PAGANIZAÇÃO OU PEDAGOGIA DIVINA?

Escrito por Lucas Falango.

Não é de hoje que é comum vermos certas acusações e conjecturas protestantes sendo baseadas na estética para atacar a Igreja Católica; seja no aspecto da liturgia, do sacerdócio, das vestes ou imagens sacras. Geralmente são comparações desonestas com artefatos de antigas culturas pagãs, para então fazerem a seguinte alegação: “se eu vejo uma semelhança na aparência, quer dizer que é a mesma coisa de fato”.

Porém, esse tipo de comparação prejudica todo cristianismo, como também a antiga religião hebraica, as sagradas escrituras, e toda a revelação divina. Não é à toa que os ateus tem tanto sucesso em produzir mais ateus nos meios protestantes, usando do mesmo veneno que os protestantes usaram (e continuam usando) contra a Igreja Católica.

Os ateus basicamente mostram certas semelhanças das sagradas escrituras com algum relato pagão, como por exemplo o Genesis e o Enuma Elish. Ou o diluvio bíblico com o relato do diluvio babilônico.

Por exemplo, o mitologia babilônica nos conta sobre um homem chamado Utnapistim, que foi encarregado por Enki (deus da água), para abandonar todas as suas posses e construir um navio gigante, pois viria um dilúvio sobre a terra, que acabaria com todos os animais e os seres humanos, após o navio parar em uma montanha, Utnapistim também envia uma pomba e um corvo para verificar se havia terra seca. É impossível negar a similaridade com o relato de Noé, o ateu então diz: “Observem as semelhanças, claramente a história de Noé é um plagio, não acredite nas mentiras do cristianismo!”

E então, o cristão inocente (geralmente protestante), perde completamente a sua Fé, pois tinha uma concepção errônea da Bíblia, entendendo-a como um livro pronto que caiu do céu. Ele então passa a acreditar que a Bíblia é um mero plagio do paganismo, e que tudo que ele viveu foi baseado em uma mentira milenar.

Mesmo assim, os protestantes continuam a atacar a Igreja Católica com esse tipo de conjectura venenosa, porém quando veem isso na própria Bíblia, eles se fazem de cegos, varrem tudo para debaixo do tapete, o rigor que eles aplicam a Fé alheia, eles não aplicam ao próprio livro que eles dizem ser a única regra de fé.

Qualquer um que estude com honestidade o desenvolvimento histórico do culto hebraico, percebe que toda a liturgia que Deus revela no Pentateuco aos levitas, é derivada do paganismo, e nem por isso a religião se tornou pagã.

É comum ouvirmos argumentos do tipo: “A Igreja dos apóstolos era simples, era na casa das pessoas, não tinha nada desses rituais, símbolos, era tudo muito espontâneo, sem hierarquias…” (não era bem assim, mas vamos relevar pelo bem do argumento)…

Porém podemos dizer a mesma coisa do culto hebraico, que começou nas casas, com os próprios patriarcas como sacerdotes, sacrificando em cima de uma pedra nas montanhas (prática que foi posteriormente condenada na lei mosaica), e terminou com um grandioso templo, com uma classe sacerdotal, hierarquia, roupas sacerdotais, incenso, imagens, símbolos, rituais de purificação, sacrifícios padronizados e uma rigorosa prática litúrgica.

Deus em sua pedagogia divina continuou esse padrão também para o cristianismo, aproveitando a arte, a arquitetura, a filosofia e até o idioma e a escrita dos pagãos, para coloca-las a serviço do Evangelho. Vejamos então algumas similaridades interessantes que Deus, em sua infinita sabedoria, soube utilizar para nos revelar seu plano divino.

O Leviatã, e o Combate entre Deus(es?) e a Serpente.

Grande parte dos mitos pagãos nos mostram deuses que enfrentaram serpentes ou dragões, geralmente entidades que personificavam o caos, vemos esses pontos em comum em culturas que nunca tiveram contato algum entre si.

