DEFESA DO DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA

Por Érick Augusto Gomes: Aluno do Centro Universitário Internacional UNINTER. Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (2016 a 2019)

RESUMO

A defesa da imaculada conceição de Maria tem sido objeto de estudos e debates ao longo dos 21 séculos da era cristã. Embora o dogma tenha sido apenas proclamado no dia 08 de dezembro de 1854 de forma solene pelo Papa Pio IX, os anos anteriores (e posteriores) foram marcados por intensas discussões acerca do tema. Dentro da perspectiva cristã católica, o presente trabalho tem por fundamento demonstrar que a crença de que a Mãe do Senhor foi preservada da culpa original, além de bíblica, é histórica, e está presente vivamente na Tradição da Igreja. Para que tal dogma seja defendido, o uso da escritura será extenso ao longo do trabalho aqui apresentado. Fontes históricas ligadas à patrística (principalmente do século II a IV), catecismos, documentos e dicionários complementarão a defesa de uma crença que é incompreendida por não católicos e que representa um grandioso sinal de esperança para todos aqueles que comungam de uma única fé, de um único Senhor e de um único batismo (cf. Ef 4,5).

Palavras-chave: Virgem Maria. Imaculada Conceição. Dogma.

INTRODUÇÃO

Ainda que cristãos denominacionais (protestantes) neguem certos dogmas católicos (e isso não causa estranheza, uma vez que existem divergências entre as diversas “teologias evangélicas” e a fé católica), um deles tem despertado, desde a sua confirmação (08/12/1854), certa série de críticas: o dogma da imaculada conceição de Maria.

Maria não é apenas a mãe do Senhor (cf. Lc 1,43), ou talvez a mulher que esteja centralizada na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), mas também se tornou, nos últimos anos, objeto de disputas teológicas entre um sistema único (fé católica) e outro sistema descentralizado (“fés” protestantes). Afirmo últimos anos por entender que as nuances relacionadas à Virgem no protestantismo têm se alterado drasticamente desde o início da reforma (1517). Basta verificar os escritos de Martinho Lutero sobre o tema [1].


[1] Para uma explicação mais abrangente, conferir o verbete “reforma” através do Dicionário de Mariologia, editora Paulus, páginas 1125 a 1127.

Para a Igreja Católica, afirmar que Maria teve sua concepção livre da mancha do pecado original significa reafirmar não um aspecto do mérito humano, mas sim a divindade de seu amado mestre (cf. Jo 1,1) e a futura regeneração dos justos após a ressurreição (cf. 1 Cor 15,53). A Virgem, como a primeira cristã, experimentou fatores primários que nos recordam a criação de nossos primeiros pais: Adão e Eva obtiveram, diretamente do próprio Deus, a concepção (ou criação) imaculada, e estavam plenamente livres, porém, desobedecendo à ordem de Iahweh, incorreram em culpa (cf. Gn 3,1-23) e, por fim, transmitiram para todos os homens a culpa (cf. Rm 5,12), chamada pela Santa Igreja de pecado original [2].


[2] Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 396 a 398, “O pecado original”.

Tendo em vista os acontecimentos oriundos do pecado original através do antigo Adão e da antiga Eva, a compreensão católica permitiu-nos analisar, através do Magistério, que a vinda de um Deus Imaculado, gestado por um ventre isento de qualquer culpa, culminaria em um novo modelo, onde Jesus torna-se o Novo Adão (cf. Rm 5,17) e Maria a Nova Eva. Encontramos nos escritos de Santo Irineu (180 d.C.), por exemplo, uma afirmação primitiva a respeito desta verdade de fé:

“Da mesma forma, encontramos Maria, a Virgem obediente, que diz: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, e, em contraste, Eva, que desobedeceu quando ainda era virgem (…). Maria, tendo por esposo quem lhe fora predestinado e sendo virgem, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa de salvação. É por isso que a Lei chama a que é noiva, se ainda virgem, de esposa daquele que a tomou por noiva, para indicar o influxo que se opera de Maria sobre Eva. (LIÃO, 2009, p. 351-352)”

Tomando por base as informações já apresentadas e outras que serão adicionadas ao longo deste trabalho, pretendemos apresentar, concatenar e fundamentar o tema deste artigo científico, que é a Defesa do Dogma da Imaculada Conceição de Maria,contra as principais objeções protestantes levantadas. Para sintetizar tais questionamentos, colocaremos em um único capítulo as principais dificuldades pertinentes à compreensão da crença na Imaculada.

Dentre os principais objetivos, o presente artigo tem em vista demonstrar que as realidades bíblicas estão de acordo com a crença da fé cristã católica e que a conclusão da história do desenvolvimento do dogma, ainda que perpasse por divergências opinativas, deverá sempre ser feita através do Magistério da Igreja Católica. Crer na Imaculada Conceição da Virgem eleva e centraliza ainda mais a dignidade de Jesus Cristo. Entendendo que para Deus nada é impossível (cf. Lc 1,37), mantemos viva a esperança de que as realidades sobrenaturais que sobrevieram à Maria nos tocarão no mundo que há de vir (cf. Ap 21,5). Para justificar o embasamento que aqui será apresentado, utilizaremos de fontes bíblicas, patrísticas e autores que trabalharam o tema anteriormente.

1. O CONCEITO DE DOGMA

Para entendermos qual é a definição do dogma da Imaculada Conceição, é importante, de forma primária, entender qual é o conceito e a definição de dogma.

A palavra dogma é de origem grega e tem por significado etimológico o conceito de que o que se pensa é verdade[3]/[4]. Ao longo do cristianismo, o termo conquistou conotação religiosa e passou a ser usado para definir verdades reveladas e aprovadas pelo colegiado eclesiástico da Igreja. O Catecismo da Igreja procura definir uso da palavra da seguinte forma:

“O Magistério da Igreja empenha plenamente a autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando utilizando uma forma que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, propõe verdades contidas na Revelação divina ou verdades que com estas têm uma conexão necessária. Há uma conexão orgânica entre nossa vida espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho de nossa fé que o iluminam e tornam seguro. (CIC, 1998, p. 36)”


[3] https://www.significados.com.br/dogma/
[4] https://www.dicio.com.br/dogma/

Os dogmas promulgados e confirmados pela Igreja durante os séculos concedem ao cristão a certeza das verdades da fé sem que, para isso, ele necessite de pesquisas profundas, uma vez que a Igreja é a coluna e sustento da verdade (cf. 1 Tm 3,15). Ela realiza, através do seu magistério, um trabalho meticuloso a fim de confirmar-nos na fé (cf. Lc 22,31).

