A INTERCESSÃO DOS SANTOS

Escrito por Lucas Falango.

“[…] Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito.”  (1 São Pedro 3,15)

A intercessão dos santos é uma prática antiquíssima que remonta aos primórdios do cristianismo, com inúmeras provas na documentação patrística e até na arqueologia.

Infelizmente, muitos foram expostos apenas a uma argumentação distorcida e caluniosa, de baixíssimo nível, provinda de grupos ateus, e principalmente de seitas heréticas que se aproveitam da má formação do povo para angariar fiéis, alardeando inverdades tanto históricas quanto bíblicas. Apresentaremos aqui esclarecimentos contra as objeções mais comuns ao tema, para informar os católicos e aos que se aproximam do tema com honestidade intelectual.


+  O que diz o Catecismo da Igreja Católica? +

O catecismo ensina que há uma comunhão entre a Igreja do céu e a da terra:

954. Os três estados da Igreja. «Até que o Senhor venha na sua majestade e todos os seus anjos com Ele e, vencida a morte, tudo Lhe seja submetido, dos seus discípulos uns peregrinam na terra, outros, passada esta vida, são purificados, e outros, finalmente, são glorificados e contemplam “claramente Deus trino e uno, como Ele é”»

955. «E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo: mas antes, segundo a constante fé da Igreja, essa união é reforçada pela comunhão dos bens espirituais»

956. A intercessão dos santos. «Os bem-aventurados, estando mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade […]. Eles não cessam de interceder a nosso favor, diante do Pai, apresentando os méritos que na terra alcançaram, graças ao Mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo […]. A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna».



+ Perguntas Pertinentes +

  • Por que os católicos oram aos santos?

R: Bem, primeiro, não são apenas os católicos. São todos os grupos históricos de cristãos que remontam aos apóstolos (católicos, ortodoxos orientais, armênios, coptas, malankares, etíopes, sírios, etc.), exceto os protestantes. Pedir aos santos por sua intercessão é uma parte fundamental de todo o cristianismo histórico, anular os santos então é uma novidade do protestantismo depois de XVI séculos de história cristã. O que nos leva à resposta de por que os cristãos oram aos santos: Oramos aos santos a fim de pedir-lhes que orem ao Senhor por nós, assim como pediríamos a nossa família para orar por nós, eles não podem fazer nada por si mesmos, todo milagre é concedido por Deus Todo-Poderoso.

  • Então os santos oram por vocês, mas por que vocês dizem que oram aos santos?

R: Porque originalmente a  palavra “orar” significava simplesmente: “pedir” (Ora pro nobis = Pede por nós). E assim quando alguém pedia algo a Deus, estava orando a Deus, e da mesma forma quando alguém “pedia a outros para pedir por ela”, essa pessoa estava “orando a outros para orar por ela”. Com o passar do tempo, nosso idioma acabou restringindo o conceito do verbo “orar” como algo feito somente a um ser divino, e muitos ainda criaram uma falsa percepção de que isso é intrinsecamente adoração, no entanto, uma pessoa pode se dirigir a Deus blasfemando contra Seu nome, e isso jamais será um ato de adoração. Mesmo que o alcance semântico da palavra tenha ficado restrito, termos como: “oratória” e “orador”, são provas de que o significado original era outro, pois até hoje não carregam nenhum sentido religioso.

A Igreja nunca abandonou o sentido original e amplo do termo (pois preservou sua teologia com o uso do latim), enquanto os protestantes restringiram seu significado, e é por isso que os católicos ainda hoje falam de orar aos santos, significando simplesmente um pedido aos santos para que intercedam por nós junto a Deus. Ainda assim, bíblias protestantes anglófonas, como a King James 1611, usam expressões como: “I pray thee”, desprovidas de um sentido religioso.

  • Não é a oração um ato de adoração?

R: No uso religioso dentro do protestantismo, sim, mas como vimos, esse não é o significado original do termo (mantido na Igreja Católica), e certamente não é o significado amplo do termo. O mesmo acontece com outros conceitos também. Honrar a Deus, por exemplo, é um ato de adoração: “Só a Deus honra e Glória” (1 Tm 1,17), mas em outros contextos honrar uma pessoa não é de forma alguma um ato de adoração, a Escritura diz: “honra a pessoa do velho” (Lv 19,32), e também: “honra uns aos outros” (Rm 12,10), o próprio Jesus nos lembra do dever de: “honrar pai e mãe” (Mc 7,10; Ex 20,12; Dt 5,16), mas isso certamente não nos manda adorá-los.

Orar a Deus certamente pode incluir atos de adoração (louvando-o e proclamando sua grandeza), mas pode também ser simplesmente um pedido  por ajuda. Porém, quando usada em referência aos santos, a oração certamente não é um ato de adoração, mas um pedido por sua intercessão. Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo da história da Igreja (e do mundo), aborda o tema na sua obra “Suma Teológica”, e nos explica isso de forma clara:

“[…] A oração é oferecida a uma pessoa de duas maneiras: primeiro, a ser cumprida por ele, em segundo lugar, a ser obtida através dele. No primeiro sentido, oferecemos oração somente a Deus, pois todas as nossas orações devem ser dirigidas para a aquisição da graça e da glória, que só Deus nos dá, de acordo com o Salmo: “O Senhor dará graça e glória” (Sl 83,12).  Mas, na segunda maneira, oramos aos santos, quer sejam anjos ou homens, não para que Deus possa por meio deles conhecer nossas petições, mas que nossas orações possam ser eficazes por meio de suas orações e méritos. Por isso, está escrito (Ap 8,4) que “a fumaça do incenso”, ou seja, “as orações dos santos subiram diante de Deus”. Isso também fica claro pelo próprio estilo empregado pela Igreja ao orar: já que pedimos à Santíssima Trindade: “Tenha piedade de nós”, enquanto pedimos aos santos: “Rogai por nós”.

Somente a Deus oferecemos adoração religiosa quando oramos, de quem buscamos obter o que oramos, porque, ao fazê-lo, confessamos que Ele é o Autor de nossos bens. Mas, não, aos que pedimos como a intercessores nossos juntos de Deus.” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II Q. 83 art. 4 e 11)

Para qualquer um que deseje insistir que isso seja adoração, tudo o que podemos dizer é que há algo muito diferente acontecendo internamente com um católico, quando ele diz: “Santos Apóstolos, Pedro e Paulo, Rogai por nós!” e quando ele diz: “Só Vós sois o Santo, Só Vós sois o Senhor, só Vós sois o Altíssimo, Jesus Cristo, Redentor do mundo, Tenha piedade de nós!”

Ninguém está qualificado para julgar o que está acontecendo no íntimo do outro para começo de conversa, é Deus que perscruta os corações (Rm 8,27), mas saibam que há uma diferença marcante (na intenção) entre os dois tipos de oração. Lembremos o que São Paulo nos ensinou:

“Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos.” (Filipenses 2,3)


+ Sono da Alma? +

É muito comum vermos algumas denominações modernas (geralmente com tendências judaizantes) dizerem que os santos estão mortos, em um estado de “sono”. E apesar dessa interpretação ser rejeitada pelas denominações protestantes mais tradicionais, é uma visão tida quase como dogma no meio protestante brasileiro. 

O erro geralmente ocorre ao interpretarem textos de forma literal, sem levar em conta o gênero literário, as variações da crença judaica sobre a morte ao longo dos séculos, não concatenando as passagens com outras que tratam do mesmo assunto, e esquecendo que a vinda de Cristo mudou a realidade que vemos no Velho Testamento.

Com essa interpretação simplista, algumas denominações negam a imortalidade da alma, alegam uma aparente impossibilidade da intercessão dos santos, ou tentam acusar o ato de ser necromancia, querendo desmerecer ou caluniar a Igreja Católica. Alguns dos textos frequentemente citados por essas denominações são:

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos de nada sabem. Para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança jaz no esquecimento.” (Eclesiastes 9,5)

“Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silêncio.” (Salmos 115,17)

Vejam que o primeiro texto diz claramente que “não há recompensa”, exatamente o oposto do que Cristo ensinou:

“Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus.” (São Mateus 5,12)

O autor alega desconhecer o destino dos mortos, coloca o homem e os animais na mesma posição, o próprio autor diz estar tratando do destino físico, da labuta dos homens (Ecl 1,13).

Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. Tanto morre um como o outro. A ambos foi dado o mesmo sopro. A vantagem do homem sobre o animal é nula, porque tudo é vão. Todos caminham para um mesmo lugar. Todos saem do pó e para o pó voltam. Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto e o sopro de vida dos animais desce para a terra?” (Eclesiastes 3,19-21)

O autor põe em dúvida se realmente vamos para o céu ou se tudo acaba na sepultura, o livro é dúbio nessa questão, as vezes o autor parece ter também a esperança da vida eterna:

“E o pó volte à terra donde saiu, e o espírito volte para Deus que o deu.” (Eclesiastes 12,7)

O segundo texto (Salmo 115) diz que a alma desce ao silencio, os defensores do “sono da alma” usam passagens assim para dizer que o destino dos falecidos (o Xeol) seja um local de inconsciência total, porém outras passagens demonstram atividade e a consciência dos que lá habitam, alguns aparentemente dormem, por não terem outra opção nessa existência enfadonha.

“Debaixo da terra se agita a morada dos mortos, para receber-te à tua chegada; despertam em tua honra as sombras dos grandes, e todos os senhores da terra, e levantam-se de seus tronos todos os reis das nações. Todos tomam a palavra para dizer-te: Finalmente, eis-te fraco como nós, eis-te semelhante a nós.” (Isaías 14,9-10)

“Eles tombarão no meio dos que pereceram pela espada; toda a sua força desaparecerá. A elite dos heróis com seus aliados dirá ao faraó, do seio da região dos mortos“(Ezequiel 32,20-21)

Fica claro o quão incoerente é levar as passagens do Velho Testamento de forma literal, como uma descrição infalível sobre o estado espiritual dos que se foram, sendo algo que o povo de Deus ainda não tinha conhecimento pleno. Fazendo isso, faremos a palavra de Deus parecer contraditória em diversas passagens. Precisamos ter a devida cautela na interpretação desse tipo de passagem, levando em conta o estilo literário do texto, e toda a nuance da crença judaica sobre a morte, concatenando com outros textos do mesmo assunto, sempre lembrando que o Velho Testamento não deve ser “régua” para o Novo, e sim o oposto.

Através dos séculos, foi se afirmando na cultura hebraica, a crença de que os homens, por serem pecadores e indignos, eram “condenados” a habitar na Morada dos Mortos (ou Xeol), local melancólico, de esquecimento, e punição, mas que esse não seria o único destino dos falecidos. Se nota em outras passagens a crença de que Deus não deixava os justos no Xeol, e que alguns poucos justos habitariam na presença de Deus, ou em algum local separado dos ímpios.

“Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade.” (Sabedoria 3,1-4) (Excluído do cânon protestante)

“O túmulo será sua eterna morada, sua perpétua habitação, ainda que tenha dado a regiões inteiras o seu nome, pois não permanecerá o homem que vive na opulência: ele é semelhante ao gado que se abate. Este é o destino dos que estultamente em si confiam, tal é o fim dos que só vivem em delícias. Como um rebanho serão postos no lugar dos mortos; a morte é seu pastor e os justos dominarão sobre eles. Depressa desaparecerão suas figuras, a região dos mortos será sua morada. Deus, porém, livrará minha alma da habitação dos mortos, tomando-me consigo.” (Salmos 48,12-16)

“O sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos.” (Provérbios 15,24)

“Mesmo que desçam à morada dos mortos, minha mão os arrancará de lá; ainda que subam aos céus, eu os farei descer dali.” (Amós 9,2)

“Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também.” (Salmos 138,8)

Conforme a vinda do Messias se aproximava, mais claro foi ficando o destino dos falecidos, até chegar ao que sabemos hoje: que o homem mesmo sendo justo, não poderia ir para o Paraíso ver a Deus, devido ao pecado original, e por isso aguardava a vinda do Messias na Morada dos Mortos, os justos em um lugar bom, e os ímpios em um lugar de castigo (Dt 32,22; Lc 16,19).

“Porem Tobias os repreendia: Não faleis assim, porque nós somos filhos dos santos (patriarcas) e esperamos aquela vida que Deus há-de dar aos que nunca deixam de confiar nele.” (Tobias 2,17-18) (Excluído do cânon protestante)

“Senhor, trata-me segundo a tua vontade, mas manda que o meu espírito seja recebido em paz, porque é melhor para mim morrer do que viver.” (Tobias 3,6) (Excluído do cânon protestante)

Vemos que Tobias esperava uma vida após a morte, onde seu espirito seria recebido por Deus em algum lugar, uma vida nova com os santos patriarcas, e isso seria algo bom, ao contrário do terror da morte que vemos os hebreus professarem no início, quando as coisas não eram tão claras, agora faz sentido o que Jesus disse sobre Abraão, Isaac e Jacó viverem (Lc 20,36-38).

