Defendendo o Livro de Judite: Nabucodonosor, rei da “Assíria”

Traduzido por Lucas Falango

Nabucodonosor, rei da Assíria, é o que diz o primeiro versículo do livro de Judite:

“No décimo segundo ano do reinado de Nabucodonosor, que governou os assírios na grande cidade de Nínive…” (Judite 1,1)

Para qualquer pessoa familiarizada com a queda de Jerusalém em 586 a.C., esse versículo pode parecer estranho. Também é frequentemente usado pelos protestantes para argumentar que Judite não pertence à Bíblia por conter um erro histórico. Superficialmente, essa objeção parece razoável. O Nabucodonosor II que conhecemos governou o império neo-babilônico a partir de 605 a.C., apenas alguns anos após a queda da cidade de Nínive, que ocorreu em 612 a.C. por uma confederação sob Nabopolassar (seu pai) e Ciaxares.

Pessoalmente, acho engraçado que muitos dos mesmos protestantes que atacam Judite por “Nabucodonosor, rei dos assírios”, defendem o Livro de Daniel que traz: “Dario, o medo”. Mesmo que Dario, o Medo, seja desconhecido fora do livro de Daniel, muitos respondem que ele pode ser identificado com Gubaru (Gobrias), Ciro ou Ciaxares II. Não me entenda mal. Acho que eles estão certos em defender o livro de Daniel. Pessoalmente, acho que Dario, o medo, pode ser identificado com Ciaxares II, embora eu não descarte a possibilidade de ser Ciro. No entanto, meu ponto é que, embora os protestantes se esforcem para dar às porções incontestáveis das Escrituras (os protocanônicos) o benefício da dúvida, eles simultaneamente leem os deuterocanônicos com uma “hermenêutica da suspeita”, com a mente fechada idêntica à de um ateu fundamentalista de Internet.

Em seu livro “Evidence that Demands a Veredict”, os estudiosos e apologistas protestantes Josh e Sean McDowell dizem:


“Embora os críticos geralmente afirmem que o Velho Testamento contém contradições autênticas, muitos estudiosos da Bíblia forneceram harmonizações plausíveis ao longo dos séculos. As supostas contradições geralmente surgem de erros de interpretação, ignorando gênero ou artifícios literários, ou por meio de uma série de outras suposições errôneas. Essas alegadas contradições requerem mais pesquisas, e outras foram resolvidas de forma satisfatória. Mas, dado o histórico de estudos acadêmicos nessa área, temos boas razões para acreditar que, se todos os fatos fossem conhecidos, todas as supostas discrepâncias desapareceriam. (Página 601)”

No entanto bem anteriormente, eles foram rápidos ao dizer que os ditos “livros apócrifos” (os deuterocanônicos) não podem ser canônicos porque “são abundantes em erros históricos e geográficos, além de [conter] anacronismos (Página 38)”. Contra-argumentos não são nem ao menos considerados.

O livro de Judite e o resto dos deuterocanônicos são considerados culpados até que se prove o contrário, mas culpados de qualquer maneira. Por outro lado, o cânon protestante é considerado inocente em todas as circunstâncias.

Uma tentativa de identificar o Nabucodonosor do livro de Judite foi sugerida pelo Padre Fulcran Vigouroux. Ele argumentou que ele deveria ser identificado como Assurbanipal, que governou a Assíria em 669 a.C. a 631, durante o tempo do rei Manassés de Judá.

Se este for o caso, então talvez alguém possa argumentar que o exílio mencionado em Judite 4,3 não foi uma referência à deportação sob Nabucodonosor em 586 a.C., mas sim o cativeiro que Manassés sofreu temporariamente até seu arrependimento em 2 Crônicas 33,11-13. A purificação do templo teria sido a remoção dos ídolos que ele ergueu no templo de Salomão e a restauração do altar (2 Crônicas 33,15-17). Embora a fraqueza do argumento é de que apenas Manassés é mencionado como sendo deportado.

Não concordo com essa identificação, por razões que se relacionam com outros detalhes que serão explicados posteriormente.