A cultura dos Cananeus nos relata a história onde Baal combate Leviatã; a cultura babilônica nos relata sobre o combate entre Marduk e Tiamat; a cultura nórdica: Thor e Jörmundgander; a cultura Grega: Zeus e Tifão; a cultura Egípcia: Set e Apófis; a cultura Japonesa: Suzanoo e Yamata no Orochi. E por aí vai, podemos dizer que há relatos de um combate cataclísmico entre um poderoso deus e uma temível serpente do caos em basicamente todas as mitologias do mundo.

Na cultura Cananeia, Baal era conhecido por matar um dragão de sete cabeças chamado Lotan, que pelos hebreus era chamado de Leviatã. Por incrível que pareça, a Bíblia nos mostra [1] essa mesma característica sendo aplicada ao Deus de Israel (YHWH) esmagando Leviatã, exatamente como Baal.

“Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!” (Jó 3,8)

“Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a língua com uma corda?” (Jó 41,1)


“Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar.” (Salmo 74,14)

“Esmagaste e mataste o Monstro dos Mares; com teu braço forte dispersaste os teus inimigos.” (Salmo 89,10)

“Naquele dia o Senhor ferirá, com sua espada pesada, grande e forte, Leviatã, o dragão fugaz, Leviatã, o dragão tortuoso; e matará o monstro que está no mar.” (Isaías 27,1)


“Desperta, braço do Senhor, desperta, recobra teu vigor! Levanta-te como nos dias do passado, como nos tempos de outrora. Não foste tu que esmagaste Raab e fendeste de alto a baixo o Dragão?” (Isaías 51,9)

No Apocalipse vemos o combate do exército celeste e do cavaleiro branco (Jesus) contra a Besta escarlate de sete cabeças, o que é uma referência ao Leviatã, pois essa entidade era representada pelos pagãos com sete cabeças, o Apocalipse parece nos mostrar que quem deu poder a essa Besta, símbolo do paganismo, foi o Dragão (também com sete cabeças), que João diz ser o próprio Satanás.

“Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.” (Apocalipse 12,3)

“Vi, então, levantar-se do mar uma Besta que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre os chifres, dez diademas; e nas suas cabeças, nomes blasfematórios.” (Apocalipse 13,1)

Será que a Bíblia foi paganizada pelo culto cananeu e absorveu as histórias de Baal? Transformando a religião pura do “judaísmo primitivo” em um sincretismo pagão? É o que parece ao olho cético, e é exatamente o que diriam os protestantes se fosse para fazer conjecturas contra a Igreja católica, para provar que o “cristianismo primitivo” foi paganizado em um sincretismo pagão romano (mesmo que todos os escritos apostólicos e pré-nicenos deixem claro que não é verdade), mas como já dissemos, eles são incapazes de aplicar o seu zeloso rigor “purista” quando isso os afeta. Mas enfim, então o que são essas semelhanças? Paganização? Ou a pedagogia divina em ação?

Houve sim um combate entre Deus e a Serpente, não como o combate cataclísmico que as mitologias foram distorcendo da verdade original, mas um combate que vem desde os primórdios, essa semente do Verbo, ficou como que encubada em todas as culturas pagãs, uma lembrança de uma verdade primordial, de que havia um Deus poderoso que combatia uma serpente que trazia a destruição ao mundo.

“Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e feras do campo; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.” (Gênesis, 3,14-15)

Esse combate é revelado na perspectiva de Deus no livro do Apocalipse

“Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (Apocalipse 12,7-9)

Os profetas usaram então essa figura da mitologia pagã para explicar o poder de Deus, e seu conflito com Satanás, o inimigo da humanidade.

Arca da Aliança, Ídolo oficial de Israel?

No livro do Êxodo, Deus ordenou a Moisés que construísse uma arca de 123 cm de comprimento, 74 cm de altura e 74 cm de largura, na tampa, dois Querubins esculpidos com as asas estendidas, de proporções provavelmente similares, pois formavam um trono para o Senhor. A Arca da Aliança pode parecer única e incomum para quem não conhece o “plano de fundo histórico” em que os Hebreus estavam, porém, ter uma “caixa” ornamentada como um altar móvel, sendo um objeto central do culto, tem precedência na religião pagã do antigo Egito [2].

