A Mulher de Apocalipse 12 (Parte 1)

Escrito por Lucas Falango.

“Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Apocalipse 12,1)

O Apocalipse 12 é uma passagem fascinante, a Igreja sempre ensinou que ela possui múltiplas interpretações, a Mulher é primariamente a mãe do Messias, Maria (Isaías 7,10-14), mas também é Israel (Gênesis 37,9-10), e por fim, a Igreja (Isaías 66,7-9). Os paralelos de Apocalipse 12 com Isaías (7 e 66), são inegáveis, o primeiro sentido desse texto é claramente Mariano, e depois eclesiológico. sua coroa de doze estrelas representam os doze apóstolos (daí o título: Maria, Rainha dos Apóstolos).

O paralelo com o sonho de José em Gênesis 37, também é notável, ela é a Israel, o povo de Deus que sofre contra os ataques dos inimigos (Is 21,3; 26,17-18; Jr 4,31; 6,24; Mq 4,9-10 – essas passagens servem também como prefiguração dos sofrimentos da Igreja).

Ela pode representar também os Judeus, que depois de muito sofrer, aceitarão finalmente o seu Messias, Jesus Cristo, sua coroa de 12 estrelas representam as 12 tribos de Israel. Todas essas interpretações são licitas (e verdadeiras), porém, uma não exclui a outra!

Ela é a Israel, porém, não de maneira isolada, e sim, Israel tipificada EM MARIA! O evangelista São Lucas nos mostra isso ao fazer paralelos entre as palavras dirigidas a Virgem Maria, no início do seu Evangelho, e as palavras do profeta Sofonias ao falar da Filha de Sião.

“Rejubila, Filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel! Alegra-te e exulta de todo coração, filha de Jerusalém!” (Sofonias 3,14)

  • Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lucas 1,28)

Iahweh revogou a tua sentença, eliminou o teu inimigo.” (Sofonias 3,15)

  • “pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. (Lucas 1,49)

(O Senhor revogou a sentença do pecado original de maneira única em Maria, fazendo-a nunca ter parte com o Inimigo!)

“Iahweh, o rei de Israel, está no meio de ti, não verás mais a desgraça.” (Sofonias 3,15)

  • “[…] o Senhor está contigo! […] Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e tu o chamarás com o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim.” (Lucas 1,28.31-34)

“Naquele dia, será dito a Jerusalém: Não temas, Sião!” (Sofonias 3,16)

  • “O Anjo, porém, acrescentou: “Não temas, Maria!…” (Lucas 1,30)

“Não desfaleçam as tuas mãos! Iahweh, o teu Deus, está no meio de ti, um herói que salva! Ele exulta de alegria por tua causa, estremece em seu amor, ele se regozija por tua causa com gritos de alegria.” (Sofonias 3,16-17)

  • “Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” (Lucas 1,41-42)

No Velho testamento também vemos a figura da Filha de Sião, como a de uma Virgem que desprezou um inimigo que desafiou o Senhor, prefigurando a Santíssima Virgem, que desprezou o pecado e o demônio, e se entregou em completa obediência a Deus:

“Eis o oráculo do Senhor contra ele: A VIRGEM, FILHA DE SIÃO, despreza-te e zomba de ti. A filha de Jerusalém meneia a cabeça por trás de ti.” (2 Reis 19,21)

Ela é a Igreja, porém, não de maneira isolada, e sim, a figura da igreja tipificada EM MARIA! Maria é a Ecclesia Typus (isto é, o “tipo” perfeitíssimo da Igreja), Ela é a Israel, o povo que “gerou” Cristo na história, Ela é Maria que gerou Cristo literalmente, e a Igreja que gera o Cristo na História até a Parúsia.

Quem atribui apenas um dos sentidos, nega o sentido literal: A Mulher é a mãe do Messias; o Filho Varão, e este é Jesus Cristo!

“O Templo de Deus que está no céu se abriu […] UM SINAL GRANDIOSO apareceu NO CÉU, uma MULHER vestida com o Sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas; ESTAVA GRÁVIDA e gritava, entre as dores do parto, atormentada para DAR À LUZ.” (Apocalipse 11,19; 12,1)

“O Senhor continuou a falar com Acaz, dizendo: Pede para ti ao Senhor teu Deus UM SINAL, quer no fundo da morada dos mortos, quer NO MAIS ALTO DO CÉU. […] Pois por isso mesmo o Senhor vos dará este sinal: Eis que A VIRGEM conceberá e DARÁ À LUZ um filho, e o chamara Emanuel (Deus conosco).” (Isaías 7,10-14)

O texto de Isaías 7,14 é atribuído à Maria por São Mateus Evangelista:

“Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que diz: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porão o nome de Emanuel, que significa: Deus conosco.” (Mateus 1,22-23)

O Filho Varão que a Mulher do Apocalipse deu à luz, é Jesus, o esperado Filho de Deus.

