O PRINCÍPIO DE UNIDADE EM SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA E SEUS DESDOBRAMENTOS

Palavras chaves: Unidade. Eucaristia. Hierarquia. Heresias. Martírio.

Sumário: Introdução 1. Santo Inácio de Antioquia e o conteúdo das cartas. 2. A Igreja, a hierarquia e a unidade. 2.1 A hierarquia, a Eucaristia e a unidade.  2.2 O martírio e a unidade da Igreja. 3. Santo Inácio em defesa da unidade. Conclusão. Referências.

Escrito por: Jeferson Alves de Lima[1]

Introdução

Durante os primeiros séculos da Igreja nascente, as perseguições do império Romano foram pungentes e violentas. Diversas acusações eram atribuídas aos cristãos (ateus, praticantes do canibalismo, infanticídio, orgias etc.), diante de tais acusações e condenações, instalou-se um clima de ‘guerra’ contra os cristãos a mando dos imperadores.

Dentre essas vítimas, merece destaque Inácio, bispo de Antioquia[2], que, tendo sido acusado de algum crimen laesae maiestatis (ante as autoridades negou-se a adorar os deuses do império), foi preso e condenado, indo sofrer o martírio em Roma[3], conforme o testemunho de Policarpo, Orígenes e Eusébio. (Cf. DROBNER, 2003, p. 57).

Assim, a caminho do martírio, Santo Inácio escreveu sete cartas direcionadas para diferentes comunidades cristãs: quatro foram escritas a partir de Esmirna para as Igrejas dos Efésios, Magnésios, Tralianos e Romanos; as outras três, escreveu de Trôade à Igreja da Filadélfia, Erminiotas e ao bispo Policarpo), tanto por sua cronologia como por sua teologia, os autores o situam bem próximo aos apóstolos.[4]

Tamanha era sua fé e influência que seu testemunho de bispo foi tão preponderante e intenso que as comunidades cristãs, não só o acompanham em sua peregrinação para o martírio, como também se aconselhavam e mandavam delegações que se dispunham a esperá-lo de cidade em cidade: Éfeso, delegou seu bispo Onésimo, o diácono Burrhus e três outros irmãos; na Magnésia, o bispo Basso, dois padres e um diácono.

Durante sua viagem, sob a vigilância severa dos guardas, que ele chama de ‘dez leopardos’ (Cf. Carta aos Romanos 5,1)[5], nas cidades por onde passava, ia solidificando os cristãos com suas admoestações, conselhos, encorajando a viver a unidade, a evitar as heresias, que na sua época começavam a pulular, a preservarem e não se separar da Tradição dos apóstolos.

Além disso, as cartas de Inácio destacam o princípio da unidade e, como veremos, é deste princípio que se desdobra os demais pontos[6]: a unidade eclesial que liga o bispo aos fieis; a estrutura e unidade hierárquica da comunidade eclesial, representada na pessoa do bispo, presbíteros e diáconos; o papel e autoridade do bispo em relação à comunidade; cristologia; a Eucaristia e o martírio.

  1. Santo Inácio de Antioquia e o conteúdo das cartas

Santo Inácio é o primeiro escritor da Igreja, pagão converso ao cristianismo, suas cartas são “cartas de um grego, para quem o grego é a língua de sua alma e de sua sensibilidade, de sua cultura e de seu pensamento” e nos aspectos literários, adota a forma e categorias literárias do helenismo (Cf. HAMMAN, 1980, p. 16).[7]

Oriundo de Antioquia e tendo seu nome derivado do latim (igne: fogo e natus: nascido), o homem nascido do fogo, com o coração ardente. Era um zeloso pastor de almas, preocupado em conduzir o rebanho que Cristo lhe havia confiado, numa dedicação que se expressa no conteúdo das cartas que escreveu, enquanto seguia para o martírio.

