão de sua mãe. Todos aqueles que agradaram a Deus permaneceram fiéis apesar das muitas tribulações. Aqueles porém, que não aceitaram essas provocações no temor ao Senhor e se impacientaram murmurando contra ele, foram feridos pelo exterminador e pereceram pelas serpentes” (Jd 8,23-25).

Além da obra de Judite, São Paulo faz uso do livro “Sabedoria de Salomão”. No verso abaixo, a “Sabedoria de Deus” está presente desde antes de todos os séculos:

3 – “Ensinamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão, destinou para a nossa glória” (1 Cor 2,7).

3 – “Contigo está a Sabedoria que conhece tuas obras, estava presente quando fazia o mundo; ela sabe o que é agradável a teus olhos e o que é conforme aos teus mandamentos” (Sb 9,9).
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Epístola de São Paulo aos Romanos (55-58 d.C):

Nesse texto da epístola aos Romanos, além da passagem de Dt 30,11-12 que faz referência similar à justiça e a sabedoria (para nós, Jesus, fonte de toda a sabedoria) e o questionamento de quem poderia subir ao céu para consegui-lá, São Paulo faz uso de dois livros deuterocanônicos para exprimir sua ideia:

1Moisés, com efeito, escreveu a respeito da justiça que provém da Lei: é cumprindo-o que o homem vive por ela; ao passo que a justiça que provém da fé assim se exprime: não diga em teu coração: <Quem subirá ao céu?> Isto é, para fazer descer Cristo” (Rm 10,5-6).

1Armei a minha tenda nas alturas e meu trono era coluna de nuvens” (Eclo 24,4).

1Quem subiu ao céu e apoderou-se dela, e a fez descer do alto das nuvens?” (Br 3,29).

São Tiago (? a 62 d.C.)
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Epístola católica de São Tiago (fim do século I, início do século II ou 62 d.C):

São Tiago ao escrever um texto inteiro sobre a “língua”, usa o livro de “Eclesiástico” para referenciar suas palavras:

 1Assim também a língua, embora seja pequeno membro do corpo, se jacta de grandes feitos! Notai como pequeno fogo incendeia floresta imensa. Ora, também a língua é fogo. Como o mundo do mal, a língua é posta entre os nossos membros maculando o corpo inteiro e pondo em chamas o ciclo da criação, inflamada como é pela geena” (Tg 3,5-6).

1Muitos caíram pelo fio da espada, porém muito mais foram os que caíram por causa da língua. Feliz do que se protege contra ela, que não passou pelo seu furor, que não arrastou o seu jugo e não foi amarrado pelas suas cadeias. Vela para não dares passo em falso com a língua, cairias diante daquele que te espreita” (Eclo 28,18-19.26 ou Eclo 28,22-23.30).


Epístola aos Hebreus (67 d.C)
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Epístola aos Hebreus (67 d.C):

O escritor da epístola aos hebreus, cita claramente o livro de 2 Macabeus, onde, é relatado o martírio dos “sete irmãos” e a esperança de cada um deles de serem ressuscitados no futuro:

1Algumas mulheres reencontram seus mortos pela ressurreição. Outros foram torturados, recusaram o resgate para chegar a uma ressurreição melhor” (Hb 11,35).

1Chegando já ao último alento disse: <Tu, celerado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do mundo nos fará ressuscitar para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis! Passado também este à outra vida, começaram a torturar da mesma forma ao quarto, desfigurando-o. Estando ele já próximo a morrer, assim falou: <É desejável passar para a outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus a esperança de ser um dia ressuscitado por ele” (2 Mc 7,9.13-14).
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Além da clara citação de do livro de 2 Mc, o autor da epístola, ao comparar (assim como outros escritos) a Sabedoria com o Cristo, utiliza uma passagem do livro da “Sabedoria de Salomão” para expressar sua ideia:

2 – “Ele é o resplendor de sua glória e a expressão de sua substância; sustenta o universo com o poder de sua palavra; e depois te ter realizado a purificação dos pecados, sentou-se nas alturas à direita da Majestade” (Hb 1,3).

2 – “Pois ela é o resplendor da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade” (Sb 7,26).

OBS: É importante ressaltar que o uso da palavra “resplendor” (παγασμα) nesse contexto, aparece unicamente na epístola aos Hebreus (NT), assim como no livro da Sabedoria (VT). Dessa forma, é praticamente impossível dizer que os autores bíblicos não estivessem em mãos com a septuaginta ao registrar suas palavras.


São Mateus (? a 72 d.C.)500x639_aaa5c0f0c1d2c743941051ba57b634a2.jpg

Evangelho Segundo São Mateus (70 d.C):

Na passagem descrita abaixo do evangelho de São Mateus, nosso Senhor muito provavelmente, parafraseou semelhante texto do livro de Baruc:

1Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos Céus, com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8,11).

1Dirige teu olhar para o Oriente, Jerusalém, e vê a alegria que te vem da parte de Deus! Olha: estão chegando teus filhos, a quem viste partir; eles vêm, reunidos do nascente ao poente sob a ordem do Santo, jubilando com a glória de Deus” (Br 4,36-37).
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Além da citação aqui exposta, encontramos no mesmo evangelho, outros dois exemplos onde a Septuaginta é usada através de citações dos livros “protocanônicos”. O primeiro uso no evangelho de São Mateus está na descrição da anunciação:

2 – “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: <Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel>, o que traduzindo significa ‘Deus conosco’” (Mt 1,22-23).

Nessa passagem, Mateus utiliza a profecia segundo a LXX (virgem), diferente do texto hebraico que descreve a mulher apenas como uma “jovem”:

2Texto grego – “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará a luz um filho, e o chamará <Deus Conosco>” (Is 7,14 – “Bíblia Sagrada Ave Maria”).

2Texto Hebraico– “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe o nome de Emanuel>” (Is 7,14 – “Bíblia de Jerusalém” [utilizando o texto hebraico)].

Quanto ao uso do termo hebraico “almah” (jovem, donzela) no texto massorético, a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém faz o seguinte comentário:

A tradução grega traz “a virgem”, precisando assim o termo hebraico ‘almah’ que designa, quer a donzela, quer uma jovem casada recentemente, sem explicar mais. O texto da setenta é, porém, testemunho precioso da interpretação judaica antiga, que será consagrada pelo Evangelho. Mt 1,23 encontra aqui o anuncio da concepção virginal de Cristo”.
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O segundo exemplo está nas palavras do próprio Jesus. Cristo, ao falar contra os escribas e chefes dos sacerdotes a respeito da exclamação que as crianças faziam (Hosana ao filho de Davi), usa um Salmo:

3“Os chefes dos sacerdotes e os escribas, vendo dos prodígios que fizera e as crianças que exclamavam no Templo <Hosana ao filho de Davi>, ficaram indignados e lhes disseram: <Estás ouvindo o que estão a dizer?>, Jesus respondeu: <Sim. Nunca lestes que: ‘Da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito preparaste um louvor para ti’?> (Mt 21,15-16).

Nesse cenário, o salvador usa as palavras de acordo com a versão dos Setenta, texto esse, diferente do encontrado na versão hebraica:

3Texto grego – “Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários, e reduz ao silêncio vossos inimigos” (Sl 8,3 – “Bíblia Sagrada Ave Maria”).

3Texto Hebraico– “Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários para fazeres emudecer o inimigo e o vingador” (Sl 8,2 – “Bíblia Hinário e Novo Cântico [IPB]”].


São Lucas (? a 84 d.C.)10-18-sao-ludgero

Evangelho Segundo São Lucas (80 d.C):

A descrição dos sofrimentos do Senhor que pode ser lida através do evangelho de São Lucas, já estava profetizada no livro da “Sabedoria”:

1O povo permanecia lá, olhando. Os chefes, porém, zombavam, e diziam: <A outros salvou, que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito!> E diziam: <Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo>. Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: <Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós>” (Lc 23,35.37.39).

1Cerquemos o justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas ações, nos censura às faltas contra a Lei, nos acusa e faltas contra a nossa educação. Declara ter o conhecimento de Deus e se diz filho do Senhor; ele se tornou acusador de nossos pensamentos, basta vê-los para nos importunarmos; sua vida se distingue da dos demais e seus caminhos são todos diferentes. Ele nos tem em conta de bastardos; de nossas vias se afasta, como se contaminassem. Proclama feliz o destino dos Justos e se gloria de ter a Deus por pai. Vejamos se suas palavras são verdadeiras, experimentemos o que será do seu fim. Pois se o justo é filho de Deus, ele o assistirá e o libertará das mãos de seus adversários. Experimentemo-lo pelo ultraje e pela tortura a fim de conhecer sua serenidade e pôr a prova sua resignação. Condenemo-lo a uma morte vergonha por diz que há quem o visite” (Sb 2,13-20).
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Ainda no evangelho de São Lucas, Jesus Cristo repete um ensinamento encontrado no livro do “Eclesiástico”:

2 – “E contou-lhes uma parábola: <A terra de um rico produziu muito. Ele, então, refletia: ‘Que hei de fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Depois pensou: ‘Eis o que farei: demolirei meus celeiros, construir maiores e lá recolherei todo o meu trigo e os meus bens. E direi à minha alma: Minha alma, tens uma quantidade de bens em reserva para muitos anos; repousa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus lhe diz: ‘Insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?’ Assim acontece aquele que ajunta tesouros para si mesmo, e não é rico para Deus> ” (Lc 12,16-21).

2 – “Há quem se enriquece por avareza; esta será a sua recompensa: quando ele disser: <Encontrei descanso, agora comerei dos meus bens>, não sabendo quando virá aquele dia, deixará tudo a outros e morrerá” (Eclo 11,18-29).
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Atos dos Apóstolos, segundo São Lucas (70 ou 80 d.C):

Um grande exemplo do uso da septuaginta por parte dos escritos do NT testamento, está no uso de informações que constam nos livros gregos e não na versão hebraica. São Lucas, ao relatar o discurso de Estevão, faz menção sobre um número de “75 pessoas” que foram trazidas para o Egito:

1Então, José mandou chamar a Jacó, seu pai, e toda a sua parentela, isto é, setenta e cinco pessoas. Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele e também nossos pais” (At 7,14-15).

