A CRISTOLOGIA DISSIDENTE DE JON SOBRINO NA ÓTICA DE DOM ESTEVÃO BETTENCOURT

Júnior César Monteiro é de Barroso-MG, sendo Bacharel em Teologia pela Uninter, membro da Pascom Sant’Ana, membro do Accatólica e fundador do Apostolado Doutrina Católica – Fides et Spes que pode ser acessado pelo link: https://doutrinacatolica.com.br/ . O texto abaixo foi apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso.

MONTEIRO, Júnior César[1]

RESUMO

A Cristologia, estudo da pessoa de Jesus Cristo, é um tema teológico que vem sendo estudado e discutido em níveis acadêmicos e pastorais há muito tempo. Uma ramificação desse estudo, a Cristologia Latino-Americana, vem sendo estudada e desenvolvida no contexto do referido continente.

Assim, partindo das definições dos conceitos relacionados à Cristologia tradicional e da latino-americana, foi realizada uma reflexão acerca do ponto de partida e das diferenças entre as duas realidades. Apresentados os conceitos, seguem-se as reflexões sobre a pessoa de Jesus e sua ação e obra, o Reino de Deus, interpretado sempre à luz de Estevão Bettencourt e Jon Sobrino, dois autores cujas visões e concepções pertinentes à Cristologia são divergentes em muitos pontos.

São necessárias, a partir dessa reflexão exposta em seus pontos principais, a busca e a compreensão de cada uma dessas cristologias e aquilo que as difere em níveis de abrangência e compreensão. Nesse sentido, esta pesquisa buscou apresentar os principais pontos conflitantes da cristologia de Jon Sobrino em “Jesus, o Libertador”, segundo a ótica de Estevão Bettencourt.

Para tanto, com base num estudo comparativo dos principais aspectos das obras dos autores citados, utilizou-se a metodologia bibliográfica, de caráter exploratório, descritivo e qualitativo.

Por fim, sob a análise das dissidências, observa-se que a cristologia desenvolvida por Jon Sobrinho traz rupturas com a reflexão teológica tradicional apresentada por Estevão Bettencourt, pela Doutrina da Igreja e pela Doutrina Social da Igreja.

Palavras-chave: Teologia. Cristologia. Jesus Cristo. Latino-Americana. Reino.

1. INTRODUÇÃO

A Cristologia, que se refere ao estudo da pessoa de Jesus Cristo, vem sendo desenvolvida desde os primeiros séculos do Cristianismo, percorrendo os grandes concílios ecumênicos, passando pela Idade Média, até chegar na contemporaneidade. Neste período de tempo atual, dito pós-moderno, podemos perceber diversas ramificações da Cristologia, algumas mantendo-se fiéis ao espírito da vertente tradicional (que estuda a pessoa de Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem e a Redenção trazida por Ele aos homens), e outras, por sua vez, acabando por se afastar dessa ótica, aplicando enfoques sociais, políticos e outros mais diversos à disciplina teológica.

Surge, a partir de então, na América Latina, através dos escritos dos teólogos da libertação, a Cristologia Latino-Americana, proveniente do surgimento da Teologia da Libertação, após a II Assembleia Geral dos Bispos Latino-Americanos em Medellín, na Colômbia, no ano de 1968.

Esta cristologia, denominada latino-americana, parte das situações de miséria em que vivem os povos do continente, tentando trazer uma resposta a essa problemática. Neste contexto, apresentam-se os pontos de vista desses estudos por Jon Sobrino. Sendo especificamente a Cristologia Latino-Americana objeto desta pesquisa, pretende-se apresentar os pontos principais da mesma desenvolvidos por Jon Sobrino, em sua obra “Jesus, o Libertador”, em contraposição aos principais pontos da Cristologia tradicional e clássica, na ótica do autor Dom Estevão Tavares Bettencourt, monge beneditino, um dos grandes teólogos brasileiros.

Tendo em vista a relevância da Cristologia no contexto teológico latino-americano, e a necessidade cada vez maior de aprofundar o tema segundo a visão dos principais pontos da perspectiva tradicional e clássica do estudo de Jesus Cristo, estabeleceu-se como problema de pesquisa uma questão primordial, objeto geral desta pesquisa: quais são os principais pontos divergentes da Cristologia de Jon Sobrino em “Jesus, o Libertador” em relação ao panorama tradicional e clássico na ótica de Dom Estevão?

Em um contexto em que a Cristologia Latino-Americana vem se desenvolvendo e se apresentando como reflexão teológica pelos teólogos da libertação, e ganhando destaque no meio acadêmico e no eclesial, a partir de diversos autores e obras, é necessário observar os métodos, os objetivos e instrumentos que a mesma aponta para a Igreja, e se de fato os mesmos são positivos ou negativos para a vida eclesial.

Atuando com base nos preceitos da Cristologia, se faz necessária uma reflexão sobre os rumos que ela vem tomando no âmbito do continente latino-americano e a maneira como a mesma se relaciona com a Cristologia Clássica. Partindo dessa premissa e da necessidade de análise, serão apresentados alguns apontamentos que definem a Cristologia Latino-Americana para Jon Sobrino, procurando-se reconhecer a pessoa de Jesus Cristo nela e analisar a ação e o ministério de Jesus a partir da visão do autor, sempre relacionando essa vertente aos aspectos primordiais da Cristologia tradicional e clássica na ótica de Dom Estevão, de maneira a buscar, assim, as principais contraposições entre os dois panoramas. O objetivo não será a pesquisa à exaustão, pois o tópico é muito abrangente. Tratar-se-á dos pontos principais e básicos do mesmo.

