OS APOLOGISTAS GREGOS

Palavras chaves: Padres Apologistas. Apologias. Perseguição. Fé. Doutrina dos Apologistas.

Sumário: Introdução 1. O contexto do século II e o surgimento dos Apologistas. 2. A teologia dos Padres Apologistas. 3. Filósofos Gentios e as Apologias Cristãs. 3.1. O conteúdo das apologias. 4. Os Padres Apologistas e sua Doutrina. 4.1. Pontos principais da doutrina dos apologistas. Conclusão. Referências.

Introdução

            O cristianismo após seu surgimento teve que enfrentar alguns contratempos, primeiro, seu entorno judeu e depois o helenismo e as diversas filosofias presentes na época (epicurismo, estoicismo, ceticismo, etc) encontramos elementos apologéticos já nos escritos do Novo Testamento: por exemplo, a censura dirigida aos judeus de que não reconheceram o Messias e por isso perderam o direito hereditário à promessa, que passou para os cristãos ou o discurso de Paulo no Areópago de Atenas (At 17, 19-34), que, recorrendo habilmente à idéia existente do ‘Deus desconhecido’, anunciou o verdadeiro Deus em oposição a todos os outros.

No decurso do séc. II, novas circunstâncias marcaram outro rumo à literatura cristã, imprimindo-lhe o caráter de demonstração científica, isto é, ‘arma’ mais usada será a forma apologética. Mas, a elevação da apologética à condição de gênero literário próprio aconteceu em virtude de uma novidade no seio da Igreja: um número notável de gentios, dotados de sólida formação intelectual, ingressou na Igreja. Nota-se com isso, duas coisas: primeiro, os teólogos apologistas são quase todos convertidos; segundo, foi um fator decisivo tais conversões, pois sendo os gregos eram refinados intelectualmente jamais aceitariam com facilidade o cristianismo primitivo.

Ora, a própria verdade que haviam descoberto e aderido, obrigava-os ao confronto com a filosofia pagã. Nesse sentido, a teologia já não tem mais caráter simplesmente catequético e querigmático, existem novos desafios: agora os Padres devem defender o cristianismo de três grandes perigos: o perigo dos hebreus e dos pagãos externamente; e das heresias, internamente. Dentre esses Padres se destacam: Aristides, Justino, Taciano, Atenágoras, Teófilo.

Enfim, pela atividade literária dos apologistas, o cristianismo ultrapassou conscientemente a limitação do ambiente e a separação do mundo, nas quais, até então, havia vivido, e empreendeu a primeira e decisiva tentativa de expor, com hábil adaptação às correntes filosóficas da época, as novas ideias de sua doutrina, como sendo o remate e coroamento das mais sublimes aspirações culturais do mundo intelectual.

O contexto do século II e o surgimento dos Apologistas

Nas primeiras décadas, o cristianismo tinha aparência de uma seita judaica, de uma religião ilícita; e os cristãos, por sua parte, recomendaram a obediência às autoridades, desde Paulo em Romanos 13,1. Todavia, a própria propaganda cristã nas comunidades judaicas podia suscitar reações e conflitos suscetíveis de atrair a atenção das autoridades. Lucas adota várias vezes este modelo nos Atos dos Apóstolos, sempre lançando uma luz desfavorável sobre os chefes das sinagogas, por exemplo, em 17, 1-8 (Tessalônica) e 18, 12-17 (Corinto).

Mas já décadas antes da composição dessa obra, desordens provocadas pela propaganda cristã no seio da comunidade judaica de Roma tinham levado à expulsão dos judeus de Roma por parte do imperador Cláudio em 41 ou 49: por causa de um agitador Chrestus, que teria provocado tumultos. Se nessa época as autoridades evidentemente não conseguiam distinguir os cristãos dos judeus, a situação não mudou quando, após o terrível incêndio que devastou Roma em julho de 64, Nero lançou a responsabilidade dele sobre os cristãos, que foram perseguidos e mortos, levando a o também do ódio popular contra eles.

O caráter secreto dos cultos cristãos tornava-os de fato malquistos, e as calúnias mais atrozes circulavam contra eles, de modo que até o historiador Tácito, embora convencido de que eles não eram os responsáveis pelo incêndio, considerava que, com o ‘ódio do gênero humano’ que tinham, os cristãos eram de todo modo culpados e merecedores daquela punição (Anais XV, 44, 4-5).[1]

Documento fundamental, por outro lado, é a carta de Plínio o Jovem a Trajano e a resposta deste em 112-112: legatos pro praetore da província da Bitínia, Plínio receba denúncias contra cristãos e pedia diretrizes. O imperador respondeu que os cristãos não deviam ser perseguidos, mas deviam ser punidos se, denunciados de modo não anônimo e se professassem o cristianismo, se recusassem a sacrificar ao do imperador.[2]

Poucos claros também são os termos da perseguição de Sétimo Severo em 202-203, tanto que hoje se tende a não acreditar mais num édito imperial nesse sentido. O imperador Maximino (235-238), obcecado pela defesa do império com a qual os cristãos não colaboravam, ordenou que se perseguissem os chefes das igrejas; mas a disposição não parece ter obtido grandes efeitos.

