Análise de Algumas Frases do Livro: “Glórias de Maria”

Há poucos dias, me deparei com uma publicação em uma rede social, onde nos comentários, encontrei algumas afirmações de um amigo protestante de longa data, a respeito do livro de Santo Afonso de Ligório, intitulado de “Glórias de Maria”.

É uma obra densa e deve ser lida com atenção. Infelizmente, boa parte do conteúdo nem sempre é colocado em sua integridade e quando é escrito dessa forma, faltam outros trechos que complementam o pensamento do autor. Nessa conversa específica, esse protestante – no qual tenho grande apreço – até publicou as frases de forma correta, porém, faltaram seus respectivos complementos.

Essa “falta”, pode acarretar má interpretação daqueles que não tendo familiaridade com livro, possam julgá-lo erroneamente. Dessa forma, a proposta do artigo é dar um melhor entendimento do que de fato Santo Afonso queria propor ao depositar seus pensamentos nesse pequeno livreto.

Para tanto, algumas considerações pertinentes:

1 – Como bem sabemos, nós católicos não acreditamos que tudo precisa estar explicitamente ensinado na escritura, logo, solicitar que isso ou aquilo “precisa estar”, não é de muita serventia para nós. O que vale é a aprovação final do magistério que dá liberdade pontifícia para que algo seja aceito (ou não) na Igreja, vide os livros canônicos da escritura que passaram por esse crivo.

2 – Obviamente, o livro de S. Afonso de Ligório não é “leitura canônica, inspirada” e sim, uma obra devocional, assim como a “Imitação de Cristo”, por exemplo.

3 – A mariologia católica é totalmente distante do conceito protestante e eu não espero que nossos irmãos separados, levem em consideração o que está no livro ou o que vou mencionar abaixo.

4 – Por fim, o Catecismo da Igreja Católica que revela o ensino oficial da santa fé, afirma:

– CIC 161: “Precisamos de fé para crer em Cristo”.
– CIC 74: “Jesus Cristo deve ser anunciado a todos os povos”.
– CIC 662: “Jesus Cristo é o centro de toda a liturgia”.
– CIC 782: “Jesus Cristo é a cabeça da Igreja”.
– CIC 2466: “Jesus é a verdadeira luz”.
– CIC 2593: “Jesus é o único mediador”.

Sendo assim, não há o porquê de crermos que o ensino que nos é legado está em desconformidade com as santas Escrituras.

Passemos as frases.  

1º Trecho: “Como não ser toda cheia de graça, aquela que se tornou a escada do paraíso, a porta do céu e a verdadeira medianeira entre Deus e os homens?”

Antes dessa perícope, o texto completo pode ser melhor lido ser for entendido em sua totalidade:

“Ao mesmo tempo está fora de dúvida que pelos merecimentos de Jesus Cristo foi concedida a Maria a grande autoridade de ser medianeira da nossa salvação, não de justiça, mas de graça e de intercessão”

Aqui, temos que Maria é chamada de “medianeira” pelos méritos de Cristo (tudo ocorre por Ele e para Ele) e esse título está ligado a “intercessão”. Aliás, títulos divinos, até mesmo na escritura, aparecessem para pessoas comuns, mas, sempre estão ligados há alguma qualidade que ela/ele tenha. Por exemplo, Salomão foi chamado de “homem de glória” (cf. Mt 6,29), profetas e apóstolos são exaltados como “santos” (cf. Lc 1,70 e Ef 3,5), Otoniel e Aod foram reconhecidos como “salvadores” (cf. Jz 3,7 e Jz 5,7). Nenhum desses homens são deuses, mas, ofereceram seus esforços por algum bem e foram honrados com tais títulos. No caso da Virgem, “mediadora”, como bem está escrito, é de “intercessão”.

2º Trecho: “Todas as gerações, passadas, presentes e futuras, devem considerar Maria como medianeira e advogada da salvação de todos os séculos.”

Antes desse texto, temos o seguinte trecho:

“Maria é chamada cooperadora de nossa justificação, diz Bernardino de Busti, porque Deus lhe entregou as graças todas que nos quer dispensar”

Aqui, mais uma vez, caímos no sentido de “oração”. Maria “coopera”, assim como nós também cooperamos (cf. 1 Cor 3,9), Maria concede “graça por sua intercessão”, assim como também nós, podemos fazer isso (cf. 2 Cor 1,11), Maria “salva”, assim como São Paulo disse que salvaria os seus (cf. Rm 11,14). A questão é que para nós católicos, a Virgem é “Mãe de Deus” (cf. Lc 1,43), o primeiro milagre do salvador foi feito através da sua intercessão (cf. Jo 2) e seguindo a Tradição que desde muito cedo (veja a oração “sob a tua proteção” do ano 250 d.C.) creu que Maria rogava por nós, assim o fazemos. Somos um único corpo e cremos que assim estamos ligados, formando uma única Igreja.