*Para mais aprofundamento nas diferentes crenças judaicas sobre a Morada dos Mortos: https://accatolica.com/2017/08/20/o-xeol-e-a-imortalidade-da-alma/

                           
 + Deus dos Vivos, não dos Mortos +

“Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá jamais a morte.” (São João 8,51)

Com a vinda de Cristo ficou claro o destino dos falecidos, o novo testamento é repleto de passagens que demonstra que os justos não mais habitam na Morada dos Mortos e sim na presença de Deus, Cristo foi inclusive pregar aos mortos (1 Pd 3,18-19; 1 Pd 4,6). Vemos isso no Credo Apostólico, aceito até pelas igrejas protestantes tradicionais, como nessa tradução Luterana: foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos…

Ele levou cativo o cativeiro (Ef 4,8), ou seja, levou os que esperavam na morada dos mortos para o céu, para que: “vivessem segundo Deus em espírito” (1 Pd 4,6) no Paraíso (Lc 23,43).

“Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição.” (São Lucas 20,36)

A ressurreição é do corpo, mas os anjos são puro espírito, consequentemente, a comparação com os anjos não é restrita apenas ao estado dos justos após a ressurreição, mas desde o instante em que passam a viver espiritualmente com Deus, aguardando o dia da ressurreição (e até antes At 6,15; At 7,59), no relato de Lucas isso é mais claro: “SÃO IGUAIS AOS ANJOS” (presente do indicativo), e fica ainda mais evidente quando lemos o contexto todo:

“[…] Que os mortos hão de ressuscitar é o que Moisés revelou na passagem da sarça ardente, chamando ao Senhor: Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque para ele, todos VIVEM (presente do indicativo).” (São Lucas 20,38)

Abraão, Isaac e Jacó jamais morreram, “vivem segundo Deus em espírito”, sendo então como os anjos no céu (sendo os santos, assim como os anjos no céu, podem interceder assim como eles: Mt 18,10; Jó 5,1; Jó 33,23; Zc 1,12). Aos nossos olhos mortais, parecem estar mortos, mas para Deus estão vivos em sua glória, não há morte para aqueles que estão em Cristo.

“Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício bem superior ao de Caim, e mereceu ser chamado justo, porque Deus aceitou as suas ofertas. Graças a ela é que, apesar de sua morte, ele ainda fala.” (Hebreus 11,4)

Entre os considerados justos,  são citados também Abraão, Isaac e Jacó (Hb 11,17.20.21) os mesmos que Jesus disse que vivem para Deus, sendo assim, são como Abel, que longe de estar inconsciente no pó da terra, foi considerado justo e “apesar de sua morte, ele ainda fala”, ou seja, vive para Deus, podendo clamar por justiça contra Caim.

“O Senhor disse-lhe: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra.” (Gênesis 4,10)

Vemos isso acontecendo claramente em Apocalipse, onde vemos os santos mártires (já falecidos) orando*, clamando para que Deus intervenha na terra com justiça contra os seus perseguidores, ou seja, sabem o que acontece aqui, pois sabem que seus perseguidores ainda vivem, seus companheiros ainda vivos são chamados de irmãos (Ap 6,11).

“Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Apocalipse 6,9-10)

*Nota: Alguns podem tentar objetar dizendo que isso não é uma oração, porém isso é claramente uma oração, cujo nome é Oração Imprecatória (cf: Jr 11,20; Jr 15,15; Jr 18,19; Sl 34,1-6; Sl 58,6.12.14; Sl 69,1-4; Sl 78,6.12).

Estamos ligados a todos esses justos através do Corpo de Cristo, pelo Espírito Santo; A esse laço fraternal damos o nome de: Comunhão dos Santos*.

*Nota: Muitos fazem a alegação de que o termo “santos” só pode se referir aos cristãos vivos. As vezes temos que explicar o óbvio: os santos são todos os salvos, porém, os que partem deste mundo não deixam de ser santos, continuam a ser santos no céu, pois estão com Deus, e “sem santidade ninguém verá a Deus” (Hb 12,14), quem está no céu é santo! (cf: 1 Ts 1,10; 1 Ts 3,13; Jd 1,14; Fl 3,20; Hb 12,22).

A comunhão no corpo de Cristo não é apenas uma relação individual do cristão com Deus, mas a comunhão de todos os membros da Igreja uns com os outros na vida divina da Santíssima Trindade.

“O que vimos e ouvimos, vo-lo anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco, e para que a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.” (1 João 1,3)

E os membros da Igreja, os santos, não são apenas os salvos aqui da terra, mas também aqueles que já alcançaram o céu, nossa comunhão em Cristo é também com eles:

“[…] Os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8,29)

“[…] Mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Efésios 2,19)

“Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência toda A FAMÍLIA NO CÉU E NA TERRA.” (Efésios 3,14-15)


+ A cidade celestial da Nova Aliança +

Os justos não mais habitam nas profundezas do Xeol e sim no céu, na Jerusalém celestial, na presença de Deus.

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” (Filipenses 3,20)

“Mas a Jerusalém lá do alto é livre e esta é a nossa mãe.” (Gálatas 4,26)

“Porque esperavam aquela cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e fundador é Deus […] Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se dedigna de ser chamado o seu Deus; de fato, ele lhes preparou uma cidade.” (Hebreus 11,10.16)

“Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, e da Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e de Deus, juiz universal, e dos espíritos dos justos perfeitos, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel.” (Hebreus 12,22-24)

“Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo.” (Apocalipse 21,2) (Até que ela desça do céu, após a Parúsia, ela permanece no céu, junto de Deus)

Essa nova aliança em Cristo, desde já, nos aproxima da Jerusalém Celestial, nos faz concidadãos (Ef 2,19) da família no céu (Ef 3,15), nos põe em comunhão com os céus e com seus habitantes (Lc 15,7; Fp 2,10; Hb 12,1.9.23), os anjos e os justos perfeitos. Se essa Jerusalém é nossa mãe (Gl 4,26; e que mãe não intercede pelo seu filho?), eles não são outra coisa, senão nossos irmãos (Rm 8,29). Tudo isso se dá através do corpo místico de Cristo, a Igreja que une o céu e a terra:

“Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. […] Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas […] tudo quanto existe na terra e nos céus.” (Colossenses 1,18-20).

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    + Os santos que julgarão o Mundo e o Juízo Particular +

Muitos se perguntam: se os justos já estão no céu, por que existe o Juízo Final? A resposta é um tanto simples: o estado dos santos no céu é algo provisório, pois Deus criou corpo e alma, e a presença dos santos no céu é incompleta, apesar de ser um estado muito melhor que o nosso, eles aguardam a ressurreição da carne, do corpo glorificado.

No Catecismo:

1051. Ao morrer: cada homem recebe, na sua alma imortal, a sua retribuição eterna, num juízo particular feito por Cristo, Juiz dos vivos e dos mortos.

1052. «Nós cremos que as almas de todos os que morrem na graça de Cristo […] constituem o povo de Deus no além da morte, a qual será definitivamente vencida no dia da ressurreição, quando estas almas forem reunidas aos seus corpos».

1060. No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude. Então, os justos reinarão com Cristo para sempre, glorificados em corpo e alma; o próprio universo material será transformado. Deus será, então, «tudo em todos» (1 Cor 15,28), na vida eterna.

Na Bíblia:

“Não sabeis que os santos julgarão o mundo? E, se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância? Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais as pequenas questões desta vida!” (1 Coríntios 6,2-3)

“Que ele confirme os vossos corações, e os torne irrepreensíveis e santos na presença de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus com todos os seus santos!” (1 Tessalonicenses 3,13) 

“Também Enoque, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, profetizou a respeito deles, dizendo: Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos.” (São Judas 1,14)

Como os santos poderão julgar até mesmo os anjos, se eles mesmos não forem previamente julgados dignos de tamanha responsabilidade? É esse julgamento que autor de Hebreus fala:

“Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo.” (Hebreus 9,27)

Ele não diz que após a morte vem um “sono” até a ressurreição dos mortos, ele diz que após a morte vem o juízo, esse é o que a Igreja chama de: Juízo particular.

“Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor […] Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo.” (2 Coríntios 5,8.10)

(O “habitar com o Senhor” é fora do corpo, ou seja, não se refere ao juízo final, pois no juízo final seremos ressuscitados, e estaremos lá corporalmente)

Todos os que vierem para julgar os vivos e os mortos, já passaram por esse juízo individual logo após a morte e foram julgados dignos de estar com Cristo, são os santos que já se encontram no céu (na “cidade”: Fl 3,20; Gl 4,26; Hb 11,10.16; Hb 12,22). É o que vemos nas palavras de Santo Estevão durante seu martírio, e nas palavras de Cristo ao Bom Ladrão:

“Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus: Eis que vejo – disse ele – os céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus.[…] E apedrejavam Estêvão, que orava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.” (Atos dos Apóstolos 7,55-56.59)

“E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.” (São Lucas 23,42-43)

Por isso São Paulo disse: “desejaria desprender-me para estar com Cristo(Fl 1,23), estar com Cristo é estar no céu, e é do céu que o Senhor virá para julgar os vivos e os mortos, e todos os seus santos virão com Ele, quem estiver vivo no dia, será transformado, tendo o corpo glorificado. Então os que morrem antes desse dia, ficam no céu espiritualmente, alertas e orantes, aguardando o momento de serem ressurretos no corpo que “dorme” no pó da terra.

“Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, O CORPO ressuscita incorruptível.” (1 Coríntios 15,42)

“Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta (porque a trombeta soará). Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1 Coríntios 15,51-52)

“Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero CORPO, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura.” (Filipenses 3,21)

Vemos que os cristãos que se foram não vão dormir até o Juízo Final, a ideia de “sono da alma”, provavelmente se originou de uma falta de entendimento de expressões como: “os que dormem” ou “adormeceu“, sem o contexto e conhecimento devido da linguagem da época.

Esses termos eram frequentemente usados na literatura pagã da antiguidade como um meio de descrever a morte física, temos registros históricos do uso dessa linguagem em obras como a “Ilíada” de Homero, “Eneida” de Virgílio e “Electra” de Sófocles. Historicamente essa linguagem jamais pretendeu descrever o estado da alma de uma pessoa, era apenas a descrição física e aparente aos nossos olhos do processo da morte.

Os cristãos provavelmente se sentiram confortáveis em usar essa expressão, pois além de popular, o próprio Cristo prometeu que os que permanecessem crendo em sua palavra, jamais morreriam.

“Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá. Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisso?” (São João 11,25)

Marta expressa a opinião de muitos protestantes, que apenas no último dia o irmão dela iria ressurgir, e Jesus corrige a crença de Marta. Muitos tentam fazer a objeção de que Jesus apenas disse isso pois iria ressuscitar Lázaro em seguida. Mas vemos pelo contexto que isso não é verdade, Jesus diz claramente “Todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá“, ele aproveitou a ignorância de Marta para ensinar uma verdade teológica, de que a alma é imortal e quem crê nele, mesmo que tenha morrido, vive para Deus, assim como ele disse sobre Abraão, Isaac e Jacó (Lc 20,38).

Ou será que ele iria ressuscitar imediatamente a todos esses que creem, assim como fez com Lázaro? Obviamente que não! Na pratica o termo “os que dormem” significa simplesmente aqueles que morreram perseverando na fé. Não indicando o estado da alma imortal que vive no céu, e sim do corpo que vai para o pó da terra (e dorme) até ser ressuscitado, grosso modo: O Cristão não morre! Ele “se desprende dessa morada para habitar com o Senhor” (Fl 1,23).


+ A Nuvem de Testemunhas +

Após o longo louvor dedicado aos heróis da antiga aliança no capítulo 11 de Hebreus, o autor diz que estamos cercados “de uma tal nuvem de testemunhas”, ou seja, esses justos nos observam do alto como uma grande e ativa plateia.

“Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus.” (Hebreus 12,1)

A palavra grega para Testemunhas é μαρτύρων (martýron) essa é a origem da palavra “Mártir”, usada no contexto cristão para os que morreram sob tortura sem renunciar a Jesus Cristo.

“Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do TESTEMUNHO de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Apocalipse 6,9-10)

Pelo seu testemunho de fé, elas se tornaram Mártires, Testemunhas de Cristo que agora habitam com Ele na Jerusalém Celestial e continuam a clamar a Deus por justiça; Estamos sempre cercados por esses justos, pois agora fazem parte da Nuvem (νέφος) ou Shekinah (שכינה), termo usado pelos Hebreus para descrever a manifestação da presença divina.

