Afinal, Maria é intercessora ou mediadora?

É comum que pessoas contrárias a fé da Igreja, acusem os cristãos católicos de “idolatria” por recorrer a Maria Santíssima no que se refere a intercessão.  A escritura ensina que há somente “um mediador entre Deus e os homens” (cf. 1 Tm 2,5) e nós temos esse pleno entendimento. Jesus Cristo morreu por nós, Ele mediou a nossa salvação, Ele derramou seu precioso sangue na cruz do calvário a fim de que a pena eterna fosse absolvida. Maria e tão pouco os santos realizaram obra tão perfeita. A questão é que somos Igreja e estamos ligados pela unidade de fé, de crença e principalmente pelo batismo (cf. Ef 4,5). Mantemos essa comunhão através da oração (cf. 2 Cor 1,11) e cremos que a súplica do justo tem grande eficácia (cf. Tg 5,16).

Sabendo dessas primícias e entendendo que todos os aspectos concedidos a Maria (e aos santos) referem-se a “intercessão”, por qual razão o Catecismo da Igreja afirma invocar a Virgem como “mediadora”? Para esclarecer de acordo com a doutrina católica e compartilhar o ensino sem erros, vejamos o parágrafo do catecismo:

CIC969 – Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na anunciação, que sob a cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos. Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar os dons da salvação eterna (…). Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira”.

Para entender o texto apresentado pelo catecismo e encará-lo através de uma perspectiva bíblica, analisemos agora, cada perícope individualmente:

– “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na anunciação”.

Embora os protestantes neguem (assim como um Judeu nega as referências de Cristo no antigo testamento), Maria foi profetizada nos antigos escritos. Chamá-la de “Mãe de Deus” (cf. Lc 1,43), não é um fato que veio a se concretizar somente no tempo da graça, porém, já estava confirmado antes do advento do Senhor. Maria é a representação da “Nova Arca da Aliança” (compare Ex 16,33; Ex 25,16; Ex 40,34; Nm 17,25 com Lc 1,35; Hb 9,4) e é aclamada pelo povo de Deus como a “filha de Sião” (Is 37,22, Jr 4,31; Lm 2,13; Mt 21,5; Lc 1,28-33). Maria é a mulher que foi profetizada em Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz a um filho e lhe chamará Emanuel” (cf. Is 7,14). Seu filho se chamaria “Emanuel”. De acordo com o evangelista Mateus, o nome Emanuel significa “Deus conosco” (cf. Mt 1,23), logo, o novo nome concedido por Isabel a Virgem, no ato da visitação chamando Maria de “Mãe do meu Senhor” (cf. Lc 1,43), só faria sentido se de fato o ministério colocado a Virgem, fosse de ser digna da maternidade divina (Thetókos). Sendo Jesus Cristo o próprio Deus (cf. Jo 1,1), Maria torna-se, dentro do tempo, mãe do Verbo encarnado. Estando presente no tempo da “plenitude da graça” (cf. Gl 4,4), a mulher profetizada cuja descendência esmagaria a cabeça da serpente (cf. Gn 3,15 e Ap 12,9.17) é verdadeiramente a Mãe de Deus e esta graça, como diz o próprio catecismo, é ininterrupta, uma vez que ela própria consentiu através do seu “sim” (cf. Lc 1,28).

“(…) Que sob a cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos”.

Para os judeus, havia uma antiga tradição de que no momento da morte do patriarca, o filho mais velho fosse chamado para que ele recebesse a “benção da primogenitura” (cf. Gn 27,4). E por qual motivo isso era feito? Obviamente, havia um rito muito importante para aquele povo, porém, havia algo mais profundo do que simplesmente o rito: entregar em um último ato aquilo que de mais sagrado existia que era a benção do patriarca. Pouco importava posses materiais, terras, animais ou dinheiro, se de fato as palavras tinham um valor superior.

Cristo sendo o grande sumo sacerdote (cf. Hb 8,1), ao oferecer seu perfeitíssimo sacrifício, no alto do seu altar (cruz), ofertou o seu único bem que Ele tinha em vida: Maria. Entregou no madeiro sua mãe ao apostolo amado ao dizer: “Mulher, eis o teu filho, filho, eis aí a tua mãe” (cf. Jo 19,26-27).