3º Trecho: “…te concedeu essa grande medianeira, cujo rogos tudo alcançam. Recorre, pois, a Maria e serás salvo.”

Frase completa: 

“Dá graças ao Senhor que em sua nímia misericórdia não só te deu o Filho por advogado, senão também para aumento de tua confiança te concedeu essa grande medianeira, cujos rogos tudo alcançam. Recorre, pois, a Maria e serás salvo”.

De graças ao Senhor”, “Te deu o Filho por advogado”. Esses são alguns dos trechos que normalmente são omitidos, quando se comenta esse livro, principalmente dentro da perspectiva protestante. Aqui, seria falar as mesmas coias, uma vez que já expliquei nos tópicos anteriores. O Filho é a causa primária de tudo e Maria, sendo intercessora e mãe, obtém do seu filho (assim como nas bodas de Caná), a graça solicitada.

Por fim, é sempre bom lembrar o que o próprio Santo disse de Maria em seu livro:

Pg 208 –É verdade que é santa, imaculada, rainha do mundo e Mãe Deus, MAS É UMA CRIATURA E FILHA DE ADÃO, COMO NÓS

4º Trecho: “A excelsa Mãe achou essa graça para dar a salvação a todos os homens. Em outro lugar o mesmo Santo acrescenta que Maria recebeu uma graça plena, bastante para salvar a todos, destinada a cair como chuva sobre todas as criaturas.”

Vamos a frase anterior a esse trecho:

Não temas, Maria, disse-lhe o anjo, pois achaste graça diante de Deus” (Lc 1,30). Sobre o texto acrescenta com elegante reflexão S. Alberto Magno: Ó Maria, não roubastes a graça como a queria roubar Lúcifer; não a perdestes como a perdeu Adão; não a comprastes, como a queria comprar Simão, o mago. Achastes a graça, porque a desejastes e buscastes. Achastes a graça, incriada, que é o próprio Deus feito vosso Filho

A graça que Maria dá de “salvação para todos os homens” é o próprio fruto de seu ventre, Jesus Cristo: “Achastes a graça, incriada, que é o próprio Deus feito vosso Filho”. Essa graça plena recebida para salvar a todos é Jesus. Os dois textos se completam.

5º Trecho: “De onde vemos que quem achar Jesus não o achará SENÃO POR MEIO DE MARIA. Vamos, pois, à Mãe de Deus, se queremos achar Jesus”

Antes de ver o complemento dessa frase, gostaria de compartilhar uma daquelas frases que nunca são mencionadas em debates:

“Diz o citado autor que uma tal proposição, isto é, de não conceder o Senhor graça alguma senão por meio de Maria, é hipérbole, é uma exageração que escapou ao fervor de alguns santos. Falando-se com exatidão, quer a sentença apenas significar que de Maria recebemos Jesus Cristo, por cujos méritos obtemos todas as graças. Do contrário, acrescenta ele, seria um erro acreditar que Deus não possa distribuir-nos suas graças sem a intercessão de Maria. Pois diz o Apóstolo que “reconhecemos um único Deus e um único medianeiro entre Deus e os homens, Jesus Cristo”.

O trecho acima, já explica muita coisa desse livro.

Já sobre a frase em questão, ela completa é lida da seguinte forma:

“S. Simeão teve promessa do Senhor, de não morrer antes de ver nascido o Messias. Mas esta graça ele não a recebeu senão por intervenção de Maria, porquanto não achou o Salvador, senão nos braços de Maria. De onde vemos que quem achar Jesus não o achará senão por meio de Maria. Vamos, pois, à Mãe de Deus, se queremos achar Jesus.”

É um texto retórico. O problema, no caso para os protestantes, é dizer que “Jesus é encontrado através de Maria”. É forte, mas, não é errado. Jesus é encontrado através das palavras de São Paulo, São Mateus, São Pedro, através do meu vizinho que bate na minha porta da parte da manhã para falar de Jesus, através do texto de facebook que me indica que só há um único salvador, através da homilia do padre no domingo, da rádio, tv e etc.