“Ela deu à luz um FILHO VARÃO, aquele que deve reger todas as nações pagãs com CETRO DE FERRO. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono.” (Apocalipse 12,5)

“Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: TU ÉS MEU FILHO, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com CETRO DE FERRO; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.” (Salmo 2,7-9)

“Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome é VERBO DE DEUS. Seguiam-no em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com CETRO DE FERRO e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!” (Apocalipse 19,13-16)

Logo a mulher não pode ser outra, senão: Maria! Ela deu à luz ao Filho Varão, O Verbo, gerado por Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade.  Se na passagem o Filho varão é um indivíduo (Jesus Cristo), o Dragão é um indivíduo (Satanás a antiga serpente) e Miguel é um indivíduo, alegar que a Mulher não é um indivíduo específico é uma teimosia que beira a infantilidade.

Podemos ver também outro paralelo de Apocalipse 12 com o Antigo Testamento, desta vez, com Isaías 66.

Antes que tivesse dor de parto, deu à luz; antes que chegasse o tempo do parto, DEU À LUZ UM FILHO VARÃO. Quem jamais ouviu tal? Quem viu coisa semelhante a esta? Porventura nasce um povo num só dia? Nasce ao mesmo tempo uma nação inteira? Pois Sião, logo que sentiu as dores de parto, deu à luz (todos) os seus filhos. Eu, pois, que faço dar à luz (ou torno fecundos) os outros, NÃO DAREI À LUZ EU MESMO, DIZ O SENHOR? Eu, que dou aos outros sucessão, ficarei acaso estéril, diz o Senhor teu Deus?” (Isaías 66,7-9)

Um Filho Varão, que é filho do próprio Senhor (O Verbo – Ap 19,13; Jo 1,14)! Quem seria esse, senão Jesus Cristo?

É muito interessante a menção feita as dores de parto de “Sião”, pois para alguns o fato de ser citado as dores de parto para a Mulher no Apocalipse, significa que ela não pode ser Maria (para outros, seria a prova de que ela teve dores no parto, logo, teve o pecado original e não é Imaculada), porém, as dores de parto são uma figura simbólica, essa simbologia é usada também por São Paulo:

“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.” (Romanos 8,22)

“Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós.” (Gálatas 4,19)

Vemos que o termo “dores de parto” não é necessariamente literal. Quem conhece a Tradição, sabe que Maria não teve dores no parto, por ter sido previamente salva do pecado original, para que seu Filho Perfeitíssimo nunca tivesse parte com Satanás.

Porém, houve um momento em Maria sofreu ao ter muitos filhos (caros Católicos, não se escandalizem!), esse momento foi: A Crucificação!

No Calvário, Maria ganha um novo filho, o Discípulo Amado, que é figura de todo o Cristão, pois somos todos batizados na morte do seu filho, renascemos no Seu corpo, a Igreja, Cristo então começa a ser formado em nós no batismo.

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6,3)

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Efésios 2,5)

Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2,12)

Sendo assim, ela se torna a mãe de toda a Igreja, e de toda uma nação, o novo povo de Deus. Podemos dizer que a Cruz foi um parto, o renascer da humanidade em um novo Gênesis.

“Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”. E dessa hora em diante o discípulo a recebeu como sua mãe.” (São João 19,27)

Para os que objetam dizendo que isso é apenas um mero pedido pra cuidar da mãe financeiramente, como se fosse algo sem importância, pense bem: Em um Evangelho de alto teor teológico, e poético, com inúmeras figuras que o remete ao livro de Gênesis (Como as bodas de Caná), qual o sentido de deixar algo tão irrelevante para o ápice da crucificação?

Se fosse um mero pedido de: “Não deixa minha mãe passar fome”, esse pedido nem precisaria estar relatado, é algo óbvio não deixar a viúva desamparada, ainda mais para os cristãos.

E mesmo que fosse necessário pedir, se não fosse algo importante, isso poderia ser feito muito antes, bastaria dizer: “Cuide da minha mãe, supra as necessidades dela, por favor…”.