Ao escrever suas cartas, segue o mesmo esquema em todas elas: saudação, elogio das qualidades da comunidade, estar unidos à Igreja e ao bispo, fugir das heresias, e, por fim, uma saudação pedindo orações para a Síria ou o envio de um diácono.

Suas cartas mostram o conhecimento do carisma e governo da Igreja primitiva, revelando algumas verdades fundamentais e basilares de nossa fé, advertindo contra erros doutrinários, principalmente o docetismo[8], estes afirmavam que a Encarnação do Verbo era mera aparência, a morte e ressurreição de Cristo como também sua presença na Eucaristia eram formas ilusórias: “Ele sofreu tudo isso por nós, para que sejamos salvos. E ele sofreu realmente, assim como ressuscitou verdadeiramente. Não sofreu, apenas na aparência, como dizem alguns incrédulos” (Carta aos Erminiotas 1,2).[9]

Pode-se captar expressões do realismo cristológico de Santo Inácio, estando sempre atento à encarnação do Filho de Deus e sua humanidade concreta: Jesus, afirma Inácio, “é verdadeiramente da descendência de Davi segundo a carne, […] nascido verdadeiramente da virgem, batizado por João […]. Ele foi realmente pregado por nós em sua carne, sob Pôncio Pilatos e o tetrarca Herodes” (Carta aos Esmirniotas 1,1).

Em seu governo episcopal, administrou uma Igreja de “de origem estritamente helênica. Ela é um testemunho da primeira expansão da evangelização.” (HAMMAN, 1980, p. 16). Enxerga-se em Santo Inácio e em suas cartas um homem apaixonado, heroico embora modesto; com um dom inato de simpatia, como o apóstolo Paulo, possuindo ainda uma doutrina clara, segura, mais dogmática do que moral, onde se confluem mística e santidade. (Cf. HAMMAN, 1980, p. 17).

Se, Santo Inácio, por um lado, é possuidor de um amor e respeito ao homem inconfundíveis, amando cada um em particular e, em primeiro lugar, o pequeno, o escravo, o fraco, como recomenda em sua carta ao bispo Policarpo; por outro, e um insigne paladino da fé, isto é, “serve à verdade da fé a ponto de pregá-la mesmo quando ela lhe é incômoda e quando ameaça atrair sobre ele, as incompreensões e até a hostilidade.” (HAMMAN, 1980, p. 17).

A Igreja, a hierarquia e a unidade

As cartas de Santo Inácio estão repletas de ensinamentos sobre a Igreja[10], nelas encontramos, por exemplo, pela primeira vez, na literatura cristã, a expressão ‘Igreja Católica’: “Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica” (Carta aos Erminiotas 8,2).[11]

É possível notar a reverência e amor que nutria com relação à Igreja, a esposa de Cristo: “À Igreja que foi grandemente abençoada […] predestinada antes dos séculos para existir sempre, para uma glória que não passa, inabalavelmente unida, escolhida […] pela vontade do Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus[12]” (Carta aos Efésios) e que é capaz de reunir “tanto judeus como pagãos, no corpo único da sua Igreja[13]” (Carta aos Erminiotas 1, 2, grifo nosso).

A Igreja, no início do século II, vive um momento crucial: com a morte dos apóstolos um após o outro, continuou a ampliar-se, a prosperar no meio das perseguições[14], organizando-se: um exemplo nítido de tal estruturação é a solidificação do episcopado fundado nas comunidades da Ásia Menor, como asseguram suas cartas.

A hierarquia da Igreja[15], formada por bispos, presbíteros e diáconos, com suas respectivas funções, aparece de forma clara em suas cartas. O bispo é o representante de Cristo e quem está unido a ele, está unido a Cristo: “Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai […]. Sem o bispo, ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja” (Carta aos Magnésios 8,1) e afirma mais: Está claro, portanto, que devemos olhar o bispo como ao próprio Senhor. (Carta aos Efésios 6,1).