As arcas eram uma parte central da prática religiosa egípcia. Usadas também para o sepultamento, cada uma pertencendo a uma divindade diferente, dentro, colocavam-se amuletos, relíquias, tábuas devocionais e cerimoniais (estelas) dos respectivos deuses [3], e também vasos com restos mortais do falecido. Para os egípcios, essas arcas eram símbolos da salvação, garantia da vida após a morte. E a mesma coisa vemos na arca do Senhor, onde foram colocados os símbolos da aliança que salvou os Hebreus da escravidão e da morte.

“Aí estava o altar de ouro para os perfumes, e a Arca da Aliança coberta de ouro por todos os lados; dentro dela, a urna de ouro contendo o maná, a vara de Aarão que floresceu e as tábuas da aliança.” (Hebreus 9,4)

Os deuses egípcios tinham suas próprias Arcas, que funcionavam como Altares e ficavam em pedestais no Santo dos Santos de seus templos. Durante os festivais religiosos, esses baús sagrados eram levados em procissão por sacerdotes.

Um exemplo disso pode ser visto hoje no Santo dos Santos do Templo de Edfu, onde há uma arca, em forma de um pequeno barco, com postes salientes pelos quais podia ser transportado nos ombros. A mesma coisa vemos na Arca da Aliança do Senhor.

“Os sacerdotes e levitas santificaram-se, portanto, para fazer subir a arca do Senhor, Deus de Israel. E os filhos de Levi, como o tinha ordenado Moisés, segundo a palavra do Senhor, levaram a arca aos ombros, por meio de varais.” (1 Crônicas 15,14-15)

Por serem altares portáteis, também eram levadas em batalhas, e rituais eram feitos para invocar os deuses e garantir apoio divino, vemos o mesmo padrão com a Arca de Deus:

Quando a arca do Senhor entrou no acampamento, todo o Israel rompeu num grande clamor, que fez tremer a terra. Os filisteus, ouvindo-o, disseram: Que significa esse grande clamor no acampamento dos hebreus? E souberam que a arca do Senhor tinha chegado ao acampamento. Então tiveram medo e disseram: Deus chegou ao acampamento. Ai de nós! Até agora nunca se viu coisa semelhante!” (1 Samuel 4,5-7)

“Partiram da montanha do Senhor e caminharam três dias. Durante esses três dias de marcha, a arca da aliança do Senhor os precedia, para lhes escolher um lugar de repouso. A nuvem do Senhor estava sobre eles de dia, quando partiam do acampamento. Quando a arca se levantava, Moisés dizia: “Levantai-vos, Senhor, e sejam dispersos os vossos inimigos! Fujam de vossa face os que vos aborrecem!” Quando, porém, se detinha, dizia: “Voltai, Senhor, para a imensa multidão de Israel!” (Números 10,33-36)

Vemos o tamanho da veneração que esse povo tinha para com um objeto sagrado, uma reles caixa de ouro, com duas imagens de escultura, que tinham boca e não falavam, asas e não voavam, figuras do verdadeiro no céu, mera obra da mão de homens (Hb 9,11.24).

Diante disso, o rigor iconoclasta protestante simplesmente desaparece, só restam sofismas e piruetas bíblicas (o Salmo 115 se torna um tiro no pé). Se usassem do mesmo rigor que usam contra a Igreja Católica para as próprias Escrituras, eles não fariam tantas acusações sem sentido, ou teriam que chegar à conclusão de que a Arca era uma espécie de “ídolo oficial” de Israel, e deveriam se perguntar como acreditam em algo tão contraditório.

Ou percebem o absurdo da interpretação sem nexo e anti-histórica que fizeram, e aceitam que Deus ensinou os hebreus a fazerem um Ícone do seu trono (e dos seus servos) para representar uma realidade celestial (Ez 1,1-28) e transcendente, a partir da arte e dos hábitos pagãos preexistentes.

(A representação dos querubins que vemos na arca da aliança, também são um elemento do paganismo egípcio, como vemos na foto dessa arca encontrada no Templo de Hatexepsute, o segundo desenho é uma representação mais provável da Arca da Aliança, de acordo com a cultura que os Hebreus estiveram imersos por séculos.)

