Haverá um Reino Milenar e duas Ressurreições? Apocalipse 19-20 [Parte II]

Escrito por Lucas Falango.


O DRAGÃO ACORRENTADO

“Vi, então, descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, ele deve ser solto por um pouco de tempo.” (Apocalipse 20,1-3)

Nessa passagem vemos que Satanás foi acorrentado por um anjo. Satanás sendo um espírito não poderia ser detido de maneira física. Essa ação então não é literal, esse acorrentamento significa uma limitação do seu poder de ação no mundo.

Na Septuaginta, a profecia de Isaías 9,6 se refere a Jesus como o “Anjo do Grande Conselho”. Esse Anjo descendo do céu muito provavelmente é a encarnação de Cristo pois é dito no início do livro que o anjo estava em posse da chave do abismo (o mundo dos mortos: Rm 10,7). Jesus diz possuir essa chave, pois Ele venceu a morte.

“Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, e o que vive. Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos; tenho as chaves da morte e da região dos mortos.” (Apocalipse 1,17-18)

Jesus com sua morte na Cruz alcançou uma grande vitória contra os poderes de Satanás. A Bíblia faz referência a essa vitória na Cruz, onde o demônio saiu humilhado, porém, não completamente aniquilado.

Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz.”  (Colossenses 2,15)

“Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio.”  (Hebreus 2,14)

“Jesus disse-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio. Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo.” (Lucas 10,18)

Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim”. Dizia, porém, isto, significando de que morte havia de morrer.”  (João 12,31-33)

“Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim.” (João 14,30)

Essa é a razão do Apocalipse nos mostrar o Dragão sendo acorrentado. Satanás é derrotado na cruz, foi limitado em seus poderes para que o Reino de Deus pudesse se expandir, isso mostra que o reino milenar não é algo literal, pois tudo isso ocorre de maneira espiritual. Esse reino é a própria Igreja que se expande pela terra libertando os homens da escravidão de satanás. Nesse meio tempo (que João chama de reino milenar) as nações poderão ser convertidas a Cristo sem que sejam tentadas da maneira que eram antes. Essa parte do Apocalipse é então uma recapitulação da vitória de Nosso Senhor sobre Satanás. Porém, ele deverá ser solto um pouco antes do fim (Ap 20,3), até que venha o momento da Parusia, por motivos para nós desconhecidos*.

*Nota: talvez tenha algo a ver com o que os apóstolos citaram sobre uma ‘operação do erro/mentira’ antes da Parusia; 2 Ts 2,11; 1 Jo 2,28).

Essa é também a opinião que a Igreja acabou adotando, guiada pelo Espirito Santo (Jo 14,26; Jo 16,13), se baseando nos Santos Padres que tinham uma interpretação e uma teologia mais sólida, e desconsiderando nesse ponto, a opinião dos que professaram alguma ideia milenarista. Elencaremos a seguir alguns comentários da Patrística sobre o assunto:

“Os anos em que Satanás ficará preso vão do primeiro advento de Cristo, até o fim dos tempos; e são chamados de Mil, de acordo com o modo de falar, em que uma parte é significada pelo todo, assim como é essa passagem: “a palavra que Ele ordenou por mil gerações” (Sl 105,8), embora [as gerações] não sejam mil.” (Vitorino de Pettau, Comentário ao Apocalipse , 260 d.C.)

“O mesmo Papias, contudo, acrescenta outras coisas que lhe teriam sido transmitidas por tradição oral, certas parábolas estranhas atribuídas ao Salvador, determinados ensinamentos esquisitos e outras coisas um tanto fabulosas. Afirma, por exemplo, que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que o reino de Cristo se realizará materialmente aqui na terra. Penso que assim opinou por ter entendido erroneamente as narrações dos Apóstolos, e não ter apreendido o que eles disseram figurada e simbolicamente. Na verdade, ele parece ter tido pouca inteligência, como é possível constatar por seus livros; contudo, foi causa de que grande número de escritores eclesiásticos posteriores tenha adotado suas opiniões, fiados em sua antiguidade. Isso aconteceu a Ireneu e a outros que tiveram idêntico parecer.” (Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, livro III, 324 d.C.)