A figura do bispo é tão importante que Santo Inácio assegura: “Quem respeita o bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo” (Carta aos Erminiotas 9,1). Sendo assim, nota-se a insistência em seus escritos por preservar a unidade da Igreja (hierarquia e os fieis): “Fazei-o sem vos encher de orgulho, permanecendo inseparáveis de Jesus Cristo Deus, do bispo e dos preceitos dos apóstolos”, pois “[…] aquele que age sem o bispo, sem o presbitério e os diáconos, esse não tem consciência pura (Carta aos Tralianos 7, 1-2) e noutro lugar afirma: “vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros” (Carta aos Magnésios 7,1).[16]

A elevada consideração que Santo Inácio possui pela hierarquia o faz expressar que tudo dever ser feito na concórdia de Deus e sob a orientação do bispo, “que ocupa o mesmo lugar de Deus” e dos “dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos e dos diáconos […] aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai[17] e por fim se manifestou[18]” (Cartas aos Magnésios 6,1) e mais: “Que não haja nada entre vós que vos possa dividir, mas uni-vos aos bispo e aos chefes como sinal e ensinamento de incorruptibilidade” (Carta aos Magnésios 6,2).

Exortava os fieis na conservação da Tradição Apostólica conservando a unidade com a hierarquia da Igreja: “Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor[19] e dos Apóstolos[20], […] unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros[21] e diáconos do Deus” (Magnésios 13,1, grifo nosso).

O entusiasmo de Inácio é tanto que chega ao ponto de oferecer-se como resgate dos que se submetem à hierarquia da Igreja: “Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida[22] para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus (Carta a Policarpo 6,1, grifo nosso).

A hierarquia, a Eucaristia e a unidade

Santo Inácio demonstra em suas epístolas que a unidade entre o bispo e seu presbitério deságua na preocupação de manter unida a comunidade em torno deles e dos sacramentos, participando “de uma só Eucaristia. De fato, há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice na unidade do seu sangue, um único altar, assim como um só bispo com o presbitério e os diáconos […]” (Carta aos Filadelfienses 4,1).

Desde o primeiro século temos o testemunho de que para os primeiros cristãos, participar da Eucaristia, não era comungar um simples ‘pão’; eles nunca entenderam as palavras de Jesus, no discurso do pão da vida[23] e nas palavras da última ceia[24], por exemplo, como um símbolo, uma representação, mas comungavam verdadeiramente a carne de Cristo: “Eles se afastam da Eucaristia e da oração, porque não professam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados e que, na sua bondade o Pai ressuscitou[25]” (Carta aos Filadelfos 7,1), pois a Eucaristia é “remédio de imortalidade[26], antídoto para não morrer[27], mas para viver em Jesus Cristo para sempre[28]” (Carta aos Efésios 20, 2).

O martírio e a unidade da Igreja

O sentimento de Santo Inácio pela unidade é tamanha, que é deste ideal donde promana outro traço ou marca distintiva de suas cartas: o martírio.[29] É da unidade que tira forças para alimentar seu desejo e paixão de imitar e unir-se ao Cristo, é para segui-lo perfeitamente que aspira, anseia pelo martírio e dar a sua vida como ele o fez:  “Para mim, é melhor morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morreu por nós; quero aquele que por nós ressuscitou. […] Deixai que seja imitador da paixão do meu Deus.” (Carta aos Romanos 6,1.3)[30]

O verdadeiro amor, para o mártir, consiste na renúncia e sacrifício de si mesmo, seguindo os passos do Filho de Deus, em favor da Igreja. O ato de Cristo sacrificar sua vida demonstra todo seu amor pela humanidade; assim, o cristão, aceitando o martírio pela salvação do próximo, se configura, imita e quer alcançar a Cristo[31]: “Estou começando a me tornar discípulo. Que nada de visível e invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo”, não se preocupando sequer com “fogo e cruz, manadas de feras, lacerações, desmembramentos, deslocamento de ossos, mutilações de membros, trituração de todo o corpo” ou que “os piores flagelos do diabo” caiam, contanto que “alcance Jesus Cristo.” (Carta aos Romanos 3,1).[32]