2. UMA CRISTOLOGIA LATINO-AMERICANA DISSIDENTE

Nos últimos tempos, a Cristologia tem despertado o interesse de muitos teólogos e leigos, fato embasado na atual existência de muitos escritos relacionados à pessoa de Jesus Cristo que procuram apontar a identidade deste judeu, que de fato dividiu a história em seu antes e depois.

Desde os primórdios do Cristianismo, o estudo da Cristologia vem sendo desenvolvido em diferentes épocas da história da Igreja, como nos grandes concílios da antiguidade (onde se combateram as heresias) e nas grandes súmulas teológicas da Idade Média. Durante a Idade Moderna e a Idade Contemporânea, houve certa influência da antropologia neste aspecto, o que é natural, posto que a mesma deveria ser compreensível e aceitável ao ser humano moderno. A partir daí, a Cristologia apresenta diversos enfoques em vários campos, com diversas produções teológicas.

Segundo Barriendos (2005), a Cristologia aborda Jesus Cristo em si mesmo, o seu mistério como Deus e Homem verdadeiro, que viveu num contexto histórico, versando também a obra de Salvação trazida por Cristo. O autor explana que a Cristologia não é nada mais que o estudo da pessoa e da vida de Cristo e aquilo que implica a salvação que Ele trouxe a nós, relacionada à sua paixão, morte e ressurreição. A Cristologia baseia-se na fé que a Igreja professa em Jesus Cristo (Muller, 2017). Fundamentalmente, a questão que abrange e permeia toda essa área de estudo é a identidade da pessoa de Jesus Cristo, fazendo dessa temática o centro e fundamento de toda a teologia.

Segundo Bettencourt (2018), a Cristologia é o estudo da pessoa de Jesus Cristo buscando aprofundar o mistério da Encarnação e as propriedades relacionadas a Cristo (graça, ciência e consciência, vontade e liberdade, entre outras), além da abordagem da obra salvífica de Cristo e os eventos que nos proporcionaram a Salvação.

O surgimento da Teologia da Libertação[2] na América Latina fez com que o conceito de Cristologia, agora referida como Cristologia Latino-Americana, sofresse alterações, sendo esta variante voltada para a transformação social na América Latina. E assim o Evangelho é percorrido segundo a exigência de uma ótica social, econômica e política (Bettencourt, 2018).

Conforme Silva (2015), a Cristologia Latino-Americana de Jon Sobrino realiza sua reflexão a partir do ato de seguir o Jesus Histórico, Filho de Deus, o homem de Nazaré, servo de Deus e o crucificado, que é solidário com os povos também crucificados, os pobres e oprimidos da América Latina. Na obra de Sobrino (1994) se vê um Cristo que protesta e quer libertar os oprimidos. Para Palácio (1984), que concorda com as definições apresentadas por essa vertente, a mesma não apresenta os mesmos enfoques da Cristologia clássica.

Na concepção de Sobrino, que não despreza o conceito tradicional de Cristologia (estudo da pessoa de Jesus Cristo), enxerga-se Jesus, em sua obra, como aquele que se opõe e contesta os ricos, as autoridades religiosas e as autoridades civis da época (Sobrino, 1994). Seu ponto de vista é de que o povo judeu era oprimido pelas autoridades e pelas pessoas ricas, associando a realidade judaica com a realidade atual dos povos latino-americanos, que são também oprimidos pelas autoridades e pelos ricos (Bettencourt, 2018). A percepção de Sobrino parte primeiramente da realidade de injustiça em que os povos latino-americanos estão inseridos. Para o autor, é necessário transformar a realidade social (Práxis) e, após, fazer a releitura do Logos (Palavra de Deus), apropriando-se de elementos para a transformação social proposta por essa cristologia.

Bettencourt (2018) compreende a Cristologia e toda a Teologia a partir do princípio do Logos (ou seja, da Palavra de Deus, da Tradição e da doutrina da fé) e, a partir disso, esse Logos ilumina a Práxis, a prática e a vida moral do cristão. Baseando-se nessa visão, é a partir da Palavra de Deus que os cristãos podem modificar a realidade, seja social, econômica ou política, sendo o Evangelho a resposta aos mais diversos problemas enfrentados pela sociedade e pela humanidade.

A diferença primordial no pensamento dos dois autores analisados nesta pesquisa, Estevão Bettencourt e Jon Sobrino, é o ponto de partida de cada uma das cristologias apresentadas. Jon Sobrino parte do ponto primordial da Teologia da Libertação, que é Práxis, ou seja, primeiro é necessário transformar a realidade e depois fazer a releitura da Palavra a partir dessa ação. Parte-se, assim, da postura da Práxis para o Logos. Já Estevão Bettencourt, representante da Teologia Clássica, tem como ponto de partida o Logos, a Sagrada Escritura, a Tradição e a Doutrina da Igreja, e é a partir delas que vem a transformação da realidade social e humana. Estevão parte do Logos para a Práxis. Vemos, a partir disso, um rompimento da Teologia da Libertação com a Teologia Clássica, o que também acontece no âmbito da Cristologia.