Entretanto, uma rápida verificação em uma versão protestante (João Ferreira de Almeida), fará com que nós percebamos que o número informado, está diferente do afirmado por Santo Estevão:

1E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram dois. Todas as pessoas da casa de Jacó, que vieram para o Egito, foram setenta” (Gn 46,27 – “Bíblia Hinário e Novo Cântico [IPB]”).

Qual seria o motivo dessa divergência numérica? A resposta é óbvia: São Lucas, narra o discurso de Estevão onde ele, faz menção a um conteúdo exposto pela versão dos 70. A “Bíblia de Jerusalém” em sua nota de rodapé, referente a essa passagem, faz o seguinte comentário:

A versão grega acrescenta cinco descendentes de Efrain e de Manassés, donde o total de setenta e cinco, conservado por At 7,14” (Bíblia de Jerusalém, nota referente a Gn 46,27, pg 95)

Isto é, o uso da tradução realizada pelo Rei Ptolomeu II, não era só bem aceita, como fazia parte do uso correntes dos Judeus da época do Cristo.


São João (9 a 103 d.C.)JoãoEvangelista.JPG

Evangelho Segundo São João (95 d.C):

São João em seu evangelho comenta sobre a famosa “festa da dedicação”. Festa essa narrada no livro de 1ª Macabeus:

1Houve então a festa da Dedicação, em Jerusalém. Era inverno” (Jo 10,22).

1Então Judas e seus irmãos disseram: <Nossos inimigos estão destroçados. Subamos agora para purificar o lugar e a celebrar a sua dedicação>. E Judas, com seus irmãos e toda a assembleia de Israel, estabeleceu que os dias da dedicação do altar seriam celebrados a seu tempo, cada ano, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de Casleu, com júbilo e alegria” (1 Mc 4,36.59).

Ao que tudo indica, o evangelista João tinha um grande conhecimento no que diz respeito às passagens do livro da “Sabedoria” que poderiam ser ligadas a Jesus. O entendimento teológico afirma que o Cristo além de ser o Verbo (palavra de Deus) é também a sabedoria encarnada (verificar Mt 23,34, Lc 11,49 e 1 Cor 2,17). Dessa forma, percebemos que o apóstolo utiliza abundantemente a obra para traçar a “sabedoria” manifestada pelos escritos do VT com Jesus (a sabedoria revelada). Comparemos as citações e o uso da LXX pelos escritores primitivos:
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A sabedoria/verbo estava presente na criação do mundo

1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. No princípio ele estava com Deus.” (Jo 1,1-2).

1Contigo está a Sabedoria que conhece as tuas obras, estava presente quando fazias o mundo; ela sabe o que é agradável a teus olhos e o que é conforme aos teus mandamentos” (Sb 9,9).
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Tudo foi criado através da sabedoria/verbo

2 – “Todas as coisas foram feitas por meio dele e sem ele nada se fez do que foi feito” (Jo 1,3).

2 – “Tudo conheço, oculto ou manifesto, pois a Sabedoria, artífice do mundo, mo ensinou” (Sb 7,21-22).
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Amar a Sabedoria/Cristo guarda seus mandamentos

3 – “Se me amais, observareis meus mandamentos” (Jo 14,15).

3 – “O amor é a observância de suas leis, o respeito das leis é garantia de incorruptibilidade” (Sb 6,18).
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A Sabedoria/Palavra se opõe as trevas

4 – “E a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a aprenderam” (Jo 1,5).

4 – “Pois a luz cede lugar à noite, ao passo que sobre a Sabedoria não prevalece o mal” (Sb 7,30).
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O livro das revelações (Apocalipse), segundo São João (95 d.C):

Especificamente na passagem descrita abaixo, entendemos que de acordo com as visões de São João, há diante do altar de Deus um total de 7 (sete) anjos. Na obra de Tobias, o Anjo Rafael se apresenta como um dos “sete” que possuem acesso à sua presença:

 1 – “Vi então os sete Anjos que estão diante de Deus: deram-lhes sete trombetas” (Ap 8,2).

1 – “E Deus me enviou também para curar a ti e a Sara, tua nora. Eu sou Rafael, um dos sete anjos que permanecem diante da glória do Senhor e tem acesso à sua presença” (Tb 12,14-15).
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São João ao descrever a Jerusalém celeste, associa suas visões ao relato do livro de Tobias sobre a restauração da cidade santa:

2 – “O material de sua muralha é jaspe, e a cidade é de ouro puro, semelhante a um vidro límpido. Os alicerces da muralha da cidade são recamados com todo tipo de pedras preciosas: o primeiro alicerce é de jaspe, o segundo de safira, o terceiro de calcedônia, o quarto de esmeralda, o quinto de sardônica, o sexto de cornalina, o sétimo de crisólito, o oitavo de berilo, o nono de topázio, o décimo de crisópraso, o décimo primeiro de jacinto, o décimo segundo de ametista. As doze portas são doze pérolas: cada uma das portas era feita de uma só perola. A praça da cidade é de outro puro como cristal transparente” (Ap 21,18-21).

2 – “Porque Jerusalém vai ser reconstruída, e sua Casa para sempre! Serei feliz, se restar alguém da minha raça para ver tua glória e te louvar o Rei do Céu! As portas de Jerusalém serão construídas com safiras e esmeraldas, e todas as tuas muralhas, com pedras preciosas; as torres de Jerusalém serão construídas com ouro, e com ouro puro as suas muralhas. As praças de Jerusalém serão calçadas com rubis e pedras de Ofir; as portas de Jerusalém entoarão cânticos de alegria; e todas as suas casas cantarão: Aleluia! Bendito seja o Deus de Israel! Em ti bendirão o santo Nome, pelos séculos dos séculos” (Tb 13,16-18).


Papa Clemente Romano (35 a 97 d.C)image001

Epístola aos Coríntios, segundo Clemente Romano (81-96 d.C):

Muitas mulheres, fortificadas pela graça de Deus, realizaram numerosas ações viris. A bem-aventurada Judite, no cerco de sua cidade, pediu aos anciãos permissão para sair e se dirigir ao acampamento dos estrangeiros. Ela, portanto, enfrentou o perigo. Saiu da cidade por amor à pátria e ao povo que estava cercado. E o Senhor entregou Helofernes nas mãos de uma mulher” (1 Cor 55,4-5).

(Comentário) – Encontramos aqui, talvez, o primeiro registro do uso de um livro deuterocanônico por um pai da Igreja. Clemente de Roma foi O quarto papa (88 à 97) na linhagem petrina. De certo, o uso da LXX já era tão claro que Romano, usa a história de Judite para descrever uma situação de exemplo para os novos cristãos.

 

II SÉCULO (101 a 200 d.C)

São Justino de Roma (100 a 160 d.C.)
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I Apologia, segundo Justino de Roma (155 d.C):

Entre os judeus, houve profetas de Deus, através dos quais o Espírito profético anunciou antecipadamente os acontecimentos futuros, e os reis, que segundo os tempos se sucederam entre os judeus, apropriando-se de tais profecias, guardaram-nas cuidadosamente tal como foram ditas e tal como os próprios profetas as consignaram em seus livros, escritos em sua própria língua hebraica. Quando Ptolomeu, rei do Egito, se preocupou em formar uma biblioteca e nela reunir os escritos de todo o mundo, tendo tido notícia dessas profecias, mandou uma embaixada a Herodes, que então era rei dos judeus, pedindo-lhe que mandasse os livros deles. O rei Herodes mandou os livros, como dissemos, em sua língua hebraica. Todavia, como seu conteúdo não podia ser entendido pelos egípcios, Ptolomeu pediu, por meio de uma nova embaixada, que Herodes enviasse homens para os verter para a língua grega. Depois disso, os livros permaneceram entre os egípcios até o presente e os judeus os usam no mundo inteiro. Estes, porém, ao lê-los, não entendem o que está escrito, mas considerando-nos inimigos e adversários, matam-nos, como vós o fazeis, e atormentam-nos sempre que podem fazê-lo, como podeis facilmente verificar. Com efeito, na guerra dos judeus agora terminada, Bar Kókeba, o cabeça da rebelião, mandava submeter a terríveis torturas somente os cristãos, caso estes não negassem e blasfemassem Jesus Cristo” (I Apologia 31,1-6).
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Diálogo com Trifão, segundo Justino de Roma (aproximadamente +150 d.C):

Todavia, é claro para todos que, fora o nosso Cristo, ninguém nasceu de uma virgem na descendência carnal de Abraão, nem de ninguém se afirmou tal coisa. Contudo, como vós e vossos mestres vos atreveis a dizer, primeiro que o texto da profecia de Isaías não diz “Vede que uma virgem conceberá”, mas: “Vede que uma mulher jovem conceberá e dará à luz”, e depois a interpretais como referida ao vosso rei Ezequias. Também tentarei discutir esse breve ponto contra vós e demonstrar-vos que a profecia se refere a esse que nós confessamos como Cristo” (Diálogo com Trifão 43,7).

(Comentário) – Nessa parte do diálogo, Justino ironiza o fato dos mestres judeus, usando da versão hebraica, insistirem em afirmar que a profecia de Isaias estaria se referindo a uma “jovem mulher”, não a uma “virgem”. Aqui, fica claro que a septuaginta tinha de fato, amplo uso para os primeiros cristãos.

Trifão confirmou: — Certamente. Eu prossegui: — Portanto, se vos demonstro que esta profecia se refere a nosso Cristo e não, como vós dizeis, a Ezequias, não será bom que eu também vos exorte a não crer em vossos mestres, que se atrevem a afirmar que, em alguns pontos, não é exata a tradução feita pelos vossos setenta anciãos que se hospedaram junto a Ptolomeu, rei do Egito? Desse modo, quando uma passagem da Escritura os argúi fortemente de opinião insensata e pessoal, eles se atrevem a dizer que no texto original não está assim. E os que pensam poder forçar e aplicar às ações humanas que imaginam convenientes, dizem que isso não foi por causa de nosso Jesus Cristo, mas por quem eles pretendem interpretá-lo. É o que acontece com a presente Escritura, a respeito da qual estamos conversando e que vos ensinaram que foi dita com referência a Ezequias” (Diálogo com Trifão 68,7-8).