Como assegura o papa Bento XVI, “nenhum padre da Igreja expressou com a intensidade de Inácio o anseio pela união com Cristo e pela vida n’Ele” (2012, p. 13). No bispo de Antioquia, afluem duas correntes espirituais: a de Paulo, que tende ao tema da união com Cristo[33], e a de João, convergindo na vida n’Ele.[34]

Tais correntes, por sua vez, desembocam na imitação de Cristo, assim, suplica aos cristãos de Roma que não impeçam seu martírio, pois quer unir-se a Jesus Cristo: “Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus. Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo.” (Carta aos Romanos 4,1).

O bispo de Antioquia, propendendo para a união com Cristo, funda aquilo que o papa Bento XVI chama de “mística da unidade” (2012, p. 13), e Inácio se definia como “homem que age pela unidade” (Carta aos Filadelfienses 8,1). É evidente a responsabilidade da hierarquia na edificação da comunidade, exortando-a à unidade[35]: “Pelo contrário, reunidos em comum, haja uma só oração, uma só súplica, um só espírito, uma só esperança no amor, na alegria imaculada, que é Jesus Cristo: nada é melhor do que ele.” (Carta aos Magnésios 7,1, grifo nosso).[36]

Santo Inácio em defesa da unidade[37]

Bento XVI chama Santo Inácio de “o doutor da unidade” (2012, p. 15): unidade de Deus e de Cristo (mesmo com as diversas heresias que pululavam, circulavam e dividiam o homem os cristãos), unidade da Igreja da hierarquia com os fieis, ou seja, o princípio da unidade é o que permite participar da inseparável unidade de Deus, tornando-se: “um só coro, a fim de que, na harmonia de vosso acordo, tomando na unidade o tom de Deus, canteis a uma só voz, por meio de Jesus Cristo, um hino ao Pai […].”  (Carta aos Efésios 4, 2, grifo nosso).

Santo Inácio enfrentou as heresias[38] que surgiam para desorientar a doutrina e os fieis,[39] assim, manifestando o ardoroso trabalho conservar a unidade da Igreja[40], pois esta unidade foi estabelecida com Deus e com Jesus Cristo: “Preocupa-te com a unidade, acima da qual nada existe de melhor” (Carta a Policarpo 1,2). Seu desejo era “a união na fé e no amor, ao qual nada é preferível, e, o que é mais importante, união com Jesus Cristo e o Pai[41]” (Carta aos Magnésios 1, 2, grifo nosso).

Exortou aos seus ao arrependimento em vista da reconstrução da unidade[42]: “[…] a todos que se arrependem, o Senhor perdoa, se se arrependem para a unidade de Deus e o sinédrio dos bispos” (Carta aos Filadelfienses 8,1). Sua constante preocupação era para que os cristãos levassem uma vida segundo o ensinamento de Jesus Cristo, manifestando sua pertença real a Deus, por meio da unidade à verdadeira Igreja: “Aqueles que, arrependendo-se, vierem para a unidade da Igreja, serão também de Deus, para que sejam vivos segundo Jesus Cristo”, pois, aquele que segue um cismático “não herdará o Reino de Deus. Se alguém caminha em conhecimentos estranhos, esse não participa da Paixão.” (Carta aos Filadelfienses 3, 2-3).

Conclusão

Conhecemos Santo Inácio de Antioquia por meio das 7 cartas que escreveu às comunidades por onde passava, sua vida tinha um propósito: ser imitador da paixão de Jesus Cristo, estando disposto a enfrentar a morte e através dela chegar a ser outro Cristo. Almejava o encontro com Cristo, desprendendo-se das coisas desta vida e como zeloso pastor defendeu o rebanho e despertou a consciência dos cristãos para os perigos que ameaçam a fé e a doutrina.