O diabo foi fisgado pelo Senhor, como um dragão, pelo anzol da Cruz; e foi preso em uma rede de arrasto, e amarrado como um escravo fugitivo, seus lábios foram perfurados por uma argola e uma algema, e ele não pode devorar nenhum dos fiéis. Agora, como um pardal miserável, ele é feito um joguete por Cristo; agora ele geme a seus companheiros, sendo pisoteados como serpentes e escorpiões sob os calcanhares dos cristãos.” (Santo Atanásio de Alexandria, Vida de Antônio, 356 d.C.)

“[Por acaso] prometemos a gula do milênio? Declaramos que os sacrifícios de animais judeus serão restaurados? Reduzimos as esperanças dos homens novamente a Jerusalém terrena, imaginando sua reconstrução com pedras de um material mais brilhante?” (São Gregório de Nissa, Carta 17, 330-395 d.C.)

O acorrentou por mil anos (Ap 20,2). O próprio Senhor Jesus Cristo diz: Ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar seus bens, a menos que primeiro prenda o homem forte (Mt 12,29) – ou seja, pelo homem forte, ele quis dizer: o diabo, porque ele tinha poder para manter cativa a raça humana; e significando pelos bens que ele deveria levar, aqueles que haviam sido mantidos pelo diabo em vários pecados e iniquidades, mas que deveriam vir a crer n’Ele. Foi então a prisão deste ‘forte’ que o apóstolo viu aqui. Mas a prisão do diabo significa que ele está sendo impedido de exercer todo o seu poder de seduzir os homens, forçando-os violentamente ou enganando-os fraudulentamente a juntar forças com ele.” (Santo Agostinho, Cidade de Deus, 410 d.C.)

“Mas os santos nunca possuirão um reino terrestre, mas apenas um celestial. Fora, então, com a fábula de um milênio!” (São Jerônimo, Comentário sobre Daniel, 407 d.C.)

“Pois, pelo número de mil, ele denotou não a quantidade de tempo, mas a universalidade, com a qual a Igreja exerce domínio. Agora, a velha serpente está presa por uma corrente e lançada no abismo, porque, estando amarrada [longe] dos corações dos bons, enquanto está trancada na mente dos pecadores perdidos, ele as domina com pior crueldade.” (São Gregório Magno, Moralia, 591 d.C.)

“[verso 1:] ‘Abismo’. Ele recapitula desde o início, e de maneira mais completa, como ele havia dito acima: “A besta que viste era e não é; e ascenderá do abismo e caminha para a perdição.” O Senhor, portanto, dotado do poder de Seu Pai, desce e se encarna, para fazer guerra com o príncipe deste mundo, quando ele é preso para ter seus bens espoliados […] [verso 2:] ‘O prendeu’. Ou seja, ele afastou e restringiu seu poder de seduzir os homens que seriam libertos. Pois se lhe fosse permitido exercer a totalidade [do seu poder], seja pela força ou pelo engano, ele seduziria a maioria dos fracos nesse tão longo [período de] tempo…” (Venerável Beda, Explicação do Apocalipse, 716 d.C.)

Essas informações são suficientes para esclarecer que essa questão do “Dragão acorrentado por mil anos” é uma linguagem simbólica, para demonstrar a derrota de Satanás com o triunfo de Cristo na cruz. Fica claro que não estamos tratando de um livro que conta uma história linear. E que os “mil anos” não são literais, pois senão a Parusia já teria ocorrido em algum momento da Idade Média. Consequentemente o “Reino Milenar” é uma realidade espiritual já presente em nossas vidas (Lc 17,20-21; Lc 23,43; Hb 12,22-24; Ef 2,5-7).


A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO

Voltemos então para onde começamos, para uma das passagens mais controversas das escrituras sagradas:

“Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma vida nova e reinaram com Cristo por mil anos. (Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos.) Essa é a primeira ressurreição. Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos.” (Apocalipse 20,4-6)

Agora que já sabemos que esse texto não fala de um futuro remoto. Ele acontece logo após o dragão ser preso e isso aconteceu na cruz. Isso demonstra que o reino de Cristo começou na Cruz.