Faz-se importante mencionar que, devido à não crença em doutrinas católicas por parte de algumas denominações cristãs, a palavra em si passou a ser manifestada com certa banalização. Normalmente é referenciada como se o dogma representasse conceitos antiquados, antigos e legalistas. A perícope do evangelho de João 8,32 (“conhecereis a verdade e ela vos libertará”) é muito utilizada para depreciar seu uso, porém toda a cristandade (protestantes, ortodoxos e católicos) compartilham de inúmeros dogmas convergentes: Trindade, união hipostática (natureza divina e humana) de Cristo, crença na ressurreição do Senhor, nascimento virginal de Jesus, ascensão do messias, e talvez a mais importante para o núcleo protestante, justamente por confirmar todas as outras afirmações anteriores: inspiração e inerrabilidade da escritura canônica. Logo, como podemos perceber, o problema não está na aceitação de um dogma, até porque todas as ramificações cristãs possuem suas respectivas crenças que são inegociáveis, mas sim numa questão que paira na aceitação (ou não) de verdades que foram reveladas através da Escritura ou Tradição e que, confirmadas pelo Magistério da Igreja Católica, são vistas com indiferença por conta da não unidade de fé presente na atualidade por parte de tais seguimentos.

O dogma constitui a certeza da revelação e traduz a necessidade da fé do crente.

2. ENTENDENDO O PECADO ORIGINAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Para entender o porquê da preservação (pecado) concedida à Maria, faz-se necessário entender a raiz da queda humana. A escritura revela, através do protoevangelho (Gênesis), que homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Ambos foram colocados no jardim do Éden (cf. Gn 2,8) e, como exigência por todas as bênçãos recebidas, fora solicitada uma única coisa: não comer da árvore do “conhecimento do bem e do mal” (Gn 2,17a). Uma vez que este fruto fosse provado, o homem certamente morreria (cf. Gn 2,17b). Na continuação do relato da criação, o escritor registra a queda: a serpente era um animal astuto e enganou primeiramente a mulher e depois o homem (cf Gn 3,1-7). Ambos comeram o fruto da árvore proibida, desobedeceram a Deus e, como consequência do pecado, foram expulsos do paraíso (cf. Gn 3,23-24).

Os primeiros capítulos do livro do Gênesis relatam o motivo da redenção posterior de Jesus Cristo: Deus criou homem e mulher para que, juntos, reinassem de forma soberana como administradores do patrimônio divino, porém, ao desrespeitarem a ordem do Senhor e consequentemente serem expulsos do paraíso, transmitiram para todos os homens, através das gerações, o chamado “pecado original”. São Paulo, em sua epístola aos Romanos (cf. Rm 5,12), explica o motivo da morte humana: “Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.”

Todos os homens, ao nascerem, estão manchados pela culpa da queda (cf. Sl 51[50],7 – “eis que nasci na iniquidade, minha mãe concebeu-me no pecado”), sendo esse pecado uma herança que trouxe a morte para o gênero humano. Logo, a principal consequência é a separação do amor de Deus. Como bem disse o apostolado dos gentios, “o salário do pecado é a morte” (cf. Rm 6,23). Para exemplificar de acordo com a doutrina oficial da Igreja, o catecismo afirma:

“O homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem. Todo pecado, daí em diante, será uma desobediência a Deus e uma falta de confiança em sua bondade. Neste pecado, o homem preferiu a si mesmo a Deus, e com isso menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências de seu estado de criatura e consequentemente de seu próprio bem. Constituído em um estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente “divinizado” por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis “ser como Deus”, mas “sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus.” A Escritura mostra as consequências dramáticas desta primeira desobediência. Adão e Eva perdem de imediato a graça da santidade original. Têm medo deste Deus, do qual fizeram uma falsa imagem, a de um Deus enciumado de suas prerrogativas. (CIC, 1998, p. 112-113)”.

Dessa forma, além da queda eminente e a perda no paraíso, a principal consequência do pecado é o fato de tornarmo-nos escravos de nossas paixões. Por esse motivo, fazia-se necessário um ato de justiça que reparasse a culpa inicial. Quando um crime é cometido, para que suas consequências sejam minimizadas, é importante que a justiça civil aja com rigor para eliminar o mal. Jesus Cristo, perfeitíssimo redentor, morreu por nós a fim de que a condenação eterna fosse absolvida. O ato de justiça (morte de cruz) realizado pelo messias nos recolocou no caminho da salvação.

Do chamado “pecado original”, o qual todos nós herdamos, Maria foi preservada. Tal questão será tratada nos capítulos posteriores.

3. AS OBJEÇÕES PROTESTANTES

Ao longo dos séculos e até a confirmação do dogma da Imaculada Conceição, existiram os chamados “maculistas” (aqueles que defendiam que Maria foi concebida de forma ordinária como todos os homens) e os imaculistas, que defendiam a concepção sem o pecado original [5]. Tendo em vista os séculos que antecederam a proclamação do dogma, qualquer contra-argumento que surja posteriormente não possui nenhum impacto, uma vez que a Igreja Católica já esgotou, através de seus teólogos, as inúmeras possibilidades contrárias.

[5] https://www.veritatis.com.br/historia-do-dogma-da-imaculada-conceicao/

Dessa forma, para entendermos as objeções contrárias e conceder as devidas respostas, precisamos assimilar quais são elas e o real entendimento protestante do tema. Para negar que Maria tenha nascido sem o pecado original, os cristãos denominacionais apelam para as seguintes posições:

(1) Maria não poderia ser imaculada, pois a escritura diz que “todos pecaram”. Tal argumentação está baseada na epístola aos Romanos 3,23: “visto que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus”;

(2) Maria não poderia ter nascido sem o pecado original, pois ela declara que precisava de um salvador. O respaldo para esta afirmação pode ser encontrado no evangelho de São Lucas 1,46-47: “Maria então disse: ‘minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu salvador’”.