Não me deixo persuadir por vossos mestres, que não admitem estar bem feita a tradução de vossos setenta anciãos que estiveram com Ptolomeu, rei do Egito, mas colocaram-se eles mesmos a traduzir. Além disso, quero que saibais que eles eliminaram completamente muitas passagens da versão dos setenta anciãos que estiveram com o rei Ptolomeu, nas quais se demonstra que esse mesmo Jesus crucificado foi claramente anunciado como Deus e homem, e que havia de ser crucificado e morrer. Como sei que todos os de vossa raça os rejeitam, não me detenho em discuti-los, mas passo às provas tomadas dos que ainda admitis. Com efeito, todos vós reconheceis todos os textos que até agora vos citei, exceto o seguinte: <Eis que uma virgem conceberá>, que vós dizeis que se deve ler: <Eis que uma jovem conceberá>. Eu vos prometi demonstrar que esta profecia não se refere à Ezequias, como vos ensinaram, mas a este meu Cristo. Agora vos apresentarei a minha demonstração” (Diálogo com Trifão 71,1-3).

Eu continuei: — Se fosse possível, discutiria convosco sobre a expressão que interpretais, dizendo que o original é: <Até que venha o que lhe está reservado>. Os setenta não interpretaram assim, mas: <Até que venha aquele a quem está reservado>. Como o que vem em seguida indica que se disse de Cristo — de fato, diz: “E ele será a esperança das nações” — eu não discuto convosco por causa de uma pequena frase, do mesmo modo como não me empenhei em fundamentar minha demonstração sobre Jesus Cristo em Escrituras que não são reconhecidas por vós” (Diálogo com Trifão 120,4-5).

(Comentário) – No diálogo acima, Justino continua justificando seu argumento com base na versão dos 70 sábios e afirma que não utilizou as escrituras para fundamentar a crença no Cristo, justamente porque os judeus dá época, só aceitavam os livros da versão hebraica (caso semelhante acontece em nossos dias, quando, ao conversarmos com um protestante, o oponente dificilmente aceitará argumentos que partam dos livros deuterocanônicos).

Todavia, na versão dos Setenta, se diz: “Vede que morrereis como homens e caireis como um dos príncipes”, aludindo à desobediência dos homens, isto é, de Adão e Eva, e à queda de um dos príncipes, aquele que se chama serpente, e deu uma grande queda por ter enganado Eva” (Diálogo com Trifão 124,3).

Vou, portanto, citar-vos as palavras pelas quais se vê como Deus dividiu todas as nações: <Pergunta a teus pais, e ele te contará; e a teus avós, e eles te dirão. Quando o Altíssimo dividia as nações, quando dispersava os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos filhos de Israel, e a porção do Senhor foi o seu povo Jacó, e a corda de sua herança foi Israel>. Depois, fiz notar que os Setenta traduziram: “Estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos anjos de Deus”. Como, porém, essa variante não é importante em nada para o meu raciocínio, eu citei a vossa interpretação” (Diálogo com Trifão 131,1).

Como ficassem calados, eu continuei: — Amigos, agora cito para vós as Escrituras como foram interpretadas pelos Setenta. Com efeito, antes eu as citei como vós as tendes, para provar que opinião tínheis sobre o ponto particular. Ao trazer-vos a passagem: <Ai deles! Porque formaram um desígnio mau contra si mesmos, dizendo…>. Continuei depois conforme os Setenta: <Eliminemos o justo, porque ele nos é molesto>. Em troca, no começo de nossa conversa, eu vos citei como quereis que tenha sido dito: <Amarremos o justo, porque ele nos é molesto>” (Diálogo com Trifão 137,3).


Santo Irineu (130 a 202 d.C)582598_253048494790840_1670322794_n

 

Contra as Heresias, segundo Santo Irineu de Lião (180 d.C):

Estes, porém, ao quererem explicar as Escrituras e as parábolas, introduzem outra questão mais ampla e ímpia, isto é, se acima do Deus criador do mundo há outro deus. Assim não resolvem a questão, nem o poderiam, se introduzem numa pequena questão outra considerável, dando um nó que não se pode desatar. De fato, para mostrar que sabem por que o Senhor foi receber o batismo da verdade justamente aos trinta anos, sem o saber, desprezam sacrilegamente o próprio Deus criador que o enviou para a salvação dos homens. E para que se pense que são capazes de explicar a origem da substância material, ao invés de acreditar que Deus criou do nada (2 Mc 7,28) todas as coisas e as fez existir como quis, servindo-se da sua vontade e poder como substância, ajuntaram discursos vazios, demonstrando claramente a sua incredulidade. Assim, não prestando fé nas coisas reais caíram no irreal” (Contra as Heresias [II livro] 10,2).

(Comentário) – Neste trecho, Irineu usa uma passagem do segundo livro de Macabeus para dizer que Deus criou do nada todas as coisas: “Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra e observa tudo o que neles existe. Reconhece que não foi de coisas existentes que Deus os fez, e que também o gênero humano surgiu da mesma forma” (2 Mc 7,28).

Foi, portanto, Deus que se fez homem, o próprio Senhor que nos salvou, ele próprio que nos deu o sinal da Virgem. Por isso não é verdadeira a interpretação de alguns que ousam traduzir assim a Escritura: “Eis que uma moça conceberá e dará à luz um filho”, como fizeram Teodocião de Éfeso e Áquila do Ponto, ambos prosélitos judeus; seguidos pelos ebionitas, que dizem que Jesus nasceu de José, destruindo assim, por aquilo que está em seu poder, esta grande economia de Deus e reduzindo a nada o testemunho dos profetas, que é o de Deus. Trata-se de profecia feita antes da deportação do povo para Babilônia, isto é, antes que os medos e os persas tomassem o poder e foi traduzida para o grego pelos próprios judeus muito tempo antes da vinda de nosso Senhor, para que não fique nenhuma suspeita de que traduziram assim para nos agradar. Com efeito, se tivessem sabido da nossa existência e que nos serviríamos do testemunho das Escrituras, não teriam hesitado em queimar com as suas próprias mãos as suas Escrituras que declaram abertamente que todas as outras nações participariam da vida, ao passo que os que se gloriam de pertencer à casa de Jacó e de ser o povo de Israel seriam deserdados da graça de Deus” (Contra as Heresias [III livro] 21,1).

(Comentário) – Trecho importantíssimo para entender a relação da LXX com os primeiros cristãos. Seguindo a tradução dos setenta e se baseando na interpretação dada por São Mateus em seu evangelho, Irineu (assim como Justino, ver acima) afirma que a interpretação correta de Is 7,14 é a que consta na Septuaginta, isto é, diferente do que consta na versão hebraica; “virgem” (e não moça como querem os judeus) é prova fiel e verdadeira da profecia do nascimento virginal de Jesus.

Antes que os romanos estabelecessem o seu império, quando os macedônios mantinham ainda a Ásia em seu poder, Ptolomeu, filho de Lago, que havia fundado em Alexandria uma biblioteca, desejava enriquecê-la com os escritos de todos os homens, pediu aos judeus de Jerusalém uma tradução, em grego, das suas Escrituras. Eles, então, que ainda estavam submetidos aos macedônios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, os mais competentes nas Escrituras e no conhecimento das duas línguas, para executar o trabalho que desejava. Ele, para os pôr à prova e mais, por medo de que concordassem entre si em falsear a verdade das Escrituras, na sua tradução, fê-los separar uns dos outros e mandou que todos traduzissem toda a Escritura; e fez assim com todos os livros. Quando se reuniram com Ptolomeu e confrontaram entre si as suas traduções, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas verdadeiramente divinas, porque todos, do início ao fim, exprimiram as mesmas coisas com as mesmas palavras, de forma que também os pagãos presentes reconheceram que as Escrituras foram traduzidas sob a inspiração de Deus. Aliás, não há que admirar por ter Deus agido desta forma, se lembrar que, destruídas as Escrituras durante a escravidão do povo sob Nabucodonosor, quando, depois de setenta anos, no tempo de Artaxerxes, rei dos persas, os judeus voltaram à sua terra, Deus inspirou Esdras, sacerdote da tribo de Levi, a reconstruir de memória todas as palavras dos profetas anteriores e restituir ao povo a Lei dada por Moisés” (Contra as Heresias [III livro] 21,2).

As Escrituras, pelas quais Deus preparou e fundou a nossa fé em seu Filho, foram, pois, traduzidas com tanta fidelidade, pela graça de Deus, e conservadas, em toda a sua pureza, no Egito, onde se tornou grande a família de Jacó, depois de ter fugido da fome, em Canaã, e onde também foi salvo nosso Senhor ao escapar à perseguição de Herodes; e como esta tradução foi feita antes do advento de nosso Senhor à terra e antes do aparecimento dos cristãos — pois nosso Senhor nasceu por volta do quadragésimo primeiro ano do império de Augusto, e Ptolomeu, no tempo do qual foram traduzidas as Escrituras, é muito mais antigo — revelam-se verdadeiramente impudentes e temerários os que agora pretendem fazer outra tradução, quando nós os refutamos com estas mesmas Escrituras e os obrigamos a crer na vinda do Filho de Deus. É, portanto, sólida, não forçada, única verdadeira, a nossa fé que tem sua prova evidente nas Escrituras, traduzidas da forma que dissemos, e é isenta de toda interpolação a pregação da Igreja. Ora, os apóstolos, que são bastante anteriores a esta gente, estão de acordo com a tradução mencionada acima e a nossa versão concorda com a dos apóstolos. Pedro, João, Mateus, Paulo, todos os outros apóstolos e seus discípulos anunciaram as coisas profetizadas na forma em que estão contidas na tradução dos anciãos (Contra as Heresias [III livro] 21,3).

(Comentário) – Através das palavras acima, poderíamos até finalizar o artigo. Santo Irineu escreve tal obra por volta do ano 180, isto é, apenas 80 anos após a estruturação do evangelho e do apocalipse de São João (e sua morte). Um tempo relativamente pequeno para que uma Igreja inteira já faça uso completo da septuaginta. A grande verdade é que desde a tradução solicitada por Ptolomeu, não apenas Jesus, mas, todos os apóstolos e a Igreja primitiva usavam com liberdade a LXX. Irineu confirma isso e ao que parece, os judeus por não acreditarem na messianidade de Jesus é que passam a recorrer ao escritos hebraicos para “tentar” reaviar suas crenças.

