O CONSENSO UNÂNIME DOS PADRES

Um artigo no Dicionário Católico de Apologética e Evangelismo
Por Steve Ray
Tradução Adaptada: Marco Túlio
Texto Original:http://m.whatistruth.webnode.com/apologetics-topics/church-fathers/unanimous-consent-by-steve-ray/

O Consenso Unânime (unanimem consensum patrum), refere-se ao ensino moralmente unânime dos Pais da Igreja sobre certas doutrinas reveladas por Deus e interpretações das Escrituras recebidas pela Igreja Universal. Os Padres, individualmente, não são pessoalmente infalíveis, e uma discordância de algumas poucas testemunhas dos primeiros padres não prejudica o testemunho patrístico coletivo.

 A palavra “unânime” vem de duas palavras latinas: únus, um + animus, mente. “Consentimento” em latim significa acordo e harmonia; ser da mesma mente ou opinião. Onde os Padres falam em harmonia, com uma mente em geral – não necessariamente todos concordam em todos os detalhes, mas por consenso e acordo geral – temos o “consentimento unânime”. Os ensinamentos dos Padres nos fornecem um testemunho autêntico da Tradição Apostólica.

Santo Irineu (140 d.C – 202 d.C), escreve: “A Tradição derivada dos apóstolos, da grande, da antiga e universalmente conhecida Igreja fundada e organizada em Roma” (Contra as Heresias, III, 3,2), e a “Tradição que se origina dos apóstolos [e] que é preservada por meio das sucessões dos presbíteros nas Igrejas” (Ibidem, III, 2,2) que “existe assim na Igreja e é permanente entre nós” (Ibid., III, 5,1). Consentimento unânime se desenvolve a partir da compreensão do ensinamento apostólico preservado na Igreja com os Padres, justamente do seu testemunho autêntico.

 São Vicente de Lerins, explica o ensinamento da Igreja:

Na própria Igreja Católica, todos os cuidados possíveis devem ser tomados, para que possamos ter aquela fé que tem sido acreditada em todos os lugares, sempre, por todos. Pois isso é verdadeiramente e no sentido mais estrito “católico”, que, como o próprio nome e a razão da coisa declaram, compreende tudo universalmente. Esta regra deverá ser observada se seguirmos a universalidade, a antiguidade, e o consentimento. Seguiremos a universalidade se confessarmos que uma fé é verdadeira, se toda a Igreja em todo o mundo a confessa. A antiguidade, se de maneira nenhuma nos afastarmos das interpretações que são manifestas, é notoriamente mantida por nossos santos antepassados ​​e pais; consentimento, da mesma forma, se na própria antiguidade nós aderimos às definições e determinações consentidas de todos, ou pelo menos de quase todos os sacerdotes e médicos” (Commonitory 2).

Observe que São Vicente menciona “quase todos os sacerdotes e médicos”.

 A frase Consentimento Unânime dos Padres teve uma aplicação específica, conforme usada no Concílio de Trento (quarta sessão), e reiterada no Concílio Vaticano II (Decretos dogmáticos do Concílio Vaticano, cap. 2). Os Padres do Concílio aplicaram especificamente a frase à interpretação das Escrituras. A confusão bíblica e teológica era desenfreada na esteira da reforma protestante. Martinho Lutero afirmou:

Existem tantas seitas e crenças quantas as cabeças, uma nada tem a ver com o batismo, outra nega o sacramento, uma terceira acredita que existe outro mundo entre este e o último dia, alguns ensinam que Cristo não é Deus, outros dizem isso. Não há rústico, porém rude, que se você sonhar ou fantasiar algo, este não deveria ser o sussurro do Espírito Santo, e ele mesmo um profeta”.

 Uma boa definição do consentimento unânime, baseada nos Conselhos da Igreja, é fornecida no Catholic Maryknoll Dictionary:

 “Quando os padres da Igreja são moralmente unanimes em seus ensinos enfatizando que certa doutrina faz parte da revelação, ou é recebida pela Igreja Católica ou o oposto ao afirmar que uma doutrina é herética, logo, este testemunho unanime é um critério para a tradição divina. Como os santos padres não são pessoalmente infalíveis, um contratestemunho de um ou dois padres, não seria destrutivo. Dessa forma a moral unanime sempre será aplicada.” (Wilkes-Barre, Penn.: Dimension Books, 1965), p.153.

Os padres conciliares em Trento (1554 – 1563), afirmaram o antigo costume mantido pelos pais da Igreja quanto ao entendimento das escrituras para assim, trazer ordem em meio ao caos. A oposição em relação ao ensino católico é exemplificada por William Webster (The Church of Rome at the Bar of History [Carlisle, PA: Banner of Truth Trust, 1995]) que apresentou de forma errônea o consenso dos padres, redefinindo e interpretando de forma errada o “consenso unanime”. 