“E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!’ Jesus respondeu-lhe: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso’.”  (Lucas 23,43)

Jesus responde “hoje” em contraposição ao “quando dito pelo Bom Ladrão, Jesus afirma que seu Reino já estava presente.

“Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: ‘O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós’.” (Lucas 17,20-21)

Jesus afirmou categoricamente que o Reino não se manifestará de modo ostensivo (de modo visível). O reino de Deus é então uma realidade espiritual até que venha a Parusia, os novos céus e a nova terra. Sem brechas para o milenarismo neste mundo que está fadado a destruição. Alguns então objetariam dizendo: “Mas o texto diz claramente: primeira ressurreição!”. Sim! Mas para entendermos o que o autor quis dizer com a expressão “primeira ressurreição”, precisamos voltar aos livros anteriores do Novo Testamento. É São Paulo que nos revela o entendimento verdadeiramente cristão dessas palavras:

“Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição.” (Romanos 6,3-5)

“Nele também fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão de homem, mas com a circuncisão de Cristo, que consiste no despojamento do nosso ser carnal. Sepultados com ele no batismo, com ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão da vossa carne, chamou-vos novamente à vida em companhia com ele…” (Colossenses 2,11-13)

“Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus.” (Colossenses 3,1)

“Mas Deus, que é rico em misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em consequência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos! -, juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus.” (Efésios 2,4-6)

Ora, não vemos na passagem (Ap 20,4-6) justamente essas almas se assentando com Cristo? O que São Paulo fala não é um mero simbolismo como tentam interpretar os racionalistas, mas uma realidade! Esses homens foram sepultados com Cristo no batismo e ressuscitaram para uma vida nova para se assentarem com Cristo no céu, essa é a primeira ressurreição!

Como o corpo humano perece e só será ressuscitado no fim dos tempos, a alma que é imortal ao se separar do corpo vai para o seu criador aguardar o dia da ressurreição da carne. O texto deixa claro que eram “as almas dos que foram decapitados”, no livro também vemos que “as almas dos homens imolados clamavam em alta voz” (Ap 6,9). Isso não é uma ideia filosófica grega, mas o explicito ensino das escrituras:

“[…] Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus […] Porque também nós, que estamos neste tabernáculo, gememos carregados […] Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe.” (2 Coríntios 5,1.4.6-9)

“Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, de manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer.” (2 Pedro 13-14)

“Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo – o que seria imensamente melhor; Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne.” (Filipenses 1,21-24)

É evidente diante das expressões: “viver no corpo”, “deixar este tabernáculo”, “ficar na carne”, “desprender-me para estar com Cristo”, “ausentar-nos deste corpo para habitar com o Senhor”, “o tempo […] no corpo é um exílio longe do Senhor”, etc. que os apóstolos sabiam que se encontrariam com Cristo imediatamente após a morte em uma existência fora do corpo, antes do Juízo Final e da Ressurreição. Ao contrário do que algumas seitas dizem, a imortalidade da alma está bem explícita e de acordo com as escrituras. Enquanto a hora da ressurreição dos mortos não chega essas almas não ficam esperando em um estado vegetativo, pelo contrário, já possuem um papel ativo na história (“serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos.”).

As almas daqueles que antes da morte corporal (a primeira morte) tomaram parte na primeira ressurreição, já reinam e operam um sacerdócio com Cristo. Eles não serão julgados no juízo final (“a segunda morte [a condenação eterna] não tem poder sobre eles”), pois já foram julgados por Cristo no juízo particular (Hb 9,27), para fazerem parte definitivamente da Igreja, do corpo de Cristo, que já foi julgado no calvário. O juízo para os santos será um juízo compensatório, ou seja, receberão a recompensa prometida por Deus e terão reparado publicamente qualquer dano feito à sua honra, eles serão juízes com Cristo e julgarão o mundo (1 Cor 6,2) e todos aqueles que não conseguiram a salvação em Cristo (os que “não tornaram à vida até que se completassem os mil anos”) e até mesmo os anjos. E por isso Jesus disse:

“Em verdade, em verdade, vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem vida eterna e não vêm a julgamento, mas passou da morte à vida.” (João 5,24)

“Em verdade, em verdade, vos digo: se alguém guardar minha palavra jamais verá a morte.” (João 8,51)

Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá…” (João 11,25)

Todos os que creem já passaram da morte à vida e não passarão por julgamento, é claro que “crer” é um ato contínuo de obediência a Deus, vivendo uma vida em Cristo, se abstendo das obras más e permanecendo no caminho das boas obras que Deus preparou para nós (Ef 2,10), “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). Esses que morrerem na graça de Deus farão parte do sacerdócio celestial, reinarão com Cristo e estarão com Ele julgando e não serão julgados.