O Senhor emprestou aspectos da cultura egípcia com os quais os hebreus estavam familiarizados, e as redefiniu. A Arca da Aliança tem origem nas arcas pagãs, mas nem por isso a Arca se torna um ídolo, o mesmo podemos dizer sobre os ícones e a arte sacra adotados desde os primórdios do cristianismo.

O Senhor, como um Pai atencioso, repetidamente “desce” ao nível cultural do povo, para revelar a Sua verdadeira natureza e seu plano de salvação.

Sacerdócio, Clero.

Como já dissemos o culto cristão começou nas residências (Fm 1,2) e só depois desenvolveu lugares próprios, geralmente casas maiores, adaptadas e reservadas apenas para a função da reunião da Igreja, alguns defendem que deveria ser assim até hoje, e que a história cristã deveria ser uma eterna repetição do período primitivo.

Porém o culto hebraico começou da mesma forma, no meio familiar, com os próprios patriarcas como sacerdotes, sacrificando em altares improvisados nas pedras, em cima de montanhas (prática que foi posteriormente condenada na lei mosaica), e terminou com um grandioso templo, com uma classe sacerdotal, hierarquia, roupas sacerdotais, incenso, imagens, símbolos, rituais de purificação, sacrifícios padronizados e uma rigorosa prática litúrgica.

Esses elementos não brotaram do nada, Deus transformou as características e práticas sacerdotais que eram vistas nos povos vizinhos, egípcios, babilônios, assírios, hititas, etc. para criar o seu próprio sacerdócio, e assim o povo criou uma identidade tribal própria, para não se misturarem com os cultos e deuses pagãos, como fizeram quando adoraram o bezerro de ouro, que era nada mais que o culto egípcio ao deus Ápis.

As vestes sacerdotais (Ex 28,1-43), mantos, mitras e tiaras foram todas assimiladas do sacerdócio pagão das culturas vizinhas, um caso interessante era o Efod, uma espécie de estola, usada em um ritual para saber a vontade de Deus, mas que era um elemento muito presente no culto dos Ídolos, usado para se comunicarem com os deuses.

Estão presentes também no paganismo os mesmos utensílios litúrgicos como taças, incensários, jarros para libações e tudo mais o que era necessário para o sacrifício e purificações rituais.

(A esquerda: Sacerdote Pagão, e a direita: Sacerdote Hebreu)

Deus padronizou o culto no templo, usou um complexo sistema de oferendas de alimentos, incenso e sacrifício animal que também eram presentes no culto pagão, e transformou em uma forma de ensinar o que viria a ser o verdadeiro sacrifício, quando viesse a plenitude dos tempos (Gl 4,4).

A ideia de oferecer o melhor da sua produção, o melhor cordeiro, o melhor grão, não era porque Deus tirava algum proveito disso (ao contrário do que pensava os pagãos a respeito dos seus deuses), mas para ensinar a dependência total do homem a Deus, e reconhecer que tudo que ele conquistou era porque Deus soberano permitiu.

Ele ensinou que esses sacrifícios deveriam sempre estar acompanhados de amor e arrependimento dos pecados, isso sim era o essencial, e não a casca externa do culto.

Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar.” (Salmos 50,18-19)

“De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?” – diz o Senhor – Já estou farto de holocaustos de cordeiros e da gordura de novilhos cevados. Eu não quero sangue de touros e de bodes. Quando vindes apresentar-vos diante de mim, quem vos reclamou isto: atropelar os meus átrios? De nada serve trazer oferendas; tenho horror da fumaça dos sacrifícios. As luas novas, os sábados, as reuniões de culto, não posso suportar a presença do crime na festa religiosa. Eu abomino as vossas luas novas e as vossas festas; elas me são molestas, estou cansado delas. Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos.” (Isaías, 1,11-16)

Ainda assim não significa que ele desprezava o sistema que ele mesmo criou (Deus não é contraditório), por muitas vezes Deus se mostrou extremamente feliz com a magnificência do Templo, do culto, dos objetos sagrados, as obras de arte, e pôs a sua nuvem de glória sobre tudo isso, ou seja, glorificou e habitou no Templo.