Antes de adentrar os principais pontos da Cristologia de Sobrino em comparação com a Cristologia Clássica, precisamos deixar bem claros os conceitos da Cristologia Clássica e da Latino-Americana. Segundo Bettencourt (2018), a Teologia Clássica se detém primeiramente sobre as bases fundamentais em que crê a Igreja, que é a Escritura (Palavra de Deus) e a Tradição. Dessa base fundamental se dá a reflexão, a compreensão e o aprofundamento da Teologia. A definição padrão do conceito da Teologia é um discurso sobre Deus, de maneira que sua base está em Deus, que vai se revelando. Tanto a Tradição quanto a Bíblia são portadoras dessa revelação. A partir daí, através da razão ou de um sistema filosófico, se aprofundam as verdades reveladas por Deus. Surge assim a Teologia Sistemática, organização dos artigos dos credos. A partir dela surge a Teologia Moral, que trata do comportamento do cristão, culminando na Moral Social e na Doutrina Social da Igreja (DSI), que trata do comportamento do cristão em sua vida em sociedade com base na luz do Evangelho.

Para Bettencourt (2018), a Teologia Clássica parte do Logos (estudo) e, a partir do Logos, parte para a Práxis (o agir). Faz-se necessário primeiramente compreender e entender a verdade revelada por Deus, para, depois desse entendimento, partir para a ação na vida da sociedade iluminada pela palavra de Deus. A Cristologia tradicional parte do mesmo princípio da Teologia Clássica, ou seja, da verdade revelada sobre a pessoa de Jesus Cristo. Compreendendo e entendendo essa verdade, fundamenta-se a ação na sociedade inspirada pelo Evangelho e pelas ações de Cristo.

Jon Sobrino entende a Teologia e a Cristologia de uma forma diferente, e não como a visão tradicional exposta acima por Estevão Bettencourt. Sua base é a Teologia da Libertação, que surgiu no continente latino-americano, e sua ótica é a situação de injustiça e pobreza em que vivem os povos do continente. Para Sobrino (1994), sua Teologia e Cristologia, ditas latino-americanas, têm como lugar teológico os pobres deste mundo. Os fatores citados acima sobre a Teologia e a Cristologia clássica não são considerados, mas invertidos: parte-se primeiro da Práxis (prática) para depois se realizar uma releitura do Logos (Palavra de Deus e Tradição). Sua visão é a de que a situação vivida pelos pobres é de iniquidade. Para Sobrino (1994), a imagem vinda do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) e do Documento de Medellín expressa a figura do pobre. O que contempla essa interpretação é que Cristo vem para libertar o pobre de todas as prisões, opressões e injustiças. Assim, os teólogos da libertação tentam, através de alguns sistemas, como o marxista, compreender o porquê dessa iniquidade (a pobreza), de forma a desejar que os pobres se libertem dela. Para eles, há uma dominação daqueles que detêm os meios de produção ou a riqueza sobre os pobres, uma concepção que leva à luta de classes de Marx. Para os mesmos teólogos, a sociedade precisa de uma reforma que vise a libertação dos pobres, de forma a se abandonar o sistema capitalista e se voltar ao socialismo, onde acaba a propriedade privada e os bens de produção são transferidos para o Estado. Segundo eles, a partir daí acaba a exploração dos pobres pelos ricos. São duas as dimensões da cruz desses povos crucificados, segundo Silva (2015, p.12): “a morte dos povos como consequência de suas lutas por justiça e as vítimas inocentes do neoliberalismo capitalista”. Assim sendo, atribui-se ao capitalismo a culpa pela pobreza e injustiças com os pobres do continente. Esses conceitos traduzidos para a Cristologia exigem primeiramente uma mudança no âmbito social dos povos da América Latina. Parte-se então do projeto de libertação dos pobres fazendo-se uma releitura dos conceitos da fé, percorrendo-se o Evangelho segundo uma visão social, econômica e política. Essa Cristologia e essa reflexão teológica, em vez de analisarem as verdades de fé e aprofundá-las para depois tentar solucionar os problemas sociais, percorrem os artigos do Credo numa função sócio-econômica-política que foi predefinida anteriormente, fazendo com que a Revelação fique subordinada à libertação do pobre somente, e a criação de uma nova sociedade estruturada nos modelos socialistas.

A metodologia utilizada pela Teologia da Libertação e por essa Cristologia vinda dela visa justamente determinar uma proposição para a Palavra de Deus, fazendo com que a ciência teológica venha seguir essa proposição. Sabe-se que a Teologia pode utilizar de sistemas da Filosofia e de outras ciências, o que visa compreender o plano de Salvação de Deus. Evidente que se deve pensar em tornar a sociedade mais justa, fraterna e igualitária, entretanto, como aponta Bettencourt (2018), isso será proposto pela própria reflexão da Revelação de Deus; não se deve recorrer a sistemas filosófico-materialistas, como o marxista, para se colocar em prática o dever de transformação da sociedade. A Doutrina Social da Igreja nos aponta uma opção baseada nos documentos papais para a transformação da sociedade.

Não se pode fazer uma leitura ou interpretação da Sagrada Escritura voltada à uma única ótica, como a do pobre, por exemplo, pois isso limitaria o que é transmitido pela mensagem vinda da Palavra de Deus. Como nos diz a Constituição Dogmática Dei Verbum em seu número 12:

… a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita, não menos atenção se deve dar, na investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé.