 

III SÉCULO (201 a 300 d.C)

Orígenes (184 a 253 d.C)3

Tratado sobre os princípios, segundo Orígenes (220 a 230 d.C):

 “A questão seguinte é que Jesus Cristo, Aquele que veio, nasceu do Pai antes de todas as criaturas; ele estava junto do Pai na fundação de todas as coisas (Sb 9,9) ” (Tratado sobre os princípios [prefácio] 4).

Sb 9,9 – “Contigo está a Sabedoria que conhece as tuas obras, estava presente quando fazia o mundo; ele sabe o que é agradável e o que é conforme aos teus mandamentos”.

Vejamos agora que sentido é preciso dar ao que lemos na Sabedoria de Salomão; ele diz que da Sabedoria que ela é <sopro do poder de Deus, e aporroia, isto é, emanação puríssima da glória do Todo-poderoso, esplendor da Luz eterna, espelho imaculado da atividade ou do poder de Deus e imagem da sua bondade (Sb 7,25)>” (Tratado sobre os princípios [1º livro] 9).

Sb 7,25 – “Ela é eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz”.

Examinemos também o que quer dizer <Ela é uma emanação puríssima da glória do Todo-poderoso (Sb 7,25)>” (Tratado sobre os princípios [1º livro] 10).

Sb 7,25 – “Ela é eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz”.

O que me leva a acreditar nisso é a autoridade da Santa Escritura que diz: <Neste século e mais além (Tb 13,18)>” (Tratado sobre os princípios [2º livro] 5).

Tb 13,18 – “Aleluia! Bendito seja o Deus de Israel! Em ti bendirão o santo Nome pelos séculos dos séculos!”.

Diz-se também que, na indumentária do Sumo Sacerdote, estava contida a explicação do mundo, conforme o que se encontra na Sabedoria de Salomão: <Nas vestes do sacerdote o mundo inteiro (Sb 18,24)>” (Tratado sobre os princípios [2º livro] 6).

Sb 18,24 – “Pois em sua veste talar estava o mundo inteiro; em quatro fileiras de pedras preciosas”.
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Homilias sobre o Evangelho de Lucas, segundo Orígenes (220 a 230 d.C.):

 “Isso, porém, sucede aqueles que acreditaram com muita fidelidade: aquilo que o profeta roga com insistência, eles obtiveram; e dizem: <confirma-me nas tuas palavras (Sl 119(118),28)” (Homilia sobre o evangelho de São Lucas 1,3).

Sl 119(118),28 – “Minha alma se desfaz de tristeza, põe-me de pé, conforme a tua palavra”.

(Comentário) – Texto citado por Orígenes conforme a LXX.

Trabalhemos, portanto, nós também para que, no tempo presente, Deus nos apareça, porque a palavra santa da Escritura prometeu: <porque será encontrado por aqueles que não o tentam, ele possa se manifestar àqueles que não são incrédulos a seu respeito (Sb 1,2)” (Homilia sobre o evangelho de São Lucas 3,4).

Sb 1,2 – “Porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam, ele se revela aos que não lhe recusam a fé”.

Antes de João, Isabel profetiza; antes do nascimento do Senhor Salvador, Maria profetiza. E como o pecador começou com o erro de uma mulher (Eclo 25,24) (…)” (Homilia sobre o evangelho de São Lucas 8,1).

Eclo 25,24 – “Foi pela mulher que começou o pecado, por sua culpa todos morremos”.

Em verdade foi <o cume da salvação da casa de Davi>, porque esta profecia já se encontra cantada <A vinha foi plantada em um cume> (Is 5,1)”. (Homilia sobre o evangelho de São Lucas 10,2).

Is 5,1 – “Eu quero cantar para o meu amigo seu canto de amor a respeito de sua vinha: meu amigo possuía uma vinha num outeiro fértil”.

(Comentário) – Texto citado por Orígenes conforme a LXX.

Grande é o coração do homem, imenso e capaz de acolher a Palavra, desde que seja puro! Queres conhecer sua grandeza e sua largueza? Vê a extensão dos conhecimentos divinos que ele compreende. Ele próprio diz: <Ele me deu um conhecimento verdadeiro das coisas que há: ele me fez conhecer a estrutura do mundo, as propriedades dos elementos, o começo, o fim e o meio dos tempos, as mudanças das estações, a sucessão dos meses, os ciclos dos anos, a posição dos astros, a natureza dos animais e o furos dos animais selvagens, as violências dos espíritos e os pensamentos dos homens, as variedades de árvores e as virtudes das raízes (Sb 7,17-20)” (Homilia sobre o evangelho de São Lucas 21,6).

Sb 7,17-20 – “Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, as alternâncias dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes”.

 

IV SÉCULO (301 a 400 d.C.)

Eusébio de Cesaréia (263 a 339 d.C.)eusebio

História Eclesiástica, segundo Eusébio de Cesaréia (303 a 324 d.C.):

“(…) Cânticos dos Cânticos –, Sirassireim, Isaías, Iessia; Jeremias, com as Lamentações e a Carta em um só livro, Ieremia; Daniel, Daniel, Ezequiel, Ezechiel, Jó, Job, Ester, Esther. Além destes, os Macabeus, intitulados Sarbethsabanaiel” (HE [Livro VI] 25,2).

(Comentário) – Neste pequeno trecho, o historiador Eusébio de Cesaréia, cita a composição do cânon creditada por Orígenes e nele, é possível perceber a referência dos livros dos Macabeus.


Basílio de Cesaréia (330 a 379 d.C)basilio1.jpg

Homilia sobre do Evangelho de São Lucas, segundo Basílio de Cesaréia (330 a 379):

“Dúplice é a espécie da tentação: de um lado, as tribulações que põem à prova o coração como o ouro no crisol (Sb 3,6)” (Homilia sobre o evangelho de S.Lucas, 1).

Sb 3,6 – “Examinou-os como o ouro no crisol e aceitou-os como perfeito holocausto“.
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Tratado sobre o Espírito Santo, segundo Basílio de Cesaréia (330 a 379):

A meu ver, as posições de pé e sentado demonstram a firmeza e a perfeita estabilidade da natureza, como também diz Baruc, acentuando a imobilidade e a imutabilidade da vida divina: <Tu , sim, permaneces eternamente em teu trono; enquanto nós, para sempre estamos perdidos> (Br 3,3), (Tratado sobre o Espírito Santo, 15).

Br 3,3 – “Tu, sim, permaneces eternamente em teu trono; enquanto nós, para sempre estamos perdidos“.

Ele não age corporalmente, nem precisou do trabalho das mãos para criar, mas a natureza das criaturas obedece à sua vontade a agir sem violência. Assim, disse Judite: <O que pensaste aconteceu. O que determinaste se apresentou” (Jd 9,4), (Tratado sobre o Espírito Santo, 19).

Jd 9,4 – “Vós dispusestes os acontecimentos do passado, determinastes que uns sucedessem a outros e nada aconteceu sem que vós o quisésseis“.

Quanto ao Espírito, ao contrário, acredita-se que simultaneamente agia a favor de Habacuc e de Daniel em Babilônia (Dn 14,33) e que estava junto à grade levadiça com Jeremias (Jr 20,2) e com Ezequiel às margens do Cobar (Ez 1,1). Pois <o Espírito do Senhor enche o universo> (Sb 1,7)”  (Tratado sobre o Espírito Santo, 54).

Sb 1,7 – “O Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que mantém unidas todas as coisas, não ignora nenhum som“.

O Espírito ultrapassa todo entendimento (Fl 4,7) e desafia a linguagem, que não exprime nem a menor porção de sua dignidade, segundo a palavra do livro intitulado: Sabedoria (de Sirac): <Que vossos louvores exaltem o Senhor, segundo o vosso poder, porque ele vos excede. Para o exaltar, desdobrai vossas forças, não vos canseis, porque nunca chegareis ao fim (Eclo 43,30)”  (Tratado sobre o Espírito Santo, 70).

Eclo 43,30 – “Que vossos louvores exaltem o Senhor, conforme podeis, porque ele vos excede. Para o exaltar desdobrai vossas forças, não vos canseis, porque nunca chegareis ao fim“.


Santo Ambrósio de Milão (337 a 397 d.C.)Santo Ambrosio de Milao.png

Sobre a Penitência, segundo Santo Ambrósio de Milão (387 a 393 d.C.):

 “Comovido finalmente pela intercessão e pelas súplicas deste grande profeta, o Senhor se dirige a Jerusalém, ordenando-lhe de pôr as vestes de ouro e cessar os gemidos de penitência, porque ela também fizera penitência por seus delitos, dizendo: <Senhor onipotente, Deus de Israel, minha alma angustiada e meu espírito atormentado clamam a ti; ouve, Senhor, e tem piedade> (Br 3,1-2). Com efeito, assim está escrito no final do livro: <Despoja-te, Jerusalém, de tua vestimenta de luto e sofrimento e veste a beleza desta glória que te foi dada por Deus para sempre>” (Sobre a Penitência [I livro] 9,43).

Br 3,1-2 – “Senhor Todo-poderoso, Deus de Israel, é uma alma angustiada, um espírito perturbado que clama a ti: Escuta Senhor, e tem piedade, porque nós pecamos contra ti”.


Santo Agostinho (354 a 430 d.C)santo-agostinho-de-hippo

O Sermão da Montanha [livro I], segundo Santo Agostinho (393 a 394 d.C.):

Essa bem-aventurança não poderia ter sido iniciada de outro modo, porque ela deve fazer-nos chegar à suma sabedoria, e que: <O princípio da sabedoria é o temor de Deus> (Eclo 1,16). Enquanto, pelo contrário, <O princípio de todo o pecado é a soberba> (Eclo 10,15). (Livro I, 3)

Eclo 1,16 – “A plenitude da sabedoria é respeitar o Senhor: com seus frutos embriaga seus fiéis”.

Eclo 10,15 – “Porque o princípio do orgulho é o pecado e o que possui difunde abominação”.

Insensatos são os que buscam a Deus com estes olhos corporais, já que ele somente pode ser visto com os olhos do coração. Assim está escrito: <Buscai o Senhor com simplicidade de coração> (Sb 1,1)”. (Livro I, 8).