(3) Maria não poderia ter sido isenta de nascer com a mancha de Adão, uma vez que só Jesus não teve pecado em sua condição humana. Essa afirmação é tomada com base no livro de Hebreus 4,15: “Com efeito, não temos sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”.

(4) Maria foi pecadora, pois foi purificada. O argumento citado está embasado na passagem de São Lucas 2,22: “Quando se completaram os dias para a purificação deles, segundo a Lei de Moisés”.

(5) Maria não foi imaculada, pois seus pais eram pecadores e ela iria contrair a mancha ao nascer. O argumento é baseado no livro dos Salmos 51(50): “Eis que nasci na iniquidade, minha mãe concebeu-me no pecado”.

Além das objeções afirmadas, é importante destacar que, segundo Gregg R. Allison (ministro protestante), o dogma da Imaculada Conceição de Maria não está apenas em total discordância em relação à teologia evangélica, mas também apresenta uma falha interpretativa:

“Um elemento fundamental nessa preparação graciosa ao seu consentimento foi a concepção imaculada de Maria, e esta é a segunda discordância entre a teologia católica e a teologia evangélica (…). As objeções evangélicas a essa doutrina mariana se concentram na interpretação equivocada do catolicismo de seus supostos fundamentos bíblicos. Especificamente, em Lucas 1:26-38, a narrativa da anunciação se detém em Deus e sua poderosa salvação, e não em Maria (…). Além disso, o tratamento concedido por Gabriel a ela – “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo” – é mal compreendido pela teologia católica. (ALLISON, 2018, n.p., posições 2714 e 2747)”

Tendo ciência dos argumentos contrários ao dogma proclamado pela Igreja Católica, vejamos, no próximo capítulo, a refutação aplicada para cada item aqui mencionado. Em relação ao comentário de Gregg R. Allison, os próximos capítulos irão abordar de forma detalhada a interpretação católica, assim como a visão patrística relacionada à Maria como “Nova Eva”.

4. REFUTANDO AS OBJEÇÕES PROTESTANTES

Partindo do princípio dos argumentos protestantes levantados no capítulo anterior, será proposto aqui um exame analítico de cada item e sua respectiva refutação à luz da Tradição Cristã Católica.

Item 01 – “Maria não poderia ser imaculada, pois a escritura diz que ‘todos pecaram’”: A objeção deste argumento está baseada na passagem da epístola de São Paulo aos Romanos, onde o apóstolo afirma que “todos pecaram” (cf. Rm 3,23). Logo, a palavra “todos” estaria incluindo a Virgem Maria.

Não há respaldo que sustente tal argumentação, uma vez que a escritura possui, em suas diversas obras, pontos semelhantes que contrapõem outros textos. O próprio apóstolo, em versos anteriores ao mencionado, afirma que “não há um justo sequer” (cf. Rm 3,10), entretanto a própria bíblia afirma que São José foi chamado de “justo” pelo evangelista Mateus (cf. Mt 1,19). A epístola aos Hebreus, por exemplo, afirma que “após a morte vem o juízo” (cf. Hb 9,27), o que dá a entender que não existiria uma segunda chance para todos aqueles que morreram. Não poderia existir uma nova tentativa para uma alma já julgada. A pequena questão é que a própria bíblia que afirma que, após a morte, uma pessoa é julgada, é a mesma que menciona, em diversas passagens, que durante a vida pública de Jesus, e após a sua ressurreição, muitas pessoas foram ressuscitadas (cf. Lc 7,11-15; Lc 8,41-42.49-55; Jo 11,1-44; Mt 27,52, Mt 28,1-8; At 9,36-43 e At 20,9-10).

É importante entender que São Paulo, ao usar tal expressão na epístola aos Romanos, referia-se à natureza decaída do homem, de modo que, escrevendo a epístola aos cristãos de Roma, manifesta uma verdade de fé: todos nós nascemos em igual condição. No caso de Cristo (Deus) e Maria (preservada pelos méritos de Jesus), estes nasceram de forma imaculada, cada qual com a sua missão (Ela de dar à luz ao salvador, e Ele de salvar todo o gênero humano).

Item 02 – “Maria não poderia ter nascido sem pecado, uma vez que ela declara que precisava de um salvador”: Maria não só declarava, como de fato precisou de um salvador. A pequena diferença é que Ela foi redimida de uma forma mais sublime por conta de sua maternidade messiânica. O catecismo da Igreja refuta tal argumentação nos parágrafos 492 e 493:

Esta santidade resplandecente, absolutamente única da qual Maria é enriquecida desde o primeiro instante de sua conceição lhe vem inteiramente de Cristo: <Em vista dos méritos de seu Filho, foi redimida de um modo mais sublime>. Mais do que qualquer outra pessoa criada, o Pai a abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo (Ef 1,3). Ele a escolheu nele (Cristo), desde antes da fundação do mundo, para ser santa e imaculada em sua presença, no amor.(CIC, 1998, p. 138-139)“.

Dessa forma, não há qualquer coerência em defender tal objeção, uma vez que a Igreja Católica afirma que Maria não apenas precisou de um salvador, como, na verdade, foi salva por Jesus Cristo, graças à antecipação de seus méritos na cruz do calvário.

Item 03 – “Maria não poderia ter nascido sem pecado, só Deus não possui pecado”. Tal argumentação carece de respaldo bíblico. Primeiro que Adão e Eva, nossos primeiros pais, foram criados de forma imaculada. Não possuíam pecados pessoais até o momento da queda. Logo, não seria algo absurdo pensar que uma mulher tenha sido isenta da mancha original. Além disso, os anjos não possuem pecados (cf. Hb 1,13-14), assim como as almas que morrem na amizade de Deus (cf. Ap 7,13-15). Assim sendo, afirmar que “Maria não possuía pecados” não a caracteriza como uma deusa, mas sim como uma mulher santa predestinada por Deus para a missão mais magnífica deste mundo: dar à luz o Verbo de Deus (cf. Jo 1,1 e Gl 4,4).