Pelo contrário, nós vemos todo o desenvolver do texto como se fosse uma grande obra teatral, chegando ao ápice na Cruz, Jesus diz: “Mulher, eis aí teu filho”.

No ato de crucificação a vítima era pendurada de braços abertos em uma cruz de madeira, amarrada ou, presa a ela por pregos nos punhos e nos pés. O peso das pernas sobrecarregava a musculatura abdominal que, cansada, tornava-se incapaz de manter a respiração, levando à morte por asfixia, nos momentos que precedem a morte, falar ou gritar exigia um enorme esforço, imensa força de vontade, cada palavra causava uma dor excruciante.

Nesse momento, nenhuma das palavras seriam desperdiçadas, ou desprovidas de um sentido teológico e transcendente. Não é difícil perceber que aí está um grande mistério, e uma lição teológica: aos pés da cruz nasce um novo filho de Maria, um “novo Cristo”.

Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” (Gálatas 2,20)

Os Cristãos sempre souberam da complexidade e a profundidade desse Evangelho, como vemos no comentário de Orígenes (184-253 d.C.), importante teólogo do período primitivo da Igreja:

“Nos atrevemos a dizer que os primeiros frutos das Escrituras são os Evangelhos e entre os Evangelhos, há um escrito por João. Ninguém entende este Evangelho a menos que tenha repousado no seio de Cristo ou tenha recebido de Jesus, Maria, que também se torna sua Mãe. Aquele que deve se tornar outro João deve ser tão grande que Jesus também possa dizer dele que ele, como João, é Jesus. Pois não há outro Filho de Maria, mas Jesus, e Jesus diz a sua Mãe: “Eis o teu Filho”, e não: “Eis que ele também é teu filho”. Na realidade, todo cristão perfeito já não vive a si mesmo; É o Cristo que vive nele. E como Cristo vive nele, Maria ouve as palavras: “Eis o teu Filho, Cristo.” (Orígenes, Comentário ao Evangelho de São João, Livro I, §VI)

Essas dores de parto da Mulher demonstram o Cristo que é gerado em todos os cristãos, nos moldando a Cristo de tal forma a sermos como o discípulo amado, ao ponto que o próprio Cristo nos entregar a própria Mãe, que ele mesmo criou para ser seu tabernáculo. Na Cruz nos tornamos: Filhos de Deus e filhos de Maria, temos no céu um Pai, Deus Todo-poderoso, e uma segunda mãe, também humana, como a nossa, porém a mais perfeita delas. Se nossas mães não medem esforços orando por nós, o que não faz essa mãe, a mais bendita das mulheres?

Ela não sentiu as dores na hora do parto de Jesus, mas na Cruz foi o parir do novo povo de Deus, e ali ela sente as dores profetizada por Simeão:

“Simeão abençoou-os e DISSE A MARIA, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E UMA ESPADA TRANSPASSARÁ A TUA ALMA.” (São Lucas 2,34-35)

Se Cristo foi transpassado na carne, ela foi transpassada na alma, ao ver seu Filho inocente morrer, aí estão as “dores do parto” de Maria. No primeiro parto (o de Cristo) não houve dor:

Antes que tivesse dor de parto, deu à luz; antes que chegasse o tempo do parto, deu à luz um filho varão. Quem jamais ouviu tal?” (Isaías 66,7)

Mas ao nascer uma nação, os Cristãos, que renascem na morte de Cristo, veio as suas dores, profetizada por Simeão:

“Porventura nasce um povo num só dia? Nasce ao mesmo tempo uma nação inteira? Pois Sião, assim que sentiu as dores de Parto, deu à luz os seus filhos!” (Isaías 66,8)

Maria ganha um novo filho a cada novo membro da Igreja. Toda vez que alguém é batizado na morte de Cristo, nasce um novo discípulo amado, Filho de Deus e filho da Mulher: Maria Santíssima.

“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção filial.” (Gálatas 4,4)

Eis aí a descendência da Mulher: Jesus Cristo, e os que guardam o Testemunho de Jesus, e os mandamentos. Estes são os que o Dragão e sua descendência tanto perseguem. Guerra que estava declarada desde os primórdios:

“Porei ódio entre ti e A MULHER, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3,15)

“O María, fac ut vivam in Deo, cum Deo et pro Deo!”



Categorias:Mariologia

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