Sb 1,1 – “Amai a justiça, vós que julgais a terra, pensai no Senhor com retidão, procurai-o com simplicidade de coração”.

Isaías, com efeito, começa a sua enumeração pela sabedoria e termina pelo termo de Deus. Mas o princípio da sabedoria é o temos de Deus (Eclo 1,16)”. (Livro I, 11).

Eclo 1,16 – “A plenitude da sabedoria é temer o Senhor (…)”.

Podem eles ainda encontrar outra prova do que disséssemos, em certos livros, aos quais atribuem grande autoridade. Lê-se aí que o apóstolo São Tomé imprecou como punição um gênero de morto horrível a um homem que o havia esbofeteado. Pedira, porém, a Deus, ao mesmo, de poupar sua alma na outra vida. Esse homem, tendo sido logo depois morto por um leão, a sua mão foi decepada do corpo e levada por um cão junto à mesa onde o apóstolo tomava refeição. Nós não podemos admitir a autoridade desse livro, pois não faz parte do cânon da Igreja Católica (Livro I, 65).

(Comentário) – Neste belíssimo trecho, Santo Agostinho afirma que um livro só pode ser aceito se estiver no “cânon da Igreja Católica”. Logo, é possível perceber a autoridade da Igreja sobre a formação da lista que contém os livros inspirados.
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O Sermão da Montanha [livro II], segundo Santo Agostinho (393 a 394 d.C.):

Pois, sem tentação, nenhum homem pode ficar provado, nem a seus próprios olhos, conforme está escrito: <Quem sabe aquele que não foi provado?> (Eclo 34,10). (Livro II, 30)

Eclo 34,10 – “Quem não foi provado, conhece poucas coisas”.

Vemos assim que José foi tentado por seduções impuras e não sucumbiu à tentação. Suzana foi igualmente submetida à mesma tentação, e tampouco foi arrastada nem vencida pela tentação (Dn 13,1-64). (Livro II, 32)

(Comentário) – Santo Agostinho, utilizando de forma plena os deuterocanônicos em seus sermões, cita os fragmentos adicionados pela LXX ao livro de Daniel.

O Espírito Santo convida-nos a deixar essa falsa segurança, dizendo por um profeta: <Filho, não amontoes pecados sobre pecados, e não digas: A misericórdia do Senhor é grande> (Eclo 5,5-6). (Livro II, 48)

Eclo 5,5-6 – “Não sejas tão seguro do perdão para acumular pecado sobre pecado. Não digas: <Sua misericórdia é grande para perdoar meus inúmeros pecados>”.
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Confissões, segundo Santo Agostinho (397 a 400 d.C.):

Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordiosíssimo, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo e nunca antigo, tudo inovando (Sb 7,27)” (Confissões, [I Livro] 4,4)

Sb 7,27 – “Por outro lado, sendo só, ela tudo pode; sem nada mudar, tudo renova e, entrando nas almas santas de cada geração, delas fez amigos de Deus e profetas”.

Era um sistema remondado pelos adultos, e muitas crianças antes de nós, que tiveram essa experiência, haviam aberto o doloroso caminho que agora éramos obrigados a percorrer, multiplicando os trabalhos e dores dos filhos de Adão (Eclo 40,1)” (Confissões, [I Livro] 9,14)

Eclo 40,1 – “Enorme dificuldade foi criada para todos os homens, pesado julgo para os filhos de Adão, desde o dia em que saíram do ventre materno, até o dia em que voltarem para a mãe comum”.

Sei que pela tua graça e misericórdia, meus pecados se desfizeram como gelo ao sol (Eclo 3,15)” (Confissões, [II Livro] 7,15)

Eclo 3,15 – “No dia de tua provação, Deus lembrar-se-á de ti, como geada ao sol, assim os teus pecados serão dissolvidos”.

Eu que recordava – por tê-las lido e estudado – as obras de muitos filósofos, comparava algumas delas às prolixas fantasias dos maniqueus, e concluía por achar mais verossímeis a teoria daqueles que possuíram <luz suficiente para poder perscrutar a ordem no mundo, embora não tenham de nenhuma forma encontrado o Senhor> (Sb 11,24)” (Confissões, [V Livro] 3,3)

Sb 11,24 – “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito”.

Seria loucura duvidar de que está em melhor situação do que aquele que sabe medir os céus, contar as estrelas e pesar os elementos, e, no entanto, despreza a ti, que tudo dispuseste com medida, quantidade e peso (Sb 11,20)” (Confissões, [V Livro] 4,7)

Sb 11,20 – “Sem nada disso podiam ter caído num sopro apenas, perseguidos pela justiça, peneirados por teu sopro poderoso, mas tinha predisposto tudo com peso, número e medida”.

E talvez tivesse caído na mesma escravidão, que no momento lhe causava espanto, pois queria fazer um pacto com a morte, e quem ama o perigo, nele perecerá (Eclo 3,27)” (Confissões, [VI Livro] 12,22)

Eclo 3,27 – “O teimoso acarreta desgraças para si mesmo, o covarde acrescenta pecado a pecado”.

Ele é imutável em si mesmo, renova todas as coisas. Tu és, o meu Senhor, porque não tens necessidade de meus bens (Sb 7,27)” (Confissões, [VII Livro] 11,17)

Sb 7,27 – “Sendo uma só, tudo pode; sem mudar em nada, renova o universo (…)”.

Esse peso eram os meus hábitos carnais; mas a tua lembrança me acompanhava, e eu já não duvidava absolutamente da existência de um ser a quem devia estar unido, se bem que ainda não fosse capaz disso, porque <o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados> (Sb 9,15)” (Confissões, [VII Livro] 17,23)

Sb 9,15 – “Porque o corpo mortal é lastro da alma, e a tenda terrestre oprime a mente pensativa”.

Certamente <são insensatos aqueles em quem não habita o conhecimento de Deus, e que através dos bens visíveis não souberam conhecer aquele que é> (Sb 13,1)” (Confissões, [VIII Livro] 1,1)

Sb 13,1 – “Eram naturalmente vãos todos os homens que ignoravam Deus, e foram incapazes de conhecer aquele que é, a partir das coisas boas que estão à vista, e olhando suas obras não reconheceram o artífice”.

Vitorino aceitou a imposição e preferiu renunciar à escola de parolagem em favor da tua Palavra, que torna eloquente a língua das crianças (Sb 10,21)” (Confissões, [VIII Livro] 5,10)

Sb 10,21 – “Porque a sabedoria abriu a boca dos mudos e soltou a língua das crianças”.

Acrescentando, porém, dia a dia, goles sobre goles, escravizou-se a um costume, de modo a esvaziara avidamente copos quase cheios de vinho, pois, quem descuida as coisas pequenas insensivelmente cai nas maiores (Eclo 19,1)” (Confissões, [IX Livro] 8,17)

Eclo 19,1 – “Quem se entrega à bebida não se tornará rico; quem despreza o pequeno irá se arruinando”.

Ouvi outra palavra tua: <Não te deixas levar por tuas más inclinações, e refreia teus apetites> (Eclo 18,30)” (Confissões, [X Livro] 31,45)

Eclo 18,30 – “Filho meu, não sigas teus caprichos, refreia teus desejos”.

O apóstolo reconhece ter recebido os dons de ti e, quando se gloria, é no Senhor que se gloria. Ouvi também outro que te pedia: <Afasta de mim a intemperança> (Eclo 23,5-6)” (Confissões, [X Livro] 31,45)

Eclo 23,5-6 – “Afasta de mim os maus desejos; gula e luxúria não se apoderem de mim, não me entregues à paixão vergonhosa”.

Ó luz, que Tobias contemplava quando, cego dos olhos do corpo, ensinava ao filho o caminho da via e o precedia, caminhando com os passos do amor sem jamais se perder (Cf. Tb 4,2)” (Confissões, [X Livro] 34,52)

(Comentário) – Nesta seção, temos visto o quanto Santo Agostinho utiliza os livros deuterocanônicos em sua obra intitulada de “Confissões”. No trecho em destaque, o doutor de Hipona, narra diretamente a história de Tobit, pai de Tobias.

Não encontramos o tempo antes dessa criatura. De fato, a sabedoria foi criada antes de todas as coisas (Eclo 1,4)” (Confissões, [XII Livro] 15,20)

Eclo 1,4 – “Antes de tudo, foi criada a sabedoria, a inteligência e a prudência, antes dos séculos”.

Mas, ele já não o diz com a sua própria voz, e sim com a tua, porque do alto enviaste o teu Espírito (Sb 9,17)” (Confissões, [XIII Livro] 13,14)

Sb 9,17 – “Quem conhecerá teu desígnio, se tu não lhes dás a sabedoria, enviando do céu teu santo Espírito?”.

 

V SÉCULO (401 a 500 d.C)

São Jerônimo (347 a 420 d.C)9402ae84cf707b7ab25b7eb7dcd35249.jpg

Apologia contra os livros de Rufino, segundo São Jerônimo (402 d.C):

Eu me admiro que ele tenha tratado de homicida e adúltero e sacrílego e parricida e todo tipo de torpezas que o pensamento secreto de uma mente pode revolver em seu interior. Eu devo agradecer-lhe que, sendo tão grande a floresta dos agravos, ele tenha lançado em meu rosto o único agravo de erro ou falsidade. Por acaso, eu falei algo contra a edição dos Setenta, que, há vários anos, com o maior cuidado corrigida, eu ofereci aos estudiosos de minha língua, a qual todos os dias na assembleia dos irmãos, eu explico, sobre cujos salmos eu medito assiduamente pela recitação cantada. Eu seria tão estúpido de querer esquecer na velhice o que aprendi na infância? Todos os meus tratados foram entrelaçados de citações dos Setenta. Os comentários sobre os doze profetas explicam ao mesmo tempo minha própria versão e a dos Setenta.” (Apologia contra Rufino, [II Livro] 24).

(Comentário) – Neste trecho, Jerônimo debate com Rufino e ao que parece, o opositor acusa-o de renegar a versão grega (argumento tipicamente protestante), entretanto, o doutor bíblico expõe que seus tratados e suas exposições estão justamente embasadas na LXX.