A primeira perseguição realmente geral foi a de Décio, que, preocupado em consolidar a unidade também religiosa, ordenou em 249 que todos os cristãos sacrificassem às divindades do império; isso desencadeou uma perseguição breve, mas violenta, no curso da qual muitos cristãos cederam, provocando assim uma viva discussão e também um cisma quando, a seguir, muitos pediram a readmissão na igreja.

Outra perseguição geral ocorreu sob Valeriano (257-258). As últimas perseguições foram uma arma política nas mãos dos tetrarcas em sua luta pelo poder, elas duravam de 303 a 324. Diocleciano, Galério, Maximino, Daia perseguiram os cristãos no Oriente, de 303 a 311 por Galério, a 313 por Maximino; mas Licínio, sucessor de Galério, recomeçou a perseguir os cristãos, por oposição a se rival no Ocidente, Constantino. Quando este derrotou e matou Licínio em 324, abraçou definitivamente a causa cristã,[3] apoiando-se no cristianismo para assegurar a unidade religiosa do império.

Foi em tal quadro que se desenvolveu no século II a atividade literária dos apologistas cristãos. Esses se propunham, por um lado demonstrar o infundado das acusações movidas contra os cristãos, tanto pelo ódio popular como pelas classes cultas e pelos tribunais do Estado; por outro, criticar o politeísmo, mostrando a superioridade e a verdade da religião cristã. Em relação ao segundo ponto, retomavam em seu próprio benefício uma tradição apologética já largamente desenvolvida no judaísmo, mas não em relação ao primeiro, porque o judaísmo não era perseguido enquanto tal.

Os autores de apologias dirigiam-se frequentemente aos imperadores e ao senado romano, como às autoridades que podiam mais que quaisquer outras contribuir para o bem da sociedade a qual deveriam tutelar; às vezes também aos intelectuais pagãos como representes da tradição cultural marcada pelo politeísmo, com atitude conciliadora como o autor de A Diogneto, ou francamente hostil como Taciano ou Hérmias.

As acusações da classe culta pagã à religião cristã estão sintetizadas no Discurso verdadeiro, de Celso (177-180), conservado em boa parte na confutação de Orígenes: neste, o desprezo e o sarcasmo contra aquela massa de miseráveis ignorantes e presunçosos se alternam com o desdém pelo abandono das tradições da qual depende a identidade e a força da política, garantia da própria civilidade, numa época em que o império começa a dar-se conta da pressão inquietante dos bárbaros.

Contra as acusações de deslealdade para com Estado e de sabotagem do interesse comum, os apologistas protestaram sua lealdade, permanecendo inflexíveis num só ponto: a recusa a adorar o imperador.

Contra as acusações de novidade (esta bastante desqualificadora, no mundo antigo), de superstição e de ignorância dirigidas ao cristianismo, aceitaram intrepidamente o confronto com uma tradição cultural antiga e ousaram propor a sua religião como portadora de forma plena daqueles valores que os espíritos mais elevados da tradição pagã tinham podido, segundo eles, somente entrever.

Esse esforço se combinou com uma reflexão fundada na teologia do Logos; retomando categorias elaboradas pelo judaísmo alexandrino, os apologistas aprofundaram a identificação de Cristo com o Logos, a Razão divina, mediadora da criação, pela qual a revelação bíblica, culminante na pregação de Cristo, Logos encarnado, punha à disposição aquela verdade última e universal que os filósofos pagãos tinham buscado por meio de incertezas e desvios, atingindo-a, no melhor dos casos, só de maneira extremamente parcial.

Por mais que a contribuição dos apologistas fosse ainda imperfeita do ponto de vista teológico e a relevância de seus escritos estivesse destinada a passar com a mudança da situação do cristianismo no império (o que ajuda a explicar a exiguidade da tradição manuscrita de suas obras), o que realizaram constituiu uma etapa indispensável na formação da autoconsciência cristã e de energia que permitiram à nova religião afirmar-se nas condições aparentemente mais desfavoráveis.

[1] Segundo Eusébio de Cesaréia, uma segunda perseguição ocorreu sob o reinado de Domiciano. (Cf. Livro III, n. XVII)

[2] Essas disposições – que mostram, entre outras coisas, a falta de uma legislação precisa anterior – foram confirmadas pelos imperadores Adriano e Antonino Pio.