Assim, temos dois enfoques teológicos e cristológicos divergentes: um que parte do Logos para a Práxis, a Teologia e a Cristologia clássicas; e o outro a Teologia da Libertação, que diverge da Teologia e da Cristologia Clássica, partindo primeiro da Práxis para depois fazer uma releitura do Logos. É necessário, portanto, se manter na fidelidade à tradição do esquema Logos-Práxis, pois o esquema Práxis-Logos da Teologia da Libertação já traz em si todas as conclusões que um teólogo poderia encontrar, segundo Bettencourt (2018). Partindo da Práxis, tais teólogos manipulam a Palavra de Deus segundo suas ideologias político-sociais-econômicas.

Tendo definidos os pontos de partida das duas cristologias a serem analisadas, partiremos, a partir de agora, para a análise de mais alguns pontos divergentes entre elas.

3.JESUS CRISTO, UM MERO PROFETA DE DEUS

Nos deteremos agora a como cada uma dessas cristologias observam a pessoa de Jesus na sua reflexão teológica. As formas como entenderam a pessoa de Cristo são fundamentais para compreendermos os pontos dissidentes entre as mesmas. A maneira que Sobrino (1994) enxerga Jesus Cristo é segundo a concepção do Jesus histórico, voltando-se a Rudolf Bultmann, que diz que os Evangelhos não são tudo aquilo que Jesus disse e fez, mas que são, na verdade, o que os cristãos primitivos conceberam sobre a pessoa de Jesus Cristo. Sobrino (1994), mesmo não desejando romper com a Cristologia Clássica, que parte das afirmações dogmáticas e conciliares, da abordagem bíblico-dogmática, do querigma a partir da ressurreição, acaba, ainda assim, por romper com a mesma, partindo para uma volta a Jesus de Nazaré e sua prática de forma histórica somente. Primeiro vem o Jesus histórico, depois vem o Cristo da fé. Sua tese inspira que é necessário entender a vida de Jesus pelas suas palavras, prática e destino. Nega, dessa forma, toda a doutrina da Igreja, revelando Jesus somente como um profeta que veio combater os ricos, ignorando por vários instantes a missão salvífica de Cristo. Assim nos diz Sobrino (1994, p. 296): “O Jesus histórico não interpretou sua morte de maneira salvífica segundo os modelos soteriológicos que, depois, o Novo Testamento elaborou: sacrifício expiatório, satisfação vicária…” Nota-se, assim, a redução da pessoa de Jesus a um mero profeta, cuja missão era a de libertação dos pobres materialmente. Perde-se aqui toda a riqueza da mensagem do Novo Testamento e se nega a Doutrina da Igreja. Quando Cristo se fez homem, Ele nada perdeu da Divindade; tinha o poder de realizar milagres ou sinais e tinha consciência de sua missão salvífica e até da situação temporal.

Para Barriendos (2005), esta suposta distinção entre Jesus histórico e Cristo da fé torna-se dois caminhos diferentes e opostos: um, a pregação dos Apóstolos sobre Jesus, e outro, aquilo que foi transmitido no Evangelho sobre Cristo. Assim não haveria correspondência à realidade de Jesus de Nazaré, faltaria apoio da realidade e da história para nossa fé em Jesus Cristo. Sem apoio na realidade daquilo que Jesus de fato foi, e sem a historicidade dos Evangelhos, nossa fé seria levada a ficar somente no subjetivo (permaneceríamos na significação daquilo que ele é para nós e não na realidade sobre a pessoa de Cristo) e sem fundamentos. Diz Barriendos (2005, p. 22): “a distinção entre o Jesus histórico e o Cristo da fé é uma distinção de graves consequências: com toda a razão o Magistério da Igreja a reprovou.” Observamos que Sobrino caminha para fora daquilo que é o ensinamento do Magistério da Igreja. Apoiando-se em Barriendos (2005), dizemos mais ainda: desde a Igreja primitiva, a compreensão da pessoa de Jesus era de uma unidade entre o Jesus histórico e o Cristo da fé; sua denominação como Jesus Cristo, desde o início, nos mostra essa unidade e faz a confissão de que o Jesus histórico é o Cristo da nossa fé, sem haver separação entre um e outro. Esses cristãos conservavam de forma fiel a memória das palavras e obras de Jesus. São justamente esses os argumentos de Bettencourt (2018, p. 189) em relação a Sobrino: “O autor não pretende negar a fórmula do Concílio de Calcedônia (451), segundo o qual em Jesus havia uma só pessoa (divina) e duas naturezas (a divina e a humana), mas parece reduzir Jesus à qualidade de mero profeta…” Sobrino reduz Jesus a um mero ser humano ou profeta de Deus, concepção de algumas seitas religiosas, e silencia sobre sua Divindade, querendo voltar ao Jesus de Nazaré somente, o histórico, nada mais que isso. Considera Jesus somente um homem.