Item 4 – “Maria foi purificada, segundo a escritura, logo tinha pecados”. O Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nasceu sob o julgo da lei. O Salvador não possuía pecados (cf. Hb 4,15), porém se fez submisso às prescrições mosaicas e deu-nos o exemplo mais sublime ao ser batizado por João Batista (cf. Mt 3,16-17). Jesus, sendo Deus, não precisaria ser circuncidado (cf. Lc 2,21), tampouco batizado (cf. Jo 29-34). O messias não precisaria se submeter aos cuidados de uma mulher durante trinta anos (cf. Lc 3,23) ou ter uma profissão para se sustentar (cf. Mc 6,3). Nosso Senhor, sendo Deus e puro desde o nascimento, não precisaria ser apresentado no templo (cf. Lc 2,22).

Maria, Mãe de Nosso Senhor (cf. Lc 1,43), ainda que tenha sido preservada do pecado original por efusão do Espírito e graça de Deus, vivia uma religiosidade que a impelia a seguir determinados ritos. Os dias de sua purificação foram completados, não porque ela possuísse pecados, mas porque o costume de tal ação era uma prescrição, segundo a Lei de Moisés (cf. Lv 12,12). É notável afirmar que o evangelista São Lucas fez questão de registrar todos esses acontecimentos para provar que Maria e José seguiram rigorosamente todas as prescrições da lei.

Item 5 – “Se Maria era imaculada, seus pais também deveriam ser isentos do pecado original”. Para explicar tal objeção, precisamos apenas entender que o pecado original não é passado por uma ordem biológica. A Igreja chama a culpa original de pecado “analógico”, logo a mancha de Adão é transmitida, e não cometida (cf. CIC 404). Entendendo esse princípio, podemos claramente afirmar que, se Maria “tivesse pecado”, a culpa original não seria transmitida a Cristo, uma vez que o pecado não é passado biologicamente. Dessa forma, era conveniente que a Virgem fosse imaculadamente concebida para dar sentido real à sua missão de Theotókos (Mãe de Deus – cf. Mt 1,23 e Lc 1,43). Em relação aos seus pais, pelo fato de Maria ser uma criatura como nós (com exceção para o pecado), não haveria qualquer necessidade de que ambos fossem “imaculados”. A missão dada a Maria deriva do próprio Jesus, Verbo encarnado (cf. Jo 1,1). Jeremias, por exemplo, foi santificado no ventre de sua mãe (cf. Jr 1,5), e a santificação da Virgem, justamente por conta do filho, transcendeu os céus.

5. A VISÃO VETEROTESTAMENTÁRIA

A Igreja, ao respaldar o dogma através de seu magistério, recorreu aos antigos textos. Assim como Cristo está presente de diversos meios e modos nas páginas do velho testamento, podemos (também) encontrar Maria tipificada em diversos contextos veterotestamentários. Vejamos, especificamente, duas formas teológicas de afirmar o dogma da imaculada conceição através do V.T.

5.1. O Livro de Cantares

A obra de Cantares, atribuída a Salomão, tem sido usada pela Igreja ao longo dos séculos para definir a relação de Cristo e a Igreja, sua esposa; entretanto, a liturgia católica assemelha a relação do “Rei com sua Rainha” à figura de Jesus e Maria. Tendo em vista essa definição, não houve dificuldades por parte do Magistério ao atribuir alguns textos à pureza da Virgem em relação ao pecado original. Vejamos:

Ct 4,7 – És toda bela, minha amada e não tens um só defeito”;

Ct 4,12 –És jardim fechado, minha irmã, minha noiva, és jardim fechado, uma fonte lacrada”;

Ct 5,2 –Abre, minha irmã, minha amada, pomba minha sem defeito”;

Ct 6,9 –Uma só é minha pomba sem defeito, uma só a preferida pela mãe que a gerou”;

Ct 6,10 –Quem é essa que desponta como aurora, bela como a lua, fulgurante como o sol, terrível como esquadrão com bandeira desfraldadas?

Assim como Cristo é visto em textos como o do profeta Isaías (ex.: “Servo Sofredor” – Is 53), Maria é prefigurada no livro de Cantares como a mulher que “não tens [tem] um só defeito” (cf. Ct 4,7).

5.2. A Arca da Aliança

A arca da aliança foi, durante séculos, objeto de culto do povo judeu (1 Cr 3,8). O objeto (que possuía imagens – cf. Ex 25,18-20) era tão venerado que apenas os consagrados poderiam tocá-la sem risco de morte (2 Sm 6,6-7 e 1 Cr 13,9-10). A arca não era santa por si própria, mas assim tornou-se justamente pela presença de Deus. Era nela que o culto judaico era consumido em plenitude (cf. Ex 25,22), de modo que o objeto era visto pelos israelitas como o próprio trono de Deus (cf. Nm 7,89). A arca possuía algumas propriedades da antiga aliança que se assemelham a Cristo, porém tais propriedades eram cuidadosamente guardadas em seu interior. Mediante a isso, no tempo da graça, a Igreja enxergou em Maria a tipificação deste antigo objeto de culto dos hebreus. Assim como a arca do testemunho era venerada, Maria, sendo a “nova arca da aliança”, é tida em altíssima estima por todo o povo cristão. Dentro dessa perspectiva, o dogma da imaculada centraliza-se de tal forma que se torna impossível não o verificar ao comparar a antiga arca com a nova (Maria). Se um objeto banhado a ouro e imagens era santo, o que dizer de Maria, que compreendeu dentro de si o próprio Deus? Observemos as ligações claras entre Maria e a Arca:

Além das informações aqui colocadas, é importante salientar que, no livro do Apocalipse, antes do surgimento da “Mulher vestida de sol” (cf. Ap 12,1), a Arca da Aliança, que estava desaparecida desde os tempos do profeta Jeremias (+ ou – 600 a.C. – cf. Jr 3,16 e 2 Mc 2,1-8), reaparece no templo de Deus (cf. Ap 11,19). A Arca, que era objeto de culto santificado por Deus, foi proeminente entre os judeus e tinha grande representatividade. Maria, santificada e imaculada, carregou dentro de si todas as propriedades da antiga arca, porém, no tempo da graça, todas as propriedades foram renovadas por Cristo Jesus.