Santo Agostinho (354 a 430 d.C)santo-agostinho-de-hippo

O Espírito e a Letra, segundo Santo Agostinho (412 d.C.)

Exporei brevemente o que importa a respeito do assunto. O que a lei das obras ordena ameaçando, a lei da fé o faz crendo. Aquela prescreve: <Não cobiçaras (Ex 20,17)>, esta diz: <Como eu sabia que não podia obter a sabedoria, se Deus não ma desse, e isto já era um efeito da sabedoria, o saber de quem vinha este dom, dirigi-me ao Senhor, e fiz-lhe a minha súplica (Sb 8,21)>” (O Espírito e a Letra; 13,22).

Sb 8,21 – “Ao me dar conta de que somente a ganharia, se Deus ma concedesse – e já era sinal de entendimento saber a origem deste favor – , dirigi-me ao Senhor e rezei dizendo de todo o meu coração“.

Poder-se-ia acrescentar os exemplos de que fala o livro da Sabedoria, como, por exemplo, os grande flagelos com que Deus poderia atormentar os ímpios a um seu sinal servindo-se da criaturas, flagelos que não chegaram a acontecer (Sb 16,24) (O Espírito e a Letra; 35,62).

Sb 16,24 – “Pois a criação, submissa a ti, seu Criador, inflama-se para castigar os injustos e abranda-se para beneficiar os que confiam em ti“.
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A Natureza e a Graça, segundo Santo Agostinho (413 d.C.):

E do veneno mais nocivo que o das feras e serpentes, pois este é mortal para o corpo, aquele, para a alma: <A boca mente mata a alma (Sb 1,11)>” (A Natureza e a Graça; 15,16)

Sb 1,11 – “Guardai-vos, pois, do murmúrio inútil, poupai à vossa língua a maledicência, não há frase furtiva que caia no vazio, a boca caluniadora mata a alma“.

“E a serpete procurou a porta do orgulho para entrar, quando disse: <sereis como deuses (Gn 3,5)>. Por esta razão está escrito: <o início de todo o pecado é a soberba, e: o princípios da soberba do homem é afastar-se de Deus (Eclo 10,14-15)>. (A Natureza e a Graça; 29,33)

Eclo 10,14-15“O princípio do orgulho humano é abandonar o Senhor e ter o coração longe do criador. Por que o princípio do orgulho é o pecado e o que possui difunde abominação”. 

“Mas como o autor se refere a esta vida, em que o corpo corruptível é um peso para a alma e esta morada terrestre abate o espírito que pensa muitas coisas (Sb 9,15) (A Natureza e a Graça; 48,16).

Sb 9,15“Um corpo corruptível pesa sobre a alma e esta tenda de argila faz o espírito pesar com muitas preocupações”. 

“Uma coisa é cumprir o preceito: <Não cobiçaras (Ex 20,17)>, e outras coisa é pelo menos executar, mediante um esforço de abstinência, o que está escrito: <Não te deixe ir atrás de tuas paixões (Eclo 18,30)>, mas saber que para isso é indispensável a graça do Salvador (A Natureza e a Graça; 62,72).

Eclo 18,30 – “Não te deixe levas por tuas paixões e refreia os teus desejos“.
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Fé e Obras, segundo Santo Agostinho (412 a 413 d.C.):

Disso está escrito no livro da Sabedoria, que não sei como é entendido por uma funesta presunção: <Mesmo pecando, somos teus> (Sb 15,2)”. (Fé e Obras, 41).

Sb 15,2 – “Mesmo pecando somos teus, pois reconhecemos tua soberania, mas não pecaremos, sabendo que te pertencemos”.
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Enquirídio: sobre a fé, esperança e caridade, segundo Santo Agostinho (412 a 413 d.C.):

Onde está o sábio? Onde está o homem culto? Onde está o argumentador deste século? Mas sim como um daqueles dos quais está escrito: <Uma multidão de sábios é a salvação do mundo> (Sb 6,24)”. (Enquirídio, 1).

Sb 6,24– “Uma multidão de sábios, ao contrário, é a salvação do mundo, um rei sábio, para o povo, é bem-estar”.

Contudo, o número desses cidadãos, atual ou futuro, é objeto de contemplação de seu artífice que chama à existência o que antes não existia e tudo dispões em medida, número e peso (Sb 11,20b). (Enquirídio, 29).

Sb 11,20b – “(…), mas tudo dispuseste com medida, número e peso”.

Contudo, o número desses cidadãos, atual ou futuro, é objeto de contemplação de seu artífice que chama à existência o que antes não existia e tudo dispões em medida, número e peso” (Enquirídio, 64).

Sb 9,15 – “(…), mas tudo dispuseste com medida, número e peso”.

De modo que, como filhos do homem, rebaixem-se, por alguns impulsos humanos, a si mesmos também na sua alma, sobretudo porque oprimida pelo corpo corruptível, e por isso, pequem (Cf Sb 9,15)”. (Enquirídio, 64).

Sb 9,15 – “Porque o corpo mortal é lastro da alma, e a tenda terrestre oprime a mente pensativa”.

É mais por causa do julgamento futuro que se dá o perdão dos pecados nesta, para cuja extensão vale o que foi escrito: <Pesado jugo para os filhos de Adão, desde o dia em que saem do ventre de sua mãe até o dia da sepultura na mãe de todos (Eclo 40,1)”. (Enquirídio, 66).

Eclo 40,1 – “Deus designou uma grande fadiga e um jugo pesado aos filhos de Adão, desde que saem do ventre materno até que voltam à mãe dos viventes”.

A prova da tribulação é uma espécie de fogo, sobre o qual se escreveu claramente em outro lugar: <Como o forno prova os vasos do Oliveiro, assim é a prova da tribulação para os justos> (Eclo 2,5)”. (Enquirídio, 68).

Eclo 2,5 – “Porque o ouro se acrisola no fogo, e os eleitos, no forno da pobreza”.

De fato, <a ninguém ele deu licença para pecar> (Eclo 15,20a), embora, na sua misericórdia, apague os pecados já cometidos, caso não se negligencie a satisfação correspondente”. (Enquirídio, 70).

Eclo 15,20a – “A ninguém mandou pecar (…)”.
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A Graça de Cristo e o Pecado Original, segundo Santo Agostinho (418 d.C.)

Não há exemplo de ameaça de morte temporal, visto que, no tocante aos justos, quando morriam, dizia-se então: <Foi unir-se ao seu povo (Gn 25,17)>, ou <Foi unir-se com seus pais (1 Mc 2,69)>. A pessoa passava a não ter medo de nada que a separasse do seu povo, se seu povo era o próprio povo de Deus.” (A Graça de Cristo e o Pecado Original; 30,35).

1 Mc 2,69-70a“A seguir abençoou-os e foi reunido a seus pais. ele morreu no ano cento e quarenta e seis (…)”.
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A Graça e a Liberdade, segundo Santo Agostinho (419 d.C.):

O Senhor aborrece todas as abominações do erro, e este não será amável aos que o temem. Deus criou o homem desde o princípio, e deixou-o na mão do seu conselho. Deu-lhe mais os seus mandamentos e os seus preceitos. Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão, e tu conservarás sempre a fidelidade que agrada (a Deus). Ele pôs diante de ti a água e o fogo; lança a tua mão ao que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isso lhe será dado (Eclo 15,11-18). Está bem clara a alusão ao livre-arbítrio da vontade humana.” (A Graça e a Liberdade 2,3).

Eclo 15,11-18 – “Não digas: <é o Senhor que me faz pecar>, porque ele não faz aquilo que odeia. Não digas: <É ele que me faz errar>, porque ele não tem necessidade de homem pecador. O Senhor odeia toda espécie de abominação e nenhuma é amável para is que o temem. Desde o princípio ele criou o homem e o abandonou nas mãos de sua própria decisão. Se quiseres, observarás os mandamentos para permanecer fiel ao seu prazer. Ele colocou diante de ti o fogo e a água; para os quiseres estenderás tua mão. Diante dos homens está a vida e a morte, ser-te-á dado o que preferires. É grande, pois, a sabedoria do Senhor, ele é todo-poderoso e vê tudo“.

Os muitos preceitos da lei de Deus, proibindo a fornicação e o adultério, não implicam a existência da liberdade? Pois, não haveria os preceitos, se o homem não fosse dotado de vontade livre para obedecer a Deus. Contudo, é um dom de Deus, sem o qual não se poderia observar os preceitos sobre a castidade. Por isso está escrito no livro da Sabedoria: E como eu sabia que não podia ser continente, se Deus não mo desse, e isto era já um efeito da sabedoria: o saber de quem vinha este dom, dirigi-me ao Senhor (Sb 8,21)” (A Graça e a Liberdade 4,8).

Sb 8,21 – “Ao me dar conta de que somente ganharia, se Deus ma concedesse – e já era sinal de entendimento saber a origem desse favor – , dirigi-me ao Senhor e rezei, dizendo de todo o meu coração

A nossa vontade é sempre livre, mas não é sempre boa. Ou é livre da justiça, quando se sujeita ao pecado, e então é má, ou é livre do pecado quando serve à justiça, e nesse caso é boa. A graça de Deus, porém, é sempre boa, e faz com que tenha boa vontade quem antes a tinha má. Com seu auxílio, a vontade que começou a ser boa, cresce em tanta bondade que chega a cumprir os mandamentos divinos que quiser, quando o desejar com decisão. Vem a propósito o que foi escrito: Se quiseres observar os mandamentos (Eclo 15,16)” (A Graça e a Liberdade 15,31).