A questão é a importância que a Virgem tem para nós e isso parece causar espanto. Simeão viu a Cristo, mas, só assim o pode porque Maria o segurava em seus braços, Jesus Cristo morreu por nós, mas, o plano de salvação só foi realizado porque Maria disse “sim” (cf. Lc 1,38). Se nós cremos que a Mãe do Senhor ora pela Igreja, podemos sim, com confiança, solicitar que muitas almas sejam salvas pelo sangue de Cristo, graças a sua intercessão que só é possível porque o Espírito Santo, atua em todo o momento na vida dos fiéis.

Outro ponto que é importante falar é que a devoção à Maria é uma arma, assim como ler a escritura, orar pelos irmãos, praticar boas obras, pregar o evangelho, etc. Tudo para santificação das almas e salvação mediante a Cristo, único salvador.

6º Trecho: “Por isso saúda-a assim o Santo: Salve, ó reconciliação de Deus com os homens”

Para essa frase, não teria qualquer comentário adicional. Teologicamente está correta. Maria entra em um aspecto de “reconciliação secundária”, uma vez que ela foi instrumento de Deus para a chegada do messias, então, sim, ela cooperou com essa reconciliação. O Verbo de Deus (cf. Jo 1,1) veio até nós pelo ventre da Virgem.

OBS: Não estamos aqui dizendo que houve “mérito”, porém, Deus quis utilizar esse meio para que a salvação chegasse até nós.

7º Trecho: “Ó Mãe de Misericórdia, quanto é o vosso poder, tanta é a vossa piedade; quanto sois poderosa para impetrar, tanto sois também piedosa para perdoar.”

Essa frase, se assemelha muito a oração mais antiga dirigia a Maria, datada do ano 250 d.C.:

“À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.

Nesse ponto, como já mencionei no início, não espero que os protestantes aceitem o que cremos, entretanto, me chama atenção que tal oração foi composta no período primitivo da Igreja onde as perseguições ainda afloravam, de certo modo, percebe-se que a devoção a Virgem não foi uma prática nascida pós Constantino ou no medievo e sim, algo que já era vivenciado pela Igreja. Não podemos esquecer que São Justino no ano 155 d.C., foi o primeiro padre a colocar em prática a ideia de que Maria era a “nova Eva” e Irineu, no ano 180 d.C., afirmou que o “nó feito por Eva, foi desatado pela Virgem”.

De qualquer forma, como disse, os aspectos mencionados sempre tem relação com a “intercessão” e nós como católicos, cremos que o único salvador é Jesus Cristo, mas, não descartamos que a Igreja é o corpo Místico de Cristo e como diz o credo, “cremos na comunhão dos Santos” e essa comunhão só pode existir, se há de fato um laço entre os cristãos e cremos que isso está plenamente ligado a oração.

8º Trecho: ” … é que, em Jesus, vemos também nosso Juiz, cujo ofício é castigar os ingratos. AO RECORRERMOS A ELE facilmente então PODE NOS FALTAR CONFIANÇA. Mas indo a Maria, cujo ofício outro não é que o de compadecer-se de nós como Mãe de misericórdia, e de proteger-nos como NOSSA ADVOGADA, parece que a NOSSA CONFIANÇA SE TORNA MAIOR E MAIS SEGURA.”

Frase completa, antes desse trecho:

Não porque Maria tenha mais poder que Jesus Cristo, nosso único Salvador, o qual com seus méritos nos obteve e ainda obtém a salvação. O motivo, ao contrário, é que, em Jesus, vemos também nosso Juiz (…)”

Vamos para algumas considerações:

1 – O texto inteiro diz que “Jesus é nosso único Salvador” e que através de seus méritos obtemos “salvação”. Sendo assim, usar apenas o último trecho, sem mencionar o que Santo Afonso diz de nosso Salvador, não me parece correto.

2 – Alguns santos foram enfáticos em dizer que “Jesus é o Juiz e Salvador” e recorrer a virgem através da intercessão, seria algo mais suave, uma vez que Ela não irá no julgar. Não é um ensino oficial da Igreja, mas, é aceito em caráter devocional.

3 – Por fim, uma única frase, não remete o pensamento do Santo em relação a salvação. Vejamos abaixo o que de fato Ligório diz em sua obra e que infelizmente, não é citado por protestantes em debates regulares:

Pg 35 – “Por conseguinte, estão sujeitos ao domínio de Maria os anjos, os homens e todas as coisas do céu e da terra, porque tudo está também sujeito ao império de Deus”.

