PAGANIZAÇÃO OU PEDAGOGIA DIVINA? PARTE III (Sacerdócio, Clero)

Escrito por Lucas Falango.

Como já dissemos o culto cristão começou nas residências (Fm 1,2) e só depois desenvolveu lugares próprios, geralmente casas maiores, adaptadas e reservadas apenas para a função da reunião da Igreja, alguns defendem que deveria ser assim até hoje, e que a história cristã deveria ser uma eterna repetição do período primitivo.

Porém o culto hebraico começou da mesma forma, no meio familiar, com os próprios patriarcas como sacerdotes, sacrificando em altares improvisados nas pedras em cima de montanhas (prática que foi posteriormente condenada na lei mosaica) e terminou com um grandioso templo, com uma classe sacerdotal, hierarquia, roupas sacerdotais, incenso, imagens, símbolos, rituais de purificação, sacrifícios padronizados e uma rigorosa prática litúrgica.

Esses elementos não brotaram do nada, Deus transformou as características e práticas sacerdotais que eram vistas nos povos vizinhos, egípcios, babilônios, assírios, hititas, etc. para criar o seu próprio sacerdócio e assim o povo criou uma identidade tribal própria para não se misturarem com os cultos e deuses pagãos, como fizeram quando adoraram o bezerro de ouro, que era nada mais que o culto egípcio ao deus Ápis.

As vestes sacerdotais (Ex 28,1-43), mantos, mitras e tiaras foram todas assimiladas do sacerdócio pagão das culturas vizinhas, um caso interessante era o Efod, uma espécie de estola usada em um ritual para saber a vontade de Deus, mas que era um elemento muito presente no culto dos Ídolos para se comunicarem com seus deuses.

Estão presentes também no paganismo os mesmos utensílios litúrgicos como taças, incensários, jarros para libações e tudo mais o que era necessário para o sacrifício e purificações rituais.

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(A esquerda: Sacerdote Pagão, e a direita: Sacerdote Hebreu)

Deus padronizou o culto no templo, usou um complexo sistema de oferendas de alimentos, incenso e sacrifício animal que também eram presentes no culto pagão e transformou em uma forma de ensinar o que viria a ser o verdadeiro sacrifício quando viesse a plenitude dos tempos (Gl 4,4).

A ideia de oferecer o melhor da sua produção, o melhor cordeiro, o melhor grão, não era porque Deus tirava algum proveito disso (ao contrário do que pensava os pagãos a respeito dos seus deuses), mas para ensinar a dependência total do homem a Deus e reconhecer que tudo que ele conquistou era porque Deus soberano permitiu.

Ele ensinou que esses sacrifícios deveriam sempre estar acompanhados de amor e arrependimento dos pecados, isso sim era o essencial e não a casca externa do culto

Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar.” (Salmos 50,18-19)

“De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?” – diz o Senhor – Já estou farto de holocaustos de cordeiros e da gordura de novilhos cevados. Eu não quero sangue de touros e de bodes. Quando vindes apresentar-vos diante de mim, quem vos reclamou isto: atropelar os meus átrios? De nada serve trazer oferendas; tenho horror da fumaça dos sacrifícios. As luas novas, os sábados, as reuniões de culto, não posso suportar a presença do crime na festa religiosa. Eu abomino as vossas luas novas e as vossas festas; elas me são molestas, estou cansado delas. Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos.” (Isaías, 1,11-16)

Ainda assim não significa que ele desprezava o sistema que ele mesmo criou (Deus não é contraditório), por muitas vezes Deus se mostrou extremamente feliz com a magnificência do Templo, do culto, dos objetos sagrados, as obras de arte, e pôs a sua nuvem de glória sobre tudo isso, ou seja, glorificou e habitou no Templo.

“Levaram-na, assim como a tenda de reunião e todos os utensílios sagrados que havia no tabernáculo; tudo foi carregado pelos sacerdotes e levitas. O rei Salomão e toda a assembleia de Israel reunida junto dele conservavam-se diante da arca. Sacrificavam tão grande quantidade de ovelhas e bois que não se podia contar. […] Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam ali ficar para exercer as funções de seu ministério; porque a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor. […] o Senhor disse-lhe: ‘Quando tiveste a intenção de edificar um templo ao meu nome, fizeste bem.” (1 Reis 8,4.5.10.11.18)

Também Jesus em nenhum momento condenou o culto externo, o incenso, os símbolos e as liturgias, o que ele condenou foi a corrupção moral do sacerdócio, a desvirtuação do objetivo do culto (que era amar a Deus), como os fariseus que não cuidavam dos pais pois fingiam dedicar o dinheiro a Deus (Mt 15,5) ou os que juravam pelo ouro do templo (Mt 23,16) e não pelo Templo. Ou até os que ocupavam os espaços de oração no templo para lucrar. (Lc 19,45)

Jesus ensinou que antes de tudo, deveria haver em primeiro lugar o amor a Deus e ao próximo, esses são os adoradores em espírito e verdade (Jo 4,23), sem isso de nada serve nenhum tipo de externalização do culto. Porém ele nunca condenou o culto público, ou a liturgia, ou os símbolos religiosos, vemos que a Igreja cristã já nasceu com uma liturgia na hora de celebrar a Eucaristia, que foi se desenvolvendo com o tempo, mas sem perder a sua essência espiritual.