Embora boa parte dos estudiosos estejam inclinados que o apóstolo amado seja João, um sentido alegórico do texto permite-nos pensar que a intenção do escritor ao colocar o “apostolado amado”, seja de refletir todos os cristãos como apostolados amados do Senhor, logo, todos nós estamos representados na figura desse homem. Se aquele seguidor de Jesus recebeu do próprio Cristo, Maria como “mãe” e Maria o recebeu como “filho”, nós como crentes em seu nome e filhos da Igreja, também estamos embutidos nesta filiação maternal. Nosso Senhor, na cruz, também nos convida a receber Maria em nossas casas e chama-la de Mãe: “Filho, eis ai a tua mãe”.

Tendo em vista tais informações, e estando em sintonia com as palavras do magistério expostas através do catecismo, afirmamos que sim, a maternidade divina de Maria, sendo Mãe de Deus, foi conhecida na cruz do calvário e é estendida a todos os cristãos.

– “Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar os dons da salvação eterna”.

Quando olhamos para “Apocalipse 12”, podemos enxergar três possíveis interpretações para a passagem: a mulher pode ser relacionada com Israel, a Igreja e Maria. Tendo em vista o dogma da assunção, podemos claramente enxergar Maria no contexto e acreditar que João (o apostolado amado, aquele que recebeu Maria como sua mãe), tenha visto a figura da Virgem através da Mulher. É interessante notar que o último versículo do capítulo 11 do livro das revelações, afirma que a Arca da Aliança que estava desaparecida há séculos, reaparece:

Ap 11,19 – “O templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu no templo a ARCA da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de granizo”. 

Curiosamente, após a aparição da Arca (lembre-se do primeiro tópico e das referências claras entre a antiga e a nova arca [Maria]), surge no céu a Mulher vestida de sol. Ao contrário do que outras interpretações possam sugerir, a Igreja não é indicada como aquela que gera o Cristo (esse é o papel de Maria) e sim como aquela que pertence a descendência da mulher (cf. Ap 12,5). É por isso que essa passagem é vista como “proto-dogmática” no que diz respeito ao dogma da Assunção.

Partindo desse princípio (assunção), cremos que Maria (assim como os santos, porém, de uma forma mais poderosa) intercede por toda a Igreja. O catecismo não afirma nenhum absurdo ao dizer que através de sua intercessão, continuamos alcançando os dons da salvação eterna. Esses “dons”, são concedidos através de Cristo, Rei e Senhor, entretanto, a oração faz parte das ações de todo o corpo de Cristo. Todos (pecadores, santos, anjos e a Virgem, rezam por nós). Por exemplo:

Os anjos intercedem por nós (Jó 33,23-24; Jó 5,1; Tb 12,12 e Zc 1,12);

– Os anjos nos assistem perante Deus (Lc 1,19);

– A alma por ser imortal (2 Cor 5,8-9; Fp 1,23; Lc 16,22-23; Lc 23,42-43; Mc 9,2-8, 1 Pe 3,18-19 e 1 Pe 4,6), ao morrer em amizade de Deus, une-se ao Senhor no céu (Hb 12,22-23; 1 Ts 3,13) e juntamente de todo o corpo de Cristo onde a morte jamais poderá nos separar (Rm 8,38), rogam por nós (Hb 12,1; Ap 6,9-10; Ap 8,4).

Dessa forma, precisamos lembrar-nos da Mãe de Deus que intercedeu para que ocorresse o primeiro sinal de Jesus Cristo, antes que seu ministério iniciasse. A hora do Senhor ainda não era chegada, porém, o curso foi alterado justamente pelo rogo da Virgem em favor dos noivos (cf. Jo 2,1-11). Sendo assim, a Igreja entende que Maria continua a interceder por nós, a fim de que os filhos do Cristo, remidos pelo seu sangue, sejam transformados em vinho novo para a vinha do altíssimo.

– “Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira”.

Por fim, chegamos à última perícope do parágrafo do catecismo e talvez, a mais complexa. A conclusão do poder de intercessão de Maria é traduzida pelo documento através dos títulos concedidos a Virgem: advogada, auxiliadora, socorro e medianeira. Esses títulos podem causar estranheza nos ouvidos dos menos familiarizados, afinal, tais atributos são direcionados a Deus, mas então, como entender as expressões utilizadas pelo CIC?

