Haverá um Reino Milenar e duas Ressurreições? Apocalipse 19-20 [Parte I]

Escrito por Lucas Falango.



UM REINO MILENAR PARA OS RESSUSCITADOS?

“Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma vida nova e reinaram com Cristo por mil anos. (Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos.) Essa é a primeira ressurreição. Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos.” (Apocalipse 20,4-6)

Alguns grupos interpretam nessa passagem que haverá literalmente duas ressurreições em dois períodos bem distintos, entendendo que haverá um reino milenar aqui neste mundo com esses primeiros ressuscitados para só depois vir o juízo final e um reino com todos os ressuscitados. É uma ideia que não faz muito sentido, sabemos que Cristo irá criar novos céus e uma nova terra após o juízo final onde todos os ressuscitados viverão, qual seria o sentido de um ressuscitado com vida eterna viver mil anos em um mundo mortal e fadado a destruição?

A passagem também diz que “as almas” se assentaram para julgar e exercer um sacerdócio, vemos então que isso não é uma ressurreição literal, fica claro também que a alma vive sem o seu corpo (que foi decapitado). Nenhuma manobra com termos do velho testamento para dizer que a alma é um mero composto inanimado (que perece com o corpo, ou que perde a consciência) vai fazer sentido nessa passagem, as almas dos mártires claramente estão conscientes e ativas no céu antes da ressurreição da carne.

Mas antes de nos aprofundarmos nisso existe uma questão importante a se considerar: o capitulo 20 estaria em uma sequência cronológica do capitulo 19? Existem muitas evidencias que nos apontam para uma narrativa não-linear. O capitulo 19 por exemplo, nos mostra Cristo vindo com seus santos nos céus para ferir as nações:

Vi ainda o céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em sua cabeça muitos diademas e traz escrito um nome que ninguém conhece, senão ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. Seguiam-no em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador.” (Apocalipse 19,11-15)

Comparando com outras passagens, podemos afirmar que isso se refere a Parusia.

“De fato, justo é que Deus dê em paga aflição àqueles que vos afligem; e a vós, que sois afligidos, o alívio, juntamente conosco, no dia da manifestação do Senhor Jesus. Ele descerá do céu com os anjos do seu poder, por entre chamas de fogo, para fazer justiça àqueles que não reconhecem a Deus e aos que não obedecem ao Evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão como castigo a perdição eterna, longe da face do Senhor, e da sua suprema glória. Naquele dia ele virá e será a glória dos seus santos e a admiração de todos os fiéis…” (2 Tessalonicenses 1,6-10)

“Também Henoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, profetizou a respeito deles, dizendo: Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos para julgar a todos e confundir a todos os ímpios por causa das obras de impiedade que praticaram, e por causa de todas as palavras injuriosas que eles, ímpios, têm proferido contra Deus.” (Judas 1,14-15)

“Que ele confirme os vossos corações, e os torne irrepreensíveis e santos na presença de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus com todos os seus santos!”  (1 Tessalonicenses 3,13)

“Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras.” (Mateus 16,27)

“Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso.” (Mateus 25,31)

Todas essas passagens mostram que o capítulo 19 se refere a Parusia, e que o Juízo Final é um evento que ocorre logo após a Parusia. Porém, no Apocalipse, Cristo só se assenta em seu trono para julgar no final do capitulo 20, existe então esse período que parece “enxertado” entre a Parusia e o Juízo, o milênio, que só aparece no Apocalipse.  

Na Parusia Cristo não virá sozinho, virá com os seus santos, termo que pode incluir homens e anjos. Mas segundo o Apocalipse 14,4 e 17,14 entre outras passagens, aqueles que seguem Cristo onde quer que ele vá são homens, vestidos de roupas brancas (as boas obras dos santos, cf: Ap 6,11; Ap 7,10.13; Ap 19,8), e coroados (Ap 2,10; Ap 3,11; 1 Cor 9,25; 1 Pd 5,4; 2 Tm 4,8; Tg 1,12), esse exército é então composto de anjos e homens.

Não sabemos se isso deve ser interpretado apenas como uma forma de combate espiritual contra as forças de Satanás. ou se é uma realidade material também, ambas as leituras são possíveis. Porém, pelo que é dito em outros textos, o fim dos tempos será uma realidade material. O livro de Atos (1,11) diz que ele virá da mesma forma que partiu, e ele partiu corporalmente, nas nuvens, visível e audível para todos.