Eclo 15,16a – “Se quiseres, observarás os mandamentos (…)

Os pelagianos julgam saber demais quando dizem: “Deus não ordenaria o que soubesse estar acima da capacidade humana”. Quem o ignora? Mas ordena algumas coisas acima de nossa capacidade precisamente para sabermos o que devemos pedir-lhe. É uma mesma fé que pede pela oração o que a lei manda. O mesmo que disse: Se quiseres observar os mandamentos, também afirmou pouco depois no mesmo livro do Eclesiástico: Quem porá uma guarda à minha boca, e um selo inviolável sobre os meus lábios, para que eu não caia por sua causa, e para que minha língua não me perca? (Eclo 22,27). Quem assim interrogou, já recebera certamente os preceitos: Guarda a tua língua do mal, e os teus lábios, de palavras dolosas (Sl 33,14). Portanto, se é verdade o que disse: Se quiseres observar os mandamentos, por que está à procura de uma guarda para seus lábios, como aquele que diz no salmo: Põe, Senhor, uma guarda à minha boca? (Sl 140,3). Por que não lhe bastam o preceito e sua vontade, se, toda vez que quiser, há de observar os mandamentos? São muitos os preceitos contra a soberba. Já os conhece; e, se quiser, guardá-los-á. Por que um pouco depois diz: Senhor, que és meu pai e Deus de minha vida não permitas a imodéstia de meus olhares (Eclo 23,4). A Lei já os advertira: Não cobiçarás (Ex 20,17). Que ele queira e cumpra o mandamento, porque, se quiser, guardará o mandamento. Por que prossegue e diz: Afasta de mim a concupiscência? (Eclo 23,5). Deus deixou muitos preceitos contra a luxúria; cumpra-os; pois, se quiser, observará os preceitos. Por que clama a Deus: Que não me apegue à gula e ao prazer sensual? (Eclo 23,6). Se lhe disséssemos isso na sua presença, certamente nos responderia: Mediante a oração com que me dirijo a Deus, percebei em que sentido eu disse: Se quiseres observar os mandamentos. Não há dúvida de que podemos guardar os mandamentos, se queremos; mas como é Deus que prepara a vontade, é preciso recorrer a Deus para termos a vontade necessária e assim, querendo, possamos cumpri-los” (A Graça e a Liberdade 16,32).

Eclo 22,27 – “Quem me porá uma guarda na boca e sobre os lábios o selo do discernimento, para que eu não caia por sua falta e minha língua não me arruíne?

Eclo 23,4 – “Senhor, pai e Deus de minha vida, não me abandones aos seus caprichos, não me dês olhar altivo

Eclo 23,5 – “Afasta de mim a cobiça

Eclo 23,6– “Não me dominem o apetite sexual e a luxúria, não me entregues ao desejo impudico

Atribuí aos desígnios ocultos de Deus ao terdes conhecimento do que acontece a crianças, as quais são portadoras do mal hereditário de Adão: enquanto umas são socorridas pelo batismo, outras não o são e morrem com essa mancha. O mesmo se diga quando se souber que continua vivendo algum batizado que no conhecimento de Deus será no futuro ímpio, e outro batizado ser levado desta vida para que a malícia não lhe mude o modo de pensar (Sb 4,11)” (A Graça e a Liberdade 23,45).

Sb 4,11 – “Arrebatou-me para que a malícia não lhe pervertesse o julgamento e a perfídia não lhe seduzisse a alma“.
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A Correção e a Graça, segundo Santo Agostinho (427 d.C.):

Respondam nossos adversários, se são capazes, por que Deus, quando esses homens levavam uma vida fiel e piedosa, não os arrebatou dos perigos desta vida, evitando que a malícia lhes mudasse o modo de pensar e as aparências enganadoras seduzissem a sua alma (Sb 4,11)” (A Correção e a Graça 8,19).

Sb 4,11 – “Arrebatou-me para que a malícia não lhe pervertesse o julgamento e a perfídia não lhe seduzisse a alma“.

Com efeito, a misericórdia de Deus lhes é necessária mesmo quando são coroados, de acordo com o testemunho da Escritura, onde o eleito diz à sua alma a respeito de seu Senhor Deus, que te coroa de misericórdia e de graça (Sl 102,4). O apóstolo Tiago também diz: O juízo será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia (Tg 2,13), revelando que no juízo, no qual os justos receberão a coroa e os injustos, a condenação, uns serão julgados com misericórdia e outros sem misericórdia. Por esta razão, a mãe dos Macabeus diz a seu Filho: Para que eu torne a receber-te com teus irmãos naquela misericórdia que nos espera (2Mc 7,29). Pois assim está escrito: Quando o rei justo se sentar no trono, nenhum mal resistirá perante ele. Quem pode gloriar-se de ter o coração casto ou quem se vangloriará de estar limpo de pecado? (Pr 20,8-9 seg. LXX).“(A Correção e a Graça 13,41).

2 Mc 7,29 – “Não temas este carrasco. Ao contrário. tornando-te digno dos teus irmãos, aceita a morte, a fim de que se torne a receber-te com eles na Misericórdia“.
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A Predestinação dos Santos, segundo Santo Agostinho (429 d.C.)

São Cipriano escreveu um livro intitulado A mortalidade, elogiado por quase todos os que se dedicam às ciências eclesiásticas, no qual afirma que a morte não só não é inútil, mas deveras útil para os fiéis, pois livra o homem do perigo de pecar e lhe dá a segurança de não pecar. Mas de que valeria esta segurança, se lhe fossem punidos os pecados futuros que não cometeu? O Santo, porém, prova com ótima e farta argumentação que neste mundo não faltam os perigos de pecar, mas não subsistirão depois desta vida. E aduz como testemunho as palavras do livro da Sabedoria: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11). Este argumento aduzido também por mim, nossos irmãos não aceitaram, conforme dissestes, por ter sido tomado de um livro não canônico, como se, à parte a autoridade deste livro, a doutrina que quisemos ensinar não fosse bastante clara. Qual o cristão que se atreve a negar que o justo estará em descanso (Sb 4,7), quando for arrebatado pela morte? Que pessoa de fé ortodoxa pensaria o contrário de quem isto afirmasse?” (A Predestinação no Santos; 14,26).

Sb 4,11 – “Arrebatou-me para que a malícia não lhe pervertesse o julgamento e a perfídia não lhe seduzisse a alma“.

Sb 4,7 – “O justo, ainda que morra prematuramente, terá repouso“.

Sendo verdade tudo isto, não se deveria rechaçar a sentença do livro da Sabedoria, cujas palavras têm merecido ser proclamadas na Igreja de Cristo há tantos anos com aprovação dos que, na mesma Igreja, o têm lido, e serem ouvidos com a veneração devida à autoridade divina tanto por bispos como pelos fiéis leigos considerados inferiores, como são os penitentes e os catecúmenos.” (A Predestinação no Santos; 14,27).

Se não se trata de um temerário empenho, pode-se dar por terminada a questão a respeito do que foi arrebatado, para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. E mais. O livro da Sabedoria, que mereceu ser lido na Igreja de Cristo há tantos anos e no qual se encontra esta sentença, não deve ser desprezado porque contraria aqueles que se enganam no tocante aos méritos humanos e se colocam contra a manifesta graça de Deus.” (A Predestinação no Santos; 14,29).

(Comentário) – Os pelagianos negavam a autoridade do livro da Sabedoria. Santo Agostinho, através de sua refutação, demonstra a canonicidade do livro concedida pela Igreja Católica: “proclamado”, “aprovado”, venerado devido a autoridade divina dada aos Bispos”.

Mas eu opino que as palavras que seguem foram ditas com referência ao reino dos Céus e não a um reino terreno: Inclina meu coração para os teus preceitos (Sl 118,36); ou: Os passos do homem são formados pelo Senhor e é-lhe grato o seu caminho (Sl 36,23); ou: O Senhor é quem dispõe as vontades (Pr 8 seg. LXX); ou: O Senhor nosso Deus seja conosco, como foi com nossos pais, não nos desamparando, nem nos afastando de si. Mas incline os nossos corações, para andarmos em todos os seus caminhos (1Rs 8,57-58); ou: Dar-lhes-ei um (novo) coração e entenderão; ouvidos, e ouvirão (Br 2,31); ou: E eu lhes darei um mesmo coração, e derramarei nas suas entranhas um novo espírito (Ez 11,19).” (A Predestinação no Santos; 20,42).

Br 2,31 – “E reconhecerão que eu sou o Senhor seu Deus. Eu lhes darei um coração e ouvidos que ouçam“.
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O Dom da Perseverança, segundo Santo Agostinho (429 d.C.)

Se alguém perguntar: “Por que Deus não fez que cressem e deixassem este mundo antes de renunciarem à fé?”, não sei o que responder. Pois o que o autor diz, ou seja, que foram favorecidos os que abandonariam a fé, deixando de começar a possuir aquilo a que renunciariam com um pecado mais grave, demonstra claramente que o ser humano não é julgado por aquilo que Deus sabe antecipadamente que faria, se ele não vem em seu auxílio com alguma graça, evitando a realidade da apostasia. Recebeu este auxílio aquele que foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11).” (O Dom da Perseverança; 4,11).

Sb 4,11 – “Arrebatou-me para que a malícia não lhe pervertesse o julgamento e a perfídia não lhe seduzisse a alma“.

Mas, por que liberta a uns e a outros não? Já dissemos uma e outra vez, e isto já nos causa aborrecimento; Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rm 9,20). São insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos (Rm 11,33). E acrescentamos: Não procures saber o que excede a tua capacidade, e não especules o que ultrapassa as tuas forças (Eclo 3,22).” (O Dom da Perseverança; 12,30).

Eclo 3,22 – “Não procures o que é muito difícil para ti, não investigue o que vai além de tuas forças“.

Sendo tudo isto verdade, exortamos, não obstante, à prática destas virtudes, de acordo com o que a cada um é dado exortar, porque são dons de Deus e estamos nas mãos dele, nós e os nossos discursos (Sb 7,16) (…) Mas de quem os recebem os que os têm, o próprio Senhor mostrou quando disse: Dar-lhes-ei um coração (novo) e entenderão: ouvidos, e ouvirão (Br 2,31).” (O Dom da Perseverança; 14,37).

Sb 7,16 – “Nas suas mãos estamos nós, nossas palavras, toda a inteligência e a perícia do agir“.

Br 2,31 – “E reconhecerão que eu sou o Senhor seu Deus. Eu lhes darei um coração e ouvidos que ouçam“.

Está escrito também nos Provérbios de Salomão: Porque o Senhor é quem dá a sabedoria (Pr 2,6). E sobre a continência se lê no livro da Sabedoria, em cuja autoridade se apoiaram grandes e doutos varões, tratadistas das Escrituras divinas muito anteriores a nós: Eu sabia que não podia obter a sabedoria (continência), se Deus não ma desse, e isto já era um efeito da sabedoria, o saber de quem vinha este dom (Sb 8,21).” (O Dom da Perseverança; 17,43).