[3]  O debate historiográfico sobre a ‘conversão’ de Constantino permanece bastante complexo.

A teologia dos Padres Apologistas

A teologia dos Padres Apologistas possui três características principais:

Bíblica: uma particularidade dos Padres Apologistas é o seu uso quase exclusivo do Antigo Testamento, isso se deve ao fato de que eles tinham que disputar com os judeus, e eles só admitiam o Antigo Testamento. Em suas polêmicas com os judeus os Padres faziam ver que somente Jesus de Nazaré poderia ser o Messias prometido; só nele se cumpriam as Escrituras do Antigo Testamento.

Apologética: as acusações mais comuns que os Padres tinham que defender o cristianismo era de costumes depravados, ateísmo ou impiedade, pois não prestavam culto ao imperador e não participação na vida do império.

Ao mesmo tempo em que os Padres expunham a fé defendo o núcleo das verdades do cristianismo e seus costumes de vida e ética, aproveitavam para criticar as crenças pagãs nos deuses e nos mitos. Dessa forma, conseguiam não somente demonstrar que o modo de proceder das autoridades estatais têm sido totalmente injustas, como também não se deveria negar o direito à existência aos seguidores de uma religião tão elevada como o cristianismo.

Inculturação da filosofia grega: com os Padres Apologistas o processo de helenização avança rapidamente, pois estes haviam recebido a sua formação quase sempre no paganismo, uma formação, diga-se de passagem, intelectualmente avançada: bom conhecimento das filosofias da época, tais como ecletismo, platonismo e estoicismo.

Filósofos Gentios e as Apologias Cristãs

Com o surgimento do cristianismo, a tradição dos filósofos, hostis ao cristianismo, perdurou pelos séculos posteriores, especialmente entre os neo-platônicos; seus expoentes mais notáveis são Porfírio, Hiérocles e o imperador Juliano. Até então, haviam circulado, apenas no meio do povo pagão, calúnias contra os cristãos (bacanais, canibalismo, incestos, etc), mas durante o século II, até filósofos gentios levantaram-se contra o cristianismo. Alguns dos escritos mais conhecidos são:

  1. O discurso do célebre Frontão de Cirtra, preceptor de Marco, contra os cristãos;
  2. Luciano de Samósata escarnece os cristãos por causa de sua caridade fraterna e do desprezo da morte, em sua sátira contra Peregrino Proteu, que havia sido, durante certo tempo, membro de uma comunidade cristã.
  3. A obra polemica do platônico Celso, a maior parte da qual nos é transmitida pela refutação de Orígenes.

Por isso, ao primeiro grupo de autores da segunda metade do século II, cuja obra literária conhecida constitui-se principalmente ou exclusivamente de apologias, chamamos “apologetas gregos”. Durante o período patrístico, surgiram apologias na Igreja grega e latina, mas elas não exerceram posteriormente um papel tão geral e fundamental como no séc. II.

Mais ou menos a metade das apologias de cuja existência sabe-se se perde, ou foram conservadas apenas em poucos fragmentos, em geral na História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia. A apologia mais antiga que conhecemos foi entregue por Quadrato ao imperado Adriano por ocasião de uma de suas visitas à Ásia Menor (123/124 ou 129) ou a Atenas (125/126 ou 129).

O mais antigo apologista do cristianismo contra o judaísmo é provavelmente Aristão de Pela que redigiu por volta de 140 uma apologia do cristianismo intitulada Diálogo entre Jasão e Papisco sobre Cristo, os argumentos firmados nas profecias do Antigo Testamento, alegados por Jasão, judeu-cristão, tem bom êxito, porque o judeu Papisco se converte.[1] Eusébio de Cesaréia atesta três outras apologias, que foram, entretanto, perdidas: 2 livros contra os gregos, 2 livros contra os judeus, e um escrito em defesa da ‘filosofia cristã’, dirigido aos ‘déspotas do mundo’, pelos quais subentendem-se, certamente, o imperado Marco Aurélio (161-180) e a seu co-regente Lúcio Vero (161-169).

Apolinário de Hierápolis escreveu 4 apologias: um escrito em defesa da fé cristã, dirigido a Marco Aurélio (172), 5 livros contra os gregos, 2 livros sobre a verdade, e 2 livros contra os judeus. Além disso, uma epístola contra os montanistas (juntamente com outros bispos) e um escrito sobre a festa da Páscoa. Todas as suas obras se perderam.