6. CRISTO, O NOVO ADÃO. MARIA, A NOVA EVA

A confirmação do dogma por parte do Magistério da Igreja não possui unicamente respaldo na Tradição, mas também na Escritura. Para entender a crença na Imaculada, precisaremos olhar para a história da criação e da tipificação de Cristo como o novo Adão.

Adão e Eva foram criados diretamente por Deus. Primeiro o homem (cf. Gn 2,7), e da sua costela, posteriormente, a mulher (cf. Gn 2,21-22). Ambos não possuíam pecados e foram colocados no Jardim do Éden de forma imaculada. Entretanto, após darem ouvidos à serpente (cf. Gn 3,1-13), caíram e toda a humanidade foi condenada ao pecado (cf. Rm 5,12). Tendo em vista o castigo que se perpetuou a todos nós por conta de Adão, fazia-se necessária a reparação mediante um ato de justiça. Dessa forma, Jesus Cristo, tipificado por São Paulo como “Novo Adão” (cf. 1 Cor 15,22), é a figura que representa o ápice da nova criação: “Se com efeito, pela falta de um só a morte imperou através deste único homem, muito mais os que recebem a abundância da graça e do dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (cf. Rm 5,17). Adão era imaculado, houve o pecado e, a partir desse erro, todos os homens tornaram-se pecadores. Em Jesus, para o novo Adão, houve a remissão, e o erro do primeiro e antigo fora apagado pelo segundo e novo.

E quanto a Eva? Pois bem, talvez já se torne perceptível que as mesmas características aplicadas a Adão e Cristo sejam identificadas entre Eva e Maria. A tipificação entre as duas mulheres não está exposta diretamente (como no caso de Jesus) nas escrituras, porém percebemos facilmente tais características no evangelho de São João, assim como na exegese aplicada pelos padres da Igreja antiga logo no início do segundo século da era cristã em relação aos textos escriturísticos[6]. Tal comparação se torna importantíssima dentro da formulação do dogma, uma vez que Adão e Eva foram criados sem pecado. Se Jesus, sendo o “Cordeiro sem Mancha”, redime Adão, o que poderíamos dizer de Maria, senão afirmar que ela é a “Nova Eva[7]”? Se Eva foi imaculada (antes de comer o fruto proibido), seria lógico que a Virgem também devesse ser, a fim de que o projeto de Deus fosse perfeitíssimo em sua conclusão.


[6] As informações referentes à “Maria e a Nova Eva”, baseadas na interpretação dos santos padres, serão tratadas no próximo capítulo deste trabalho.

[7] Todas as informações relacionadas à ligação entre “Eva e Maria”, assim como à formulação do Dogma da Imaculada, que possui respaldo bíblico entre a criação (Gênesis) e o início da nova criação relatado pelo evangelista São João (evangelho), foram retiradas do livro de Scott Hahn, “Salve, Santa Rainha – A Mãe de Deus na Palavra de Deus”, pg. 34 a 36.

Para entender tal perspectiva, precisamos revisitar o início do evangelho de São João, juntamente com o livro do Gênesis. Os primeiros capítulos da obra da criação relatam a origem do mundo em sete dias. Já o evangelista João, baseado em Gênesis, compartilha o modelo na nova criação. Basta observar o uso da expressão “no princípio” em ambas as obras: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (cf. Gn 1,1). João, por sua vez, diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus” (cf. Jo 1,1). O apóstolo continua: “O que foi feito nEle era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas” (cf. Jo 1,4-5a). Relendo a continuação dos versos do Gênesis – “Deus disse: ‘Haja Luz’, e houve luz. Deus viu que a luz era boa e Deus separou a luz e as trevas” (cf. Gn 1,3-4) –, perceberemos que João estava usando a mesma linguagem do escritor, porém atribuindo o novo relato a Cristo. Dessa forma, estamos vivenciando, através do livro joanino, o surgimento de um novo céu e uma nova terra.

6.1. Somando os dias

O relato de João acontece em sete dias. O número sete na escritura tem caráter de perfeição, logo a afirmação do apóstolo é extremamente significativa. O mundo e a criação (homem e animais) foram criados em seis dias (cf. Gn 1,1-31), e o sétimo (chamado de Sábado ou Shabbat) foi usado para o descanso de Deus (cf. Gn 2,2). O apóstolo procura trazer, no início do seu evangelho, a mesma didática para tratar do advento de Jesus como o novo início. Vejamos:

– João 1,1-28 (primeiro dia);

– João 1,29-34 (segundo dia ou dia seguinte);

– João 1,35-42 (terceiro dia ou dia seguinte);

– João 1,43-50 (quarto dia ou dia seguinte);

– João 2,1 (três dias depois).

Somando os acontecimentos narrados por João, chegamos ao número de sete dias. Propositalmente, o apóstolo coloca o sétimo dia juntamente do casamento das bodas de Caná da Galileia. Nesta festa, encontravam-se Jesus (novo Adão – imaculado) e Maria (nova Eva – imaculada). Durante a festa, existem ações narradas pelo evangelista que dão início não apenas ao projeto de salvação, mas também, de forma simbólica, à anulação das más ações do antigo Adão e da antiga Eva. Enquanto a primeira mulher dá ouvidos à serpente e induz o marido a comer do fruto (cf. Gn 3,1-6), Maria, percebendo que os noivos não tinham mais vinho, intercede por eles (cf. Jo 2,3). Enquanto o primeiro homem, dando ouvidos à sua mulher, come do fruto, desobedecendo a Deus (cf. Gn 3,6b), Jesus ouve o pedido de sua mãe e realiza o milagre (cf. Jo 2,4-10), dando início ao seu ministério. Cristo chama Maria de “mulher” (cf. Jo 2,4), assim como Adão, ao exclamar sua alegria por ter Eva, a chama de “mulher” (cf. Gn 2,23).

As ligações são claras e concedem respaldo para crermos que, se Adão e Eva foram isentos de pecado, porém, após a queda, transferiram a culpa para toda a humanidade, Jesus e Maria, imaculados, concedem a oportunidade de salvação a todos os homens (Maria por dizer sim ao projeto de Deus, e Jesus por ser o próprio Deus crucificado por nós). O quadro abaixo exemplifica a tipificação mencionada neste capítulo:


7. A IGREJA PRIMITIVA E A NOVA EVA

No capítulo anterior foi exposta a ligação entre a antiga Eva e a nova (Maria) através da escritura, especificamente através dos livros de Gênesis e o Evangelho de João. Ambas imaculadas, porém uma (antiga) foi motivo de queda (pecado), enquanto a outra (Maria) trouxe-nos a salvação. Cabe-nos agora entender como a Igreja primitiva entendia a figura dessas duas mulheres e como Maria era interpretada dentro do processo de salvação.