“Enquanto Aarão falava a toda a assembleia dos israelitas, olharam para o deserto e eis que apareceu na nuvem a glória do Senhor!” (Êxodo 16,10)

“[…] Eis que me vou aproximar de ti na obscuridade de uma nuvem, a fim de que o povo ouça quando eu te falar, e para que também confie em ti para sempre…” (Êxodo 19,9)

“Moisés subiu ao monte. A nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai […] no sétimo dia, o Senhor chamou Moisés do seio da nuvem.” (Êxodo 24,15-16)

“E era impossível a Moisés entrar na tenda de reunião, porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo.” (Êxodo 40,35)

“E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.” (Atos dos Apóstolos 1,9)

“Enquanto ainda assim falava, veio uma nuvem e encobriu-os (Moisés e Elias) com a sua sombra; e os discípulos, vendo-os desaparecer na nuvem, tiveram um grande pavor.” (São Lucas 9,34)

“Então, da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o!” (São Lucas 9,35)

Vemos que essa Nuvem que levou Jesus, Moisés e Elias é a Shekinah (שכינה), a presença de Deus, e além de seu Filho, também os justos habitam em sua presença, na glória, Deus fez deles uma Nuvem de Testemunhas (ἡμῖν νέφος μαρτύρων) ao nosso redor.   

“Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?” (Salmo 88,6)

 
+  Atividade no Céu +

“A cada um deles foi dada, então, uma veste branca e foi-lhes dito, também que repousassem por mais um pouco de tempo…” (Apocalipse 6,11)

Diante do óbvio furo que Apocalipse 6,9 demonstra na escatologia do “sono da alma”, alguns vão tentar alegar que o versículo acima significa que: “-As almas dormiam, mas acordaram um pouquinho, clamaram, e aí eles dormiram novamente!” Um absurdo, pois em nenhum momento se diz que as almas “acordaram” no céu depois de abrir o selo, e sim que elas passaram a clamar por justiça, é nítido que elas sempre estiveram conscientes e no mesmo local. Foi dito que elas repousassem, mas que repouso é esse? Seria o dito “sono da alma”? A resposta é: não!

“Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus. E quem entrar nesse repouso descansará das suas obras, assim como descansou Deus das suas.” (Hebreus 4,9-10)

Ora, se é um descanso “das suas obras, assim como descansou Deus das suas, fica claro que não é um estado inativo de sono, sabemos que Deus não está inconsciente, tampouco inativo, então os que entraram nesse repouso não estão nem inconscientes, nem inativos e sim em um repouso sabático, pois o Sabá (שַׁבָּת) é um dia reservado para descanso, oração e adoração.

“Eu ouvi uma voz do céu, que dizia: “Escreve: Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem.” (Apocalipse 14,13)

Por isso quando Deus diz aos santos que clamam por justiça: “que repousassem ainda um pouco de tempo” (Ap 6,11) Ele não estava mandando ninguém “voltar a dormir”, e sim que voltassem ao repouso sabático (de oração e adoração) até que chegasse a hora de executar o juízo divino.


+ Os Santos são oniscientes? +

É muito comum a objeção de que apenas Deus é onisciente, então só ele poderia ouvir nosso clamor! Com esse conceito limitado de onisciência, muitos acusam a Igreja de idolatria, por supostamente divinizar um ser criado. Na verdade, não é a Igreja que coloca o conhecimento dos anjos e santos em um patamar divino, e sim os acusadores que rebaixam a onisciência de Deus, limitam o próprio conceito da onisciência em: “testemunhar muitas coisas ao mesmo tempo”, nivelando o conhecimento divino ao conhecimento de um “mero” anjo. 

Os anjos são descritos na Bíblia como tendo um conhecimento sobrenatural, sabem tudo o que se passa na terra, mesmo não sendo oniscientes, são capazes disso pois contemplam o Pai face a face, podendo então escutar nossos pedidos de oração e interceder por nós.

“Foi para dar a esse assunto uma nova feição que Joab fez isso. Porém tu, ó rei, meu senhor, és tão sábio como um anjo de Deus, para saber TUDO o que se passa na terra!” (2 Samuel 14,20)

“Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus.” (São Mateus 18,10) 

“A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.” (São Marcos 13,32)

Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, […] eu apresentava as tuas orações ao Senhor.” (Tobias 12,12) (Excluído do cânon protestante)

O próprio São Paulo quando escreve a Timóteo, invoca o testemunho dos anjos do céu, estaria ele dando atributos divinos ao conhecimento de uma criatura?

“Eu te conjuro, diante de Deus e de Cristo Jesus e dos anjos escolhidos, a que guardes essas regras sem prevenção, nada fazendo por espírito de parcialidade.” (1 Timóteo 5,21)

Como os anjos que estão no céu conhecem o sentimento de um único indivíduo na terra? Estaria a sagrada escritura dando o atributo da onisciência aos anjos?

“Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.” (São Lucas 15,10)

“De Davi. Eu vos louvarei de todo o coração, Senhor, porque ouvistes as minhas palavras. Na presença dos anjos eu vos cantarei.” (Salmo 137,1)

“Porque, ao que parece, Deus nos tem posto a nós, apóstolos, na última classe dos homens, por assim dizer sentenciados à morte, visto que fomos entregues em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens.” (1 Coríntios 4,9)

São Paulo sabia que era observado do céu por uma plateia de espectadores angelicais. Ele amplia isso também aos santos ao falar da nuvem de testemunhas (Hb 12,1), onde todos da Igreja no céu (Hb 12,23) formam uma torcida celestial em nosso favor, mesmo sem terem onisciência per se.

Lembremos que Deus não está contido no universo, o universo está contido em Deus. Estando face a face com Deus, os santos e anjos estão em um grau perfeito de existência, felicidade e conhecimento, os que estão em sua presença, estão fora do tempo e do espaço, e não estão impedidos por nenhum limite físico ou temporal. A isso chamamos de visão beatifica, na qual Deus em sua infinita bondade eleva o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar da sua própria vida divina, por conseguinte: do seu conhecimento divino.

“Pelo contrário, quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito.” (1 Coríntios 6,17)

“Pois o nosso conhecimento é limitado, e limitada é a nossa profecia […] Agora vemos por um espelho, confusamente, mas, depois, veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido.” (1 Coríntios 13,9 e 12)

“O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por esse meio participantes da natureza divina… ” (2 São Pedro 1,3-4)

“Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é.” (1 São João 3,2)

É assim que os “espíritos dos justos perfeitos” podem escutar e atender a todos os que recorrem a sua intercessão, os nossos irmãos no céu só podem nos cercar como “nuvem de testemunhas” por desígnio de Deus, pela participação deles na Sua nuvem de Glória (Ex 16,10; Lc 9,35), da Sua própria presença sobre nós. Na visão beatifica, Deus concede aos anjos e santos no céu, conhecer até mesmo os eventos futuros de seu plano (Lc 9,31), eles estão cientes do que acontece no decorrer da história e até mesmo com os indivíduos em específico:

“Eu vos digo que do mesmo modo haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende…” (São Lucas 15,7)

Vemos que São João foi levado ao céu em espírito diante do trono de Deus (Ap 4,2), e nesse “local” ele consegue escutar o louvor de todas as criaturas da terra ao mesmo tempo, mesmo sem ser onisciente:

E ouvi a toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra,e que estão no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 5,13)

Os santos estando diante do trono de Deus, e participando do corpo de Cristo e da nuvem de testemunhas, estão com Cristo onde quer que Ele também esteja, sem serem onipresentes:

“Estes são aqueles que não se contaminaram com mulheres, porque são virgens. Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá. Estes foram resgatados dentre os homens como primícias para Deus e para o Cordeiro, e na sua boca não se achou mentira, porque estão sem mácula diante do trono de Deus.” (Apocalipse 14,4-5)

  
+ Transfiguração = Necromancia? +

“Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele.” (São Mateus 17,2-3)

“Eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em glória […] viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia.” (São Lucas 9,30-32)

Se Jesus deu pleno cumprimento a Lei (Mt 5,17), cumpriu perfeitamente Lei, para que pudéssemos ser libertados dela (Rm 7,6; Cl 2,14). No Monte Tabor (Lc 9,29; Mc 9,3; Mt 17,2), teria ele quebrado a lei (Lv 19,31; Lv 20,27; Dt 18,11) ao “contatar/evocar santos mortos”?

Se ele quebrou a Lei, ele traiu suas próprias palavras, se ele o fez, ele não pode ser o Messias, nem a Verdade, nem o Verbo. Logo, apesar de Moisés ter morrido na carne (Dt 34,5), não está morto quanto ao espírito que vive na glória de Deus, e a intercessão dos santos* no céu também não é contato com os mortos (além do que, não evocamos a presença de ninguém), dizer o contrário é blasfemar contra o próprio Cristo.

Também sabemos que nada de impuro entrará no céu (Ap 21,27), ou seja, os santos que estão no céu não podem estar mortos, senão, seriam impuros (Lv 19,31; Lv 21,11; Nm 19,11) e não estariam lá para começo de conversa. Por isso: vivem para Deus, pois ele é Deus dos vivos (Lc 20,38; Mt 22,32). Apesar de vulgarmente dizermos que eles morreram, o correto é dizer que: se desprenderam dessa morada para habitar com Cristo (2 Cr 5,8; Fl 1,23; Jo 8,51; Hb 2,14).

*Nota: Mesmo que aleguem que Jesus era Deus e na situação ele estava transfigurado, ele ainda assim não poderia ter colocado um morto (Moisés) na presencia dos Apóstolos, pois estaria fazendo eles pecarem ao terem contato com os mortos, e Deus não faz ninguém pecar. Aos que tentam fazer relações e acusações mal-intencionadas entre catolicismo e espiritismo: A intercessão dos santos se dá num contexto de intercomunhão espiritual entre: Igreja Triunfante (santos e anjos) e Igreja militante (os cristãos nessa terra) que estão unidas sob a mesma cabeça: Jesus Cristo. Em Cristo, a oração dos salvos pode nos beneficiar. Mas essa intercomunhão não permite qualquer curiosidade ou pretensão de dons mediúnicos. Os santos não podem oferecer nada a nós que em Cristo já não se tenha conquistado. Além da óbvia diferença que ambas as religiões possuem sobre a questão da vida após a morte, a Igreja Católica rejeita a reencarnação e outros dogmas do espiritismo (aliás, como uma religião reencarnacionista teria santos no céu orando por nós?).

Por Habitar na Shekinah (Lc 9,34; Hb 12,1), Moisés e Elias sabiam até mesmo de eventos futuros.

“[…] mas por termos visto a sua majestade com nossos próprios olhos. Porque ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando do seio da glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto…” (2 São Pedro 1,16-18)

“[…] Eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém.” (São Lucas 9,31)      

Sabendo agora que os justos vivem na Glória de Deus, podemos ver a seguinte passagem com outros olhos:

“Disse-me, então, o Senhor: Ainda que Moisés e Samuel estivessem diante de mim, não teria piedade desse povo. Expulsai-o para longe de minha presença! Que se afaste de mim!” (Jeremias 15,1)

Mesmo que Moisés e Samuel já estivessem mortos aos olhos dos homens, assim como Abel, eles ainda podiam clamar a Deus* por justiça e interceder pelo povo.

*Nota: Alguns podem argumentar que Deus estaria apenas colocando uma situação hipotética, mas o hipotético implica que a ocorrência real também é possível. Se eu declarasse: “mesmo que minha esposa estivesse diante de mim e implorasse, eu não cederia”, isso implica que é impossível para ela o ato de implorar naquele momento?

Assim como faziam em vida, o povo de Deus sempre recorreu a intercessão dos homens santos, temiam e respeitavam sua autoridade, alguém os acusaria de “não ir direto ao chefe”? Ou de estar colocando um “reles homem” entre eles e Deus, ou até no lugar de Deus?