Melitão de Éfeso, bispo de Sardes, na Lídia, exerceu uma vasta atividade literária: em sua Apologia, dirigida ao imperador Marco Aurélio (cerca de 172), encontramos a ideia, talvez proferida pela primeira vez, de que relações pacíficas entre o Estado e Igreja seriam a situação normal e para ambos, fonte de prosperidade. Até recentemente, possui-se um número reduzido de fragmentos, conhecidos por meio de Eusébio e de Anastásio Sinaíta somente os títulos inexatos das obras. Os restantes livros se intitulam: 2 livros: A Páscoa (cerca de 166/167), nos quais Melitão defende a praxe quartodecimana, de um livro: O batismo, O modo de viver e os profetas (obra provavelmente antimontanista), A Igreja, O domingo, A criação, A alma e o corpo, A hospitalidade, O demônio, Do Deus Encarnado; de seis livros: Excerptos da lei e dos profetas (com o catálogo mais antigo dos livros veterotestamentários), A fé e a geração de Cristo e mais três livros: Da Encarnação de Cristo (contra Marcião) e outros.

Foram conservadas:

  1. Uma apologia do filósofo Aristides de Atenas ao imperador Adriano (117-138) ou a Antonino Pio (1380161) nos primeiros anos do reinado deste;
  2. Três livros de Teófilo de Antioquia ad Autolycum (pouco depois de 180), em que procura mostrar a seu amigo a sensatez do cristianismo;
  3. O escárnio dos filósofos não cristãos de Hermas, talvez do século III, que ridicularizava a incongruência entre a crença pagã nos deuses e a filosofia;
  4. Três apologias – Cohortatio ad Graecos, De monarchia e Oratio ad Graecos – de autores desconhecidos do século III, que pouco depois foram incorporadas ao Corpus Iustini, pois Eusébio já as conhece antes de 311/312 como obras de Justino.

[1] Em todo caso, já era conhecido por Celso (Orígenes contra Celso). A versão latina igualmente desaparecida é atestada por um prólogo, conservado, erroneamente, sob o nome de Cipriano. São Jerônimo teve também conhecimento deste escrito. (Cf. ALTANER, Berthold; STUIBER, Alfred, 1972, pág. 72-73).

O conteúdo das apologias

 As apologias do séc. II eram dirigidas ao imperador ou aos imperadores e chamavam a atenção, sobretudo para duas incoerências jurídicas: se ser cristão era por si digno de castigo, então o Estado deveria perseguir sempre todos os cristãos e não apenas em caso de alguma denúncia particular, como havia regulado o imperador Trajano em sua correspondência com Plínio o Moço, no ano de 112.

Além disso, dever-se-ia definir que espécie de crime digno de castigo, subjazia, ao fato de alguém ser cristão. Na verdade, foram feitas muitas acusações contra os cristãos, por parte dos judeus e pagãos: seus ataques eram fortes e em vários campos, atribuíam, denegriam ou se referiam aos cristãos como ateístas, praticantes do canibalismo, infanticídio, orgia, chegando até o incesto, mas nunca foram provadas com algum caso concreto.

O impasse praticamente inevitável, porém, era sempre a convicção dos cristãos que adoravam o único Deus verdadeiro, o que os impedia de participar do culto público dos deuses. Por isso, à apologética cristã cabia fundamental de modo compreensível a racionalidade e a superioridade de sua fé, o que a seguir levou ao desenvolvimento, no interior da própria Igreja, dos princípios da teologia.

A justificação da fé para fora – para os não-cristãos – não lhes foi difícil, uma vez que os contemporâneos esclarecidos e filosoficamente preparados há muito não acreditavam nos mitos dos deuses, mas tinham desenvolvimento uma compreensão própria transcendental de Deus, que lhes determinava a visão do mundo e o comportamento ético. Encontrava-se aí um ponto de partida adequado para a doutrina cristã, que anunciava o único e eterno Deus e podia assim mostrar a extraordinária qualidade ética da vida cristã. A rejeição intelectual da fé mítica nos deuses causara no Império Romano uma discrepância singular entre convicção interna e agir externo: a participação no culto do Estado pelo bem estar do Estado não abalou absolutamente a convicção mais íntima, a filosofia que era seguida.

Por isso, tornava-se incompreensível a pretensão ao absoluto da “filosofia cristã”, que mantinha distante os cristãos dos sacrifícios do Estado e da participação em festas públicas em honra dos deuses. Nesse nível, portanto, era preciso demonstrar e o cristianismo é a única filosofia racional, a mais elevada e a mais antiga de todas. Sobretudo este último argumento da “antiguidade” desempenhava no mundo antigo um papel especial, pois a verdade tem validade eterna. Nesse ponto a apologética cristã coincidia com a apologética judaica de um Flávio Josefo e Fílon de Alexandria.