Inicialmente, é importante mencionar que os antigos padres traziam juntos de si o depósito da fé (Tradição), que fora passado pelos próprios apóstolos, logo, ainda que o cânon da Escritura não estivesse plenamente formado, eles compartilhavam em suas paróquias e dioceses o verdadeiro ensino. Maria, para os primeiros pais, possuía uma ligação íntima com a realidade do Cristo. Era comum que, ao se falar de Jesus, a Virgem fosse citada. Santo Inácio de Antioquia (107 d.C.), por exemplo, conheceu São Pedro. Em sua epístola aos Efésios, ao mencionar que Jesus é filho de Deus, adiciona também à maternidade de Maria a condição de Theotókos [8]: “Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus.” (PADRES Apostólicos, 1995, p. 84)”.


[8] Do grego Θεοτόκος – “Mãe de Deus”.

Outros padres de menor expressão, como Aristides de Atenas (134 d.C.), usam a expressão “virgem santa” para associar Maria ao seu filho Jesus:

Os cristãos, porém, descendem do Senhor Jesus Cristo e este é confessado como Filho do Deus Altíssimo no Espírito Santo, descido do céu para a salvação dos homens. Gerado de uma virgem santa, sem germe nem corrupção, encarnou-se e apareceu aos homens, para afastá-los do erro do politeísmo. (PADRES Apologistas, 1995, p. 51)“.

Especificamente em dois padres primitivos encontramos claras referências entre Maria e Eva, sendo elas (referências) protótipos para que a Igreja posteriormente confirmasse a concepção imaculada da Virgem e desenhasse o conceito teológico acerca do dogma.

Falemos primeiramente de Justino de Roma (155 d.C.). Justino foi um filósofo e grande defensor da ortodoxia cristã. Deixou-nos um legado através de três obras (I e II Apologia e Diálogo com Trifão). Em sua discussão contra Trifão, o santo explora a relação entre Maria/Eva e a anulação do erro da primeira mulher, realizado pela Mãe de Jesus. Vejamos a seguir:

– Eva, ainda que Virgem e incorrupta, deu à luz a desobediência.

Por outro lado, confessamos que ele nasceu da virgem como homem, a fim de que pelo mesmo caminho que iniciou a desobediência da serpente, por esse também ela fosse destruída. De fato, quando ainda era virgem e incorrupta, Eva, tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte. (ROMA, 2016, p. 264-265)

– Maria, a Nova Eva, destrói a desobediência da primeira.

A virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe deu a boa notícia de que o Espírito do Senhor viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, através do que o santo que dela nasceu seria o Filho de Deus. A isso, ela respondeu: “Faça-se em mim segundo a palavra.” E da virgem nasceu Jesus, ao qual demonstramos que tantas Escrituras se referem, pelo qual Deus destrói a serpente e os anjos e homens que a ela se assemelham, e livra da morte aqueles que se arrependem de suas más ações e nele creem. (ROMA, 2016, p. 264-265)

É interessante mencionar que Justino faz questão de afirmar que Eva era “incorrupta e virgem”, uma vez que tais características são atribuídas à Maria pela Santa Igreja. Outro ponto importante é o meio salvífico: Eva era incorrupta e abriu o caminho para a morte; Maria, concebendo na alegria, deu caminho à luz.

Outro santo do segundo século que concedeu portfólio para a formulação do dogma da imaculada durante os séculos foi Irineu de Lião. Bispo e teólogo, Irineu forneceu ao mundo cristão a maior obra de refutação ao gnosticismo (Contra as Heresias). Assim como Justino, Irineu coloca Eva e Maria em uma linha paralela e escreve os contrastes entre as ações da antiga e da nova. Observemos as palavras do bispo:

– Maria, a obediente; Eva, a desobediente:

Da mesma forma, encontramos Maria, a Virgem obediente, que diz: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, e, em contraste, Eva, que desobedeceu quando ainda era virgem. (LIÃO, 2009, p. 351-352)

– Maria, causa de salvação; Eva, causa de morte:

Pela sua desobediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da morte, assim Maria, tendo por esposo quem lhe fora predestinado e sendo virgem, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da salvação. (LIÃO, 2009, p. 352)

– A Nova Eva (Maria) desata o nó da Antiga Eva:

Com efeito, o que está amarrado não pode ser desamarrado, a menos que se desatem os nós em sentido contrário aos que foram dados, e os primeiros são desfeitos depois dos segundos e estes, por sua vez, permitem que se desfaçam os primeiros: acontece que o primeiro é desfeito pelo segundo e o segundo é desfeito em primeiro lugar (…). Da mesma forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé. (LIÃO, 2009, p. 352)

– A Nova Eva (Maria), sendo obediente, advoga em favor da Antiga Eva:

A sedução de que foi vítima, miseravelmente, a virgem Eva, destinada a varão, foi desfeita pela boa-nova da verdade, maravilhosamente anunciada pelo anjo à Virgem Maria, já desposada a varão. Assim como Eva foi seduzida pela fala de anjo e afastou-se de Deus, transgredindo a sua palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de anjo e trouxe Deus em seu seio, obedecendo à sua palavra. Uma deixou-se seduzir de modo a desobedecer a Deus, a outra deixou-se persuadir a obedecer a Deus, para que, da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse advogada. (LIÃO, 2009, p. 569)

– A Antiga Eva nos submete à morte; a Nova (Maria) nos liberta para a vida:

O gênero humano que fora submetido à morte por uma virgem, foi libertado dela por uma virgem; a desobediência de uma virgem foi contrabalançada pela obediência de uma virgem. (LIÃO, 2009, p. 569)

De forma ainda mais clara que Justino, Santo Irineu fornece-nos grandiosas informações da crença da Igreja primitiva a respeito de Maria e o influxo que se opera da Virgem sobre Eva. Maria é comparada de forma significativa com ela, porém em total oposição ao seu erro. A Mãe do Senhor inaugura, no tempo da graça (cf. Gl 4,4), a chegada da misericórdia a todos os povos. Eva era virgem e imaculada, assim como Maria. Eva transmitiu a morte a todos os homens; Maria, por sua vez, transmitiu a vida.