Outro ponto questionável é a ignorância de Jesus por sua missão salvífica como relatada por Sobrino. Questiona-se aqui qual seria a função da encarnação de Jesus. Deus se fez humano como nós, não deixando de ser Divino. Segundo Bettencourt (2018), Deus, por um ato de sua liberdade, e não sujeito a nenhuma criatura, quis a Encarnação devido ao pecado do homem, como nos diz o Credo: “por nós homens, e por nossa Salvação… encarnou-se…”, tese que vem da Sagrada Escritura e que é  recomendada pela Tradição. Assim, Cristo se fez homem para salvar a humanidade de seus pecados. A proposta de Sobrino de ignorância da missão salvífica de Cristo soa estranha àquilo que a Igreja ensina. Discorre Sobrino (1994, p. 296): “não interpretou sua morte de maneira salvífica”. E Sobrino (1994, p. 299) ainda diz mais: “exemplo eficaz e motivante para os outros do que a maneira de mecanismo de salvação para os outros”. Toda a vida de Cristo foi direcionada para seu sacrifício salvífico, e Ele não poderia ignorar a missão recebida de Deus Pai de regenerar e salvar todos os seres humanos. Nos diz Barriendos (2005, p. 30): “O fim da encarnação é a Salvação dos homens”. Todas as outras razões possíveis para a Encarnação são ordenadas à primeira, à Salvação dos homens do pecado e do mal, além da comunicação da vida divina, vida eterna. Observamos aqui mais uma dissidência de Sobrino em relação à Cristologia Clássica a nós apontada por Bettencourt (2018) e Barriendos (2005), além da discordância de sua tese com todo o ensinamento da Igreja e a Tradição.

4.A EUCARISTIA COMO UMA CEIA FRATERNA DOS HOMENS

Outro ponto dissonante de Sobrino é quando ele trata de sua concepção de Eucaristia, que é o sacrifício de Cristo de forma incruenta sobre os altares, dado pela pessoa do sacerdote, segundo a definição da Igreja e do Magistério. Sobrino (1994, p. 348) diz que Jesus não quis dar à Eucaristia o significado e o sentido de “sacrifício da Cruz perpetuado sobre nossos altares de forma sacramental”. O mesmo relata que esse sentido veio da interpretação que os apóstolos tiveram da Eucaristia, não compreendendo a realidade. Sobrino (1994) diz ainda mais: que a Eucaristia é só uma mesa compartilhada ou fraternidade entre os homens, e que essa mesa é um sinal do Reino de Deus somente. Dizer que as narrativas do Evangelho relacionadas à última ceia de Jesus com seus discípulos são “teologizadas” ou não narram de fato a realidade histórica é contradizer tudo aquilo que recebemos da revelação de Deus, da Sagrada Escritura, do Magistério e da Tradição. Bettencourt (2018, p. 193) afirma: “Sobrino recorre à alegação de que tais passagens são teologizadas ou são elaborações teológicas incutidas pelos antigos cristãos à narração evangélica”. Mostra que o autor, partindo da Práxis (prática) e depois da releitura do texto bíblico, só utiliza o que lhe interessa dos textos dos Evangelhos, querendo, assim, manter sua tese diante dos obstáculos e dificuldades que podem surgir durante a leitura bíblica. Algumas passagens bíblicas nos deixam perplexos diante das definições de Sobrino sobre a Eucaristia já relatadas acima. O próprio Senhor Jesus se define assim: “Eu sou o Pão da Vida” (cf. Jo 6,35). Esse pão é sua carne, que dará a vida ao mundo (cf. Jo 6,51). Vemos, também durante a última ceia, Jesus pronunciando essas palavras na Instituição da Eucaristia: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19). E mais: “Essa taça é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20). Propõe Sobrino que seria a Eucaristia simplesmente um banquete ou uma mesa compartilhada entre os irmãos. Só essas últimas passagens nos mostram que há um equívoco e uma dissidência de Sobrino em relação ao ensino da Igreja. A Igreja nos diz que a Eucaristia é “ao mesmo tempo e inseparavelmente o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão no corpo e sangue do Senhor” (cf. Cat. nº 1382). O ensino da Igreja, através do catecismo, expõe o significado da Eucaristia, que nos remonta à última ceia de Jesus com os apóstolos e se relaciona também ao sacrifício do Calvário, onde Jesus doa integralmente sua vida para a salvação e redenção da humanidade. Segundo Bettencourt (2018), Jon Sobrino não interpreta a Sagrada Eucaristia como o sacrifício do Calvário que é perpetuado e atualizado, sob a forma do sacramento em nossos altares. Para Sobrino, a Eucaristia é só uma mesa da fraternidade entre os irmãos. Todavia, a mesma é o sacramento deixado por Cristo para que os fiéis possam participar do sacrifício, oferecendo suas vidas com Cristo ao Pai (Bettencourt, 2018). Sobrino não compreende a Eucaristia como sacramento de Cristo, como sacrifício de Cristo, apenas como uma celebração da vida humana, do trabalho e dos anseios, sem tocar no ponto fundamental da Sagrada Eucaristia, que é a maneira como podemos observar o sacrifício de Cristo, que nos proporcionou a Redenção e a Salvação. Sobrino mantém em sua Cristologia essa concepção fundamental de que a Ceia Eucarística é só a ceia da fraternidade dos homens, um banquete ou uma ceia participada por todos. Perde-se aí o sentido do sacramento e do sacrifício de Cristo pelos homens para nossa salvação. Mas a intenção do Salvador foi outra, diferente da compreendida pelo autor: Cristo nos deixou o Sacramento da Eucaristia como alimento para o caminho e o sentido da perpetuação do seu sacrifício para nossa redenção e salvação. Tal fato mostra mais uma contrariedade grave de Sobrino em sua forma de enxergar a Eucaristia.