Enquanto celebravam o culto do Senhor (Λειτουργούντων), depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado. (Atos 13,2)

O termo usado aqui tem a raiz em λειτουργέω (leitourgeó), de onde temos o termo liturgia, o mesmo termo é usado para se referir ao serviço dos sacerdotes levitas no antigo templo. Ou seja, no culto a Deus eles executavam uma liturgia.

Temos um altar do qual não têm direito de comer os que se empregam no serviço do tabernáculo {mosaico}.” (Hebreus 13,10)

Altar é onde se oferece um verdadeiro sacrifício, não um mero púlpito de onde se faz sermão, ou seja, os apóstolos celebravam uma liturgia em um altar onde era oferecido um sacrifício em uma espécie comestível. Para quem é de uma Igreja apostólica (Católica, ortodoxa, copta etc.), ou protestante de origem Anglicana e Luterana, sabe muito bem do que está sendo tratado: a Eucaristia, o ponto central do culto visível.

Temos o relato desse culto litúrgico continuando e se aprimorando na Igreja primitiva através das cartas de Santo Inácio de Antioquia, São Justino mártir e outros. A arqueologia nos brindou com a descoberta das catacumbas e até de igrejas perfeitamente conservadas nas areias do deserto (dura-europus) que nos prova claramente que o cristianismo nunca dispensou um culto externo, nem os símbolos e a iconografia, muito menos o clero organizado e ordenado que ensina a doutrina universal e oferece o culto externo a Deus. Os que repudiam essas coisas hoje em dia são inovadores com um espírito revolucionário, avessos a ordem e a hierarquia, que sempre foram características prezadas por Deus, pois Ele não é Deus de confusão.

Alguns (como os protestantes) objetam dizendo que todos os cristãos são sacerdotes, e que então qualquer um pode muito bem se auto-nomear ministro e sair regendo a própria igreja conforme bem entender. Para isso distorcem textos como a epístola de Pedro.

Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. […] Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa.” (1 Pedro 2,5.9)

Porém o argumento é extremamente falho, se isso fosse verdade a mesma coisa deveria ser verdadeira na antiga Israel, pois Pedro está parafraseando o livro do Êxodo, onde é dito que todos os hebreus eram uma nação santa e de sacerdotes, mas nem por isso todos eram sacerdotes stricto sensu, mas somente os levitas que foram consagrados.

“Se obedecerdes à minha voz, e guardardes minha aliança, sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é minha, mas vós me sereis um reino de sacerdotes e uma nação santa. Tais são as palavras que dirás aos israelitas.” (Êxodo 19,5-6)

Houve no passado quem tenha feito objeção muito parecida com a que os protestantes fazem hoje: de que todos poderiam ser sacerdotes pois eram santos como todo mundo.

“Levantaram-se contra Moisés, juntamente com outros duzentos e cinquenta israelitas, príncipes da assembleia, membros do conselho e homens notáveis. Dirigiram-se, pois, em grupo a Moisés e a Aarão, dizendo-lhes: “Basta! Toda a assembleia é santa, todos o são, e o Senhor está no meio deles. Por que vos colocais acima da assembleia do Senhor?”.” (Números 16,2-3)

Essa foi a revolta de Coré, e sabemos muito bem qual foi o destino dos revoltosos, foram levados vivos ao inferno (Nm 16,33). Um aviso de Deus para quem tenha a pretensão de usurpar uma função que não lhe é de direito.

“O sacerdote Eleazar tirou, pois, os turíbulos de bronze que os homens consumidos pelo fogo tinham apresentado ao Senhor, e fez deles lâminas para cobrir o altar. Isso devia servir de memorial para os israelitas, a fim de que nenhum estranho à linhagem de Aarão, se aproximasse para oferecer incenso ao Senhor, temendo lhe acontecesse o mesmo que a Coré e a seus homens, como o Senhor tinha declarado pela boca de Moisés.” (Números 16,39-40)

“Resistiram ao rei Ozias e lhe disseram: Não compete a ti, Ozias, queimar incenso ao Senhor, mas aos sacerdotes da estirpe de Aarão, que foram consagrados para esse fim. Sai do santuário, porque prevaricaste, e isso não será para ti honra diante do Senhor Deus. Então Ozias, tendo na mão o turíbulo, encolerizou-se; mas, durante esse acesso de cólera, apareceu a lepra em sua fronte, ali, no templo do Senhor, na presença dos sacerdotes, diante do altar dos perfumes.” (2 Crônicas 26,18-19)