“Levaram-na, assim como a tenda de reunião e todos os utensílios sagrados que havia no tabernáculo; tudo foi carregado pelos sacerdotes e levitas. O rei Salomão e toda a assembleia de Israel reunida junto dele conservavam-se diante da arca. Sacrificavam tão grande quantidade de ovelhas e bois que não se podia contar. […] Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam ali ficar para exercer as funções de seu ministério; porque a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor. […] o Senhor disse-lhe: ‘Quando tiveste a intenção de edificar um templo ao meu nome, fizeste bem.” (1 Reis 8,4.5.10.11.18)

Também Jesus em nenhum momento condenou o culto externo, o incenso, os símbolos e as liturgias, o que ele condenou foi a corrupção moral do sacerdócio, a desvirtuação do objetivo do culto (que era amar a Deus), como os fariseus que não cuidavam dos pais pois fingiam dedicar o dinheiro a Deus (Mt 15,5), ou os que juravam pelo ouro do templo (Mt 23,16) e não pelo Templo. Ou até os que ocupavam os espaços de oração no templo para lucrar. (Lc 19,45)

Jesus ensinou que antes de tudo, deveria haver em primeiro lugar o amor a Deus e ao próximo, esses são os adoradores em espírito e verdade (Jo 4,23), sem isso de nada serve nenhum tipo de externalização do culto. Porém ele nunca condenou o culto público, ou a liturgia, ou os símbolos religiosos, vemos que a Igreja cristã já nasceu com uma liturgia na hora de celebrar a Eucaristia, que foi se desenvolvendo com o tempo, mas sem perder a sua essência espiritual.

Enquanto celebravam o culto do Senhor (Λειτουργούντων), depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado. (Atos 13,2)

O termo usado aqui tem a raiz em λειτουργέω (leitourgeó), de onde temos o termo liturgia, o mesmo termo é usado para se referir ao serviço dos sacerdotes levitas no antigo templo. Ou seja, no culto a Deus eles executavam uma liturgia.

Temos um altar do qual não têm direito de comer os que se empregam no serviço do tabernáculo {mosaico}.” (Hebreus 13,10)

Altar é onde se oferece um verdadeiro sacrifício, não um mero púlpito de onde se faz sermão, ou seja, os apóstolos celebravam uma liturgia em um altar, onde era oferecido um sacrifício em uma espécie comestível. Para quem é de uma Igreja apostólica (Católica, ortodoxa, copta etc.), ou protestante de origem Anglicana e Luterana, sabe muito bem do que está sendo tratado: a Eucaristia, o ponto central do culto visível.

Temos o relato desse culto litúrgico continuando e se aprimorando na Igreja primitiva, nas cartas de Santo Inácio de Antioquia, São Justino mártir e outros. A arqueologia nos brindou com a descoberta das catacumbas e até de igrejas perfeitamente conservadas nas areias do deserto (dura-europus), que nos prova claramente que o cristianismo nunca dispensou um culto externo, nem os símbolos e a iconografia, muito menos o clero organizado e ordenado, que ensina a doutrina universal e oferece o culto externo a Deus. Os que repudiam essas coisas hoje em dia são inovadores, com um espírito revolucionário, avessos a ordem e a hierarquia, que sempre foram características prezadas por Deus, pois Ele não é Deus de confusão.

Alguns (como os protestantes) objetam dizendo que todos os cristãos são sacerdotes, e que então qualquer um pode muito bem se autonomear ministro e sair regendo a própria igreja conforme bem entender. Para isso distorcem textos como a epístola de Pedro.

Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. […] Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa.” (1 Pedro 2,5.9)

Porém o argumento é extremamente falho, se isso fosse verdade a mesma coisa deveria ser verdadeira na antiga Israel, pois Pedro está parafraseando o livro do Êxodo, onde é dito que todos os hebreus eram uma nação santa, e nação de sacerdotes, mas nem por isso todos eram sacerdotes stricto sensu, mas somente os levitas que foram consagrados.

