Colossenses 2,18 – O culto dos Anjos (e aqueles que proibiam casamentos e alimentos)

Escrito por Lucas Falango.

São Paulo na sua Epistola aos Colossenses previne os fiéis contra um “culto dos anjos” (Cl 2,18). Os protestantes então usam esse versículo fora do contexto para dizer que o ensino católico sobre os anjos (que é baseado na escritura) seria o obscuro “culto dos anjos” condenado por São Paulo. Em seu famoso livro “Legítima Interpretação da Bíblia”, o autor Lúcio Navarro faz uma excelente defesa sobre assunto, a qual transcreverei e depois farei mais alguns comentários com detalhes históricos para que o contexto fique ainda mais claro.

“Na Epístola aos Colossenses, S. Paulo está prevenindo os destinatários da sua carta contra certos visionários que ensinam doutrinas errôneas, alegando tê-las aprendido vendo anjos, a quem cultuam. Vejamos texto:

“Ninguém vos desencaminhe, afetando parecer humilde e dar culto aos anjos que nunca viu no estado de viador, inchado vãmente no sentido da sua carne, e sem estar unido com a cabeça, da qual todo o corpo, fornido e organizado pelas suas ligaduras e juntas, cresce em aumento de Deus” (Colossenses II-18 e 19).

O texto grego que usamos (edição de Nestle) diz assim: “Ninguém vos seduza, querendo, com a mortificação e o culto dos anjos, perscrutando o que viu”; sendo que há certos códices que trazem: “perscrutando o que não viu”; o que, por mais estranho que pareça, não altera o sentido:

Perscrutando o que não viu – quer dizer que estes homens de fato não receberam visão alguma.

Perscrutando o que viu – quer dizer que estes homens alegam ter visto alguma coisa (quando de fato não viram nada).

Trata-se apenas de hereges que sustentam teorias condenáveis e, para justificá-las, alegam que fazem mortificações e com isto conseguem ter visões de anjos, que os favorecem com revelações, quando na realidade não viram coisa alguma. São Paulo mostra que estes estão inchados na sua soberba, na sua presunção e estão separados do corpo místico da Igreja, cuja cabeça é Cristo. Concluir destas advertências feitas pelos Apóstolos contra certos e determinados hereges, visionários e enganadores, que não nos seja lícito fazer uma súplica aos anjos, é querer identificar duas coisas que nada têm a ver, uma com a outra.” (Lúcio Navarro, Legitima Interpretação da Bíblia, p. 529)

Vemos que na passagem São Paulo está se referindo a pessoas que não faziam parte da Igreja, não estavam unidas com a cabeça, mas fingiam ter revelações por meio de anjos para passarem por cima da autoridade e da doutrina estabelecida pela Igreja.

Essas práticas eram muito comuns, um registro interessante disso é o “Papyri Graecae Magicae” (Papiros mágicos gregos), um conjunto de papiros gregos encontrados no Egito do período entre o século II a.C. e o século V d.C., que contém uma inúmera quantidade de feitiços, hinos e rituais místicos.

Nesses papiros podemos ter uma melhor noção da prática que São Paulo estava condenando, “anjos” eram conjurados em rituais que envolviam complexas fórmulas, uso de ervas e sigilos (símbolos místicos) relacionados ao zodíaco, os “anjos” então revelavam visões proféticas e mensagens divinas. Os anjos não eram conhecidos apenas nas religiões abraâmicas, mas em diversas outras, alguns eram subordinados às divindades, outros, aos corpos celestes, mas nesse caso, eram provavelmente anjos dos chamados Aeons.

(Exemplo dos sigilos “angélicos” usados nos rituais)

Era esse tipo de prática que São Paulo estava acostumado a encontrar no mundo helênico, e era contra isso que São Paulo alertava, pois eram práticas comuns entre os círculos Gnósticos, uma religião mística em que havia ramos “judaicos” e “cristãos” que alegavam ter o verdadeiro ensino de Jesus Cristo através de revelações secretas. Eles são expostos e refutados na obra “Contra as Heresias” de Santo Ireneu de Lyon, e citados também na conhecida obra de Eusébio.

“[Segundo Basílides] Os Anjos que ocupam o céu inferior, o que nós vemos, fizeram todas as coisas do mundo, dividindo entre si a terra e os povos que se encontram nela. O chefe de todos é aquele que passa por Deus dos judeus. […] Também eles se servem da magia, dos encantamentos, das invocações e de toda prática mágica. Inventam nomes de Anjos e dizem que estes estão no primeiro céu, aqueles no segundo e assim a seguir, procurando expor os nomes, os Principados, os Anjos…” (Ireneu de Lyon, Contra as Heresias, livro I, cp. 24,4-5)

“Tivemos notícia de que na época supracitada Cerinto tornou-se o chefe de outra heresia. Caio, […] escreve a respeito dele, em sua Pesquisa: “Mas também Cerinto apresenta-nos dolosamente, como revelação escrita da parte de um grande apóstolo, narrações de coisas maravilhosas, que lhe teriam sido mostradas por intermédio de anjos.” (Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, livro III, cp. 28)

Vemos o tamanho da blasfêmia que ensinava algumas dessas seitas, anjos que seriam criadores do mundo e dos homens, e que o chefe desses anjos na verdade era mal, e se passava por deus dos judeus, eram a esses “anjos” que os gnósticos cultuavam, isso está absurdamente longe do ensino Católico sobre os anjos, a Igreja combateu veementemente a heresia desses grupos, que tomava diversas formas.