5.O REINO DE DEUS EXCLUDENTE E EXCLUSIVISTA, E NÃO PREFERENCIAL

Outro aspecto importante da Cristologia de Sobrino é a questão da pregação do Reino de Deus feita por Jesus. Para Sobrino, o sentido estrito do Reino de Deus é na dimensão social, onde existem duas classes de pessoas: os ricos opressores e os pobres oprimidos. Na perspectiva do autor, há uma luta intensa entre o Reino de Deus e sua contestação, o antirreino, ou seja, tudo aquilo que é contrário ao Reino de Deus no sentido social. Nos diz Sobrino (1994, p. 266): “Jesus não só anuncia o reino e proclama um Deus Pai, mas também denuncia o antirreino e desmascara os ídolos”. Esse antirreino, para o autor, seria tudo aquilo que realiza opressão ao pobre e que não deixa o mesmo se libertar de sua situação de pobreza. Esse, dessa maneira, seria o Reino que Jesus veio trazer em sua concepção: a libertação material do pobre de sua pobreza somente. Os ídolos, em sua ideia, seriam os opressores que causam a escravidão do pobre, os que não os permitem sair dessa situação social. Jesus é comparado a profetas do Antigo Testamento e alguns atuais nesta luta contra o antirreino. Sobrino (1994, p. 266) mostra algumas de suas características: “E não se contenta em denunciar o Maligno, realidade trans-histórica, mas também seus responsáveis, realidades históricas”. Ademais, Sobrino (1994, p. 266) fala que, no anúncio do Reino de Jesus, “sua mensagem central é a defesa dos oprimidos, denúncia dos opressores e desmascaramento da opressão”. Diz que Jesus não veio somente denunciar o Maligno, que está além da história, mas o ponto fundamental do anúncio do Reino por Jesus Cristo, segundo ele, é a defesa do oprimido/pobre e a denúncia contra os opressores e seus métodos. No entanto, o anúncio do Reino se concentra na salvação em totalidade do ser humano, e não somente na libertação social do pobre e denúncia dos opressores, como abordado pelo autor.

Outro ponto, ainda relacionado à concepção do Reino e da pregação de Jesus, é que não importa a crença religiosa e o credo, mas a defesa das vítimas de opressão. Segundo Sobrino (1994, p. 282): “O decisivo não é o religioso ortodoxo, nem poderia ser… O último e mais decisivo para Deus é fazer sua vontade, que consiste em sair em defesa das vítimas”. Por esse viés, não importa a religião ou a fé, importa é fazer a defesa dos pobres e oprimidos. Segundo ele, é a vontade de Deus que o pobre seja libertado de sua pobreza, uma visão meramente material que nos escapa à realidade espiritual e ao ensino de Jesus, que veio para libertar o homem por completo, e não só materialmente.

Para esta cristologia, os destinatários do Reino de Deus e da pregação de Jesus são aqueles tidos como materialmente pobres, fazendo-se a exclusão dos ricos, que somente quando se tornassem pobres poderiam fazer parte do Reino. Segundo Sobrino (1994, p. 130): “O anúncio da boa-notícia aos pobres pelo mero fato de serem pobres sacode e abala os alicerces da religião”. Sobrino parece definir para quem é a boa nova, ou seja, os materialmente pobres, mas se contradiz num ponto: num momento diz que não importa a religião e noutro diz que esse anúncio abala a religião. Um pouco confuso o pensar de Sobrino neste ponto. Ele enfatiza que a opção de Jesus e desta cristologia é pelos pobres, de uma forma excludente, exclusivista e não preferencial; excludente porque exclui os ricos; exclusiva porque pressupõe que o Reino é só para os materialmente pobres; preferencial porque seria uma escolha, uma opção. Fundamentalmente, o Reino é para todos.

Segundo Sobrino (1994), o coexistir de pobres e ricos é um insulto, algo não tolerável. Diz que os ricos deveriam ajudar os pobres e, como mencionado anteriormente, deixar de ser ricos para serem pobres, mostrando uma visão da riqueza como injustiça, mal social e causa de opressão. Diz Sobrino (1994, p. 257): “Lucas reflete sobre a riqueza não só como desumanizante e insultante e sim como ‘injustiça’ (Lc 16,91).” A riqueza em si, na visão do autor, é um mal social grave, é fonte de injustiça e não deve existir pela forma que diz. Podemos observar seu viés analisando o relato de Zaqueu na Escritura por Sobrino (1994, p. 257): “Zaqueu deixa de ser o homem maldito, porque deixa de ser o homem rico e opressor”. Vemos que o autor enxerga a riqueza somente como fonte de exploração dos pobres e conscientemente diz que a mesma não deve existir de forma alguma. Ele se embasa, assim, no conceito de riqueza de Karl Marx. A pregação de Jon Sobrino, ao pé da letra, visa instaurar a sociedade marxista com seus princípios, se afastando da verdade do Reino de Deus, de Jesus Cristo e do Evangelho.

Jesus veio a este mundo e teve uma missão central em sua vida, que foi anunciar o Reino de Deus a todas as pessoas. Mas Jesus não veio trazer um Reino exclusivo e excludente, como Sobrino relata em sua obra. O Reino de Deus é para todos aqueles que se abrem ao mesmo e, de fato, experimentam a transformação e a mudança de vida. Nos diz Bettencourt (2018, p. 191) sobre este tema: “O Reino de Deus é aberto a todos os homens indistintamente: todos, ricos e pobres, são chamados a ele.” E discorre Bettencourt (2018, p. 191) sobre a conversão: “desde que se queiram converter ou fazer metanoia…” Como observamos, o Reino de Deus é universal, mas gera um compromisso para a pessoa, que é o de se converter e abandonar sua vida de pecado. Isso contradiz Sobrino, que não se preocupa com a situação moral ou pessoal, não dizendo nada sobre a transformação da vida da pessoa.