“Se obedecerdes à minha voz, e guardardes minha aliança, sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é minha, mas vós me sereis um reino de sacerdotes e uma nação santa. Tais são as palavras que dirás aos israelitas.” (Êxodo 19,5-6)

Houve no passado quem tenha feito objeção muito parecida com a que os protestantes fazem hoje: de que todos poderiam ser sacerdotes, pois eram santos como todo mundo.

“Levantaram-se contra Moisés, juntamente com outros duzentos e cinquenta israelitas, príncipes da assembleia, membros do conselho e homens notáveis. Dirigiram-se, pois, em grupo a Moisés e a Aarão, dizendo-lhes: “Basta! Toda a assembleia é santa, todos o são, e o Senhor está no meio deles. Por que vos colocais acima da assembleia do Senhor?”.” (Números 16,2-3)

Essa foi a revolta de Coré, e sabemos muito bem qual foi o destino dos revoltosos, foram levados vivos ao inferno (Nm 16,33). Um aviso de Deus para quem tenha a pretensão de usurpar uma função que não lhe é de direito.

“O sacerdote Eleazar tirou, pois, os turíbulos de bronze que os homens consumidos pelo fogo tinham apresentado ao Senhor, e fez deles lâminas para cobrir o altar. Isso devia servir de memorial para os israelitas, a fim de que nenhum estranho à linhagem de Aarão, se aproximasse para oferecer incenso ao Senhor, temendo lhe acontecesse o mesmo que a Coré e a seus homens, como o Senhor tinha declarado pela boca de Moisés.” (Números 16,39-40)

“Resistiram ao rei Ozias e lhe disseram: Não compete a ti, Ozias, queimar incenso ao Senhor, mas aos sacerdotes da estirpe de Aarão, que foram consagrados para esse fim. Sai do santuário, porque prevaricaste, e isso não será para ti honra diante do Senhor Deus. Então Ozias, tendo na mão o turíbulo, encolerizou-se; mas, durante esse acesso de cólera, apareceu a lepra em sua fronte, ali, no templo do Senhor, na presença dos sacerdotes, diante do altar dos perfumes.” (2 Crônicas 26,18-19)

Fica muito claro que mesmo Deus tendo chamado toda a nação Israelita de santa, e todo o povo de sacerdotes, celebrar o culto externo não era direito de todos, a mesma coisa serve para os cristãos, pois a epístola de Pedro está fazendo uma óbvia referência a passagem do Êxodo. Apesar de todos os cristãos serem sacerdotes de uma nação santa, quem não recebeu a imposição de mãos e adentrou o presbiterado ou o episcopado, não tem o direito de se arrogar sacerdote no sentido de celebrar o culto externo, na antiga Israel havia diferença nas funções mesmo entre os levitas.

É verdade que assim como Deus chamou todos de Israel de nação de sacerdotes, chamou a nós, mas para prestarmos o sacerdócio interno, o sacrifício e culto espiritual, a Igreja nunca escondeu isso dos fiéis como pregam alguns conspirólogos do protestantismo:

“[…] Relativamente ao sacerdócio interno, todos os fiéis são considerados sacerdotes, a partir do momento em que receberam a regeneração do Batismo; mas, de primazia, os justos que possuem o Espírito de Deus, e pela graça de Deus se tornaram membros vivos de Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote. São eles que, no altar de seus corações, oferecem a Deus sacrifícios espirituais, naquela fé que se abrasa na caridade.” (Catecismo Romano, II, § 23)

Esta igualdade entre todos os cristãos que pregam os protestantes é totalmente antibíblica, pois o próprio Cristo separa apenas doze homens, do meio de todos os seus discípulos, os doze receberam o título de Apóstolos, e a eles revelou coisas que a outros não era permitido saber (Mt 13,11), durante a santa ceia, deu apenas a eles o poder de realizar o mistério eucarístico (Lc 22,19), também apenas aos doze, em portas fechadas ele deu o poder de perdoar pecados (Jo 20,23), fazendo deles ministros de Cristos e despenseiros dos mistérios de Deus (1 Cor 4,1), todos os que receberam essas funções posteriormente, receberam por sucessão dos próprios Apóstolos (Atos 1,15-26), pela imposição de mãos (Atos 6,1-6; 1 Tm 4,14; 1 Tm 5,22; 2 Tm 1,6). Toda a história do Cristianismo e a própria escritura diferencia entre o rebanho e os pastores (Jo 21,15; Ef 4,11; At 20,28; Hb 13,17).