*Nota: É a própria escritura que atesta a possibilidade de confrontos físicos de anjos contra homens (cf: Gn 32,25; Os 12,4; Is 37,36; 2 Rs 19,35), até mesmo em grandes batalhas (cf: 2 Mcb 3,24-34; 5,2-4; 10,13).

Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Se­nhor nos ares…”(1 Tessalonicenses 4,13)

“Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade. Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas, e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, de uma extremidade do céu à outra.” (São Mateus 24,31)

Ei-lo que vem com as nuvens. Todos os olhos o verão, mesmo aqueles que o transpassaram. Por sua causa, hão de lamentar-se todas as raças da terra. Sim. Amém.” (Apocalipse 1,7)

Porém, para serem uma realidade sensível, seria necessário que esses santos tenham passado por uma ressurreição, recebendo o corpo glorioso (pois a alma não tem forma alguma, não pode ser vista), para só então serem arrebatados para junto de Cristo (não da maneira pré-tribulacionista protestante) e fazerem parte desse exército.

A descrição da Parusia dada pelo apóstolo Paulo, nos fala que há uma ordem* nessa ressurreição, o que faz sentido se houvesse esse último combate.

*Nota: Não podemos descartar que essa ordem pode ser também uma questão de mérito, os salvos então ressuscitam primeiro e os condenados depois.

“[…] por ocasião da vinda do Senhor, nós que ficamos ainda vivos não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Se­nhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor.”  (1 Tessalonicenses 4,13)

“Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de sua vinda.” (1 Coríntios 15,22-23)

Nessa vinda gloriosa ocorrerá primeiro a ressurreição dos que morreram em Cristo, até mesmo quem for digno e estiver vivo será transformado (glorificado) em um piscar de olhos, arrebatado até as nuvens, e assim poderão fazer parte desse exército de santos.

No capítulo 19, João muito provavelmente faz alusão a uma passagem do livro de Sabedoria de Salomão, onde diz que Deus armaria os justos (coroados), e todas as criaturas para lutar ao Seu lado em um combate escatológico contra os maus. No apocalipse os justos coroados (Ap 2,10; Ap 3,11; Ap 4,4) e com vestes brancas (Ap 3,4-5.18; Ap 6,11; Ap 7,9) aparecem combatendo ao lado de Cristo, o cavaleiro branco.

Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles. Por isso, receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo, afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.” (Sabedoria 5,15-20)

Outras passagens nos mostram a mesma coisa, a ressurreição e glorificação dos justos virá primeiro, para que se reúnam com Cristo. Tudo ocorrerá num só dia, será uma única ressurreição seguindo uma ordem para o juízo final. Não haverá esse grande intervalo de mil anos.

“Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de sua vinda. Depois, VIRÁ O FIM, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés.” (1 Coríntios 15,22-25)

Tudo isso ocorrerá em um mesmo momento (um só dia) e depois “virá o fim”:

“Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia, os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém.” (2 São Pedro 3,10)

Após o Dia do Senhor haverá a consumação dos céus e da terra. O mundo chegará ao fim, sem possibilidade de um reino terrestre de mil anos. Aliás, não há lógica e nem motivo algum para isso, como foi dito no começo do artigo: qual o sentido de um ressuscitado com vida eterna viver em um mundo mortal por mil anos? Pelo contrário, eles esperam um novo céu e uma nova terra que serão adequados para sua forma gloriosa, assim também nós esperamos:

“Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça.” (2 Pedro 3,13)

Porém, o Novo Céu e a Nova Terra só ocorrem no capitulo 21! O que nos leva ao centro da questão: o capítulo 20 parece ser uma retomada dos acontecimentos. Como uma recapitulação, que vai desde a encarnação e crucificação de Cristo até o juízo final. Esse é o reino milenar, que, como iremos demonstrar, é um reino espiritual que vai da Crucificação até a Parusia. Essa recapitulação nos mostra que Cristo não vai nos abandonar a própria sorte para agir apenas em um futuro indeterminado quando as coisas estiverem caóticas, mas sim que Ele já está no controle de todas as coisas, reinando do Céu com seus santos, pois seu reino não é deste mundo (Jo 18,36).

Continua…



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