Os judeus alguma vez aceitaram os Deuterocanônicos?

Traduzido por Lucas Falango

Autor: Gary Michuta

Fonte: https://detroitcatholic.com/news/gary-michuta/did-the-jews-ever-accept-the-deuterocanon

Ao reorganizar a tradição judaica pós destruição do templo, um proeminente rabino da época inadvertidamente oferece pistas sobre a crença dos primeiros Cristãos sobre a inspiração dos livros deuterocanônicos.

Muitas vezes encontramos em sites anticatólicos que afirmam (erroneamente) que os judeus nunca aceitaram os deuterocanônicos, os sete livros do Velho Testamento que cristãos Católicos e Ortodoxos aceitam como escritura, mas que os protestantes rejeitam como “Apócrifos” (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus, e partes de Esther e Daniel).

Ao contrário, podemos apelar a evidencias do Novo Testamento que apontam que Jesus, os Apóstolos, e os escritores inspirados do Novo Testamento de fato aceitavam os deuterocanônicos como escritura. Mas existem evidencia extra-bíblicas que apontam que os primeiros cristãos aceitavam esses livros?

Uma das primeiras evidencias disso vem de uma pessoa que, apesar da hostilidade contra o Cristianismo, todavia atesta algumas verdades da fé nascente, incluindo a aceitação dos deuterocanônicos.

Após a primeira revolta judaica (66-73 d.C.), a escola rabínica em Jamnia se tornou o centro do pensamento político e religioso dos judeus. A destruição do Templo de Jerusalém durante a primeira revolta deixou o judaísmo em uma posição precária, pois se tornou impossível para os judeus seguir todos os requerimentos do culto e da lei cerimonial sem a presença do Templo. Dois caminhos se colocaram para a nação: preparar uma segunda revolta e reconstruir o Templo, ou redefinir o judaísmo de uma religião de culto para uma religião do livro. O Rabbi Akiva ben Yosef (37-137 d.C.), o chefe da escola rabínica durante as primeiras décadas do segundo século Cristão, apoiou ambos os caminhos.

O Rabbi Akiva é talvez melhor conhecido na história como o rabino que apoiou um falso messias. De acordo com Akiva, o Messias prometido em Números 24,7 que derrotaria os Romanos, reconstruiria o Templo e governaria como o rei messiânico era personificado em um homem chamado Simão bar Kokhba. O apoio de Akiva a Simão bar Kokhba mudou o cenário da segunda revolta judaica (132-135 d.C.), tornando-a de um levante popular a um movimento messiânico.

Um grande número de judeus e até pagãos se juntaram a revolta, mas um pequeno segmento conhecido como os “Cristãos” se recusaram a participar, pois seria o equivalente a rejeitar Jesus como o verdadeiros Messias. O resultado disso foi que os judeus passaram a ver o cristianismo não apenas como uma heresia, mas também como sedição. Não é preciso dizer que Akiva foi um falso profeta. Bar Kokhba não era o Messias, e as consequências da derrota na segunda revolta foram terríveis: Simão bar Kokhba foi morto, Rabbi Akiva foi martirizado, e a represália dos Romanos quase varreu o judaísmo do mapa.

O segundo caminho apoiado por Akiva incluía a redefinição do judaísmo em uma linha não-sacrificial, pelo menos até a restauração do templo. Para isso, Akiva usou um estilo criativo de interpretação bíblica para ler no texto hebraico o que lhe fosse necessário. O único problema era que os Judeus nunca tiveram um único texto bíblico normativo. Portanto, o objetivo principal foi adotar um único texto para a Bíblia Rabínica. E é aqui que Rabbi Akiva inadvertidamente revela algo sobre os deuterocanônicos.

Em uma obra chamada Tosefta Yadayim (2,13), Akiva diz: “Os Evangelhos e livros heréticos não contaminam as mãos. Os livros de Ben Sirach e todos os outros livros escritos após eles, não contaminam as mãos.”

A frase: “não contaminam as mãos” é uma linguagem rabínica para se referir a um texto que não é sagrado. Portanto, Akiva está afirmando que as escrituras cristãs não são sagradas – nada de surpreendente nisso – e “os livros de Ben Sirach e todos os outros livros escritos após eles” não são sagrados. O livro de Sirach (Eclesiástico) é o mais antigo dos deuterocanônicos. Portanto, o decreto de Akiva rejeita como um todo os deuterocanônicos como escritura sagrada.

Sem saber, a afirmação de Akiva nos mostra que um grande numero de judeus cristãos aceitavam os deuterocanônicos como Escritura em sua época (132 d.C.) para que ele os associasse com as escrituras cristãs. Ele devia acreditar que havia a possibilidade de judeus não-cristãos também os aceitar como Escritura Sagrada; caso contrário, não haveria necessidade para essa decisão. Apesar de sua oposição a fé Católica, Rabbi Akiva, sem ter a intenção, se tornou uma testemunha hostil de que os primeiros judeu-cristãos criam que os deuterocanônicos eram, de fato, Escritura Sagrada.



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