Sb 8,21 – “Ao me dar conta de que somente a ganharia, se Deus ma concedesse – e já era sinal de entendimento saber a origem deste favor – , dirigi-me ao Senhor e rezei dizendo de todo o meu coração“.

Deve-se pregá-la, sim, e quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Lc 8,8). E quem os tem, recebeu-os daquele que disse: Dar-lhes-ei um (novo) coração, e entenderão; ouvidos, e ouvirão (Br 2,31). Quem não os recebeu, rechace-os; mas o que entende, tome e beba, beba e viva.” (O Dom da Perseverança; 20,51).

Br 2,31 – “E reconhecerão que eu sou o Senhor seu Deus. Eu lhes darei um coração e ouvidos que ouçam“.


Papa Leão Magno (400 a 461 d.C.)10-leao-o-grande-papa-de-roma4.jpg

Sermão das Coletas, segundo o Papa Leão Magno (430 a 461 d.C):

“Com efeito, as esmolas apagam os pecados, destroem a morte e extinguem a pena do fogo eterno, mas, aquele que estiver vazio de seus frutos, permanecerá estranho à indulgência do retribuinte, de acordo com o que afirma Salomão: <Quem tampa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não terá resposta (Pr 21,13)>. Tobias dizia: <Toma de teus bens para dar esmola. Nunca afastes de algum pobre a tua face, e Deus não afastará de ti a sua face (Tb 4,7)>”.  (V Sermão das Coletas; 3).

Tb 4,7 – “Toma teus bens para dar esmola. Nunca afastes de algum pobre a tua face, e Deus não afastará de tia a sua face”.
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Sermão sobre a Quaresma, segundo o Papa Leão Magno (430 a 461 d.C):

“Trata-se, pois, de grande obra e de grande esforço conservar incólume de todo o pecado um coração inconstante e não permitir que a energia de sua alma seja atingida por alguma contaminação quando incontáveis atrações prazerosas a aliciam de toda parte. <Quem toca no piche sem se sujar? (Eclo 13,1)” (XI Sermão sobre a Quaresma; 2).

Eclo 13,1 – “O que toca no piche sujar-se-á, o que convive com o orgulhoso ficará como ele”.

“É do nosso conhecimento, pois, que este é o tempo em que, no mundo inteiro, com o diabo enraivecido, o exército cristão deve combater e, se a preguiça esfriou apenas ou se a dedicação encontrou outros ocupados, agora é preciso que sejam fortificados pelas armas espirituais, incendiando-se com o chamado da trombeta celeste para empreender o combate: porque aquele cuja <inveja a morte entrou no mundo (Sb 2,24)>, queima-se neste momento por enorme inveja” (XI Sermão sobre a Quaresma; 3).

Sb 2,24 – “Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo: experimentam-na aqueles que lhe pertencem”.

 

VI SÉCULO (501 a 600 d.C)

Papa Gregório Magno (540 a 604 d.C.)gregory

Regra pastoral, segundo o Papa Gregório Magno ( 591 d.C):

“Por isso, um atento sábio admoesta: Meu filho, não multiplique tuas ocupações (Eclo 11,10)” (Regra pastoral [primeira parte – Frequentemente, as tarefas exaustivas do ministério desestabilizam e dissipam o espírito]; capitulo 4).

Eclo 11,10“Filho meu, não multiplique tuas ocupações (..)”.


“Para que o pastor não deixe que os encantos do poder arrastem o seu coração ao orgulho, foi dito corretamente por um sábio: <Nomearam-te como guia? Não fiques envaidecido, mas sê entre os outros como um deles (Eclo 32,1)”
(Regra pastoral [segunda parte – Que o pastor tenha uma humildade que faça dele, para as pessoas de bem, um companheiro e um zelo enérgico pela justiça]; capitulo 6).

Eclo 32,1 “Se cabe a ti presidir um banquete, não te gabes, sê como os demais”.  


“É preciso também dizer aos invejosos que, se não se guardam do próprio ciúme, afundam na antiga malícia do astuto inimigo. Acerca dele está escrito: <Pela inveja do diabo, entrou no mundo a morte (Sb 2,24)”
(Regra pastoral [terceira parte – É preciso amoestar de modo diferente os benévolos e os invejosos]; capitulo 11).

Sb 2,24 “Mas a morte entrou no mundo pela inveja do diabo, e os de seus partidos passarão por ela”.  


“Na sinceridade da ação está a confiança de uma grande segurança. Ouçam o que diz o sábio: O Espírito Santo que nos educa foge da fraude (Sb 1,25)”
(Regra pastoral [terceira parte – É preciso amoestar de modo diferente as pessoas sinceras e os mentirosos]; capitulo 10).

Sb 1,25 “O espírito educador e santo foge do estratagema, levanta acampamento diante dos raciocínios sem sentindo, e se rende diante do assalto da injustiça”.  


“Portanto, a língua deve ser moderadamente freada, mas sem deixá-la completamente amarrada. Está escrito: O sábio guarda silêncio até a momento justo (Eclo 20,7).”
(Regra pastoral [terceira parte – É preciso admoestar de modo diferente os taciturnos e os tagarelas]; capitulo 14).

Eclo 20,7 “O sábio cala até o momento oportuno, o néscio não aguarda a oportunidade”.  


“Ouçam os orgulhosos: Por que se orgulham a terra e a cinza? (
Eclo 10,9).” (Regra pastoral [terceira parte – É preciso admoestar de modo diferente os humildes e os orgulhos]; capitulo 17).

Eclo 10,9 “Por que se ensoberbece o pó e cinza, se ainda em vida suas entranhas apodrecem?”.  

 

“Para que não se dê alguma coisa àqueles a quem não se deve dar absolutamente nada, ouçam o que está escrito: Faça o bem ao justo e não acolha um pecador; seja benfazejo para com o humilde e não dê ao ímpio (Eclo 12,5). E ainda: Ofereça o seu pão e o seu vinho sobre o túmulo do justo, e não coma nem beba com os pecadores (Tb 4,17)” (Regra pastoral [terceira parte – É preciso admoestar de modo diferente aqueles que, sensíveis aos pobres, doam de seus bens e aqueles que tentam roubar dos bens dos outros]; capitulo 20).

Eclo 12,5 “Duplo mal receberás em tempo de necessidade por todo o bem que lhe fizeste; não lhes dês armas, pois as voltará contra ti”.  

Tb 4,17 “Oferece teu pão sobre o túmulo dos justos, e não o dês aos pecadores”.  


“Entretanto, com qual severidade o Senhor lhes responde, fazendo-os ver por meio de um sábio: Como quem imola o filho na presença do próprio pai, assim é aquele que oferece sacrifícios com os bens dos pobres (
Eclo 34,20)” (Regra pastoral [terceira parte – É preciso admoestar de modo diferente aqueles que, sem desejar os bens dos outros, não distribuem dos seus e aqueles que doam daquilo que possuem, mas sem deixar de roubar do que é dos outros]; capitulo 21).

Eclo 34,20 “É sacrificar um filho diante de seu pai, tirar dos pobres para oferecer sacrifício”.  


“Suponhamos que eles escondam dos seus próximos necessitados somas de dinheiro que possuem; se tornariam cúmplices da sua ruína. Que vejam, portanto, a culpa pela qual deverão responder; recusando-se a pregar a Palavra aos pecadores, seus irmãos, eles subtraem a almas agonizantes os remédios que fazem viver. Por isso, um sábio disse, com razão: <Sabedoria escondida e tesouro invisível, para que servem um e outro> (
Eclo 20,30)” (Regra pastoral [terceira parte –  É preciso admoestar de modo diferente aqueles que, ainda que preparados para exercer o ministério da pregação, temem fazê-lo por excessiva humildade e aqueles que, porque não preparados ou por causa da idade, não deveriam pregar, mas se precipitam a fazê-lo.]; capitulo 25).

Eclo 20,30 “Sabedoria escondida e tesouro oculto, para que vale?”.  


“Nós permanecemos na cidade se nos fechamos no segredo de nossas almas, sem nos divagarmos fora com palavras: revestidos plenamente da força divina, nós poderemos de algum modo sair de nós mesmos, instruindo também os outros. Por isso, disse um sábio: <Jovem, fale apenas na causa que lhe diz respeito; e se você for interrogado duas vezes, então comece a responder> (
Eclo 32,7-8)” (Regra pastoral [terceira parte –  É preciso admoestar de modo diferente aqueles que, ainda que preparados para exercer o ministério da pregação, temem fazê-lo por excessiva humildade e aqueles que, porque não preparados ou por causa da idade, não deveriam pregar, mas se precipitam a fazê-lo.]; capitulo 25).

Eclo 32,7-8 “Tu, jovem, fala se for indispensável; e no máximo duas ou três vezes, se te pedirem; resumo tuas palavras, dize muito em pouco espaço, sê como quem sabe e cala”.  

 

CONCLUSÃO

A fé da Igreja é inegável, sagrada, santa e verdadeira.

A escritura canônica se faz presente no seio da santa fé católica e é somente por ela, que podemos reconhecer quais são as obras inspiradas.

Há quem diga que a septuaginta, nunca foi usada pela Igreja Primitiva, porém, se possuímos provas abundantes de que os antigos padres, a usavam em seus escritos, tratados e homilias, como continuar a afirmar sofismas que vão em total desencontro com a historicidade da formação dos escritos bíblicos? Por qual motivo, ainda há insistência em afirmar que antes do Concílio de Trento, os livros deuterocanônicos não faziam parte da lista oficial da Igreja, se a patrística reforça seu uso na totalidade de seus textos?

Infelizmente, tais perguntas possam ser irrespondíveis para aqueles que desejam permanecer na mentira.

Para nós, católicos, defender a verdade é uma questão de honra.

 

OBS: Esse texto sofrerá modificações à medida que novas citações, sejam encontradas.



Categorias:Bíblia, Patrística

6 respostas

  1. O Melhor post católico sobre o assunto que eu encontrei. Parabéns.

  2. A nossa Igreja Católica Apostólica Romana é muito linda e sábia. Orgulho de ser católico.

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