Primeiro, devemos entender que independente dos nomes concedidos, todos os títulos referem-se de fato a intercessão, oração e súplicas. Nenhum dos atributos mencionados referem-se à salvação. O próprio catecismo explica no parágrafo posterior o sentido dado a Maria:

CIC970 – “Mas a função maternal de Maria para com os homens, de modo algum ofusca ou diminui a mediação única de Cristo, mas antes manifesta a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salutar da Virgem santíssima […] deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia”.

Tudo “deriva da abundância dos méritos de Cristo”. Tudo é por Ele e para Ele. E por qual motivo, então, Maria? Pois bem, devemos entender que todos nós (inclusive a Virgem) somos “cooperadores de Deus” (cf. 1 Cor 3,9). Cooperamos, as vezes com menos, outras vezes com mais, para que o reino do Senhor seja difundido e edificado. Quando rezamos, cooperamos, quando ajudamos os mais necessitamos, cooperamos, também. Tudo o quanto fazemos por amor ao Reino, nos torna cooperadores da verdade. Maria cooperou de forma abundante e hoje é reconhecida, justamente porque pelo seu “sim”, a salvação chegou até nós. Maria estava junto dos apóstolos em continua oração por toda a Igreja (cf. At 1,14) e continua até os nossos dias socorrendo todos os cristãos através de suas orações perpétuas.

Em relação aos títulos, não devemos nos assustar. Desde o antigo testamento, era costume entre os homens e mulheres de destaque, o recebimento de honrarias por parte do povo. Lemos por exemplo que Nerod, era chamado de “poderoso” (cf. Gn 10,8), entretanto, este adjetivo era ligado há sua respectiva atribuição de caçador. Apolo também foi chamado de “poderoso” (cf. At 18,24), mas, a relação da palavra tinha ligação com o conhecimento que ele possuía da escritura. Da mesma forma, Maria, é chamada de “mediadora”, porém, essa mediação refere-se a intercessão e não a salvação de Cruz.

Podemos citar outros exemplos, como o de Otoniel e Aod que foram reconhecidos como “salvadores” (cf. Jz 3,7 e Jz 5,7). Débora, foi aclamada como a “mãe de Israel” (cf. Jz 5,7). Josias, após a sua morte, foi exaltado através de lamentações dos músicos israelitas (cf. 2 Cr 35,25-26), Salomão foi chamado pelo próprio Jesus de “homem de glória” (cf. Mt 6,29). Profetas e Apóstolos exaltados como “santos” (cf. Lc 1,70 e Ef 3,5) e por fim, os próprios cristãos foram invocados nas escrituras como “intercessores” (cf. 2 Cor 1,11) e “honrados pelo próprio Deus” (cf. Jo 12,26). Quanto ao aspecto venerativo, é importante ter em mente que tal prática, também consta nas escrituras em diversos modos e níveis.

Temos registros de pessoas que louvam outras pessoas (cf. Gn 49,8; 2 Cr 35,25-26; Pr 27,2; Pr 31,28-30; Ct 6,9-10; 1 Cor 11,2; 1 Pe 2,13-14), Deus louvando o seu povo (cf. Sf 3,20; Rm 2,29; 1 Cor 4,5). Louvor a si próprio (cf. 2 Cor 12,11) e até mesmo autoridades que louvam aqueles que fazem o bem (cf. Rm 13,3). A escritura também ensina que devemos imitar os santos (cf. Hb 13,7) e que os santos também têm do que se gloriar (cf. Jo 17,21-23; Rm 2,7; Rm 2,10; Rm 8,30; Gl 6,4; 1 Tm 2,1). A bíblia afirma que nós refletimos a glória de Deus (2 Cor 3,18) e que todo aquele que serve a Deus, o Pai o honrará (cf. Jo 12,26). Se todo aquele que serve a Deus, o Pai o horará, o que podemos dizer de Maria, a mãe do Verbo encarnado?

Salve Maria, mãe de Deus e mãe da Igreja!

Por: Érick augusto Gomes



Categorias:Mariologia

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