“(Aarão) disse a Moisés: Rogo-te, meu senhor, que não ponhas sobre nós este pecado, que nesciamente cometemos […] E Moisés clamou ao Senhor, dizendo: Ó Deus, eu te rogo, sarai-a.” (Números 12,11.13)

“O povo veio a Moisés e disse-lhe: “Pecamos, murmurando contra o Senhor e contra ti. Intercede junto ao Senhor, para que afaste de nós essas serpentes”. Moisés intercedeu pelo povo…” (Números 21,7)

“Samuel disse: Reuni todo Israel em Masfa, para que eu interceda por vós junto ao Senhor. […] e pediram a Samuel: Não cesses de clamar por nós ao Senhor, nosso Deus, para que ele nos salve das mãos dos filisteus.” (1 Samuel 7,5.8)

“Pois eu invocarei o Senhor, e ele enviará trovões e chuvas […] Samuel clamou ao Senhor, e o Senhor enviou naquele dia trovões e chuvas. Todo o povo temeu sobremaneira o Senhor e Samuel, e todo o povo disse a Samuel: Roga ao Senhor teu Deus pelos teus servos…” (1 Samuel 12,17-19)

     
+ A Grande Intercessão de Jeremias +

A passagem seguinte infelizmente se encontra apenas nas Bíblias Católicas e Ortodoxas, nela é explícita a intercessão dos santos; O guerreiro Judas Macabeus recebe uma visão por meio de sonho (e nenhum sonho descrito na bíblia é em vão, pelo contrário, são revelações de Deus; cf: Gn 20,3; Gn 28,12-16; Gn 37,6; Gn 41,15; Nm 12,6; 1 Reis 3,5-15; Dn 2,28; Mt 1,20-24). Neste sonho, lhe é revelado que o sacerdote Onias e o profeta Jeremias (que não estavam mais neste mundo) permaneciam intercedendo pelo povo de Israel, glorificados, vivos para Deus.

“Eis o que tinha visto: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu.” (2 Macabeus 15,12)

“Depois disso apareceu também outro homem, admirável pela idade e glória, e cercado de grande beleza e majestade: Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus. E Jeremias, estendendo a mão, entregou a Judas uma espada de ouro, dizendo estas palavras ao entregá-la: Toma esta santa espada que Deus te concede e com a qual esmagarás os inimigos.” (2 Macabeus 15,13-16).

Jeremias era o grande intercessor do povo de Deus, fazia na glória o que fez em vida:

“O rei Sedecias enviou Jucal […] ao profeta Jeremias, a fim de lhe dizer: Rogai por nós junto ao Senhor, nosso Deus.”  (Jeremias 37,3)

“E disseram ao profeta Jeremias: Ouve a nossa súplica, e intercede por nós, junto ao Senhor…” (Jeremias 42,2)

O milagre concedido por Deus, pela intercessão de Jeremias, foi uma vitória grandiosa contra os Selêucidas, que possuíam uma força de combate à moda dos Helênicos, abrangendo desde infantaria pesada (as famosas falanges macedônias), cavalaria e até temíveis elefantes de guerra, um exército muito superior as precárias milícias de Israel. A vitória do povo de Deus foi esmagadora, exatamente como foi predito por Jeremias na visão de Judas Macabeus, tal feito só foi possível pela intervenção do Senhor dos Exércitos, o que confirma a veracidade da visão.

A doutrina católica é exatamente essa mostrada na escritura, os santos não possuem nenhum poder em si mesmos, não fazem milagre nenhum por si só. Quem faz o milagre é Deus, em atenção as orações e méritos de seus servos! O que o Profeta Jeremias fazia em vida, ele e todos os santos continuam a fazer na glória, intercedendo por nós em atenção às súplicas da Igreja.

Estando em comunhão com o corpo de Cristo, nós estamos também em comunhão com a Jerusalém celestial (Hb 12,22), a Igreja Triunfante; E com as testemunhas no céu (Hb 12,1), os anjos e justos que chegaram à perfeição (Hb 12,23), que veem a Deus face a face pela eternidade. Suplicar a intercessão desses vivos que habitam o céu é totalmente distinto de qualquer forma de necromancia. Se contar com a ajuda dos servos de Deus fosse idolatria, a súplica do povo a Jeremias, Moisés e Samuel também seria, pois não foram “direto a Deus” (como alguns costumam objetar).

Mesmo esse livro não sendo canônico para os protestantes, ele é uma prova de que a intercessão dos santos é algo que vem da cultura hebraica e não de um sincretismo pagão greco-romano, pois o livro* foi escrito no século II antes de Cristo.

*Nota: 7 livros e  trechos de outros foram retirados pelos protestantes na “Reforma”, para mais informações: https://accatolica.com/2017/08/17/em-defesa-da-versao-grega-i-e-ii-macabeus/

     
+ Sacerdócio Santo +

Na antiga Israel, havia um único Sumo Sacerdote, era o único que podia entrar no santo dos Santos dos Santos (sem vir a óbito), para fazer a expiação com o sangue do cordeiro.

“Estes realizam um culto que é cópia e sombra das realidades celestes.” (Hebreus 8,5)

Este, prefigurou a Jesus Cristo, perfeitíssimo sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (Hb 6,20), e perfeitíssimo Cordeiro de Deus (Jo 1,29), o único que pôde dar a si mesmo em um sacrifício capaz de redimir todo gênero humano que havia caído pelo pecado de Adão.

O templo de Jerusalém, sendo “cópia” do templo de Deus no céu (Ap 14,17; Hb 9,24), possuía apenas um único Sumo Sacerdote para fazer a expiação por todo o povo, sendo assim, no céu Jesus também é o único Sumo sacerdote (Hb 7,26), o único Mediador da nova aliança (1 Tm 2,5; Hb 9,15; Hb 12,22).

Porém o Sumo Sacerdote de Israel não trabalhava sozinho. Havia muitos sacerdotes sob o seu comando. É claro que esses não podiam fazer a função única do Sumo Sacerdote, mas tinham um importante papel no templo, orando pelo povo, e os abençoando.

Os santos aqui neste mundo já são sacerdotes (1 Pd 1,9), que oram pelos outros, sob comando do Sumo Sacerdote, é o corpo que está sob o comando da cabeça (Cl 1,18; Ef 1,22-23; Ef 5,23).

“vós também vos tornais […] um sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo.” (1 Pedro 2,5)

“Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual.” (Romanos 12,1)

Os antigos cristãos sabiam que esse sacerdócio não cessava, continuava no céu:

“Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus. Eu ainda estou exposto ao perigo, mas o Pai é fiel, em Jesus Cristo, para atender minha oração e a vossa”. (Inácio de Antioquia, Epístola aos Trálios 13,3 – 107 d.C.)  

Exatamente o que vemos no Apocalipse:

“Por isso, estão diante do trono de Deus e o servem, dia e noite, no seu templo. Aquele que está sentado no trono os abrigará em sua tenda.” (Apocalipse 7,15)

“Feliz e santo aquele que participa da primeira ressurreição! Sobre estes a segunda morte* não tem poder, eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e com ele reinarão durante mil anos.” (Apocalipse 20,6)

*Nota: A morte eterna, oposta à morte corporal (Ap 2,10-11). Algumas seitas entendem literalmente que haverá duas ressurreições. Mas a primeira ressurreição é o batismo (Rm 6,3-Cl 2,12-Ef 2,5-Mc 16,16), esses que morreram corporalmente (Ap 20,4 fala de almas!), mas já haviam ressuscitado em Cristo no batismo, não morrem (Jo 5,24-Jo 8,51-Jo 11,25), vivem no céu como sacerdotes, enquanto aguardam a segunda ressurreição (a da carne). O reino de mil anos é o tempo entre a morte de Cristo e a parúsia. Mais informações: https://www.youtube.com/playlist?list=PLDcbjTlzmvB0Z_mx1APprmOhY8xBU_2C0

Muitos parecem ter costurado o véu que foi rasgado (Mt 27,51), quando Cristo reconciliou em si os céus e a terra, e todos os seus seres (Cl 1,20; Ef 1,10) ao vencer o dominador da morte (Hb 2,14), como se ela ainda prevalecesse para os que já ressuscitaram em Cristo (Rm 6,4-11; Ef 2,8; Rm 8,38), o que vai na contramão de todas as Igrejas apostólicas, que já haviam compreendido essa nova realidade do Reino desde o princípio (Jo 11,25; Jo 8,51; Fl 1,23; Lc 23,43; Lc 17,20).

     
+ Levitas Celestiais +

Apocalipse significa literalmente: Tirar o Véu (αποκάλυψις, apokálypsis). Na terminologia do judaísmo e do cristianismo, é a revelação divina de coisas que até então permaneciam ocultas, essa liturgia divina, antes velada, agora se desenvolve explicitamente para a compreendermos.

“[…] temos um Sumo Sacerdote, que está sentado à direita do trono da Majestade divina nos céus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, erigido pelo Senhor, e não por homens.” (Hebreus, 8,1-2)

(E o Cordeiro que é Sumo Sacerdote, não opera sozinho no tabernáculo):

“Veio e recebeu o livro da mão direita do que se assentava no TRONO. E, tendo aberto o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um cítaras e taças de ouro cheias de incenso, que são AS ORAÇÕES DOS SANTOS.” (Apocalipse 5,8) 

“E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és, Senhor, de receber o livro, e de desatar os seus selos; porque foste morto, e nos resgataste para Deus com o teu sangue, de toda a tribo, e língua, e povo, e nação; e nos fizeste para o nosso Deus reis e SACERDOTES; e reinaremos sobre a terra.” (Apocalipse 5,9)

O termo usado para os anciãos no Apocalipse é πρεσβύτεροι (Presbyteroi), de onde vem o termo Presbítero. O termo é usado para designar tanto os sacerdotes judeus (Mt 28,12; Mc 14,53; At 4,23; At 25,15) quanto os sacerdotes cristãos (At 15,23; Tg 5,14; 1 Pd 5,1; 1 Tm 5,17).

“[…] dividiram os filhos de Aarão por classes, segundo o serviço deles. […] para os filhos de Eleazar, dezesseis chefes de família, e, para os filhos de Itamar, oito chefes de família […] assim, foram eles classificados para seus serviços no Templo…” (1 Crônicas 24,1-4.19)

(Total de 24 chefes e 24 classes sacerdotais)

“As doze taças de ouro para o incenso pesavam cada uma dez siclos, segundo o siclo do santuário; o peso total de ouro das taças era de cento e vinte siclos.” (Números 7, 86)

“[…] estavam encarregados do canto no templo. Tinham címbalos, cítaras e harpas para o serviço do templo, sob as ordens de Davi, de Asaf, de Iditun e de Emã.” (1 Crônicas 25,6)

No templo de Jerusalém, os sacerdotes foram divididos em 24 classes, com seus respectivos representantes: 24 chefes; No templo de Deus no céu vemos a figura de: 24 Anciões. É bem evidente a intenção de referenciar o antigo sacerdócio (taças, incenso, cítaras, cantos, classes sacerdotais) para demonstrar a função daqueles que estão no céu. Esses Anciões sacerdotes, chefes das 24 classes (12 Patriarcas e 12 Apóstolosmais sobre isso adiante) cooperam com o Sumo Sacerdote, adorando a Deus e oferecendo as orações dos santos.

Outro paralelo com o sacerdócio é a passagem onde Zacarias oferecia incenso com as orações:

“Ora, aconteceu que, ao desempenhar as funções sacerdotais diante de Deus, no turno de sua classe, coube-lhe por sorte, conforme o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para OFERECER O INCENSO. TODA A ASSEMBLEIA DO POVO ESTAVA FORA, EM ORAÇÃO, na hora do incenso. “Apareceu-lhe então um anjo do Senhor, em pé, à direita do ALTAR DO PERFUME…” (São Lucas 1,8-13)

“Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Deram-lhe grande quantidade de INCENSO PARA QUE O OFERE­CESSE COM AS ORAÇÕES DE TODOS OS SANTOS, SOBRE O ALTAR de ouro, que está adiante do trono.” (Apocalipse 8,3)

A figura do Incenso como uma representação das orações é algo que vem desde o antigo testamento, é inegável que os Anciões estavam mediando as orações da Igreja.

Suba minha oração como incenso em tua presença, minhas mãos erguidas como oferta vespertina!” (Salmos 141,2)

Assim como Zacarias oferecia o incenso junto as orações do povo, também os Anciões e os anjos exercem esse sacerdócio no céu, apresentando as orações (incenso) que “sobem” da assembleia dos santos (a Igreja na terra e no céu), oferecendo-as no altar do Cordeiro, que é ao mesmo tempo, vítima e Sumo Sacerdote. Se Cristo como Sumo Sacerdote intercede por nós (Hb 7,25), os sacerdotes que estão ao seu serviço no Templo Celestial (Ap 5,10; Ap 7,15; Ap 20,6) fariam diferente? Não trabalham os sacerdotes em unidade e conformidade com o Sumo Sacerdote? E o corpo em unidade com a cabeça?

A liturgia que acontecia no Templo de Jerusalém é a prefiguração da que ocorre agora no Templo de Deus, tendo Cristo como Sumo Sacerdote e Sacrifício Perfeito, e os seus santos auxiliando como levitas celestiais. A Igreja sempre está unida a essa liturgia divina, cercada de uma Nuvem de Testemunhas que rezam junto a nós, mediando nossas orações, como bons sacerdotes, em caridade plena, é a totalidade do corpo de Cristo que opera uníssono.

“Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros.” (1 Coríntios 12,26-27).