8. MARIA, A CHEIA DE GRAÇA

Um dos títulos mais invocados pelos cristãos referentes à Maria é o de “cheia de graça”. Tal título evoca a missão da Virgem em trazer aos homens o vencedor do mundo, Jesus Cristo. É importante afirmar que a passagem que menciona tal invocação (cf. Lc 1,28) é considerada pelos teólogos uma importante fonte para confirmar o dogma da imaculada conceição.

O principal detalhe a ser notado nesse texto é que o termo grego κεχαριτωμένη, traduzido para “cheia de graça” ou “agraciada”, é usado unicamente por Lucas. Dessa forma, a perícope possui uma palavra jamais usada em outros livros da escritura. De acordo com as informações do Dicionário de Mariologia, verbete “Bíblia”, um dos aspectos da palavra “kecharitoméne”[9] é que o termo é o perfeito do verbo “charitóo”, tendo por raiz “cháris”. Em boa parte dos casos, refere-se a Deus. Dessa forma, a graça representa a benevolência gratuita do Altíssimo, e quem a recebe fica repleto da complacência divina[10]. No caso de Maria, ao ser invocada pelo anjo como “κεχαριτωμένη (cheia de graça/agraciada – kecharitoméne)”, a perícope deixa claro que o estado de santidade da Virgem era de plena purificação.


[9] Transliterado do grego κεχαριτωμένη.
[10] DICIONÁRIO de Mariologia, 1995, p. 211

Orígenes (240 d.C.), padre alexandrino da Igreja antiga, já havia notado tal importância e registrado em seus escritos:

Pois, na verdade, o anjo saudou Maria como uma fórmula nova, que não pude encontrar em [nenhuma] outra parte da Escritura e da qual pouca coisa se deve dizer. Eis, de fato, o que diz: <Ave, cheia de graça>, que em grego se diz: <kekharitoméne>. Não me recordo em que outra parte da Escritura eu tenha lido. Nunca essa fórmula foi dirigida a um homem: <Salve cheio de graça>. Somente a Maria essa saudação estava reservada. (ORÍGENES, 2016, p. 61)

A oração mais antiga (250 d.C.) dedicada à Virgem de que se tem registro, intitulada de Sub tuum praesidium (sob a tua proteção), traz palavras como “sancta Dei Genitrix” (santa Mãe de Deus) e “virgo gloriosa et benedicta” (virgem gloriosa e bendita) [11]. A prece, escrita em um papiro egípcio, apenas reflete aquilo que os cristãos já pensavam sobre Maria e faz jus ao vocativo concedido pelo Arcanjo Gabriel ao saudar Maria com palavras de tamanha importância. Cirilo de Alexandria, em seu discurso pronunciado no Concílio de Éfeso (431 d.C.) [12], reafirma a crença na pureza da Virgem e saúda Maria iniciando cada sentença com o “salve (ave)”:


[11] PAREDES, 2011, p. 247
[12] CIRILO DE ALEXANDRIA. Discurso pronunciado en el Concilio de Efeso. PL 77, 1029-1040.

Salve, Maria, templo onde Deus habita, templo santo, como o chama o profeta Davi quando diz: “Teu templo é santo e admirável em sua justiça” (Sl 64,6). Salve, Maria, a criatura mais preciosa da criação; salve Maria, pomba. (PAREDES, 2011, p. 250)

Tendo em vista tais informações, o que mais poderíamos adicionar à importância do termo grego para o dogma? Pois bem, como já mencionado, a graça é um favor divino e gratuito, logo não a merecemos. Maria foi “achada com graça”, sendo assim, foi preparada de forma antecipada para a missão. As palavras do Anjo ao dizer “achada com graça” (χαρις) nos remetem a outro texto do Antigo Testamento, onde Moisés é visto por Deus com graça semelhante (cf. Ex 33,17). É como se o evangelista mostrasse ao leitor que de Moisés nasceu um novo povo para a liberdade, e que de Maria nasceria um novo povo para a eternidade[13].

Para a doutrina católica, são Lucas, ao usar “κεχαριτωμένη”, está indicando que:


[13] PAREDES, 2011, p. 88.

1 – A virgem recebeu uma graça particular não por seus méritos, mas sim porque Deus, antes de todos os tempos, através de uma ação prévia, cumulou Maria de tal graça santificadora. O Catecismo ensina que, para conceder seu sim livremente, a mãe de Jesus deveria estar totalmente sob a “moção da graça” e que, para receber tal missão, ela foi “enriquecida por Deus com dons dignos” (cf. CIC 490).

2 – Assim como Jacó foi escolhido antes de seu nascimento (cf. Rm 9,11-13), assim como Jeremias e João Batista foram santificados no ventre de suas respetivas mães (cf. Jr 1,5 e Lc 1,44), Maria foi preservada do pecado original e preparada de forma mais sublime, tendo em vista os méritos do Cristo crucificado (cf. CIC 490).

3 – A graça particular derramada em Maria não foi aplicada dentro do tempo, como no caso da Igreja (cf. Ef 1,6 – [χαριτουν]) ou de Estevão (cf. At 6,8 – [πληρης χαριτος]), mas sim fora dele. Para ter sido “encontrada com graça”, é porque a Virgem já estava repleta do favor divino anteriormente. Maria foi objeto do especial favor de Deus[14].


[14] DICIONÁRIO de Mariologia, 1995, p. 101.

No livro da Sabedoria, encontramos a seguinte afirmação: “A Sabedoria não entra numa alma maligna, Ela não habita num corpo devedor ao pecado” (cf. Sb 1,4). Cristo é a própria sabedoria encarnada (cf. Hb 1,3), e, considerando a tipificação entre antigo e novo testamento, vemos claramente que Jesus, sendo a sabedoria, jamais poderia habitar em um corpo devedor do pecado. Sendo esse corpo o de Maria, e sendo ela saudada pelo anjo como a kecharitoméne,e em pleno estado de graça, cremos firmemente que a culpa original não tocou no corpo da Virgem. Dessa forma, ela não apenas aceitou livremente a missão de ser mãe do Salvador, como também foi salva por ele graças à preservação do pecado mediante os méritos de Jesus.