Na verdade, o judaísmo nunca desenvolveu uma apologética completa, pois quis propositadamente manter-se num status conscientemente isolado; mas, como estava inserido num ambiente helenista, foi obrigado a discutir a questão: Quem é mais antigo: Homero ou Moisés?

Assim, a apologética cristã primitiva exerceu, portanto, essencialmente três tarefas:

  1. Defender o cristianismo contra ataques de argumentos ou de ações, demonstrando que eram injustiçadas ou careciam de força persuasiva;
  2. Desmascarar as falsas ideias sobre o cristianismo, descrevendo o comportamento real dos cristãos;
  3. Fundamentar racionalmente e justificar a fé cristã, demonstrando a inferioridade das convicções de fé dos adversários. Esta última tarefa era muitas vezes acompanhada do zelo missionário para converter o adversário ao cristianismo.

A apologética, em razão da origem e do ambiente do cristianismo primitivo, dirigia-se contra dois adversários: os judeus e os pagãos. A polêmica antijudaica[1] tem um duplo objetivo:

  1. Delimitar o cristianismo frente à sua origem judaica: Entram aqui, antes de tudo, o reconhecimento de Jesus como Messias e a interpretação do AT como seu anúncio. A Antiga Aliança, portanto, só tem sentido como precursora e guia que aponta para Jesus e deve ser interpretada cristologicamente à luz da Nova Aliança. Dessa forma, a apologética põe à disposição dos cristãos argumentos para a discussão com os judeus, fortalece-os na consciência de serem o cumprimento da vontade de Deus preparada no judaísmo e previne tendências judaizantes presentes no próprio cristianismo.
  2. Convencendo os judeus da validade da fé no Messias com base no próprio AT: Por causa da pouca consistência numérica dos adversários, a apologética antijudaica ocupa dentro da literatura cristã antiga um espaço relativamente pequeno. Sua importância, porém, fica evidente quando, p. ex., consideramos que o próprio João Crisóstomo no final do séc. IV tinha que prevenir sua comunidade, em várias gerações, para não passarem para o lado dos judeus que registravam então grande número de conversões.

A mais perigosa ameaça contra o cristianismo que sempre era desencadeada contra os cristãos vinha da parte do ambiente helenístico e estatal. Na verdade, pelo menos até a perseguição movida pelo imperador Décio (250/251), tratava-se simplesmente de perseguições locais e por tempo limitado, mas que nem por isso deixaram de castigar os cristãos, porque a inveja, a difamação, os mal-entendidos e as acusações de culpa infundadas as tornavam imprevisíveis e os cristãos não tinham consciência de culpa alguma.

Até ser publicada a ordem de sacrificar em toda a extensão do Império e as respectivas sanções em caso de alguém negar-se a sacrificar ao imperador – ambas ditadas no reinado de Décio – não havia uma clara base jurídica romana pra as perseguições. Em geral, o simples fato de alguém – nomem Christianum – era razão para alguém ser punido. O único que podia estabelecer uma situação jurídica válida em todo o império e proteger os cristãos contra uma perseguição injustificada era o imperador.

Ademais, o conteúdo da argumentação apologética tinha por objetivo desfazer os mal-entendidos e as falsas representações que o povo tinha dos cristãos e que atiçavam as perseguições. Era preciso apresentar o cristianismo como uma convicção de fé aceitável, que não apenas era conciliável como bem do Estado e com as leis, mas também as favorecia, já que os cristãos oravam pelo bem-estar do imperador, participavam da vida pública e observavam cuidadamente o direito em virtude de suas obrigações cristãs e morais, etc.

[1] O termo aqui utilizado nada tem haver com o antissemitismo, porque não se trata da raça, mas da fé.

Os Padres Apologistas e sua Doutrina

Justino (100-165): a procura da Verdade o levou a diversas escolas filosóficas sucessivas: estóica, peripatética, pitagórica, platônica, todavia, esses sistemas filosóficos e as personalidades dos próprios mestres desiludiram-no, e finalmente ao cristianismo. É tido como o mais insigne apologista do século II, recebeu de Tertualiano a alcunha de ‘filósofo e mártir’.

Depois da conversão foi a Roma, onde escreveu suas apologias ao imperador Antonino Pio e também o seus Diálogo com Trifão. Foi enviado à morte pelo prefeito de Roma Rustico entre 163-167. Justino foi o primeiro cristão a servir-se das categorias aristotélicas e a utilizar a terminologia filosófica no pensamento cristão; conciliando fé e razão.