Mas, primeiro, a objeção de que o livro de Judite está “errado” e, portanto, não pertence às Escrituras porque Nabucodonosor era rei da Babilônia, e não da Assíria, apenas parece forte superficialmente. Mas a verdade é que aqueles que usam essa objeção desconhecem como o termo “Assíria” era usado no mundo antigo. Os historiadores clássicos a usaram de diversas maneiras, um deles é Heródoto:

“Quando Ciro fez todo o continente se submeter a ele, ele atacou os assírios. Na Assíria, há muitas outras grandes cidades, mas a mais famosa e mais forte foi a
Babilônia
, onde a residência real foi estabelecida após a destruição de Ninus [isto é, Nínive]. Babilônia era uma cidade como vou descrever agora.” (Histórias, 1:178)

Dado que esta narrativa é sobre Ciro, trata-se, portanto, do Império Neo-Assírio, e ainda assim Heródoto fala da Babilônia como “Assíria”. Seria muito fácil descartá-lo como se estivesse simplesmente cometendo um erro, se não fosse pelo fato de que ele não é o único historiador a fazer tal coisa. Outro exemplo é Xenofonte:

“Dali em diante, Ciro avançou em direção à Babilônia, suas tropas em ordem de batalha. Mas como os assírios não vieram ao seu encontro, ele ordenou que Gobrias cavalgasse adiante para entregar esta mensagem…” (Cyropaedia 5: C.3: 5)

Portanto, temos dois historiadores que se referiram aos babilônios como “assírios”. Com isso em mente, duvido que alguém no mundo antigo que lesse o livro de Judite iria ter alguma discordância. Se os antigos podiam se referir a eles como tais, então não há razão para objetar a Nabucodonosor, seu rei, sendo referido como “rei dos assírios” no mesmo sentido.

O termo teve ainda uma gama de uso ainda mais ampla. Heródoto menciona certos soldados. Ele diz: “Eles são chamados pelos gregos de Sírios, mas os estrangeiros os chamam de Assírios”. (Histórias 7:63). – Fica melhor ou pior dependendo da sua perspectiva, porque até mesmo um certo livro bíblico que os protestantes aceitam como canônico reflete isso também:

“Eles celebraram com alegria a festa dos Pães Ázimos durante sete dias, porque o Senhor os encheu de alegria tornando o Rei da Assíria favorável a eles, de modo que os ajudou em seu trabalho [de reconstrução] na casa de Deus, o Deus de Israel.” (Esdras 6,22)

Sabemos que o rei Dario era persa. Isso deixa os protestantes que protestam contra os deuterocanônicos com um pouco de dificuldade. Se eles seguirem o argumento: “Judite não é Escritura porque Nabucodonosor não era um assírio”, então, pela mesma lógica, eles teriam que remover Esdras do cânon bíblico, uma vez que não havia Dario, rei da Assíria. Pelo menos não segundo nosso entendimento moderno.

O período

Agora, eu acho que o Nabucodonosor do livro de Judite é o mesmo dos livros de Daniel e Jeremias? Não, pelo mesmo motivo, não acho que seja possível identificá-lo como Assurbanipal. O Livro de Judite indica claramente um cenário de um período posterior:

“Enquanto os israelitas não pecaram aos olhos de seu Deus, eles prosperaram, pois seu Deus, que odeia a iniquidade, estava com eles. Mas quando eles abandonaram a maneira que Ele havia prescrito para eles, foram totalmente destruídos por guerras frequentes e, finalmente, levados como cativos para terras estrangeiras. O templo de seu Deus foi totalmente arrasado e suas cidades foram ocupadas por seus inimigos. Mas agora eles voltaram para o seu Deus, e eles voltaram da Diáspora onde estavam espalhados. Eles recuperaram Jerusalém, onde está seu santuário, e se estabeleceram novamente na região montanhosa, porque estava desocupada.” (Judite 5,17-19)

A referência ao templo ter sido “arrasado” não pode ser explicada como um evento anterior a 586 a.C. O fato de eles terem retornado e “recuperado Jerusalém” prova uma data posterior a 538 a.C. Mas isso também indica fortemente que o autor não estava confuso. Ele sabia do exílio e, portanto, sabia mais dos detalhes do que os críticos aparentemente lhe dão crédito.
Isso sugere, portanto, que não se trata de um erro. Para a afirmação protestante de que o autor de Judite cometeu “erros” ter alguma consistência, esses erros teriam que ser não intencionais e, ainda assim, o livro é muito intencional [nas suas afirmações]. O escritor pretendia escrever o que escreveu e, portanto, não errou.