As cartas de Inácio tiveram rápida divulgação. Já pouco depois de sua morte, a comunidade de Filipos pediu a Policarpo de Esmirna que lhe fossem enviadas cópias das cartas de que dispunha, o que ele fez acrescentando um escrito que chegou até nós.

Alguns temas estão como prioridade em suas cartas, isto é, sintonizados mantendo um mesmo perfil: a unidade da teologia do monoteísmo trinitário, da eclesiologia e do episcopado. Estes temas estão estreitamente unidos: a Igreja possui, estruturalmente falando, uma hierarquia conforme o modelo trinitário sob a direção do bispo, tem a seu lado os presbíteros e diáconos numa subordinação gradual, ou seja, a comunidade está submetida ao bispo, que é sua cabeça, assim como a Igreja se submente a Cristo como seu Corpo, e Cristo, por sua vez, se subordina ao Pai.

Assim, o bispo é o modelo supremo da união e harmonia de todos, e por força de seu ministério, preside o batismo, a Eucaristia, garante a ortodoxia; obrigando-o a levar uma vida exemplar, apesar de que dela não depende a validade do exercício do seu ministério.

Em suas cartas, há um duplo movimento, constante e fecundo, de dois aspectos característicos da vida cristã: por um lado, a estrutura hierárquica da comunidade eclesial, e por outro, a unidade que liga entre todos os fieis em Cristo. Dessa forma, os papeis não podem estar em oposição; mas, ao contrário, insiste na comunhão da comunidade dos fieis entre si e com os seus pastores, usando continuamente imagens e analogias: a cítara, as cordas, a afinação, o concerto, a sinfonia.

A ânsia do martírio ou a teologia do martírio, típica dos primeiros dois séculos do cristianismo, se fundamenta não apenas num esforço ascético e ético para alcançar a perfeição, mas também nas raízes da teologia do seguimento de Cristo, o qual Santo Inácio incorporou em sua vida e escritos, de tal maneira que a ânsia do martírio tem conotações eucarísticas: “Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo.” (Carta aos Romanos 4,1).

Em conclusão, Santo Inácio convida-nos a uma síntese progressiva de dois aspectos: primeiro, a configuração com Cristo, isto é, união com Ele e vida n’Ele; segundo, dedicação à sua Igreja, ou seja, unidade entre os fieis, unidade dos fieis  com o bispo e seu presbitério, serviço generoso à comunidade e aos mundo. Observa-se, assim, a superação das dicotomias, próprio da fé católica: comunhão da Igreja o seu interior e a missão de proclamar o Evangelho para os outros, por meio de uma dimensão se manifesta a outra e vice-versa.

Referências

ALTANER, Berthold; STUIBER, Alfred. Patrologia: vida, obras e doutrina dos Padres da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1972.

BENTO XVI. Padres e Doutores da Igreja. São Paulo: Paulus, 2012.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2016.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 2017.

DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. Tradução de Orlando dos Reis e Carlos Almeida Pereira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Tradução das Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria de Cristo. São Paulo: Paulus, 2000. v. XV.

HAMMAN, A. Os Padres da Igreja. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 1980.

PADRES APOSTÓLICOS. Tradução de Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin. Introdução e notas explicativas Roque Frangiotti. São Paulo: Paulus, 1995. v. I.

[1] Seminarista da Diocese de Porto Nacional, aluno do 2º semestre do Curso de Teologia do Seminário Maria Mater Ecclesiae – E-mail: alves_som@yahoo.com.br

[2] Há uma certa indecisão sobre qual posição ocupou à frente da Igreja de Antioquia, pois conforme Eusébio, Santo Inácio de Antioquia foi o segundo sucesso de Pedro na sede episcopal de Antioquia (Cf. EUSÉBIO, 2000, p. 139; DROBNER, 2003, p. 57). Mas, segundo o papa Bento XVI e São Jerônimo, Inácio foi o terceiro bispo de Antioquia (Cf. BENTO XVI, 2012, p. 12; PADRES APOSTÓLICOS, 1995, p. 73) e discípulo de São João.