Doutrina: Justino afirma que o Deus transcendente entra em comunhão com o mundo através do Logos e que ao longo dos tempos este revelou parcelas da verdade (sementes do Verbo) antes de aparece em toda a sua plenitude em Jesus Cristo; assim, os filósofos foram cristãos sem o saberem, pois neles e em cada homem, em seu intelecto, sementes do Logos divino, outra maneira de dizer que, toda verdade humana diz algo da verdade cristã e constitui uma aproximação de Deus.

 No Diálogo 100, Maria é comparada pela primeira vez na antiga literatura cristã, a Eva. De inestimável valor são suas informações sobre o batismo e a celebração litúrgica, chamada por Justino ‘o sacrifício eucarístico do pão e do cálice. A fé na presença real de Cristo na Eucaristia é professada claramente e na 1ª Apologia 66 encontramos o primeiro esboço de formulação do dogma da transubstanciação. Diz Justino que no alimento eucarístico não recebemos um pão comum, nem uma bebida comum, para nutrir e transformar nossa carne e nosso sangue; é a carne e o sangue de Jesus Cristo encarnado, e devemo-lo a uma fórmula instituída por ele.

O tema central de Justino é o plano da criação e da salvação de Deus manifestado e cumprido em Cristo-Logos. Por suas ideias meio platônicas acaba aceitando uma certa subordinação do Logos a Deus. Nos seus escritos aparece uma descrição dos ritos do batismo e da Eucaristia. Foi o primeiro em comentar muitos dos temas teológicos que serão clássicos na teologia de todos os tempos, como por exemplo: a presença do Verbo-Messias na Lei e nos Profetas; o sacerdócio dos fiéis; o culto dos anjos; a Eucaristia como sacrifício; definição do diabo e da sua missão, etc…  Uma grande importância de Justino é que é o primeiro escritor cristão depois de Paulo a perceber as implicações universalísticas do cristianismo.

Taciano (120-180): de formação helenística, foi discípulo de Justino, e dele afirmou que era um homem digno de toda a admiração. Sua obra “Discurso aos gregos” (única que chegou a nós) – é uma violenta polêmica contra toda a cultura dos gregos. Diz que a única invenção dos gregos é a filosofia e que ele abomina na pessoa dos filósofos que se contradizem e desprezam os demais.

Para ele a verdadeira sabedoria está na tradição bíblica. Depois de atacar os gregos ele expõe um pouco a doutrina cristã, mas sempre em meio a polêmicas contra eles. Algumas posições teológicas originais de Taciano são sobre a procissão do Logos, a apresentação do tema da ressurreição, e o desenvolvimento da demonologia. Também tem algumas ideias de uma teologia arcaica.

Doutrina: Sua obra mais célebre é o Diatessaron, do qual só se tem fragmentos e diversos testemunhos, nela buscava eliminar as repetições de passagens paralelas nos Evangelhos, ao mesmo tempo que procurava soluções para as divergências nas ordem dos fatos e nas palavras de Jesus. Disso decorre sua tentativa audaciosa de uma fusão harmoniosa dos quatro evangelhos separados em um relato único da vida e dos ensinamentos de Jesus, inserindo as passagens dos sinóticos na estrutura cronológica do Evangelho de são João.

Teófilo de Antioquia (±120-186): converteu-se ao cristianismo em idade adulta, foi bispo de Antioquia no final do séc. II, nasceu às margens do Eufrates. Sua única obra que chegou até nós é o Autolycum: explica ao pagão Autólico como é possível fazer-se cristão, refuta as acusações dos pagãos que levantam suspeitas sobre a moral dos cristãos e caracteriza a imoralidade das concepções pagãs da vida. Como Taciano e Atenágonas, foi levado à conversão pela leitura das Sagradas Escrituras, as armas de sua apologia são a Revelação e a história.

Doutrina: é a primeira testemunha a empregar a palavra “Trías” (Trindade) a respeito da divindade, em geral designa as Pessoas divinas pelos nomes: Deus, Logos e Sabedoria. Doutrinariamente é de particular interesse sua tentativa de exposição e explicação da doutrina trinitária. Enquanto São Justino chama os Evangelhos apenas ‘memórias’ dos apóstolos, Teófilo equipara os evangelistas aos profetas: foram inspirados, portadores do Espírito. Aos Evangelhos e às Epístolas de São Paulo denomina ‘palavra santa e divina’. Foi o primeiro a declarar expressamente a inspiração do Novo Testamento e por fim, influenciou bastante Santo Irineu.

Atenágoras (133-190): vivia em Atenas e era filósofo de profissão. Escreveu “Presbeia” ou “Súplica de Atenágoras”, filósofo cristão em Atenas, a propósito dos cristãos”, esta dirigida a Marco Aurélio e a Cômodo. É possível que tenha sido escrita na ocasião da visita deles a Atenas em 176. Rejeita as três famosas acusações contra os cristãos: – que são ateus, – que cometem incesto, – que comem as crianças. Usando estes temas chega a falar da Trindade e da Ressurreição. Em todo a sua vida, conforme ele mesmo confessa, manterá sempre um profundo armo e respeito para com a Escritura.