Esse hábito de separar homens dentre o povo e constitui-los autoridades religiosas, é um habito pagão, que Deus aplicou na antiga Israel, pois antes a função era feita por qualquer patriarca, Deus aplicando essa prática pagã em Israel, designa apenas os sacerdotes para ministrar a liturgia, pastorear e ensinar (Ne 8,8; Ml 2,7). A mesma coisa na nova aliança, quando Cristo passa essas funções aos Apóstolos, e aos discípulos como auxiliares dos Apóstolos (sucedidos pelos bispos e diáconos), eram diferentes daqueles que eram apenas fiéis, mas diferentes pela missão recebida na ordenação, e não por nenhum dom intrínseco de alguns poucos escolhidos e “iluminados”, como faziam os gnósticos. Todo o fiel, até hoje, pode se oferecer para fazer parte do ministério em algum nível.

Vemos que o sacerdócio é uma prática que Deus em sua infinita sabedoria, aproveitou das culturas pagãs e aplicou ao seu próprio povo, para depois aplicar (de modo até mais brando) na sua Igreja, para que assim se mantivesse a ordem e a unidade, e nem por isso vamos dizer que o novo ou velho testamento foi paganizado.

Conclusão

As influencias não param por aí, o Salmo 28 (29) por exemplo, foi extraído de um canto cananeu dedicado a Baal [4], e foi adaptado para louvar ao Deus de Israel, e isso não torna os salmos ou a Bíblia em algo pagão. O próprio São Paulo ressignificou cantos e poemas pagãos dedicados a Zeus, dos poetas Epimênides, Cleanto e Arato (Atos 17,28), para dar culto ao verdadeiro Deus, e catequizar os pagãos no Areópago.
Porque não vemos os protestantes dizendo que isso é paganização, e que Paulo é um grande herege a ser combatido, como fizeram os judaizantes Ebionitas?

Pelo contrário, os primeiros Cristãos, seguindo a sabedoria de São Paulo, seguiram essa prática, não de paganizar o cristianismo, mas de cristianizar o que era pagão, dando um significado cristão aos seus símbolos, podemos dizer que Cristo em sua infinita sabedoria, batiza até mesmo as culturas dos povos convertidos.

A própria identificação feita por São João, de Jesus Cristo como Logos (o Verbo), vem da Filosofia Grega, conceito que já vinha influenciando até mesmo os filósofos judeus como Fílon de Alexandria. Enfim, se fôssemos listar todas as semelhanças e influencias, poderíamos escrever um livro inteiro.

Se sabemos que o velho testamento prefigura o novo, podemos ver que certos desenvolvimentos nas práticas cristãs eram esperados, nas práticas litúrgicas, na melhor explicação da doutrina etc. Doutrinas como a Trindade foram definidas quase 400 anos depois de Cristo, e nem por isso essas doutrinas são um desvio, elas são um esclarecimento da Fé ortodoxa.

Lembrando que Cristo está com a Igreja todos os dias até o fim (Mt 28,20), alegar que a Igreja se corrompeu, ou que foi substituída por uma falsa no andar da história é uma estultícia tremenda.

Ficar alegando que os objetos sagrados e a aparência do culto católico indicam uma suposta paganização, só prova a ignorância dessas pessoas com relação a Deus, as escrituras, a história sagrada, e a pedagogia divina na história da salvação. E para serem honestos, precisariam repudiar todo o Velho Testamento, como fez Marcião e seus seguidores.


Bibliografia:

[1] Outras referências ao Leviatã, cf: Jó 7,12; Jó 26,13; Jó 41,1; Sl 104,26; Amós 9,3.

[2] https://faculty.washington.edu/snoegel/PDFs/articles/noegel-ark-2015.pdf

[3] http://www.touregypt.net/featurestories/stela.htm

[4] Novo Comentário Bíblico São Jeronimo, Velho Testamento (p. 1043-1044 § 47)



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