Primeiro: em sua redefinição, ele sugere que o consenso unanime significa que cada padre desenvolveu a mesma tradição e ensinou-a claramente, com os mesmos termos, assim como seria usado mais tarde nos concílios da Igreja. Este é um falso entendimento, até mesmo pelo consenso unanime da Lei Americana: “nem sempre significa que todos os presentes votaram na proposta, mas ela pode e geralmente significa quando é concedido um voto verbal que ninguém votou contra” (Black’s Law Dictionary).

Segundo: ele aplica erradamente o termo, não na questão da interpretação das escrituras, como os padres conciliares pretendiam, mas, na questão da Tradição. Suas afirmações não são verdadeiras. Usando-se de uma definição enviesada e aplicando o “consenso unanime”, ele seleciona passagens específicas da patrística para provar sua análise individual dos padres da Igreja.

Por exemplo: os padres, individualmente, podem referenciar a “pedra” de Mateus 16 com Jesus, Pedro, a confissão de Pedro ou até mesmo a fé de Pedro. Até mesmo o Catecismo da Igreja Católica faz referência à “pedra” de Mt 16 como São Pedro em um parágrafo (CIC 552) e a respeito de sua fé (CIC 424) em outro.

Mt 16 pode ser usado de diversas formas para refutar falsos ensinos e para uma instrução fiel sem a ênfase literal. Historicamente, a interpretação católica é de que São Pedro é a rocha da fundação da Igreja. Webster e outros enfatizam vários textos patrísticos de passagens bíblicas como uma “prova” de que não haveria unanimidade consensual entre os padres.

Discutindo certas variações das interpretações dos Padres, o Papa Leão XIII (estudo da sagrada escritura, mediante a encíclica “Providentissimus Deus”, Nov., 1893) escreve:

Da necessidade de defender valorosamente a Escritura santa não se conclui que devamos defender com o mesmo zelo todas as interpretações que cada um dos Padres e comentadores deram aos lugares bíblicos. Conformando-se, na exposição dos textos que se referem a fenômenos físicos, com as ideias correntes no seu tempo, talvez caíssem em erro, perfilhando ideias que hoje não se admitem. Por isso, é de necessidade examinar atentamente quais as cousas que ensinam como pertencentes a fé ou relacionadas com ela e quais as que unanimemente professam, porque nas que não são de fé necessária, diz S. Tomás, foi licito aos Santos e é licito a nós pensar de modo diverso”.

Trabalhos referidos no artigo:

Citação de Santo Irineu: Padres Ante-Nicéia. Roberts e Donaldson, (Eerdmans, 1985, vol. 1, p. 415, 417).

Citações de São Vicente: Padres Nicenos e Pós-Nicenos, 2ª série, ed. Philip Schaff e Henry Wace, Eerdmans, 1980, vol. 11, p. 132

Citações de Lutero: (Leslie Rumble, Testes Bíblicos para um pregador de rua [Rockford, IL: TAN Books, 1976], 22).

Citação de Maryknoll: (Dicionário Católico de Maryknoll, pg. 154).

Citações de William Webster: (A Igreja de Roma no Bar da História, 31).

Dicionário da Lei de Black: Black Law Dictionary, Henry Campbell Black, St. Paul, MN: West Publ. Co., 1979, p. 1366

Citação do Papa Leão XIII: Henry Denzinger, As Fontes do Dogma Católico [Londres: B. Herder Book Co. 1954], (491-492).

 Yves Congar, sobre o “Consentimento Unânime dos Padres” de seu livro TRADIÇÃO E TRADIÇÕES publicado pela McMillan Company, Nova York, 1966. Republicado pela Basílica Press e disponível no site da Basílica na Missionaries of Faith Foundation.

