PAGANIZAÇÃO OU PEDAGOGIA DIVINA? PARTE II (Arca da Aliança, Ícones)

Escrito por Lucas Falango

No livro do Êxodo Deus ordenou a Moisés que construísse uma arca de 123 cm de comprimento, 74 cm de altura e 74 cm de largura, na tampa, dois Querubins esculpidos com as asas estendidas de proporções provavelmente similares pois formavam um trono para o Senhor. A Arca da Aliança pode parecer única e incomum para quem não conhece o “plano de fundo histórico” em que os Hebreus estavam, porém, ter uma “caixa” ornamentada como um altar móvel sendo um objeto central do culto tem precedência na religião pagã do antigo Egito [1].

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As arcas eram uma parte central da prática religiosa egípcia. Usadas também para o sepultamento, cada uma pertencendo a uma divindade diferente, dentro eram colocados amuletos, relíquias, tábuas devocionais e cerimoniais (estelas) dos respectivos deuses [2] e também vasos com restos mortais do falecido. Para os egípcios essas arcas eram símbolos da salvação e garantia da vida após a morte. E a mesma coisa vemos na arca do Senhor onde foram colocados os símbolos da aliança que salvou os Hebreus da escravidão e da morte.

“Aí estava o altar de ouro para os perfumes, e a Arca da Aliança coberta de ouro por todos os lados; dentro dela, a urna de ouro contendo o maná, a vara de Aarão que floresceu e as tábuas da aliança.” (Hebreus 9,4)

Os deuses egípcios tinham suas próprias Arcas que funcionavam como Altares e ficavam em pedestais no Santo dos Santos de seus templos. Durante os festivais religiosos esses baús sagrados eram levados em procissão por sacerdotes.

Um exemplo disso pode ser visto hoje no Santo dos Santos do Templo de Edfu, onde há uma arca em forma de um pequeno barco com postes salientes pelos quais podia ser transportado nos ombros. A mesma coisa vemos na Arca da Aliança do Senhor.

“Os sacerdotes e levitas santificaram-se, portanto, para fazer subir a arca do Senhor, Deus de Israel. E os filhos de Levi, como o tinha ordenado Moisés, segundo a palavra do Senhor, levaram a arca aos ombros, por meio de varais.” (1 Crônicas 15,14-15)

A figura dos dois querubins estão presentes com a divindade no centro assim como na Arca da Aliança.

Por serem altares portáteis também eram levadas em batalhas e rituais eram feitos para invocar os deuses e garantir apoio divino, vemos o mesmo padrão com a Arca de Deus:

Quando a arca do Senhor entrou no acampamento, todo o Israel rompeu num grande clamor, que fez tremer a terra. Os filisteus, ouvindo-o, disseram: Que significa esse grande clamor no acampamento dos hebreus? E souberam que a arca do Senhor tinha chegado ao acampamento. Então tiveram medo e disseram: Deus chegou ao acampamento. Ai de nós! Até agora nunca se viu coisa semelhante!” (1 Samuel 4,5-7)

“Partiram da montanha do Senhor e caminharam três dias. Durante esses três dias de marcha, a arca da aliança do Senhor os precedia, para lhes escolher um lugar de repouso. A nuvem do Senhor estava sobre eles de dia, quando partiam do acampamento. Quando a arca se levantava, Moisés dizia: “Levantai-vos, Senhor, e sejam dispersos os vossos inimigos! Fujam de vossa face os que vos aborrecem!” Quando, porém, se detinha, dizia: “Voltai, Senhor, para a imensa multidão de Israel!” (Números 10,33-36)

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Vemos o tamanho da veneração que esse povo tinha para com um objeto sagrado, uma reles caixa de ouro, com duas imagens de escultura que tinham boca e não falavam, asas e não voavam, figuras do verdadeiro no céu, mera obra da mão de homens (Hb 9,11.24).

Diante disso, o rigor iconoclasta protestante simplesmente desaparece, só restam sofismas e piruetas bíblicas (o Salmo 115 se torna um tiro no pé). Se usassem do mesmo rigor que usam contra a Igreja Católica para as próprias Escrituras, não fariam tantas acusações sem sentido. Teriam que chegar à conclusão de que a Arca era uma espécie de “ídolo oficial” de Israel.

Ou percebem o absurdo da interpretação sem nexo e anti-histórica que fizeram e aceitam que Deus ensinou os hebreus a fazerem um Ícone do seu trono (e dos seus servos) para representar uma realidade celestial (Ez 1,1-28) e transcendente a partir da arte e dos hábitos pagãos preexistentes.

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A representação dos querubins que vemos na arca da aliança também são um elemento do paganismo egípcio como vemos na foto dessa arca encontrada no Templo de Hatexepsute, o segundo desenho é uma representação mais provável da Arca da Aliança de acordo com a cultura que os Hebreus estiveram imersos por séculos.

O Senhor emprestou aspectos da cultura egípcia com os quais os hebreus estavam familiarizados e as redefiniu. A Arca da Aliança tem origem nas arcas pagãs mas nem por isso a Arca se torna um ídolo, o mesmo podemos dizer sobre os ícones e a arte sacra adotados desde os primórdios do cristianismo.

O Senhor, como um Pai atencioso, repetidamente “desce” ao nível cultural do povo para revelar a Sua verdadeira natureza e seu plano de salvação.

Continua…

[1] https://faculty.washington.edu/snoegel/PDFs/articles/noegel-ark-2015.pdf

[2] http://www.touregypt.net/featurestories/stela.htm



Categorias:História, Reflexões

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1 resposta

  1. Textos maravilhosos, Lucas Falango!
    A simplicidade e a didática com a qual redige suas obras e transmite ensinamento aos fiéis interessados são exemplares e inspiradoras!
    Que a paz, a luz e a glória do Senhor te acompanhem! (ref.: Isaías 58, 8)

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