Supera a Justino em linguagem, estilo e ritmo, e possui maior clareza na disposição dos assuntos. Ao contrário de Taciano, e assim, como Justino, Atenágoras procurava uma reconciliação entre cristianismo e império, adotando uma atitude mais tolerante entre doutrina cristã e filosofia grega. Refuta as acusações de ateísmo, refeições bacanais e incestos. Cita as Escrituras, mas usa argumentos de razão que são aceitos pelos pagãos.

Doutrina: é exímia testemunha da fé pré-nicena na Santíssima Trindade, prova que os cristãos não são ateus, mas adoram o Pai, o Filho e o Espírito Santo e cultuam os anjos. Sua ideia fundamental é a unidade de Deus, a divindade de Cristo e do Espírito Santo, unidade e distinção na Trindade, anjos e demônios, a virgindade fruto da moral cristã, a procriação dos filhos como fim primário do matrimonio e a ressurreição dos corpos. Com Atenágoras, a ciência teológica dá um passo a mais para sua consolidação, no que diz respeito às relações entre fé e razão.

Pontos principais da doutrina dos apologistas

Os apologistas são, normalmente, pessoas mais cultas que os padres apostólicos. São quase todos filósofos pagãos ou intelectuais que se converteram (Justino, Taciano e Atenágoras). Suas obras, em geral, não apresentam uma unidade sistemática. Eles continuam filósofos também depois da conversão e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia.

Para bem compreendê-los, é uma condição sine qua non lembrar que o escopo por eles visado era, sobretudo, evidenciar os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão, entre o cristianismo e a filosofia. Apresentavam o cristianismo como uma sabedoria, aliás, como uma sabedoria mais perfeita, para levarem, gradualmente, os pagãos até à conversão.

Os apologistas são testemunhas da Tradição: exemplo vivo desta são as páginas de Justino sobre o Batismo e a Eucaristia. Para defender o cristianismo, contudo, eles contrapõem a limpidez da fé cristã à absurdidade e imoralidade das doutrinas pagãs. Eles trazem os primeiros rudimentos de uma incipiente doutrina teológica. Em síntese, eis o pensamento teológico deles:

Inspiração: admitem, de forma clara e explícita, a inspiração para a Sagrada Escritura.

Deus e Trindade: Deus é Trino e eminente em todas as suas perfeições, é cognoscível através das coisas criadas, é o criador do universo por meio do Verbo. Deus é único, mas em três termos: Pai, Filho e Espírito Santo.

Anjos e demônios: admitem claramente a sua existência. Os anjos são ministros de Deus no governo do mundo, amigo dos bons. Os demônios são perseguidores dos bons e disseminadores de todos os males no mundo.

 Escatologia: eles têm clara a noção de uma recompensa e de um castigo após a morte, bem como da ressurreição da carne.

 Conclusão

Na época das perseguições, a apologética é, sobretudo, defensiva, uma vez que os cristãos eram acusados de atentarem contra a segurança do Estado, de ateísmo ou de imoralidade. Para se defenderem destas calúnias, uma das coisas que os apologistas faziam era o paralelo entre o paganismo e o cristianismo. Salientam a transcendência deste (critério internos), e invocam depois os milagres de ordem moral; a conversão do mundo, a santidade da vida dos cristãos, a sua constância heroica nos suplícios e o aumento constante.

Os primeiros imperadores do século II, esforçando-se, embora por conter a fúria instigada da plebe, não deixaram de ceder às demandas legais, sancionado mesmo condenações arbitrárias, simplesmente por causa do “nomen christianum”. Em 176, o imperador Marco Aurélio baixou um edito proibindo a adoção de novas religiões, o qual podia ser facilmente aplicado aos cristãos. Além disso, continuava a atitude hostil do judaísmo, cuja doutrina e moral se insinuavam constantemente no ambiente cristão, de modo que era preciso defender e definir a doutrina também em oposição a ele.

O Estado pagão reage acusando os cristãos de crimen maiestatis, ou seja, de recusar a sujeição ao imperador. Acusa, ainda, de crimen religionis ou de sacrilégio. Para ambos os crimes existia a pena de morte. Diante do povo, os cristãos passavam por canibais, incestuosos e ateus. Diante dos sábios, os cristãos eram tratados com ironia e sarcasmos. A ação dos apologistas consistirá em rebater as acusações dos doutos e do povo. De outro lado, eles contra-atacarão a religião e a filosofia pagãs, demonstrando os seus absurdos e a insuficiência dos erros da filosofia diante das verdades cristãs.