“O consenso unânime dos Padres ou da Igreja indica claramente um “locus” ‘sentido de posicionamento’ da ação divina extraído de Tradições e Tradições: Um Ensaio Histórico e Teológico (New York: Macmillan Company, 1966), pages. 397-400. Uma nova edição acaba de ser publicada pela Basilica Press. “Em todos os tempos o consenso dos fiéis, mais ainda o acordo daqueles que são comissionados para ensiná-los, tem sido considerado como uma garantia da verdade: não por causa de alguma mística do sufrágio universal, mas por causa do princípio do Evangelho de unanimidade e comunhão em assuntos cristãos requerem, e também indicam, a intervenção do Espírito Santo. A partir do momento em que o argumento patrístico começou a ser usado em controvérsias dogmáticas – apareceu pela primeira vez no século II e ganhou força geral no quarto – os teólogos tentaram estabelecer um acordo entre testemunhas qualificadas da fé e tentaram provar deste acordo que tal era de fato a crença da Igreja. De fato, bastaram alguns testemunhos, mesmo de um único homem, se sua situação particular ou a consideração que lhe foi concedida pela Igreja fossem de molde a dar ao que ele disse que o valor de vir de uma quase personificação do todo Igreja naquele tempo. O fator decisivo não foi a mera quantidade, mas a qualidade representativa do testemunho: “Non numerentur, sedponderentur!”. “O consentimento patrístico unânime como um locus teológico confiável é clássico na teologia católica; muitas vezes foi declarado como tal pelo magistério e seu valor na interpretação das escrituras foi especialmente enfatizado. “A aplicação do princípio é difícil, pelo menos a certo nível. [É aqui que Bill não é cirurgião. Em vez de entender o conceito em suas complexidades, ele balanceia o machado e corta todo o conceito com a precisão do cortador de madeira, não um cirurgião ou teólogo.] Em relação aos textos individuais das Escrituras, o consenso patrístico total é raro. De fato, um consenso completo é desnecessário: muitas vezes, o que é apelado como suficiente para pontos dogmáticos não vai além do que é encontrado na interpretação de muitos textos. Mas às vezes acontece que alguns Padres entenderam uma passagem de uma maneira que não concorda com o ensino posterior da Igreja. Um exemplo: a interpretação da confissão de Pedro em Mateus 16,16-18. Exceto em Roma, essa passagem não foi aplicada pelos Padres à primazia papal; eles elaboraram uma exegese no nível de seu próprio pensamento eclesiológico, mais antropológico e espiritual que jurídico. “Este exemplo, selecionado de vários outros semelhantes, mostra primeiro que os Padres não podem ser isolados da Igreja e de sua vida. Eles são grandes, mas a Igreja os supera em idade, como também pela amplitude e riqueza de sua experiência. É a Igreja, não os Padres, o consenso da Igreja em submissão ao seu Salvador, que é a regra suficiente do nosso cristianismo. Este exemplo mostra também que não podemos, no nível doutrinal tão distinto do puramente histórico, tomar as testemunhas da Tradição em um sentido puramente material: elas devem ser pesadas e valorizadas. O simples fato material de concordância ou discordância, por mais extenso que seja, não nos permite falar de um consenso de Patrum no nível propriamente dogmático, pois os autores estudados em teologia são apenas “Padres” no sentido teológico se de alguma forma geraram. a Igreja que os segue. Agora, pode ser que a semente que será mais frutífera no futuro não seja a mais claramente presente no momento, e que as linhas vitais da fé não passem pelos grandes doutores em um determinado momento. A documentação histórica está no nível factual; deve deixar espaço para um julgamento feito não à luz da evidência documental, mas da fé da Igreja. Retornaremos, no próximo capítulo, a esse problema que já encontramos de fato: a questão da distinção precisa a ser feita entre a tradição material (histórica) e formal (dogmática). “Pode-se ver, no entanto, que no que diz respeito à explicação de um texto em particular, ou de um artigo específico de doutrina, o peso teológico do consenso Patrum está sujeito a tantas condições” que não podem ser facilmente avaliadas. Alunos e devotos dos Padres – entre os quais eu gostaria de me enumerar – poderiam sentir-se desapontados se não tivessem outra orientação. Mas, para começar, há os fundamentos da fé, os artigos sobre os quais repousa toda a estrutura; existem as direções, significados e clima espiritual em que o conteúdo e as implicações de nossa relação de aliança, como comprovam as Escrituras, foram vividos, desenvolvidos, especificados e defendidos. No que diz respeito à leitura da Escritura, foi construído algo mais valioso do que um consenso exegético interpretativo em algum verso individual, eu quero dizer o quadro total, dentro do qual e a partir do qual toda a leitura católica da revelação escrita tem foi formado e educado. Este é o elemento mais importante, a contribuição essencial dos Padres para a formação de uma tradição exegética. “Quando vemos os Padres dessa maneira, como aqueles que formaram o ambiente do crescimento histórico da Igreja, descobrimos que eles são unânimes, estamos no coração de seu real consenso. Vimos que a Tradição é para um cristão quase o que o meio educacional é para o homem em geral; a criança precisa formar suas próprias conclusões em um ambiente que lhe proporcione segurança; é fundamentalmente o papel do consenso dos Padres para fornecer tal elemento na Igreja”

Obs: Grifo entre aspas criado pelo tradutor.



Categorias:Patrística, Traduções

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