[3] O Cristo já havia profetizado: “Antes de tudo isso, porém, hão de vos prender, de vos perseguir, de vos entregar às sinagogas e às prisões, de vos conduzir a reis e governadores por causa do meu nome.” Lc 21,12.

[4] Muito provavelmente conheceu os apóstolos Pedro e Paulo, pois em sua carta aos Romanos afirma: “Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram apóstolos, eu sou um condenado.” (Cf. PADRES APOSTÓLICOS, 1995, p. 105, grifo nosso).

[5] Duas observações preliminares: I) todas as vezes que, neste trabalho, for mencionada uma das cartas de Santo Inácio estas se encontram na obra PADRES APOSTÓLICOS. Tradução de Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin. Introdução e notas explicativas Roque Frangiotti. São Paulo: Paulus, 1995. v. I; II) a divisão das cartas, pelo que parece, segue a mesma estrutura de citação da Sagrada Escritura, isto é, em capítulos e versículos.

[65] Em algumas notas de rodapé, se citará passagens bíblicas do Novo Testamento, para, assim, evidenciar a relação existente de alguns desses elementos nas cartas de Santo Inácio de Antioquia com a Sagrada Escritura. O objetivo é apenas um: notar o quanto que as cartas estão imbuídas de um profundo sentimento bíblico, uma vez que o cânon da Sagrada Escritura sequer estava condensado nos 27 escritos do Novo Testamento.

[7] Para se ter uma ideia: as cartas de Santo Inácio tiveram tamanha importância que os historiadores discutiram a autenticidade delas durante dois séculos. Críticos, como Harnack, afirmam sua originalidade e autenticidade. (Cf. HAMMAN, 1980, p. 17).

[8] Doutrina herética que já se delineia no Novo Testamento e se destaca no séc. II, procurava explicar a compatibilidade do sofrimento do Filho de Deus com sua divindade imutável e impassível, afirmando que ele assumira apenas um corpo aparente.

[9] O tema da Encarnação foi bastante enfatizado por São João: “[…] todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio da carne é de Deus; e todo espírito que confessa Jesus não é de Deus, e este é o espírito do Anticristo” 1 Jo 4,2-3, grifo nosso. E mais: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da Vida” 1 Jo 1,1, grifo nosso. Chegando, assim, numa outra afirmação capital da fé: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” Jo 1,14, grifo nosso.

[10] São Paulo, por exemplo, afirma que a Igreja é “a coluna e o sustentáculo da Verdade” 1 Tm 3,15; que ela é o Corpo de Cristo (Cf. 1 Cor 6, 12-20; Rm 12,4-8), Esposa de Cristo (Ef 5,21-33; 2 Cor 11,2);  Novo povo de Deus (Cf. 1 Pd 2,9).

[11] Torna-se evidente a interligação que Santo Inácio faz entre o bispo e a comunidade cristã, isto é, onde estiver o bispo, aí também esteja em volta dele toda a comunidade cristã.

[12] Perceba-se que já se acena a afirmação da divindade de Jesus, negada, posteriormente pelos arianos e Testemunhos de Jeová, por exemplo.

[13] O tema da Igreja como Corpo de Cristo está presente em diversos lugares, mas, principalmente nas cartas de São Paulo: Cf. 1 Cor 12, 22-30; Ef. 1, 22-23; Ef. 5, 22-23; Fil. 4,12; Col. 1, 18.24.

[14] Cf. Atos 8, 1-4

[15] Uma leitura atenta do livro dos Atos dos Apóstolos e dos demais escritos do Novo Testamento constata a existência de uma hierarquia, isto é, um governo dentro da Igreja, a começar da escola dos doze apóstolos. Cf. Mc 3,1314; At 6,2-6; At 14,23; 20,17; Fl 1,1.

[16] Tal unidade com a hierarquia é fundamental, pois, afirma São Paulo: “Estais edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra angular” Ef 2,20.

