A INTERCESSÃO DE RAQUEL

Escrito por Lucas Falango

Um texto pouco usado pelos católicos, mas que é muito conhecido pelos judeus é o de Jeremias 31,15; ele nos relata a matriarca Raquel implorando a Deus em prantos pelos filhos de Israel; Raquel foi mulher do Patriarca Jacó, e morreu por volta de 1553 a.C.

“Raquel expirou e foi sepultada no caminho de Efrata, hoje Belém.” (Gênesis 35,19)

Mas inesperadamente ela é mencionada novamente por Jeremias (650-570 a.C.), como alguém que se importa e zela pelo destino dos seus filhos (o povo judeu). Deus responde positivamente a sua intercessão, e promete a Raquel que seus filhos voltariam do exílio.

“Isto diz o Senhor; foram ouvidas, no alto, vozes de lamentação, de pranto e de choro; são de Raquel, que chora os seus filhos, e não quer ser consolada acerca deles, porque já não existem. Isto diz o Senhor: Cesse a tua boca de se lamentar, e os teus olhos de verterem lagrimas, porque as tuas obras terão a sua recompensa, diz o Senhor, e eles voltarão da terra do inimigo.” (Jeremias 31,15-16)

As traduções trazem também “Ramá”, pois o hebraico (רָמָה) pode significar tanto uma cidade chamada Ramá (haviam várias), mas também literalmente  “no alto”, e que nessa passagem podemos entender como “no céu”, seguimos aqui a Vulgata de São Jeronimo, pois ele tinha grande familiaridade com a língua hebraica e muita proximidade com os rabinos e a cultura judaica. E assim também muitos Judeus interpretam o texto até hoje, Ramá, o lugar alto, é o Monte Sião (Hb 12,22; Ap 14,1), o paraíso (na época, o Seio de Abraão) e não a mera localização de onde ela estaria enterrada.

É claro que a primeira reação de alguns é alegar que tudo isso é simbólico, misteriosamente nesses momentos a bíblia não pode ser clara e objetiva, absolutamente tudo é na verdade um símbolo ou uma metáfora. Porém, como mostraremos mais adiante, muitos Judeus interpretam o texto da mesma maneira que estamos expondo aqui, e não só eles, mas também São Mateus, quando escreve:

“Então cumpriu-se o que foi dito pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem.” (Mateus 2,17-18)

Observem que Mateus não está dizendo que Raquel ao lamentar seus filhos era uma “idealização”, ou um símbolo dos judeus que passavam diante da sepultura da matriarca a caminho do exilio, como querem interpretar os exegetas modernos, ele diz: cumpriu-se, isto é, aplica o texto para a sua época, Raquel estava verdadeiramente testemunhando o massacre dos inocentes, e se lamentando em prantos diante de Deus. Obviamente o Evangelista não negaria a aplicação histórica da passagem (a diáspora), podemos dizer que para São Mateus a ação de Raquel pelos filhos de Israel era uma missão contínua.

A clássica obra protestante, “The Pulpit Commentary”, faz o seguinte comentário:

“Uma voz foi ouvida; ao contrário, é ouvida. É um particípio, indicando a continuidade da ação. Em Ramá. Na vizinhança de qual cidade Raquel foi enterrada, de acordo com 1 Samuel 10,2 (“a cidade” onde Samuel e Saul estavam – 1 Samuel 9,25 – parece ter sido Ramá). Raquel chorando por seus filhos. Raquel […], sendo a ancestral das três tribos, Efraim, Manassés e Benjamim, é representada como se sentindo uma mãe para todas as tribos ligadas a essas três. Seu “choro” não é mera figura de linguagem. Jeremias acredita que os patriarcas e homens santos da antiguidade continuam a se interessar pela sorte de seus descendentes.

Esse detalhe gramático também foi notado pelo Pe. Luís Alonso Schökel, especialista no idioma hebraico, quando traduziu na Bíblia do Peregrino: “em Ramá se escutam [נִשְׁמָע֙] gemidos e pranto amargo”, indicando continuidade na ação e corroborando a aplicação do texto feita pelo Evangelista.

Isso reflete a origem de Mateus, pois a crença de que os justos continuavam a velar sob os seus, mesmo após a vida terrena, não é uma ideia Católica, muito menos uma “paganização de Constantino”, e sim a fé dos antigos judeus, que viam em seus tzadikim (צדיקים – justos), exemplos a serem estudados e imitados com grande veneração, para eles, tais homens jamais cessavam de interceder.