“Ouvia, entretanto, um coro celeste […] Cantavam um cântico novo diante do trono […] Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens. São eles que acompanham o Cordeiro por onde quer que vá; foram resgatados dentre os homens, como primícias oferecidas a Deus e ao Cordeiro. Em sua boca não se achou mentira, pois são irrepreensíveis.”(Apocalipse 14,2.3.4-5).

Recapitulando: Estando vivos na presença de Deus, os santos alcançaram a plenitude na caridade, os que ainda militam nessa terra não são esquecidos, na Igreja Triunfante eles dedicam sua eternidade para adorar a Deus e interceder pela parte do corpo que ainda sofre nas tribulações, oferecendo “as orações dos santos” em uma liturgia celestial.

“Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo – o que seria imensamente melhor.” (Filipenses 1,20-24)

“É também por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe.” (2 Coríntios 5,9)

“[…] recomendo que se façam preces, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens […] Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador.” (1 Timóteo 2,1-3)

“vós também vos tornais […] um sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo.” (1 Pedro 2,5)

“[…] oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual.” (Romanos 12,1)

“Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência toda família no céu e na terra.” (Efésios 3,14-15)

“[…] ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos…” (Filipenses 2,10)

Paulo nos diz que o culto espiritual (que inclui a intercessão) agrada muito a Deus, e que ele gostaria de se desprender deste corpo para estar logo com Cristo no céu, para que tanto vivo quanto morto, continuasse a agrada-lo. Não podemos concluir outra coisa senão que no céu ele se mantém agradando e adorando a Deus, com seus sacrifícios espirituais, oferecendo preces, orações e intercessões pela Igreja, fazendo parte desse sacerdócio santo, dessa família no céu que dobra os joelhos em oração.


+ Figuras Apocalípticas +

O catecismo ao falar da liturgia da Igreja faz menção justamente à liturgia celeste revelada no Apocalipse e seus respectivos símbolos:

1137. O Apocalipse de São João, lido na liturgia da Igreja, revela-nos, primeiramente, um trono preparado no céu, e Alguém sentado no trono (Ap 4,2), «o Senhor Deus» (Is 6,1; Ez 1,26-28). Depois, o Cordeiro «imolado e de pé» (Ap 5, 6): Cristo crucificado e ressuscitado, o único Sumo Sacerdote do verdadeiro santuário (Hb 4,14), o mesmo «que oferece e é oferecido, que dá e é dado». Enfim, «o rio da Vida […] que corre do trono de Deus e do Cordeiro» (Ap 22,1), um dos mais belos símbolos do Espírito Santo (Jo 4,10-14).

1138. «Recapitulados» em Cristo, tomam parte no serviço do louvor de Deus e na realização do seu desígnio: os Poderes celestes (Ap 4-5; Is 6,2), toda a criação (os quatro viventes), os servidores da Antiga e da Nova Aliança (os vinte e quatro anciãos), o novo povo de Deus (os cento e quarenta e quatro mil) (Ap 7,1-8), em particular os mártires, «degolados por causa da Palavra de Deus» (Ap 6, 9) e a santíssima Mãe de Deus (a Mulher (Ap 12); a Esposa do Cordeiro (Ap 21,9) enfim, «uma numerosa multidão que ninguém podia contar e provinda de todas as nações, tribos, povos e línguas» (Ap 7,9).

Os 24 Anciãos aludem aos 24 chefes das famílias sacerdotais (1 Cr 24,4), mas agora simbolizam o sacerdócio celestial de Cristo (os 12 Patriarcas, chefes das tribos do povo de Deus, e os 12 Apóstolos, chefes da Igreja). Este sacerdócio de Cristo não é mais composto pelos membros de uma genealogia especifica, mas pelos Seus santos, da antiga e da nova aliança, que alcançaram a promessa, como vemos nas palavras ditas por João, e depois repetidas pelos Anciãos no céu:

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus seu Pai; a ele glória, e império pelos séculos dos séculos. Amém.” (Apocalipse 1,6)

“[…] e nos* fizeste para o nosso Deus reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra.” (Apocalipse 5,10)

Ora, o Apóstolo João é um homem santo, e diz que ele e todos os cristãos foram feitos reis e sacerdotes, logo, se conclui também que os Anciãos que são reis e sacerdotes no céu, também são homens santos, membros da Igreja Triunfante. A mesma coisa afirma São Beda em sua obra sobre o Apocalipse:

“E nos resgataste para Deus, com Teu Sangue: Aqui é ainda declarado que os Animais e os Anciãos são a Igreja, que é redimida pelo sangue de Cristo, e reunida dentre todas as nações.” (Venerável Beda, Explicação do Apocalipse 716 d.C.)

*Nota: Há variações em que alguns manuscritos trazem: “resgataste” e “deles fizeste” ao invés de: “nos resgataste” e “nos fizeste”, esses manuscritos começaram a ser mais utilizados nas traduções a partir do século XIX, nas Bíblias modernas que seguem uma crítica textual geralmente cética. Seja qual for a opção, o sentido, na realidade, não muda; Um indivíduo pode entoar o cântico na terceira pessoa, dizendo: “[E] resgataste para Deus, com o Teu sangue, homens de toda tribo […] e deles fizeste reis e sacerdotes”, e ainda assim, se considerar dentre o número desses homens resgatados. Mas por todo o contexto e características que já demonstramos, e iremos continuar a expor e concatenar, veremos que a opção “nos resgataste/ nos fizeste” é a opção mais acertada, opção essa que sempre foi usada nas Bíblias mais tradicionais e renomadas, tanto Católicas, que seguem a Vulgata Latina (Douay Rheims; Figueiredo; Matos Soares), quanto Protestantes, que seguem o Textus Receptus (King James 1611; Genebra, Almeida Corrigida Fiel).

Vemos que Cristo prometeu aos bem-aventurados, que no reino dos céus, eles se assentariam em tronos para reinar ao seu lado, ostentariam a gloriosa coroa da vitória e vestiriam as vestes brancas da pureza.

“[…] quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.” (São Mateus 19,28)

“Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.” (Apocalipse 3,21) (Se ele já se assentou, os que o seguiram também…)

“E com ele nos ressuscitou, e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus.” (Efésios 2,6)

“Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam.” (São Tiago 1,12)

“[…] Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida.” (Apocalipse 2,10)

“[…] algumas pessoas que não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor será assim revestido de vestes brancas…” (Apocalipse 3,4-5)

“Aconselho-te, que me compres ouro provado no fogo, para te fazeres rico, e te vestires de roupas brancas…” (Apocalipse 3,18)

Vemos no céu justamente os Anciãos: coroados (cf: 1 Cor 9,25; 1 Pd 5,4; 2 Tm 4,8; Ap 3,11), com vestes brancas e sentados em tronos ao redor de Deus:

“Imediatamente, fui arrebatado em espírito; no céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser. […] Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça.” (Apocalipse 4,2.4)

Todas as características batem perfeitamente: o número 24 (das classes e chefes sacerdotais), os aparatos litúrgicos (taças e cítaras), a reprodução da mesma frase dita por João, os tronos, as vestes brancas e coroas; Eles são sem sombra de dúvida os homens santos que alcançaram as promessas de Cristo! Sacerdotes que reinam e têm poder sobre as nações (Ap 2,26; Ap 5,10), juntamente com Cristo, Rei do Universo. Esse sacerdócio dos homens (de coras e vestes limpas) operando ao lado dos anjos diante de Deus já havia sido predito pelo profeta Zacarias (Zc 3,4-8) no antigo testamento, e se realiza plenamente no sacerdócio celeste no novo testamento.

Mais adiante no Apocalipse é descrito uma Jerusalém no céu, onde os fundamentos são os Apóstolos do Cordeiro, e as portas são as Doze Tribos de Israel, simbolizando a velha e a nova aliança.

“Levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus” (Apocalipse 21,10)

“Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas por doze anjos. Nas portas estavam gravados os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. […] A muralha da cidade tinha doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.” (Apocalipse 21,12.14)

Uma Jerusalém Celestial, onde habitam os Justos que seguiram os Apóstolos do Cordeiro, e os que foram fiéis na antiga aliança de Deus com as Tribos de Israel, além dos santos Anjos, não é exatamente a descrição da Jerusalém Celestial que vemos em Hebreus 12?

“Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial…”

  • Essa nova Jerusalém irá descer do céu no último dia, mas por enquanto a existência dela é espiritual, junto de Deus.

“[…] das miríades de anjos e da Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus…”

  • Jesus diz que o Pai enviaria do céu, doze legiões de anjos (Mt 26,53) para o salvar.
  • A Igreja dos primogênitos: os salvos do antigo testamento, das doze Tribos de Israel, a porta da qual veio o Messias.

“[…] e de Deus, juiz universal, e dos espíritos dos justos perfeitos, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança

  • Os membros da família de Deus, os salvos do novo testamento, fundamentados nos doze apóstolos.

[…] e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel.” (Hebreus 12,22-24)

A nova Jerusalém que João vê descer do céu, é a mesma Jerusalém já existente no céu, relatada em Hebreus 12 (Conferir também os paralelos entre Hb 12,23 e Ap 14,1; monte Sião, habitantes celestiais, inscritos no céu).

Em Apocalipse 18, após a queda da Grande Cidade*, um homem dirige um apelo a esses que habitam o céu (prova cabal da comunicação entre a terra e o céu):

Exultai sobre ela, Ó CÉU, e VÓS, SANTOS, APÓSTOLOS E PROFETAS; porque Deus, julgando-a, vos fez justiça.” (Apocalipse 18,20)

Referência ao cântico de Moisés, onde a justiça divina recai contra os perseguidores do povo:

Exultai com ele, ó céu, e adorem-no todos os filhos de Deus! Nações, exultai com o seu povo, e afirmem sua força todos os anjos de Deus! Porque ele vinga o sangue dos seus servos…” (Deuteronômio 32,43) 

*Nota: Grande Cidade = Jerusalém (cf: Ap 18,24; Mt 23,31-39; Lc 13,34; 1 Ts 2,15; Ap 11,8).

Vemos que além dos anjos, agora estão no céu junto de Deus os: “santos, apóstolos e profetas, e é bem claro que ele não estava se dirigindo aos que estavam na terra, e sim aos que estavam no céu, pois tiveram as vidas ceifadas pela Babilônia.

“[…], mas eis que sobreveio a tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar a recompensa aos teus servos, aos profetas, aos santos…” (Apocalipse 11,18)

“Por isso, alegrai-vos, Ó CÉU, E VÓS QUE O HABITAIS!” (Apocalipse 12,12)

“Porque eles derramaram o sangue dos santos e dos profetas…” (Apocalipse 16,6)

“Foi em ti que se encontrou o sangue dos profetas e dos santos, como também de todos os que foram imolados na terra.” (Apocalipse 18,24)

Como em uma grande ópera celestial, o céu exulta em resposta e um coro de santos e anjos clamam e adoram a Deus, eles claramente ouviram (e reagiram) quando alguém se dirigiu a eles!

“Depois disso, ouvi como que um forte rumor de numerosa multidão no céu, aclamando: Aleluia! A salvação, a glória e o poder são do nosso Deus, porque seus julgamentos são verdadeiros e justos. Sim! Ele julgou a grande Prostituta que corrompeu a terra com sua prostituição e nela vingou o sangue dos seus servos!” (Apocalipse 19,1)

Os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: Amém! Aleluia! […] ALEGREMO-NOS E EXULTEMOS…” (Apocalipse 19,4.7)

Os mesmos 24 Anciãos que entregam as “taças de ouro cheias de perfume, que são as orações dos santos” são os mesmos que correspondem ao clamor de quem diz: “Exultai…Santos, Apóstolos e Profetas”. Eles são de fato, os santos da velha e da nova aliança que intercedem por nós (Ap 4,4; 2 Mcb 15,12-16), mediando as orações dos santos (Ap 5,8), que sobem como incenso até o céu (Sl 141,2), pois escutam os que se dirigem a eles (Ap 18,20) e não deixariam de socorrer os irmãos que sofrem (Ap 6,11) e que precisam de suas valorosas preces diante de Deus, quanto mais agora que reinam com Cristo e têm poder sobre as nações (Ap 2,26; Ap 5,10).

                                                    
+ O Rico e o Lázaro +

Na passagem do Rico e Lázaro notamos alguns elementos interessantes: A realidade da vida após a morte; O apelo a intercessão de um justo, quando o Rico condenado no fogo do Xeol (Dt 32,22), roga a Abraão para que Lázaro seja mandado dos mortos para salvar seus irmãos do mesmo destino; E o conhecimento sobrenatural das almas bem-aventuradas, pois Abraão mostrava conhecer não somente a vida de Lázaro, mas também do rico.

“Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. E, estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro no seu seio. E, clamando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas. Abraão, porém, replicou: Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso, ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento. Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não o podem, nem os de lá passar para cá. O rico disse: Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos. Abraão respondeu: Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos! O rico replicou: Não, Pai Abraão; mas, se for a eles algum dos mortos, se arrependerão. Abraão respondeu-lhe: Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos.” (São Lucas 16,19-31)

Vemos que há um abismo de distância entre o Rico e Abraão: “há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não o podem”. Estão em duas realidades distintas, pois o rico até mesmo “levantou os olhos e viu, ao longe” o local onde Lázaro foi levado pelos anjos, assim como nós aqui em vida olhamos aos céus para contemplar a morada de Deus e dos anjos. O Rico então clama e roga ao santo patriarca Abraão por ajuda, vemos que a amizade com os servos de Deus é algo ensinado pelo próprio Cristo.

As palavras: “Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos!”, indicam claramente que Abraão conhecia o que se passava com o povo hebreu mesmo depois da sua morte; ele sabe de Moisés e da Lei, dos profetas e dos seus escritos. A visão espiritual das almas dos justos, sem nenhuma dúvida, é maior do que era na terra. Apesar de muitos se referirem a essa passagem como uma parábola, existe uma boa possibilidade dessa passagem ser um relato, pois Jesus nunca dá nome aos personagens das suas parábolas, e mais tarde Jesus ressuscita exatamente um homem chamado Lázaro, mas sobre isso nós só podemos conjecturar.

E mesmo que seja uma parábola, o que Jesus está ensinando a seus ouvintes não pode conter erros teológicos. As parábolas expressam um argumento por meio de analogias, usando de narrativas facilmente entendidas, por definição elas não podem conter princípios falsos. Jesus jamais ensinaria uma parábola com conteúdo falso, herético, e que não remetesse a crença popular dos judeus daquele período, para eles os patriarcas realmente viviam separado dos ímpios, conscientes e até intercediam por eles! A fé dos judeus nesse modelo escatológico “proto-cristão” é histórica e comprovada pela literatura judaica da época. (cf: 2 Esdras 7,36; Apocalipse de Sofonias 9,2; 11,1-2; 1 Enoque 22,1-22; 1 Enoque 38,5-11; 4 Macabeus 13,17).


+ Este chama por Elias +

Os “espectadores” durante a crucificação de Jesus pensaram que Jesus estava chamando Elias para ajudá-lo.  Isso mostra que eles acreditavam que a oração a um santo poderia ser ouvida.

“E, perto da hora nona, exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamma sabacthani? isto é: Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste? Alguns, porém, dos que ali estavam, e que ouviram isto, diziam: Este chama por Elias. E logo, correndo um deles, tendo tomado uma esponja, ensopou-a em vinagre, e pôs sobre uma cana, e lhe dava de beber. Porém os outros diziam: Deixa; vejamos se Elias vem salvá-lo… ” (São Mateus 27,46-50).

Os “espectadores” não são apresentados como escarnecedores de Jesus, uma vez que um deles deu-lhe de beber (Jo 19,28). A reação deles é curiosa: “vejamos se Elias vem salvá-lo”. Esse verso demonstra uma crença comum na época, de que Elias viria em socorro dos justos em apuros.

Ainda hoje, em todo jantar de páscoa, os judeus servem um dos cálices para Elias, também é comum nas sinagogas haver uma cadeira desocupada reservada para o profeta Elias, o qual, segundo a tradição, está presente em todas as circuncisões e protege todas as crianças de algum mal ou perigo físico decorrente da cirurgia. A seguinte oração é feita:

“Este é o Assento de Elias, o Profeta, que ele seja lembrado para sempre. Pela sua libertação, espero, Ó senhor. Eu esperei Sua libertação, Senhor, e realizei Seus mandamentos. Elias, anjo da Aliança, aqui está o seu diante de você; Fique à minha direita e me apoie…”

Essa passagem, assim como o rogo do homem rico a Abraão, nos mostra que os judeus aceitavam tais petições como apropriadas e permissíveis e não as via como motivo de escândalo. É um argumento especulativo, mas nos mostra que a Bíblia não condena tal pensamento como uma possibilidade teórica.

          
 + 1 Timóteo 2,5 – O Único Mediador +

Uma das objeções mais comuns dos protestantes à intercessão dos santos está na má interpretação do seguinte versículo:

“Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem.” (1 Timóteo 2,5)

O contexto todo dessa passagem (1 Tm 2,1-15) é: As Orações devem ser oferecidas em favor dos reis e autoridades pagãs? Resposta de Paulo: Sim! Deus quer que todos eles se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, pelo único meio de salvação, Jesus Cristo, que era desconhecido para esses pagãos que criam em muitos deuses (e nem sabiam que precisavam de salvação), por isso Paulo diz: “Que os homens orem sem ira…”, toda essa passagem trata de cristãos que estavam desconfortáveis em orar pelo bem dos seus algozes, o texto não trata em nenhum momento sobre quem podia mediar a oração dos cristãos a Deus, ao contrário, o texto mesmo diz que os santos devem mediar orações uns pelos outros, incluindo seus inimigos. Alguns criaram um contexto totalmente desconexo, de que os cristãos estariam aí “rezando para outra coisa” e Paulo estaria corrigindo-os, o que é uma verdadeira fantasia.

Em momento nenhum a intercessão dos santos vai entrar em conflito com 1 Timóteo 2,5; basta nós lermos o versículo seguinte, dentro do contexto e compararmos com outras passagens que tratam do mesmo assunto:  

“Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem. O qual se deu a si mesmo em preço de REDENÇÃO por todos, para servir de testemunho a seu tempo.” (1 Timóteo 2,5-6)

“Ao nosso Sumo Sacerdote […] mediador de uma aliança mais perfeita…” (Hebreus 8,6)

“Por isso, ele é mediador do novo testamento. Pela sua morte expiou os pecados cometidos no decorrer do primeiro testamento […] porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador.” (Hebreus 9,15-16)

“[…] Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel.” (Hebreus 12,22-24)

Fica claro que essa mediação única é a da salvação/redenção, por isso o foco no “Jesus Cristo, HOMEM“, pois ele fala do sacrifício (“O qual se deu a si mesmo…“) que Jesus realizou na carne para ser nosso Salvador. Ele é o único mediador, no sentido de ser mediador do Novo Testamento entre Deus e os homens, através de sua humanidade!

Sendo Jesus, perfeitamente Deus e perfeitamente Homem, Ele está em Deus e Deus está n’Ele (Jo 17,22-23), para que Ele esteja em nós (Gl 2,20), e nós n’Ele por meio do seu Corpo, a Igreja (Cl 1,24). Estando assim o homem e Deus reconciliados por Cristo Jesus! Ou seja, não temos outra salvação senão pelo sacrifício de Cristo, participando do seu Corpo. Não há outro caminho, senão esse, para chegarmos ao céu (At 4,12), nem mesmo pela Lei de Moisés. Apenas pelo sacrifício de Cristo que redimiu o pecado do homem. Perceba que em momento nenhum ele está falando de mediar orações, ele estaria se contradizendo com o que escreveu alguns versículos antes:

 “Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens […] Porque isto é bom e agradável diante de Deus…” (1 Timóteo 2,1.3)

Assim como os santos no céu, somos mediadores de orações uns pelos outros, e não mediadores da salvação, vemos claramente que Deus se agrada (e deseja) que oremos uns pelos outros, a interpretação que os protestantes criaram de “único mediador” está tão distorcida e longe do que São Paulo estava tratando em sua carta, que para serem coerentes com a própria interpretação, eles não poderiam orar por ninguém e vice-versa.

No entanto, vemos que São Paulo pede para que os cristãos orem uns pelos outros! Mas por que pedir para terceiros orarem por nós se há um único Mediador? Basta que cada um ore por si, uma só vez, “indo direto ao chefe”, não é mesmo? Está claro que a mediação de Cristo não é sobre uma função exclusiva de rogar ao Pai por nós. Entendendo dessa forma, São Paulo estaria entrando em uma outra grande contradição (e nos deixado sem mediador):

“Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis.” (Romanos 8,26)

Jesus Homem, como está no versículo, é especificamente a segunda pessoa da Trindade, segundo a lógica de alguns, só ele poderia interceder, pois Ele é o ÚNICO mediador, mas vejam só, a terceira pessoa da Trindade também intercede, logo não há um único intercessor, pois Jesus é Deus e o Espírito é Deus, mas Jesus não é o Espírito e vice-versa, vemos que “único mediador” não significa “único intercessor”, como alguns alegam. Não fomos reconciliados a Deus pelo Espírito, mas única e exclusivamente pela mediação de Jesus Homem se entregando e criando a ponte entre Deus e os homens no seu próprio corpo sacrificado na Cruz.

“Naquele dia pedireis em meu nome, e eu não rogarei ao Pai por vós…” (São João 16,26)

Estaríamos então sem mediador? Não! Jesus permanece o único mediador da nossa salvação, nós, sendo um com ele, somos amados pelo Pai e o verdadeiro sentido da mediação de Jesus atinge o seu efeito em plenitude. Infelizmente, muitos tratam Jesus como um mero “office boy” diante do Pai. Isso é um erro, a nossa relação não deve ser: [Indivíduo>JESUS>PAI]. Ela deve ser: [Igreja>Santíssima Trindade]. Sendo a Igreja, o Corpo de Cristo, onde o indivíduo está incluso entre muitos santos (do céu e da terra) em um só espírito. A relação é de uma família (Ef 3,15; no céu e na terra).

“Pelo contrário, quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito.” (1 Coríntios 6,17)

“…Reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade. […] é por ele que ambos temos acesso junto ao Pai num mesmo espírito. Consequentemente […] sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” (Efésios 2,16-19) 

Podemos ainda argumentar da seguinte forma: Jesus é o único mediador, mas isto não significa que outros não sejam mediadores como partes da única mediação de Cristo. Por exemplo, Jesus diz que Ele é a luz do mundo (Jo 8,12), mas também diz aos apóstolos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,11), e não há contradição nisso, pois eles são a luz enquanto estão em Cristo refletindo a Sua luz divina. Jesus também diz que Ele é o único pastor (Jo 10,16), mas confia a Pedro a tarefa de apascentar as suas ovelhas (Jo 21,15). A Bíblia nos ensina que há muitos pastores (Ef 4,11; At 20,28), mas também diz que Cristo é o único e grande pastor (Hb 13,20). Em um lugar ela ensina que há apenas um único Juiz (Tg 4,12), noutro, porém, declara que os santos também serão juízes (1 Cor 6,2). O ponto aqui é que todos estes outros pastores e juízes trabalham através da instituição do único Pastor e Juiz: Jesus Cristo Nosso Senhor, e não em oposição, ou no lugar dele.

Assim como Ele, sendo eternamente Sumo Sacerdote (Hb 6,20), não elimina os sacerdotes que trabalham sob seu ministério (Ap 7,15; Ap 20,6), como na antiga aliança, a diferença é que agora o tabernáculo se encontra no céu. Tudo se dá pela participação dos santos no corpo de Cristo.

  
+ Mediações Diferentes, Intercessão +

“Se perto dele se encontrar UM ANJO, UM MEDIADOR ENTRE MIL, para ensinar-lhe o que deve fazer, ter piedade dele e dizer: Poupai-o de descer à cova, pois recebi o resgate de sua vida.” (Jó 33,23)

No livro de Jó, vemos que os anjos são mediadores junto a Deus (ou intercessores em algumas traduções), e que há milhares deles no céu, que executam uma mediação que nada tem a ver com a salvação eterna, da qual Cristo é verdadeiramente o único mediador. Vemos o mesmo no novo testamento quando Jesus diz:

“Vede, não desprezeis um só destes pequeninos, pois vos declaro que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai, que está nos céus.” (São Mateus 18,10) 

Não há outra interpretação possível dessa passagem, senão a de que os anjos fazem uma mediação diante de Deus pelos pequeninos, pois Jesus alerta não para temermos a represália dos anjos em si, ou a presença deles perto dos seus protegidos, mas sim para temermos o fato de que eles contemplam o Pai no céu, ou seja, os anjos intercedem por eles! E isso não se limita apenas aos pequeninos, pois assim como eles tem os “seus anjos”, o homem adulto continua a ter o “seu anjo” (At 12,15). A função mediadora dos anjos é de interagir, auxiliar, interceder e proteger os homens:

“E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está.” (Gênesis 21,17)

“Porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos.” (Salmos 90,11)

“O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem e os salva.” (Salmos 33,8)

“Então falou o anjo do Senhor: Ó Senhor dos Exércitos, até quando não terás compaixão de Jerusalém, e das cidades de Judá, contra as quais estiveste irado estes setenta anos? E respondeu o Senhor ao anjo, que falava comigo, com palavras boas, palavras consoladoras.” (Zacarias 1,12-13)

O Anjo está claramente intercedendo a Deus pelo povo Hebreu, e a intercessão tem sucesso.

Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Apocalipse 6,10)

Vemos que os santos mártires fazem a mesma coisa que o Anjo, mas ao invés de pedirem compaixão, eles pedem que Deus intervenha na terra com justiça. O próprio Cristo nos contou sobre o homem condenado no Xeol que pede a intercessão do Patriarca Abraão.

“O rico disse: Rogo-te então, pai (Abraão), que mandes Lázaro…” (São Lucas, 16,27)

Nos Salmos, vemos o Rei David invocar os anjos para que louvassem o Senhor junto com ele (e o uso dos salmos é recomendado e incentivado: Ef 5,19; Cl 3,16; Tg 5,13), vemos que se dirigir aos habitantes do céu não é algo inédito ou proibido:

Rendei ao Senhor, ó filhos de Deus*, rendei ao Senhor glória e poder.” (Salmo 28,1-2)

Bendizei o Senhor, vós todos os seus anjos, que sois poderosos em força, que executais as suas ordens, prontos para obedecer à sua palavra.” (Salmos 102,20)

Louvai-o, vós todos os seus anjos. Louvai-o, vós todos os seus exércitos.” (Salmos 148,2)

“Chama para ver se te respondem! A qual dos santos te dirigirás?” (Jó 5,1)

Anjos do Senhor, bendizei o Senhor, louvai-o e exaltai-o eternamente!” (Daniel 3,58) (Excluído do cânon protestante) 

Espíritos e almas dos justos, bendizei o Senhor, louvai-o e exaltai-o eternamente!” (Daniel 3,86) (Excluído do cânon protestante)

*Notas: Filhos de Deus: os Anjos (cf: Sl 81,1; Sl 88,7; Jó 1,6; Jó 2,1). Santos: os Anjos (cf: Dt 33,2; Zc 14,5; Jó 15,15; Sl 88,6.8)

Exultai sobre ela, ó céu; e vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa.” (Apocalipse 18,20)  

Bendizei, Louvai e Exultai, são todas palavras no modo imperativo, ou seja, o texto demonstra claramente o homem falando aos habitantes do céu com naturalidade, sem isso denotar nenhum tipo de idolatria. Assim como fez o Patriarca Jacó:

Que o anjo (הַמַּלְאָךְ֩) que me guardou de todo o mal, abençoe estes meninos!” (Gênesis 48,16) (O termo hebraico usado é o mesmo que se usa para o anjo intercessor em Zacarias 1,12.)

Esse anjo que o guardou de todo o mal é muito provavelmente o mesmo que ele anteriormente combateu e suplicou a bênção em Gênesis 32,25 (talvez o seu próprio anjo da guarda). Ao contrário do que alguns alegam, esse anjo não pode ser o próprio Deus. Os que o viam, diziam ter visto a Deus (Gn 32,31; Jz 13,22), mas é claro que ninguém nunca viu a face de Deus (Ex 33,20; Jo 1,18).

“[Jacó] lutou com Deus. Ele lutou com um anjo e prevaleceu, chorou e lhe suplicou.” (Oséias 12,4-5)

Essa passagem deixa claro que Jacó lutou com Deus, pois lutou contra o anjo, emissário de Deus! E não contra Deus diretamente! Assim como Jacó “lutou com Deus” através do seu anjo, Jacó ora pedindo a bênção de Deus através do seu anjo no céu.

No mundo antigo, um emissário representava a autoridade do seu superior como se fosse o representado em pessoa. O próprio Jesus demonstra isso quando envia seus discípulos: “Quem vos ouve a mim ouve; e quem vos rejeita a mim rejeita” (Lc 10,16), por isso é dito que Jacó: lutou com Deus e prevaleceu, ou que ele: viu Deus face a face, mesmo que ele não tenha visto, ou lutado com Deus em pessoa.

“Deus enviou [Moisés] como chefe e redentor, com a assistência do anjo que lhe apareceu na sarça. Foi ele quem os fez sair, operando prodígios e sinais na terra do Egito, no mar Vermelho e no deserto, durante quarenta anos. Foi ele, Moisés, quem disse aos filhos de Israel: ‘Deus vos suscitará, dentre vossos irmãos, um profeta como eu’. Foi ele quem, na assembleia do deserto, esteve com o anjo que lhe falava no monte Sinai e também com nossos pais; foi ele quem recebeu palavras de vida para nos transmitir.” (Atos 7,35-38)

Em nenhum momento Estevão diz que o anjo era Jesus, pelo contrário, Estevão parece reforçar que era um “mero” anjo, e faz forte distinção entre o passado quando Deus usou os seus anjos para dar a Lei (At 7,51), e agora que Deus mandou o próprio Filho. Ele ainda diz que o anjo que ia adiante do povo (Ex 23,20) era o mesmo que Deus usou para falar na Sarça (segundo a Septuaginta e a citação no Novo Testamento). São Paulo faz o mesmo:

“Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, […] tão superior aos anjos quanto excede o deles o nome que herdou.” (Hebreus 1,1-4)

No passado, Deus falou de diversos modos, mas só agora Deus falou por meio do Filho, ou seja, ele não falou por meio do Filho no passado. Toda essa passagem mostra a superioridade do Filho e da nova aliança, sobre a velha aliança e os anjos que apareceram no passado (At 7,53; Hb 2,2), tudo demonstra que no passado o Filho (e o mistério da Trindade) ainda estava oculto, o Anjo do Senhor era de fato o que o nome diz: um anjo.

“Em outros lugares da Bíblia, quando um profeta fala, é dito que é o próprio Senhor que fala, não porque o profeta seja o Senhor, mas porque o Senhor está no profeta; e assim, da mesma maneira quando o Senhor condescende em falar através da boca de um profeta ou anjo, é o mesmo que quando ele fala por um profeta ou apóstolo, o anjo é corretamente denominado “anjo” se o considerarmos por si mesmo, mas de maneira igualmente correta ele é chamado de “O Senhor”, porque Deus habita nele […] O nome é de quem habita o templo, e não do templo em si.” (Santo Agostinho, Sermones Ad Populum, Classis I, De Scripturis, Sermo VII, § 5)

O Anjo do Senhor não era uma Teofania ou Cristofania da maneira que muitos pensam, e sim um dos Anjos, espíritos criados, que serviam como mensageiros, e até de receptáculos (um tipo de “avatar”) para Deus falar quando necessário (como no caso da Sarça), porém vemos que são criaturas distintas de Deus (Gn 24,7; Nm 20,16; 2 Sm 24,16; 1 Cr 21,15.27; Zc 1,12; Zc 3,1). No novo testamento isso fica ainda mais claro (Jo 5,4; Mt 1,20; Mt 28,2; Lc 1,11.19; At 10,3.22; At 12,7.11).

Apesar do Anjo do Senhor não ser Jesus Cristo, ele estava ali no velho testamento como uma representação do Filho que um dia viria, uma prefiguração de Deus que se daria a conhecer. Mesmo sendo criaturas, os anjos resplandecem a glória (Jz 6,22; Tb 12,15) e exercem a autoridade de Deus, tendo o temor e a veneração dos homens (Gn 19,1; Nm 22,31; Js 5,15; 1 Cr 21,16).

“Eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, te guarde pelo caminho e te introduza no lugar que preparei. Respeita-o, ouve a sua voz e vê que não o desprezes, porque ele não te perdoará se pecares, pois o meu nome está nele.” (Êxodo 23,20-21)

São protetores (Sl 33,8; Sl 90,11; Dn 3,49; Dn 6,22) e intercessores (Zc 1,12; Jó 33,23; [Tb 3,24; Tb 12,12]; Mt 18,10; Ap 8,3) criados para auxiliar o homem (Hb 1,14), podendo ser chamados desde os céus (Gn 48,16; Dn 3,58; Jó 5,1; Sl 28,1; Sl 102,20; Sl 148,2).

Apesar do anjo não estar diante de Jacó, ele pede a bênção, pois sabia que seria ouvido desde os céus (e mesmo que alguém insista que era o próprio Jesus pré-encarnado, Jacó não sabia, e não teria como saber disso). As palavras de Genesis 48,16 são usadas até hoje pelos judeus como uma oração/bênção angélica (Hamalach Hagoel- המַּלאַך הַגֹּאֵל). E essa não é a única oração angelical, há uma oração pela bênção dos anjos ministradores (Shalom Aleikhem- שָּלֹום עליכם) no início da liturgia judaica, uma outra oração para que os anjos da misericórdia levem nossas súplicas a Deus (Machnisei Rachamimמכניסי רחמים), e até mesmo uma oração pela proteção dos Arcanjos (B’sheim Hashem- בְּשֵׁם הַשֵּׁם), especificamente: Miguel (מיכאל), Rafael (רפאל), Gabriel (גבריאל) e Uriel (אוריאל). Alguém acha mesmo que os judeus desconhecem as escrituras e os idolatram?

Sabendo que os anjos claramente intercedem em nosso favor, e que a palavra é dirigida aos habitantes do céu até mesmo de forma imperativa (“Bendizei, Louvai e Exultai”), em que se baseiam os que acusam que a intercessão (“Rogai”) seja idolatria? Nossos anjos no céu não contemplam a face de Deus (Mt 18,10)? Não são eles criados para servir em nosso benefício?

“Porventura, não são todos eles espíritos servidores, enviados para servir em benefício dos que devem herdar a salvação?” (Hebreus 1,14)

Por que os “justos perfeitos” (Hb 12,23), que nos testemunham do céu (Hb 12,1) e contemplam a face de Deus, estariam impedidos de interceder por nós em suas orações a Deus? 

  
+ Por que não pedir “direto” a Deus? +

Nós devemos sempre orar a Deus diretamente, foi por isso que Jesus nos ensinou a Oração Dominical, o Pai Nosso. Pedir a intercessão dos santos não significa que deixemos de pedir a Deus diretamente, e sim que além de nossas preces ao Pai, pedimos que os justos no céu orem por nós, assim como pediríamos a qualquer membro da Igreja, como disse Santo Tomás: “oramos aos santos, […] não para que Deus possa por meio deles conhecer nossas petições, mas que nossas orações possam ser eficazes por meio de suas orações e méritos.”

“O Senhor está longe dos maus, mas atende à oração dos justos.” (Provérbios 15,29)

“Ora nós sabemos que Deus não ouve os pecadores; mas quem honra a Deus e faz a sua vontade, esse é ouvido por Deus.” (São João 8,31)

“Confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração do justo tem grande eficácia.” (São Tiago 5,16)

Deus demonstra desejar a intercessão, e por vezes, age somente pela intercessão dos seus santos, quando poderia muito bem agir diretamente:

“Agora pois [Abimelec], entrega a mulher a seu marido, porque ele é profeta; e rogará por ti, e tu viverás; se, porém, não quiseres restituí-la, sabe que morrerás indubitavelmente, tu e tudo o que é teu. […] E, orando Abraão, Deus sarou Abimelec e sua mulher…” (Gênesis 20,7.17)

“Tomai, pois, sete touros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei um Holocausto por vós, e o meu servo Jó orará por vós; admitirei propicio a sua intercessão para que se vos não impute esta estultícia, porque vós não falaste  de mim o que era reto como o meu servo Jó.” (Jó 42,8)

Essa relação de caridade, principalmente entre os membros da Igreja, é amplamente incentivada na escritura:

“E, respondendo Simão, disse: Rogai por mim ao Senhor…” (Atos 7,24)

Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da caridade que é dada pelo Espírito, combatei comigo, dirigindo vossas orações a Deus por mim,” (Romanos 15,30)

Orai por nós. Estamos persuadidos de ter a consciência em paz…” (Hebreus 13,18)

“Irmãos, orai por nós.” (1 Tessalonicenses 5,25)

“Por fim, irmãos, orai por nós…” (2 Tessalonicenses 3,1)

“Com orações e súplicas de toda a sorte, orai em todo o tempo, no Espírito e para isso vigiai com toda perseverança e súplica por todos os santos. Orai também por mim.” (Efésios 6,18-19)

“Pois sei que isto me resultará em salvação, graças às vossas orações e ao socorro do Espírito de Jesus Cristo.” (Filipenses 1,19)

“[…] Sim, esperamos que ainda nos livrará se nos ajudardes também vós com orações em nossa intenção. Assim essa graça, obtida pela intercessão de muitas pessoas, lhes será ocasião de agradecer a Deus a nosso respeito.” (2 Coríntios 1,10-11)

Se a oração dos nossos irmãos que ainda caminham pela fé tem tanto valor, imagine então o que pode ser obtido pela nossa oração unida à de um justo no céu, ou de uma multidão deles, pela intervenção de muitas pessoas que chegaram à perfeição e estão eternamente na presença de Deus, em pleno conhecimento e caridade. Isso é algo lógico que não fere em nada a escritura:

“Porque, como o corpo é um todo com muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo […] Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele.” (1 Coríntios 12,12.26)

“Assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro.” (Romanos 12,4-5)

“[…] vós também tenhais comunhão conosco, e para que a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.” (1 João 1,3)

“Pelo contrário, quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito.” (1 Coríntios 6,17)

“Pois estou persuadido de que nem a morte […] nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8,38.39)

  • Somos um só corpo, uma comunhão de santos que nem a morte separa, unidos em um só espírito no Senhor.

