PAGANIZAÇÃO OU PEDAGOGIA DIVINA? PARTE I (Deus[es] X Serpente)

Escrito por Lucas Falango.

Não é de hoje que é comum vermos certas acusações e conjecturas protestantes sendo baseadas na estética para atacar a Igreja Católica; seja no aspecto da liturgia, do sacerdócio, das vestes ou imagens sacras. Geralmente são comparações desonestas com artefatos de antigas culturas pagãs para então fazerem a seguinte alegação: “se eu vejo uma semelhança na aparência, quer dizer que é a mesma coisa de fato”.

Porém esse tipo de comparação prejudica todo cristianismo, como também a antiga religião hebraica, as sagradas escrituras, e toda a revelação divina. Não é à toa que os ateus tem tanto sucesso em produzir mais ateus nos meios protestantes usando do mesmo veneno que os protestantes usaram (e continuam usando) contra a Igreja Católica.

Os ateus basicamente mostram certas semelhanças das sagradas escrituras com algum relato pagão, como por exemplo o Gênesis e o Enuma Elish. Ou o diluvio bíblico com o relato do diluvio babilônico.

Por exemplo, a mitologia babilônica nos conta sobre um homem chamado Utnapistim, que foi encarregado por Enki (deus da água) para abandonar todas as suas posses e construir um navio gigante, pois viria um dilúvio sobre a terra que acabaria com todos os animais e os seres humanos. Após o navio parar em uma montanha Utnapistim também envia uma pomba e um corvo para verificar se havia terra seca. É impossível negar a similaridade com o relato de Noé, o ateu então diz: “Observem as semelhanças, claramente a história de Noé é um plagio, não acredite nas mentiras do cristianismo!”

E então, o cristão inocente (geralmente protestante) perde completamente a sua Fé, pois tinha uma concepção errônea da Bíblia, entendendo-a como um livro pronto que caiu do céu. Ele então passa a acreditar que a Bíblia é um mero plagio do paganismo e que tudo que ele viveu foi baseado em uma mentira milenar.

Mesmo assim, os protestantes continuam a atacar a Igreja Católica com esse tipo de conjectura venenosa, porém quando veem isso na própria Bíblia eles se fazem de cegos, varrem tudo para debaixo do tapete, o rigor que eles aplicam a Fé alheia eles não aplicam ao próprio livro que eles dizem ser a única regra de fé.

Qualquer um que estude com honestidade o desenvolvimento histórico do culto hebraico, percebe que toda a liturgia que Deus revela no Pentateuco aos levitas é derivada do paganismo e nem por isso a religião se tornou pagã.

É comum ouvirmos argumentos do tipo: “A Igreja dos apóstolos era simples, era na casa das pessoas, não tinha nada desses rituais, símbolos, era tudo muito espontâneo, sem hierarquias…” (não era bem assim, mas vamos relevar pelo bem do argumento)…

Porém podemos dizer a mesma coisa do culto hebraico, que começou nas casas, com os próprios patriarcas como sacerdotes sacrificando em cima de uma pedra nas montanhas (prática que foi posteriormente condenada na lei mosaica), e terminou com um grandioso templo, com uma classe sacerdotal, hierarquia, roupas sacerdotais, incenso, imagens, símbolos, rituais de purificação, sacrifícios padronizados e uma rigorosa prática litúrgica.

Deus em sua pedagogia divina continuou esse padrão também para o cristianismo, aproveitando a arte, a arquitetura, a filosofia e até o idioma e a escrita dos pagãos para coloca-las a serviço do Evangelho. Vejamos então algumas similaridades interessantes que Deus em sua infinita sabedoria soube utilizar para nos revelar seu plano divino.

O Leviatã, e o Combate entre Deus(es?) e a Serpente.

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Grande parte dos mitos pagãos nos mostram deuses que enfrentaram serpentes ou dragões, geralmente entidades que personificavam o caos. Vemos esses pontos em comum em culturas que nunca tiveram contato algum entre si.