O que de fato não influi na relação de comunhão com Deus é o fato de a pessoa ser pobre ou ser rica. Todos podem ter relacionamento e comunhão com Deus independentemente de sua condição econômica e social. Para Sobrino, como reiterado, é um escândalo tal situação, pois os ricos não poderiam participar do Reino até que não se tornassem pobres. Contudo, Bettencourt (2018, p. 191) nos diz que: “A pobreza e a riqueza, materialmente entendidas, são algo de neutro no plano ético”. Ou seja, não importa riqueza ou pobreza no que diz respeito à participação no Reino, vale sim é a conversão do homem a Deus, sua mudança de vida, sua opção por seguir os caminhos Dele.

Enfatizado por Sobrino é que o Reino é direcionado somente aos pobres, aqueles que são explorados pelos opressores. Seu conceito de pobre, portanto, abrange somente o pobre material. Já Bettencourt (2018) diz que Jesus não obrigou ninguém a abandonar a riqueza, e até mesmo conviveu com muitos ricos, como Nicodemos, José de Arimatéia, diversas mulheres, Lázaro, Maria e Marta. Esses personagens bíblicos não parecem se caracterizar como pobres e não se vê no Evangelho nenhuma exortação de Jesus dizendo que deveriam deixar a riqueza e se tornarem pobres para participarem do Reino de Deus. O que reforça ainda mais essa abordagem relacionada ao Reino é que o mesmo é para todos e que o que vale de fato é a conversão dos homens, sem levar em consideração sua situação socioeconômica.

Em relação aos destinatários do Reino e ao conceito de pobre, podemos observar o seguinte: os destinatários para Sobrino, como já abordamos, são exclusivamente e excludentemente os pobres materialmente, enfatizando-se que Jesus trabalhou nesta missão, defendendo os mesmos, o que se opõe à visão de Bettencourt (2018) e de alguns documentos do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). Para Bettencourt (2018), o conceito de pobre seria todas as pessoas que sofrem determinadas carências, como a material, espiritual e moral, e não somente a material, como defende Sobrino. Assim entendem também os documentos de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). Segundo nos relata Bettencourt (2018, p. 192): “A opção que os Bispos fizeram pelos pobres (…) não é excludente, nem exclusiva; é preferencial no sentido de que o pobre parece ser o destinatário mais carente da Boa Nova do Evangelho”. De fato, as concepções das Conferências Episcopais evocam aquilo que a Igreja sempre professou em relação aos pobres em sua opção preferencial, devido aos mesmos passarem pelas maiores dificuldades e carências em vários âmbitos de suas vidas, como a social, a econômica, a espiritual e a moral. Opção preferencial, e não de exclusão e exclusividade, como propõe Sobrino. Pobre não é só o carente social, de forma que sua denominação não pode ser pautada apenas nesta característica. Puebla (1979) afirma em seu número 27: “Preocupam-nos as angústias de todos os membros do povo, qualquer que seja a sua condição social…”, o que nos mostra uma interpretação errônea de Sobrino, rompendo até com os documentos episcopais, como observado até aqui.

A Igreja oferece aos pobres a evangelização, de modo que a mesma envolve o homem em sua totalidade corporal e espiritual. Na sua missão, a Igreja chama os homens ao cultivo da espiritualidade e religiosidade, abrangendo, dentro desses âmbitos, os pobres e oprimidos, defendendo assim a dignidade dos Filhos de Deus, o direito e a justiça dos mesmos. Sobrino (1994) diz que não importa a religiosidade, ou seja, a religião propriamente, e sim a libertação do pobre de sua pobreza concreta. Já Bettencourt (2018, p. 192) tem uma visão diferente, como podemos observar: “Não há, pois, dicotomia entre o anúncio religioso e o atendimento material, este, aliás, sem aquele não poderia satisfazer às aspirações do pobre”. Portanto, o anúncio do Evangelho como o atendimento material aos pobres pode ser realizado em conjunto, mostrando que não há oposição entre as ideias, como afirma Sobrino, no que diz respeito à não importância da religião. Vale ressaltar que a missão primordial e especifica da Igreja é religiosa, e não social, econômica ou política, como observa a Constituição Dogmática Gaudium et Spes (GS nº 42). Todavia, a Igreja tem um corpo doutrinal para a vida social, econômica e política, que é a sua Doutrina Social, portanto, mesmo não cabendo à mesma essa missão, ela desenvolve um estudo e uma doutrina sobre essas dimensões da vida humana em sociedade. Sendo assim, não é necessário utilizar ideologias ou doutrinas contrárias à Doutrina da Igreja, pois a mesma já possui um conjunto de ensinamentos dos Santos Padres sobre o tema. Nos diz ainda Bettencourt (2018, p. 192):

… a caridade cristã deve atender a qualquer pessoa carente, qualquer que seja a sua crença religiosa ou a sua conduta de vida, isto, porém, não quer dizer que para admissão no Reino de Deus, não queira a conversão dos corações ou atitude ética renovada.

Como observado, devemos sempre estar abertos à prática da caridade cristã a todos os necessitados e carentes, não olhando sua religião ou moral. Entretanto, devemos também anunciar Cristo, para que haja atitudes de mudança e de transformação de vida, a chamada, no grego, metanoia, conversão que vem das entranhas.