Esses vários grupos enfatizavam um conhecimento espiritual pessoal (gnosis) que os colocariam acima da doutrina ortodoxa, da tradição e das autoridades eclesiásticas, eles são os autores da maioria dos evangelhos e textos que chamamos de apócrifos, existiram inúmeros ramos, com inúmeras teologias diferentes (como as seitas de hoje), os líderes mais famosos foram: Simão Mago, Carpócrates, Basílides, Cerinto, Marcião e Valentim.

Alguns grupos desses hereges, que desde cedo incomodavam a Igreja, faziam uso de práticas extremas de mortificação para receber supostas visões (provavelmente delírios), pois consideravam o corpo uma prisão, e acreditavam que enfraquecendo a carne, libertariam o espírito, para assim terem acesso a revelações trazida pelos anjos emissários dos Aeons, entidades que acreditavam ser superiores ao Deus de Abraão, tido por eles como um impostor, o qual chamavam de Demiurgo, e seria o criador do mundo material.

Para eles Jesus era um desses Aeons, que veio nos ensinar a alcançar a gnosis que libertaria do mundo do Demiurgo. Por serem contra a matéria, eram também contra o matrimônio e a procriação, pois achavam que assim, uma alma do mundo espiritual seria aprisionada no mundo da matéria, e o ramo judaico dessa heresia ainda proibia os alimentos ditos impuros (essa heresia retorna no século XIV com os Cátaros, no sul da França, descendentes de uma seita gnóstica Búlgara, chamada de Bogomilos).

Era sobre eles que São Paulo alertava quando fala de certos homens que proibiam certos alimentos e o casamento (1 Tm 4,3). Os protestantes, sem analisar o contexto histórico, usam todos esses textos fora de contexto para atacar a Igreja Católica, para dizer que a abstinência periódica de certos alimentos, e a prática do celibato, ensinado e praticado pelo próprio Cristo, é a mesma coisa que esses hereges pregavam.

“Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mateus 19,12)

“Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se…” (1 Coríntios 7,7-9)

Pelo contrário, a Igreja ensina que o matrimônio é algo bom e sagrado, instrumento de santificação, e que os filhos são uma bênção de Deus; famílias numerosas são o ideal para quem tem condições. E na questão dos alimentos, não diferencia alimento puro ou impuro, ensina que toda a carne, seja bovina ou suína, é um excelente alimento, alguns alimentos apenas não são adequados para um período de abstinência, onde os alimentos muito nutritivos e saciantes quebram o propósito do Jejum, também ensinado por Cristo:

“Então os discípulos de João, dirigindo-se a ele, perguntaram: Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não? Jesus respondeu: Podem os amigos do esposo afligir-se enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o esposo. Então eles jejuarão.” (Mateus 9,14-15)

Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam.” (Mateus 6,16)

“Ele [Jesus] respondeu: Essa espécie de demônio não pode sair a não ser com oração e jejum.” (Marcos 9,29)

Vemos então que existe um celibato legitimo, uma abstenção de alimentos legitima, assim como uma honra legitima devida aos anjos, o que os grupos heréticos faziam (e fazem) eram pegar praticas da Igreja e distorcê-las, tirá-las do seu contexto e do seu propósito.

O próprio São Paulo diz que penitenciava o seu corpo com rigor e colocava isso como prática cristã.

“Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluí­do depois de eu ter pre­gado aos outros.” (1 Coríntios 9,25-27)

Mas sabemos que existiam os hereges que faziam isso de uma forma depravada e sem amor a Deus, praticamente suicida. É muita insensatez usar um versículo de contexto obscuro, e a partir da sua própria interpretação desconexa desse versículo, acusar que é exatamente a prática da Igreja Católica, como muitos fazem com os versículos de “proibir casamentos e alimentos”, sem ver que a própria escritura atesta práticas de celibato e abstinência de alimentos. A mesma coisa podemos dizer sobre os anjos, pois existe a veneração legítima, por serem servos de Deus, e pessoas que realmente receberam visões e revelações de anjos (Jacó, Daniel, São José), e existe porém, a distorção satânica de hereges, aos quais o Apóstolo Paulo condena em sua carta. Desde sempre a heresia nada mais é do que a distorção de uma verdade de Fé.

+ Viva Cristo Rei +

Bibliografia:

“The Greek Magical Papyri in Translation”, Hans Dieter Betz

“Contra as Heresias”, Ireneu de Lion

“Legitima Interpretação da bíblia”, Lúcio Navarro



Categorias:Refutações

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1 resposta

  1. Parabéns Lucas Falango, você serve ao Senhor com sua obra apologética…
    E o que demonstra no texto é bem acertivo, os Hereges fazem de modo errado as práticas, mas as práticas não são corrompidas por si, senão qual objetividade haveria na Religião, seria apenas subjetividade, e é isso que o Protestantismo fez e faz, não conseguindo discernir entre a substância em si e seus acidentes, julgam que a substância está corrompida sendo que os acidentes ( aparências, modos de fazer) é que estão sendo corrompidos pelos Hereges dos tempos bíblicos. O Protestantismo é uma confusão exegética de heresias filhas de Heresias…

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