A cultura dos Cananeus nos relata a história onde Baal combate Leviatã; a cultura babilônica nos relata sobre o combate entre Marduk e Tiamat; a cultura nórdica: Thor e Jörmundgander; a cultura Grega: Zeus e Tifão; a cultura Egípcia: Set e Apófis; a cultura Japonesa: Suzanoo e Yamata no Orochi. E por aí vai, podemos dizer que há relatos de um combate cataclísmico entre um poderoso deus e uma temível serpente do caos em basicamente todas as mitologias do mundo.

Na cultura Cananeia, Baal era conhecido por matar um dragão de sete cabeças chamado Lotan, que pelos hebreus era chamado de Leviatã. Por incrível que pareça a Bíblia nos mostra [1] essa mesma característica sendo aplicada ao Deus de Israel (YHWH) esmagando Leviatã, exatamente como Baal.

“Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!” (Jó 3,8)

“Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a língua com uma corda?” (Jó 41,1)

“Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar.” (Salmo 74,14)

“Esmagaste e mataste o Monstro dos Mares; com teu braço forte dispersaste os teus inimigos.” (Salmo 89,10)

“Naquele dia o Senhor ferirá, com sua espada pesada, grande e forte, Leviatã, o dragão fugaz, Leviatã, o dragão tortuoso; e matará o monstro que está no mar.” (Isaías 27,1)

“Desperta, braço do Senhor, desperta, recobra teu vigor! Levanta-te como nos dias do passado, como nos tempos de outrora. Não foste tu que esmagaste Raab e fendeste de alto a baixo o Dragão?” (Isaías 51,9)

No Apocalipse vemos o combate do exército celeste e do cavaleiro branco (Jesus) contra a Besta escarlate de sete cabeças, o que é uma referência ao Leviatã, pois essa entidade era representada pelos pagãos com sete cabeças. O Apocalipse parece nos mostrar que quem deu poder a essa Besta símbolo do paganismo foi o Dragão (também com sete cabeças), que João diz ser o próprio Satanás.

“Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.” (Apocalipse 12,3)

“Vi, então, levantar-se do mar uma Besta que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre os chifres, dez diademas; e nas suas cabeças, nomes blasfematórios.” (Apocalipse 13,1)

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Será que a Bíblia foi paganizada pelo culto cananeu e absorveu as histórias de Baal? Transformando a religião pura do “judaísmo primitivo” em um sincretismo pagão? É o que parece ao olho cético e é exatamente o que diriam os protestantes se fosse para fazer conjecturas contra a Igreja católica, para provar que o “cristianismo primitivo” foi paganizado em um sincretismo pagão romano (mesmo que todos os escritos apostólicos e pré-nicenos deixem claro que não é verdade), mas como já dissemos, eles são incapazes de aplicar o seu zeloso rigor “purista” quando isso os afeta. Mas enfim, então o que são essas semelhanças? Paganização? Ou a pedagogia divina em ação?

Houve sim um combate entre Deus e a Serpente, não como o combate cataclísmico que as mitologias foram distorcendo da verdade original, mas um combate que vem desde os primórdios, essa semente do Verbo ficou como que encubada em todas as culturas pagãs, uma lembrança de uma verdade primordial de eras imemoriais, de que havia um Deus poderoso que combatia uma serpente que trazia a destruição ao mundo.

“Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e feras do campo; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.” (Gênesis, 3,14-15)

Esse combate é revelado na perspectiva de Deus no livro do Apocalipse

“Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (Apocalipse 12,7-9)

Os profetas usaram então essa figura da mitologia pagã para explicar o poder de Deus e seu conflito com Satanás, o inimigo da humanidade.

Continua…

[1] Outras referências ao Leviatã, cf: Jó 7,12; Jó 26,13; Jó 41,1; Sl 104,26; Amós 9,3.



Categorias:História, Reflexões

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