9. A AUTORIDADE DA IGREJA

A Igreja é o corpo místico do Cristo (cf. 1 Cor 15,27), fundada pelo próprio messias (cf. Mt 16,18) e chamada pelo apóstolo Paulo de “coluna e sustento da verdade” (cf 1 Tm 3,15). Logo, se temos a Igreja por mãe, devemos entender que suas decisões dogmáticas são pautadas pelo próprio Espírito Santo. Jesus afirmou que, ao ascender aos céus, deixar-nos-ia o paráclito (cf. Jo 14,16). Entretanto, “não católicos” queixam-se de que a Igreja Católica adiciona à verdade de fé pontos em inconformidade com a escritura. Essa não crença no Magistério atrapalha o entendimento a respeito das confirmações que o catolicismo realizou ao longo dos séculos.

Para finalizar a argumentação exposta neste trabalho, é importante entender que o Papa, juntamente de seu colegiado (bispos), possui autonomia para “ligar e desligar” (cf. Mt 16,19). Dessa forma, ainda que a Igreja demore para confirmar algo como dogma de fé, não significa que tal crença tenha nascido no ano exato da proclamação (exemplo para a imaculada conceição afirmada como verdade de fé no ano de 1854). Podemos citar, por exemplo, crenças e conceitos que comungam da mesma conformidade entre católicos e protestantes e que tiveram certo tempo para serem afirmados como verdade:

– Trindade (Concílio de Nicéia [321 d.C.] e Constantinopla [381 d.C.]);

– Formação do Cânon da Escritura (Hipona [393 d.C.] e Cartago [397 d.C.]);

– União Hipostática (Jesus totalmente homem e totalmente Deus – Éfeso [431 d.C.] e Calcedônia [451 d.C.]);

– Afirmação da vontade humana e divina de Jesus (contra o monotelismo – Constantinopla III – [680/681 d.C.]).

Para todas as situações mencionadas, havia a fé ortodoxa a ser defendida contra hereges que procuravam deturpar a crença cristã. Em todos os casos, ainda que subsistisse a fé – por exemplo, na Trindade – foi necessário que a Igreja se levantasse para defender e confirmar dogmaticamente aquilo que os cristãos deveriam ter por verdade. Nós jamais encontraremos cristãos dizendo que nós não podemos “crer na Trindade” porque ela surgiu apenas 381 anos depois. Cremos justamente porque a Igreja confirmou o que era verdadeiro, mediante uma grande quantidade de opiniões contrárias.

A autoridade da Igreja permite-nos crer com a tranquilidade de que Ela (Igreja) é guiada pelo Santo Espírito. É por isso que o dogma da imaculada, ainda que tenha tido uma confirmação tardia, foi afirmado pela fé católica justamente por entender que tal crença sempre esteve viva no seio da cristandade durante os séculos.

10. CONCLUSÃO

Maria não é considerada um objeto de culto divino da fé católica, entretanto, como cristãos que professamos uma fé milenar deixada pelo próprio Cristo e preservada pelos apóstolos, entendemos que o papel significativo da Virgem foi crucial para que o gênero humano fosse liberto de seus pecados e mazelas. O Catecismo da Igreja Católica ensina que Maria foi “enriquecida por Deus com dons dignos para tamanha função” (cf. CIC 490) e que o assentimento livre de sua fé para tal missão só foi possível pois ela estava “totalmente sob a moção da graça de Deus” (cf. CIC 490). Dessa forma, cremos que a Mãe de Deus, através dos méritos de Jesus, isto é, salva pelo seu próprio filho, foi preservada da culpa original.

Aceitar por livre alegria essa verdade faz com que nossa fé nas coisas celestiais tenha um embasamento ainda mais forte, afinal o cumprimento do projeto de Deus para a vida de Maria é a própria manifestação da verdade em nossas vidas. Eva e Adão tiveram suas oportunidades: foram criados de forma imaculada e viviam no paraíso, porém, por conta de um erro, não apenas imputaram em suas almas a mancha da derrota, como transferiram tamanha culpa para todos os homens. Cristo (Deus salvador) e Maria (cooperadora da obra salvífica) anularam as falhas iniciais e ofereceram ao mundo (Jesus por ser Deus e Cordeiro Imaculado e Maria por consentir) a possibilidade de retorno aos caminhos do Senhor.

Maria foi preservada da culpa original e assunta aos céus (cf. Ap 12,1) para louvor de Deus. Nós, na eternidade, com nossos corpos incorruptíveis (cf. 1 Cor 15,53-54) e juntos de Deus, poderemos gozar das mesmas realidades. Dessa forma, concluindo o trabalho aqui apresentado, manifestemos, através de um trecho da Bula Ineffabilis Deus, de Pio IX, a verdade proclamada através da Santa Igreja Católica:

A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis. (PIO IX, 1854, n.p.)

BIBLIOGRAFIA

ALLISON, Gregg R. Teologia e Prática da Igreja Católica Romana – Uma Avaliação Evangélica. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.

BÍBLIA SAGRADA. Português. Bíblia de Jerusalém. 4ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2006.

CATECISMO da Igreja Católica. 9. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

DICIONÁRIO de Mariologia. São Paulo: Paulus, 1995.

HAHN, Scott. Salve Santa Rainha. 1. ed. Lorena: Cléofas, 2015.

LIÃO, Irineu de. Contra as Heresias. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2009.

ORÍGENES. Homilias sobre o Evangelho de São Lucas. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2016.

PADRES Apologistas. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995.

PADRES Apostólicos. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995.

PAREDES, J.C.R. García. Mariologia: Síntese Bíblica, Histórica e Sistemática. 1. ed. São Paulo: Ave Maria, 2011.

PIO IX. Bula Ineffabilis Deus – Dogma da Imaculada Conceição. Disponível em: <http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/20060220>. Acesso em: 15 ago. 2019.

ROMA, Justino de. I e II Apologia, Diálogo contra Trifão. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995.



Categorias:Mariologia, Trabalhos da Faculdade

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