Sobre o gênero literário de Judite

O apologista Jimmy Akin, em um artigo [1] para a Catholic Answers, sugere que Judite é uma forma de literatura conhecida como “roman à clef”, uma história que discute pessoas e eventos reais, mas com os nomes alterados. Considerando que qualquer tentativa de identificar “Nabucodonosor, Rei da Assíria” recairia sobre alguém conhecido por um nome diferente, uma mudança de nome seria evidente. Mas, apesar da mudança de nome, isso não quer dizer que a história não seja história. Afinal, consideramos Daniel 6 estritamente histórico, mesmo que Dario, o medo, seja a mudança do nome de uma pessoa real.

Mas aqui é necessário termos cautela, devido ao que a Pontifícia Comissão Bíblica disse em 23 de junho de 1905:

“[Pergunta:] É possível admitir como princípio de sólida exegese que os livros da Sagrada Escritura que são considerados históricos, às vezes não correspondem, seja no todo ou em parte, a história propriamente dita e objetivamente verdadeira, mas apresentam apenas a aparência da história com o propósito de expressar algum significado diferente do sentido estritamente literal ou histórico das palavras?

Resposta: Negativo, exceto em um caso que não seja fácil nem precipitado de ser admitido, em que a opinião da Igreja não seja contrária e sem prejuízo de seu julgamento, e provado por sólidos argumentos que o Sagrado Escritor pretendeu não contar a verdade histórica, propriamente dita, mas sob o disfarce e a forma de história para apresentar uma parábola, uma alegoria ou algum significado distinto do significado estritamente literal ou histórico das palavras.”


Em resposta à questão de saber se as antigas decisões da comissão bíblica ainda são validas, o Padre Charles Grodin diz em seu artigo [2] que “hoje [a comissão] carrega apenas o peso do respeito à opinião de seus membros”. Ao ler o artigo, minha mente excessivamente analítica e escrupulosa (que prefere uma resposta direta “sim” ou “não”) não consegue analisar com certeza se isso se aplica apenas à própria organização hoje em dia, ou também para suas antigas declarações. Mas sinto-me na obrigação de incluir este detalhe, pois não desejo extraviar ninguém do bom caminho.

Conclusão:

Seja qual for a intenção do autor de Judite, as objeções à sua inclusão no cânon seguem uma certa lógica que os próprios protestantes se recusariam a abraçar quando o mesmo método é utilizado contra os livros que eles próprios não contestam. Na verdade, se eles aplicassem ao resto da Bíblia o mesmo padrão que aplicam aos deuterocanônicos, provavelmente não teriam mais Bíblia alguma.

Embora eu não possa identificar sem dúvida o Nabucodonosor do Livro de Judite, a objeção de que ele não era o “rei da Assíria” é falha, uma vez que eles não levam em consideração como os antigos usavam o termo “Assíria” para vários povos, mesmo que eles não eram assírios no sentido literal. Com esse fato, não há razão para supor que o relato de Judite esteja errado. Esta é uma explicação plausível para apenas uma dificuldade, mas. . . como McDowell disse acima, “se todos os fatos fossem conhecidos, todas as alegadas discrepâncias desapareceriam”.

Traduzido de:

https://dapacemdomineonline.wordpress.com/?fbclid=IwAR3_ysguA7523cu0UUrgZCqddWDNbhRpvTlZJ67tT4lMa6K8LvF1bbzHAtc

Notas:

[1] https://www.catholic.com/magazine/print-edition/saving-judith-and-tobit

[2] https://www.catholic.com/qa/authority-of-the-pontifical-biblical-commission



Categorias:Bíblia, História

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