Pg 45 – “O pecado, quando privou a nossa alma da divina graça, a privou também da vida. Estávamos, pois, miseravelmente mortos, quando veio Jesus, nosso Redentor, com excessiva misericórdia e amor, restituir-nos a vida pela sua morte na cruz. Ele mesmo declarou: Eu vim para elas (as ovelhas) terem a vida, e para a terem em maior abundância (Jo 10,10)”.

Pg 45 – “<Em maior abundância>, porque, dizem os teólogos, Jesus Cristo com a redenção trouxe-nos maior bem, do que Adão mal nos causou com seu pecado. Assim, reconciliando-nos com Deus, se fez Pai das almas da nova Lei da graça como já estava profetizado por Isaías ao chamá-lo de <Pai do futuro e príncipe da paz (Is 9,6)>”.

Pg 56 – “Maria não quis dizer nem uma só palavra a favor do Filho, para não impedir a sua morte, da qual dependia a nossa salvação”.

Pg 57 – “O Filho não veio a terra senão para salvar-nos, como Ele mesmo protestou: <Eu vim salvar o que tinha perecido (Lc 19,10)>. E para salvar-nos despendeu até a própria vida, fez-se obediente até a morte na cruz”.

Pg 72 – “Apadrinhando-me com Santo Anselmo, ouso dizer a voz e a vosso divino Filho: Ou apiedai-vos de mim, dulcíssimo Redentor meu, perdoando-me”.

Pg 104 – “Depois que Deus criou a terra, criou também dois luzeiros. Um maior, isto é, o sol, para que alumiasse de dia, outro menor, isto é, a luz, para que brilhasse à noite (Gn 1,16). O sol, diz o Cardeal Hugo, é figura de Jesus Cristo, de cuja luz goza, os justos que vivem no dia da divina graça”.

Pg 120 – “Minha mãe, se devo ter a graça de não poder amar no outro mundo a meu Senhor, cuja amabilidade eu reconheço, obtende-me ao menos a graça de amá-lo neste mundo com todas as minhas forças” – Testemunho de São Francisco de Sales.

Pg 130 – “Que seja Jesus Cristo único Mediador de justiça e reconciliar-nos com Deus, pelos seus merecimentos, quem o nega?”.

Pg 133 – “Nós confessamos que Deus é a fonte de todos os bens e o Senhor absoluto de todas graças. Confessamos também que Maria não é mais que uma pura criatura e que, quando obtém, tudo recebe de Deus gratuitamente. Mais que todas as outras, esta sublime criatura na terra também o honrou e amou, sendo ela escolhida para Mãe de seu Filho, o Salvador do mundo”.

Pg 134 – “Não há dúvida, confessamos que Jesus Cristo é o único medianeiro de justiça, porque seus méritos nos obtêm a graça e a salvação”.

Pg 151 – “É verdade, sentado agora à direita de Deus Pai, no céu, reina Jesus e tem supremo domínio sobre todas as criaturas e também sobre Maria”.

Pg 163 – “Foi para dispersar-nos todas as misericórdias possíveis, afirma S. Bernardo, que o eterno Pai, além de Jesus Cristo, nosso principal advogado (…). Não há dúvida, Jesus é o único medianeiro de justiça entre Deus e os homens, o único que em virtude dos próprios méritos nos pode obter graça e perdão, e de acordo com suas promessas também o quer”.

Pg 167 – “Mas, o que deve fazer um pecador que tem a desventura de viver presentemente na inimizade de Deus? Precisa encontrar um medianeiro que lhe obtenha o perdão e o faça recuperar a perdida amizade com Deus. Como medianeiro deu-te o próprio Senhor seu Filho, Jesus Cristo, que pode atender a teus desejos. Que coisa haverá que um tal filho não consiga junto ao Pai? Mas, ó meu Deus, por que aos homens parece tão severo esse misericordioso Salvador, que, enfim, por salvá-los deu a sua vida? Assim pergunta o Santo. Por que julgam terrível quem é tão amável? Que temeis, pecadores sem confiança? Ofendeste a Deus, é verdade, mas sabeis que Jesus pregou à cruz vossos pecados, com suas próprias mãos que os cravos transpassaram. Assim purificou nossas almas e satisfez com morte divina justiça”.

Escrito por Érick Augusto Gomes



Categorias:Mariologia, Refutações

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