Alguns sites religiosos judaicos e até de turismo comentam sobre a fama do túmulo de Raquel:

“Ao longo dos anos, o túmulo de Raquel tem sido um local de peregrinação para judeus, especialmente mulheres incapazes de dar à luz. Uma tradição judaica diz que as lágrimas de Raquel têm poderes especiais, inspirando aqueles que visitam seu túmulo a pedir que ela chore e interceda a Deus.”

https://www.seetheholyland.net/tomb-of-rachel/

“Desde a época de seu enterro – há mais de 3000 anos, o túmulo de Raquel sempre foi um lugar especial para a oração. Até hoje, homens e mulheres vão ao túmulo de Raquel para derramar lágrimas e implorar à “Mãe Raquel” que interceda a Deus em seu favor – pela saúde de um ente querido ou pela Intervenção Divina para os necessitados.”

https://www.rashbi.org/holysites-kever-rachel

“Por milhares de anos, os judeus aliviaram seus corações com Raquel Imeinu – e tiveram suas orações atendidas. […] Em seu mérito – no mérito de seu amor por sua irmã Lia, e no mérito de sua recusa em envergonhá-la com grande sacrifício pessoal – O Todo-Poderoso anulou Seu decreto. Para ela, Hashem disse – מנעי קולך מבכי – pare de chorar, porque suas orações foram ouvidas. E elas continuam a ser ouvidas até hoje.”

http://www.keverrachel.com/content.asp?lang=en&pageid=1

“O túmulo de Raquel está localizado na cidade de Belém, ao sul de Jerusalém. Por séculos, ficou na beira de uma estrada deserta, e os descendentes de Raquel vinham para derramar seus corações para ela – a mãe que mora em uma sepultura solitária à beira da estrada para estar lá para seus filhos que sofrem. Raquel é uma fonte contínua de conforto para seus filhos – orando por eles e solicitando a promessa divina do retorno de seus filhos à Terra Prometida. […] Homens e mulheres, em partes separadas da sala, se aproximam do monumento coberto por panos e sussurram seus sofrimentos ocultos à Raquel Imeinu (Raquel Nossa-Mãe).”

https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/602502/jewish/Rachels-Tomb-Kever-Rachel.htm

(Peregrinos na entrada da tumba de Raquel, venerado como o terceiro local mais sagrado do judaísmo.)
(Parte interior do sepulcro em dia movimentado.)

Conclusão

Honrar os homens santos e agraciados por Deus veio da religião hebraica para o cristianismo primitivo, pois os primeiros convertidos eram judeus. São Mateus demonstra essa fé, cria que a matriarca continuava a interceder e se interessar por eles na eternidade. E Jesus demonstra a mesma coisa ao contar o relato do Rico e do Lázaro, onde Abraão aparece ciente do que acontecia no mundo e o rico intercedia pelos irmãos mesmo estando condenado (até mesmo rogando pela intercessão de Abraão). Vemos então que essa realidade é presente já no Velho Testamento, o mesmo Jeremias fala em outra passagem que Moisés e Samuel poderiam se apresentar diante de Deus para interceder:

“Disse-me, então, o Senhor: Mesmo que Moisés e Samuel se apresentassem diante de mim, meu coração não se voltaria para esse povo. Expulsai-o para longe de minha presença! Que se afaste de mim!” (Jeremias 15,1)

Essa passagem sobre Moisés e Samuel não pode ser interpretada isoladamente como uma suposição, ou figura de linguagem, e sim pelo contexto do livro todo, já que a passagem de Raquel apresenta a intercessão dos santos como uma realidade.

Também o esforço (herético) dos protestantes de objetar os deuterocanônicos se torna inútil, já que um livro do próprio cânone palestino demonstra essa realidade da intercessão dos santos que eles tanto objetam, e que para isso, rejeitam o livro¹ dos Macabeus, que é legitima palavra de Deus, e que prova a fé apostólica cabalmente:

“Eis o que tinha visto: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu. Depois disso apareceu também outro homem, admirável pela idade e glória, e cercado de grande beleza e majestade: Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus. E Jeremias, estendendo a mão, entregou a Judas uma espada de ouro, dizendo estas palavras ao entregá-la: Toma esta santa espada que Deus te concede e com a qual esmagarás os inimigos.” (2 Macabeus 15,12-16).

Que todos os santos patriarcas e matriarcas roguem por nós a Cristo, pela conversão dos filhos de Israel, e dos filhos de Lutero! Amém.

Notas:
[1] : As escrituras usadas pelos apóstolos com certeza continham esses livros, pois 85% das citações veterotestamentárias são tiradas diretamente da Septuaginta, e todos os códices bíblicos antigos encontrados incluem esses livros. O próprio Novo Testamento reflete o uso dos livros deuterocanônicos, as alusões detectadas pelo “Novum Testamentum Graece” de Nestle (acadêmico protestante) incluem Eclesiástico, Sabedoria, 1 e 2 Macabeus e Tobias. Na Enciclopédia Judaica, São Paulo é acusado de ser um Helenista, um dos motivos é justamente por detectarem em suas cartas o uso da literatura deuterocanônica como: Sabedoria de Salomão, Judite e Eclesiástico.

Bibliografia:

https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1054236/jewish/O-Tmulo-de-Rachel-Kever-Rachel.htm

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