“[…] Os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8,29)

“Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” (Efésios 2,19)

“Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência toda família no céu e na terra.” (Efésios 3,14-15)

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e no inferno.” (Filipenses 2,10)

  • Somos membros de uma só família que abrange o céu e a terra, estamos desde já no Corpo de Cristo entre muitos irmãos no céu que se conformaram perfeitamente a Cristo.

“Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: “O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós”.” (São Lucas 17,20)

“E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso”.” (São Lucas 23,43)

  • O Bom Ladrão já está no Reino, o Reino já está no meio de nós, logo, ele está “entre” nós.

“Eu vos digo que do mesmo modo haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende…” (São Lucas 15,7)

Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele.” (1 Coríntios 12,26)

  • No Reino dos céus eles não são alheios a nossa tribulação, torcem para nosso sucesso.

“Desse modo, cercados co­mo estamos de uma tal nuvem de testemunhas…” (Hebreus 12,1)

“Vós, ao contrário, vos aproximastes […] dos espíritos dos justos perfeitos… (Hebreus 12,24)

  • Os justos que estão perfeitos no Reino dos céus nos cercam e nos testemunham.
  • Um objetivo é mais facilmente alcançado “pela intercessão de muitas pessoas” e “a oração do justo tem grande eficácia”, logo, a oração deles é de grande auxílio aos cristãos.

Recapitulando: A escritura diz que somos membros de um só corpo, uma só família, no céu e na terra, vivendo em comunhão, nem a morte separa esse vínculo de caridade, o céu está atento a cada um de nós, como se estivessem entre nós. A escritura também diz para as comunidades da Igreja orarem umas pelas outras. Logo, pedimos que ore por nós não só os santos da Igreja militante (a família na terra), mas também os que já estão perfeitos, os santos da Igreja triunfante (a família no céu). Porque somos todos um só corpo, um só espírito em Cristo Jesus!

“Ele nos manifestou o misterioso desígnio de sua vontade, […] desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra.” (Efésios 1,9-10)

Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas. Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus.” (Colossenses 1,18-20)

Se na escritura vemos: “Exultai sobre ela, ó céu, e vós, santos, apóstolos e profetas”.

Nós, tranquilamente dizemos: “Rogai por nós, ó céu, e vós, santos, apóstolos e profetas”.


+ Culto devido aos Santos, Louvor e Imitação +

“A Cristo, nós O adoramos, porque Ele é o Filho de Deus; quanto aos mártires, nós os amamos como a discípulos e imitadores do Senhor: e isso é justo, por causa da sua devoção incomparável para com o seu Rei e Mestre. Assim nós possamos também ser seus companheiros e condiscípulos!” (Martírio de Policarpo 17,3 – 155 d.C.)

Os cristãos sempre souberam dar valor aos seus heróis, sem que isso tirasse qualquer coisa da Glória de Cristo, pelo contrário, essa pratica engrandece ao Senhor. Mesmo assim, muitos usam versículos como o seguinte para acusar a Igreja de Idolatria, ou de tirar o “foco” de Cristo:

“Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra.” (Isaías 42,8)

Porém esquecem de que o texto fala de falsos deuses, demônios que queriam roubar a glória do nosso Deus. Vemos em outras situações que o Senhor deu sim a sua glória a outros.

“Porque o Senhor Deus é nosso sol e nosso escudo, o Senhor dá a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência.” (Salmo 83,12)

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou.” (Hebreus 3,3)

Jesus é digno de MAIOR GLÓRIA que Moisés (um santo profeta), ou seja, os santos também são dignos de Glória!

“Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu. Neles sou glorificado.” (São João 17,10)

Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um.” (São João 17,22)

“Para que seja glorificado o nome de nosso Senhor Jesus em vós, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.” (2 Tessalonicenses 1,12)

Vemos que é justamente o contrário do que muitos pensam, quando damos glória aos seus santos, o Senhor não é prejudicado, Ele é glorificado! Pois estes homens conseguiram ser santos (perseverando na santidade até o fim) unicamente pela graça concedida por Deus. Apenas os méritos infinitos conquistados por Cristo na cruz puderam fazer dessas pessoas novas criaturas, configuradas completamente a Ele, louva-las é reconhecer essa graça, é glorificar o Deus vivo!

“Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (2 Coríntios 3,18)

Na glória dos seus servos Ele é glorificado, pois tudo vem d’Ele: “Porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Ele mesmo “realiza em nós o querer e o executar” (Fl 2,13).

“[…] Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim…” (Gálatas, 2,19-20)

Louvamos os santos porque Cristo viveu (e vive) neles, veneramos Cristo em seus membros, eles são exemplos de conduta cristã, heróis da fé, que deram a vida por Deus. Quando alguém elogia a obra, está elogiando também o autor dela, os santos são obras de Deus, e toda obra dos santos vem de Deus (Jo 15,5). Não existe concorrência entre um e outro.

Para alguns irmãos separados isso é abominável, é “colocar o homem no centro”, e até idolatria. Mas vemos que esse conceito é sim bíblico, as criaturas de Deus podem e devem ser louvadas.

“Judá, teus irmãos te louvarão. Pegarás pela nuca os inimigos; os filhos de teu pai se prostrarão em tua presença.” (Gênesis 49,8)

Façamos elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem. O Senhor deu-lhes uma GLÓRIA abundante, desde o princípio do mundo, por um efeito de sua magnificência.” (Eclesiástico 44,1-2) (Excluído do cânon protestante)

Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (São Mateus 5,14-15)

Os santos são verdadeiros faróis para um mundo que jaz no maligno, eles são a luz do mundo pois essa luz lhes foi dada por aquele que é a própria luz (Jo 8,12). Nós reconhecemos nos santos a glória de Deus, isso não ofusca a sua glória, isso à engrandece, a razão de ser dos santos é o próprio Senhor.

“E Maria disse: “Minha alma glorifica o Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isso, desde agora, todas as gerações me proclamarão bem-aventurada. porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.” (Lucas 1,46-48)

Todas as gerações (de verdadeiros cristãos) proclamarão as glórias de Maria (que foram todas dadas por Deus). Ao louvarmos Maria, sua bem-aventurança e as maravilhas nela realizadas, nós louvamos e glorificamos o próprio Deus que as fez.

A catequese Paulina é explicita nesse quesito, imitar aos que imitam/imitaram o Senhor, ter eles como exemplo de vida e conduta.

“E vós vos fizestes imitadores nossos e do Senhor, ao receberdes a palavra, apesar das muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo.” (1 Tessalonicenses 1,6)

“Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos.” (Filipenses 3,17)

“Por isso, vos conjuro a que sejais meus imitadores.” (1 Coríntios 4,16)

“Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo.” (1 Coríntios 11,1)

“e que, longe de vos tornardes negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas.” (Hebreus 6,12)

“Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a Palavra de Deus. Considerai como souberam encerrar a carreira. E imitai-lhes a fé.”  (Hebreus 13,7)

Imitai a fé dos que “encerraram a carreira”, ou seja: se lembrem e imitem o exemplo dos santos que já se foram, e que pela fé alcançaram a promessa do céu , assim como foi (e ainda é)  louvado a memória dos falecidos heróis do velho testamento (Eclo 44,1; 2 Sm 1,17; 2 Cr 35,25; 2 Cr 16,14; 2 Cr 32,33; Jr 34,5; 2 Reis 23,17; Mt 23,29; Lc 11,47; Hb 11,1-40).

O autor de Hebreus passa todo um capítulo louvando os santos que: “pela fé alcançaram a promessa”, e mais de uma vez na epistola nós somos chamados a imita-los, e para imita-los, precisamos conhecê-los, falar deles não é “tirar o foco” de Deus, é cumprir sua palavra.

 
+ Conclusão +

Vemos que os que se foram estão na presença de Deus, não estão mortos como na crença veterotestamentária, eles estão mais vivos do que nós, na presença de Deus, em eterna adoração e louvor. Ele é o “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque para ele, todos vivem”. E se eles estão vivos para Deus, estão vivos para nós através d’Ele como membros de Seu único corpo. Eles podem e devem ser lembrados e louvados como grandes exemplos de Fé, Esperança e Caridade; Homens e mulheres que seguiram a Cristo mesmo que isso custasse a própria vida, Nosso Senhor vive neles, e eles vivem eternamente em Cristo.

A intercessão dos santos não coloca ninguém entre nós e Deus, certamente não rezamos aos santos em vez de rezar a Deus. Rezamos por meio dos santos a Deus em Cristo. Em última análise, não são os santos que respondem às nossas preces; o que eles fazem é ecoá-las com mais profundidade, clarividência e amor.

“Naquele dia, diz o Senhor, eu atenderei aos céus, e eles atenderão à terra.” (Oséias 2,23)

“Miríade de anjos e justos que chegaram à perfeição, rogai por nós ante o trono do Senhor, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém!”

+ Viva Cristo Rei +


Bibliografia:

Bíblia Vulgata (Padre Matos Soares), Bíblia de Jerusalém; Bíblia Ave Maria

Catecismo da Igreja Católica, Parágrafos: 954, 955, 956, 1137,1138

Catecismo Romano: III II 7-14; IV IV 2; IV IX 4ss

Introdução: Adaptação do texto: http://jimmyakin.com/praying-to-the-saints

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II Questão 83

Artigo 4: https://permanencia.org.br/drupal/node/3974

Artigo 11: https://permanencia.org.br/drupal/node/3981

Scott Hahn, Santos e Anjos: Um guia bíblico para a amizade com os que estão junto de Deus.

Scott Hahn, O Banquete do Cordeiro: A Missa segundo um convertido.

Youtube, Canal: Bíblia, Livros e Café

Artigos: Apostolado ACCATÓLICA: https://accatolica.com/

Cultura Judaica: https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/144123/jewish/The-Chair-of-Elijah-and-Welcoming-the-Baby.htm

https://www.chabad.org/holidays/passover/pesach_cdo/aid/504495/jewish/Why-Is-Elijah-the-Prophet-Invited-to-the-Seder.htm



Categorias:Santos

2 respostas

  1. Gostaria de externar minha admiração pelo texto apresentado pelo autor Lucas. Parabéns! Confesso que não li tudo, mas uma parte extremamente significativa até então, parando minha leitura após a parte em que se faz referência à carta aos Efésios, citando a “família dos céus”. Os argumentos foram – até onde li – bem pontuais e consistentes. Eles vão muito ao encontro daquilo que penso: a visão do antigo testamento e a visão do novo testamento. Podemos observar na Escritura Sagrada que por mais que Deus tenha inspirado os profetas do Antigo Testamento, eles tinham conhecimento acerca das coisas que lhes eram revelados ao longo de um processo histórico, de modo que para cada tempo, cada situação e cada pessoa recebia uma revelação. Isso é bem nítido em relação à Ressurreição para a vida eterna. Esse conceito foi aplicado somente no profeta Daniel (caso eu esteja enganado, peço humildes, por favor). Ou seja, centenas de anos após Abraão e até Moisés. Não é que isso tenha sido originado a partir do profeta Daniel, mas que se tornou conhecido a partir dele – pois já era algo inerente ao plano de Deus, porém só revelado a partir daquela ocasião. Mas, enfim, peço desculpas por me alongar aqui. Queria somente fazer minha observação quanto ao exposto neste texto, acrescentando minhas ideias. De qualquer modo, reitero aqui minhas congratulações ao autor, deixando claro que pretendo retornar para ler o conteúdo completo – o qual, creio eu, esteja na mesma linha de raciocínio e abordagem.

    Paz e bem!

    • Olá Henrique, Salve Maria. Agradecemos o elogio. De fato, a revelação foi ocorrendo em um longo processo histórico, e não seria diferente essa questão da vida após a morte. Temos sempre que analisar a ideia como um todo, de Gênesis ao Apocalipse, e não pegar trechos isolados do Antigo Testamento como é a praxe de certos grupos. Esperamos que você continue a leitura, qualquer dúvida estamos a disposição. Deus abençoe!

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