Novamente, vamos elencar a seguir alguns comentários da Patrística sobre a passagem:

“Existem duas ressurreições. Mas a primeira ressurreição é agora das almas que são pela fé, a qual não permite que os homens passem para a segunda morte. Sobre esta ressurreição, o apóstolo diz: Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto (Cl 3,1).” (Vitorino de Pettau, Comentário ao Apocalipse, 260 d.C.)

“Em seguida, linhas adiante, prossegue: ‘Deste modo, nossos santos mártires, agora sentados ao lado de Cristo, partícipes de seu reino, que julgam com ele e com ele proferem a sentença (Ap 20,4; 1 Cor 6,6)…” (Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, livro VI, cp.42 – 326 d.C. – citando carta de Dionísio de Alexandria 190-264 d.C.)

A Igreja, portanto, reina com Cristo nos vivos e nos mortos […] Pois os que ainda estão vivos nesta carne mortal, assim como os que partiram, mesmo agora reinam com Cristo, por todo o intervalo que é representado pelo número de mil anos, e que de uma certa maneira é congruente com o tempo presente […] ‘O Resto’: [Se refere a] todo aquele que não ouviu a voz do Filho de Deus e passou da morte a vida (Jo 5,24), enquanto a primeira ressurreição ocorre, isto é, a ressurreição das almas; e na segunda ressurreição, que é a ressurreição do carne, certamente passará com a própria carne para a segunda morte, isto é, para tormentos eternos. ‘A Primeira ressurreição’: é certamente a primeira ressurreição em que ressuscitamos pelo batismo, como diz o apóstolo: “Se você ressuscitou com Cristo, procure as coisas do alto” (Cl 3,1). Pois, como a primeira morte nesta vida é por pecados, uma vez que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18,20), também a primeira ressurreição é [alcançada] nesta vida pela remissão de pecados.” (Venerável Beda, Explicação do Apocalipse, 716 d.C.)

“Eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus […] isto é, as almas dos mártires que ainda não foram restauradas em seus corpos. Pois as almas dos mortos piedosos não estão separadas da Igreja, que mesmo agora já é o reino de Cristo; […] Portanto, enquanto esses mil anos se prolongam, suas almas reinam com Ele, embora ainda não em conjunto com seus corpos. […] essa [primeira] ressurreição diz respeito não ao corpo, mas à alma. Pois as almas também têm sua própria morte em iniquidade e pecados, estes são os mortos dos quais se dizem: Deixe os mortos enterrarem seus mortos (Mt 8,22), isto é, os que estão mortos na alma, enterre os que estão mortos no corpo. É sobre esses mortos […] que Ele diz: Vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão (Jo 5,25).” (Santo Agostinho, Cidade de Deus, 410 d.C.)


CONCLUSÃO

Após reunir todas essas informações relativas ao Apocalipse e analisando os principais símbolos e expressões, concluímos que não haverá duas ressurreições, muito menos um reino milenar. Interpretar o Apocalipse de uma maneira literalista – como se Cristo viesse para reinar neste mundo fadado a destruição – é a maneira mais antibíblica de se interpretar o livro.

Precisamos ler o Novo Testamento para entendermos o Apocalipse, e não lermos o Novo Testamento segundo o Apocalipse. As expressões usadas por João podem parecer misteriosas e indecifráveis a princípio (podendo levar alguns a fazer uma interpretação um tanto literal), mas elas são perfeitamente esclarecidas quando buscamos as respostas no resto das escrituras atentos a linguagem usada pelos Apóstolos.



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