Os apologistas são pagãos geralmente cultos que, comparando os diversos, sistemas filosóficos com a doutrina dos cristãos, revelaram a superioridade desta. Converteram-se, pois, ao cristianismo e sentem a necessidade de partilhar com os outros a sua feliz experiência religiosa. Buscam esclarecer as ideias das autoridades e do povo com relação aos cristãos. Comunicam a luz ofuscante que brilhou diante de seus olhos, defendendo, destarte, uma sociedade de homens tão admiráveis e tão mal conhecidos. Os seus escritos estão cheios de vida e entusiasmo. São verdadeiros textos de batalha.

Nas obras dos apologistas, devido a seu intuito de ganhar influência mesmo na sociedade culta dos pagãos, nota-se já a introdução sempre mais acentuada de uma terminologia propriamente filosófica e de eruditas reflexões. Nem por isso, o conteúdo religioso-teológico da fé cristã sofreu uma transformação ou paganização, em seus pontos essenciais. O refrão bem frequente e tão mal empregado da helenização do cristianismo por influência da filosofia antiga na especulação cristã distingue insuficientemente o conteúdo bíblico da forma helênica da exposição. Constituem argumentos particulares da verdade do cristianismo os seguintes:

  • O argumento dos efeitos morais do cristianismo, sobretudo os da caridade fraterna;
  • O argumento das predições de Cristo e dos profetas; ao que parece, os escritores do século II já se serviam de uma coleção de escritos proféticos veterotestamentárias;
  • O argumento da antiguidade: acentuação da unidade intrínseca e da conexão existente entre o Antigo e o Novo Testamento; o conteúdo dos Livros Proféticos se realiza no NT; o cristianismo não é religião nova, nem recente, porque Moisés é anterior aos poetas e sábios gregos;
  • O argumento dos milagres de Cristo, raras vezes aduzido, porque, conforme Tertualiano, Orígenes e Lactâcio também os pseucristos e magos possuíam a virtude de operar prodígios, pela intervenção dos demônios.

Os Apologistas criam que em comparação com a filosofia ensinada por Cristo, que é a Verdade, o Logos eterno, a filosofia pagã é apenas um fragmento, um “germe”. Essa reinvindicação, que parece uma usurpação é importantíssima, pois se coloca no núcleo mais importante da cultura pagã que é a filosofia. Assim os Padres conseguirão fazer a inculturação do cristianismo no mundo greco-romano.

Os escritos apologéticos do séc. II revestem principalmente a forma de discurso ou diálogo, elaborados conforme as regras da retórica grega e destinados, em parte, a serem entregues aos imperadores. Rebatem as calúnias, desmascaram as inconsistências e a imoralidade da mitologia, e defendem, sobretudo, o monoteísmo e o dogma da ressureição. Visam demonstrar que a filosofia pagã, baseada meramente na razão humana, conhecera parcialmente a Verdade, entremeando-a com erros; que o cristianismo ao contrário, apresentava a verdade íntegra; que em Cristo, o Logos, isto é, o próprio intelecto divino, apareceu na terra.

Enfim, os Padres Apologistas fizeram avanços teológicos importantes e nos legaram pontos fundamentais para a fé católica: na doutrina de Deus, da cristologia, do Logos, o mistério trinitário, a antropologia cristã, desenvolveram mais o estudo da Bíblia e a doutrina da Inspiração; como também ofereceram material interessante para compreender a estrutura eclesiástica interna do séc. II e o próprio desenvolvimento da doutrina no decorrer dos séculos.

Referências

ALTANER, Berthold; STUIBER, Alfred. Patrologia: vida, obras e doutrina dos Padres da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1972.

BOULENGER, A. Manual de Apologética. Porto: Apostolado da Imprensa, 1950.

DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. Tradução de Orlando dos Reis e Carlos Almeida Pereira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulinas, 2014.

LOPES, Geraldo. Patrística Pré-Nicena. São Paulo: Paulinas, 2014.

MANDONI, Danilo. O Cristianismo na antiguidade. São Paulo: Loyola, 2014.

MORESHINI, Cláudio; NORELLI, Enrico. História da Literatura Cristã I: De Paulo à Era Constantiniana. Tradução de Marcos Bagno. 2° ed. São Paulo, Loyola, 2014.

AUTOR

Jeferson Alves de Lima[1]

[1] Seminarista da Diocese de Porto Nacional, aluno do 1º semestre do Curso de Teologia do Seminário Maria Mater Ecclesiae – E-mail: alves_som@yahoo.com.br

 



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