Observamos assim que Sobrino faz algumas rupturas com concepções, conceitos e até dogmas da Igreja Católica. Sua tese e sua compreensão da pessoa de Jesus e do Reino são bem diferentes das concepções tradicionais. Em certos trechos, até chega a ser violenta sua fala no plano social, propondo uma divisão e luta na sociedade entre Reino de Deus e Antirreino de Deus. Faz também uma avaliação dos homens pelas posses materiais dos mesmos, não levando em conta a sua crença religiosa e nem a moral, ferindo as proposições fundamentais e primordiais do Evangelho. Percebemos, dessa maneira, uma postura diferente do autor em relação a posições tradicionais da Igreja em sua Teologia e Cristologia. Há, portanto, uma dissidência de Sobrino em relação ao ensino tradicional da Igreja, como nos mostrou Estevão Bettencourt.

6. METODOLOGIA

A metodologia de pesquisa utilizada foi a bibliográfica, de caráter exploratório, descritivo e qualitativo.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise dos referidos autores principais que conduziram essa pesquisa proporcionou um novo olhar sobre a Cristologia. Observamos que houve um certo desvio advindo da Cristologia tradicional, gerando uma nova forma de visão e concepção deste estudo, partindo de um novo método, da Práxis para o Logos (prática para a Palavra), que acabou por caminhar em paralelo e sem ligações com o método tradicional do Logos para a Práxis (da Palavra para a prática), e que contradiz o Magistério, a Tradição e a Doutrina Social da Igreja. Esse método contrário acabou por permear a Igreja com ideologias que são estranhas ao ambiente cristão.

A tese de Jon Sobrino em sua Cristologia enxerga Jesus e o Reino de Deus de uma forma bem radicalista. Em certos momentos percebemos uma ruptura com a Dogmática da Igreja e visões sociais extremistas, que não caracterizam o âmbito cristão. Os elementos estranhos desta tese são relacionados à pessoa de Jesus, atribuindo a Ele a ignorância de sua missão, colocando o mesmo como mero homem; o conflito do Reino e antirreino, imprimindo um pensamento de lutas de classes vindo do marxismo e violência; e, num último aspecto, a avaliação do homem pelos bens materiais que possui.

Estevão Bettencourt, mantendo-se fiel à Tradição e ao Magistério da Igreja, faz uma oposição a Sobrino, mostrando que o Filho de Deus se fazendo homem não se esvaziou de sua divindade; mesmo sendo homem, Ele permanece Deus. Segundo o mesmo autor, o Reino de Deus é aberto a todos, não há exclusão e exclusividade, e não importa a condição social da pessoa, mas sim como ela se coloca diante do anúncio de Cristo, do Evangelho e do Reino. Além disso, ressalta que não se deve avaliar o ser humano segundo suas posses e bens, deixando de lado seu comportamento moral. Podemos observar que a tese de Sobrino, como afirma Estevão Bettencourt, é secularista e laicista, reduzindo a divindade de Cristo à humanidade, propondo uma sociedade com marcas de socialismo e marxismo, algo que não cabe dentro do cristianismo.

Ainda existem diversos elementos a serem analisados desta cristologia em contraposição à Cristologia Tradicional, de modo que diversos estudiosos se detêm à análise dessa temática, produzindo a mais variada gama de materiais. Emerge assim um tópico promissor para a pesquisa e ciência teológica, com a aplicação e contribuição para as diversas áreas da Teologia, como a Cristologia, a Antropologia, a Doutrina Social da Igreja e as mais diversas disciplinas.

REFERÊNCIAS

BARRIENDOS, Vicente Ferrer. Jesus Cristo Nosso Salvador: Iniciação à Cristologia. Lisboa: Diel, 2005.

BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares. Curso de Cristologia por correspondência. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2018.

BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares. Curso de Doutrina Social da Igreja por correspondência. Rio de Janeiro: Lumem Christi.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2006.

CATECISMO da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.

DOCUMENTO DE PUEBLA. Documentos do CELAM. São Paulo: Paulus, 2004.

MULLER, Gerhard Ludwig. Dogmática Católica: Teoria e prática da Teologia. Petrópolis: Vozes, 2015.

PALÁCIO, Carlos. O “Jesus Histórico” e a Cristologia Sistemática. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, 1984. Disponível em: <http://www.faje.edu.br/periodicos/ index.php/perspectiva/article/view/1947>. Acesso em: 16 mar. 2019.

PAPA PAULO VI. Constituição Dogmática Dei Verbum. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html&gt;. Acesso em: 14 jun. 2019.

PAPA PAULO VI. Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html&gt;. Acesso em: 14 jun. 2019.

SILVA, LUIZ VIEIRA DA. Pensar e imaginar Jesus – A Cristologia da Libertação Latino-americana de Jon Sobrino. Revista Esfera, Brasília, 2015. Disponível em: <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/esf/article/view/7910/4952&gt;. Acesso em: 10 mar. 2019.

SOBRINO, JON. Jesus, o Libertador. Petrópolis: Vozes, 1994.


[1] Bacharel em Teologia: Doutrina Católica do Centro Universitário Internacional UNINTER. Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso.

[2] “Dentro desta corrente houve quem tivesse pensado que Cristo seria o modelo da luta contra as estruturas sociais injustas. São as “teologias da libertação”, entre as quais se encontram algumas inspiradas no marxismo. Estas teorias reduzem a origem do mal à uma má distribuição da riqueza, e cifram a libertação da humanidade na reforma política e social.” (Barriendos, 2005, p. 137)



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