[17] Esta afirmação está em plena consonância com aquilo que São João escreveu no prólogo do seu evangelho: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus.” Jo 1,1-2.

[18] São Paulo afirma: “Seguramente, grande é o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, justificado no Espírito, aparecido aos anjos, proclamado às nações, crido no mundo, exaltado na glória.” 1° Tm 3, 16, grifo nosso.

[19] “Assim, irmãos amados e queridos, minha alegria e coroa, permanecei firmes no Senhor, ó amados” (Fl 4,1, grifo nosso).

[20] Afirma a Escritura: “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” At 2, 42, grifo nosso

[21] Expressão recuperada pelo Concílio Vaticano II: “Os presbíteros, à semelhança da ordem dos bispos, de que são coroa espiritual, já que participam das suas funções por graça de Cristo, eterno e único mediador […].” Lumen Gentium, n. 41.

[22] “Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o  Evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos” 1° Ts 2,6

[23] Cf. Jo 6.

[24] Cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20.

[25] Leve menção da doutrina da ressurreição, crida desde o primeiro século e em sintonia com o que o apóstolo Paulo descreve em 1 Cor 15.

[26] Expressão presente em diversas encíclicas (Cf. Mediator Dei, do papa Pio X, n. 107; Mysterium Fidei, do papa Paulo VI, n. 05; Ecclesia de Eucharistia, do papa João Paulo II, n.18; ); no Catecismo da Igreja Católica (Cf. n. 1331, 1405, 2837).

[27] “Este é o pão que desceu do céu. Ele não é como os que os pais comeram e pereceram; quem come este pão viverá eternamente.” Jo 6, 58, grifo nosso

[28] “Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” Jo 6,56, grifo nosso.

[29] O martírio, segundo o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2473 é “o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Enfrenta a morte num ato de fortaleza.” (2017, p. 637).

[30] “Por ele, perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, […] para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos.” Fl 3,8b-11

[31] A doutrina cristã pode ser resumida nas seguintes palavras: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” Lc 9, 23 e “sereis odiados de todos por causa do meu nome” Lc 21,17 e este foi o caminho trilhado por Santo Inácio rumo ao seu martírio.

[32] Assim, o apóstolo Paulo se exprimiu: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada? […] Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” Rm 8, 35.38

[33] “Sinto-me num dilema: meu desejo é partir e estar com Cristo, pois isso me é muito melhor” Fl 1,23

[34] Em 1 Jo 5,11-12, lemos: “E o testemunho é este: Deus nos deu vida eterna e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida” e mais: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” Jo 14,6 (grifo nosso)

[35] De modo análogo, São Paulo também fazia o mesmo apelo: “[…] procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim, como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamado; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por meio de todos e em todos.” Ef 4,36, grifo nosso.

[36] Uma clara referência ao texto: “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma” At 4,32ª, grifo nosso.

[37] O Catecismo da Igreja Católica desenvolve esta primeira marca ou atributo da Igreja (a unidade) nos parágrafos 811-822.

[38] Segundo o Catecismo, a Igreja chama de heresia “a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dessa verdade” (Parágrafo 2090, p. 550).

[39] Tal alerta é repetido em Mt 7,15; At 20,29-31; 1 Cor 11,18-19; Tt 3,9-11; 1 Tm 6,3-5; 2 Pd 2,1-2.

[40] O Decreto Unitatis Redintegratio, promulgado pelo Papa Paulo VI, elucidava que a reintegração da unidade entre todos os cristãos era um dos objetivos do Concílio Vaticano II.

[41] “A fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviastes […] Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade [..]” Jo 17, 21.23, grifo nosso.

[42] Todos os anos é promovida, pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. No hemisfério norte, a Semana de Oração, por iniciativa de Paul Watttson, acontece entre 18 a 25 de janeiro, entre a festividade da cátedra de São Pedro e a conversão de São Paulo, tendo, portanto, um significado simbólico. No hemisfério sul, a Semana de Oração acontece no período de Pentecostes.



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