Fica muito claro que mesmo Deus tendo chamado toda a nação Israelita de santa e todo o povo de sacerdotes, celebrar o culto externo não era direito de todos, a mesma coisa serve para os cristãos, pois a epístola de Pedro está fazendo uma óbvia referência a passagem do Êxodo. Apesar de todos os cristãos serem sacerdotes de uma nação santa quem não recebeu a imposição de mãos e adentrou o presbiterado ou o episcopado, não tem o direito de se arrogar sacerdote no sentido de celebrar o culto externo, na antiga Israel havia diferença nas funções mesmo entre os levitas.

É verdade que assim como Deus chamou toda Israel de nação de sacerdotes, chamou a nós também para prestarmos o sacerdócio interno, o sacrifício e culto espiritual. A Igreja nunca escondeu isso dos fiéis como pregam alguns conspirólogos do protestantismo:

“[…] Relativamente ao sacerdócio interno, todos os fiéis são considerados sacerdotes, a partir do momento em que receberam a regeneração do Batismo; mas, de primazia, os justos que possuem o Espírito de Deus, e pela graça de Deus se tornaram membros vivos de Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote. São eles que, no altar de seus corações, oferecem a Deus sacrifícios espirituais, naquela fé que se abrasa na caridade.” (Catecismo Romano, II, § 23)

Esta igualdade entre todos os cristãos que pregam os protestantes é totalmente antibíblica, pois o próprio Cristo separa apenas doze homens do meio de todos os seus discípulos, os doze receberam o título de Apóstolos e a eles revelou coisas que a outros não era permitido saber (Mt 13,11). Durante a santa ceia deu apenas a eles o poder de realizar o mistério eucarístico (Lc 22,19). Também apenas aos doze, em portas fechadas, ele deu o poder de perdoar pecados (Jo 20,23), fazendo deles ministros de Cristos e despenseiros dos mistérios de Deus (1 Cor 4,1). Todos os que receberam essas funções posteriormente, receberam por sucessão dos próprios Apóstolos (Atos 1,15-26), pela imposição de mãos (Atos 6,1-6; 1 Tm 4,14; 1 Tm 5,22; 2 Tm 1,6). Toda a história do Cristianismo e a própria escritura diferencia entre o rebanho e os pastores (Jo 21,15; Ef 4,11; At 20,28; Hb 13,17).

Esse hábito de separar homens dentre o povo e constitui-los autoridades religiosas é um habito pagão que Deus aplicou na antiga Israel, pois antes a função era feita por qualquer patriarca. Deus aplicando essa prática pagã em Israel, designa apenas os sacerdotes para ministrar a liturgia, pastorear e ensinar (Ne 8,8; Ml 2,7). A mesma coisa na nova aliança quando Cristo passa essas funções aos Apóstolos e aos discípulos como auxiliares dos Apóstolos (sucedidos pelos bispos e diáconos).

Eles eram distintos daqueles que eram apenas fiéis, mas diferentes pela missão recebida na ordenação e não por nenhum dom intrínseco de alguns poucos escolhidos e “iluminados” como faziam os gnósticos. Todo o fiel até hoje pode se oferecer para fazer parte do ministério em algum nível.

Vemos que o sacerdócio é uma prática que Deus em sua infinita sabedoria aproveitou das culturas pagãs e aplicou ao seu próprio povo, para depois aplicar (de modo até mais brando) na sua Igreja, para que assim se mantivesse a ordem e a unidade. Mas nem por isso vamos dizer que o novo ou velho testamento foi paganizado.

Continua…



Categorias:História, Reflexões

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1 resposta

  1. Impressionante! Mais um excelente texto para a educação em nossa fé católica.

    Já vi algumas pessoas indagando coisas do tipo: “Os apóstolos não faziam procissões com imagens! Por que vocês fazem?” Ora, naquela época os cristãos eram muito perseguidos. Muitos tinham de se esconder em buracos simplesmente para adorarem o Senhor Jesus Cristo. E, diferentemente de Israel em sua partida da Egito e estabelecimento na terra de Canaã, que tinham “autorização” para matar seus oponentes, mesmo não ocorreu para com os cristãos. Assim como vem sendo muito bem explicado ao longo desses textos expostos neste site, observamos como a prática de culto cristão evoluiu com o passar do tempo, não só em função do amadurecimento dos rituais em si, mas pelos próprios contextos políticos, econômicos, sociais e culturais sob os quais os cristãos estavam sujeitos às suas respectivas épocas.

    Parabéns por mais essa grande obra, Lucas Falango!
    Acho que estou me tornando seu fã, rapaz.

    Atenciosamente,
    Henrique Rodrigues

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