A PROFECIA TERMINOU EM 400 A.C.? Refutando conjecturas sobre o suposto período “interbíblico” – (Parte 1)

Por: Joe Heschmeyer

Tradução: Lucas Falango

Texto Original: https://shamelesspopery.com/did-prophecy-end-in-400-b-c/

Um padre amigo meu entrou em contato comigo porque um dos rapazes em sua classe de catequese para adultos foi persuadido por um livro do Dr. Phillip Kayser, “The Canon of Scripture: A Presuppositional Study”, no qual ele argumenta que existem apenas 66 livros na Bíblia, e que isso poderia ser aferido a partir da própria Bíblia, uma vez que “nada além da Bíblia (sejam tradições de homens ou reivindicações de nova revelação de Deus) pode ser usado para estabelecer a doutrina ou para mostrar com autoridade como glorificar a Deus na fé e na vida” (Kayser, p. 6). É sempre difícil, estando nessa posição, saber por onde começar: excluindo os apêndices, o livro tem 455 páginas e está repleto de erros factuais, exageros, distorções, saltos lógicos e coisas absolutamente falsas. Provar tudo isso mesmo por algumas páginas é trabalhoso e virtualmente impossível para um livro inteiro. Portanto, o que decidi fazer é pegar apenas uma seção, mostrar os problemas com ela, e, então, permitir que você faça um julgamento fundamentado sobre a qualidade do restante do livro a partir desta demonstração.

Eu escolhi seu argumento de que “todas as profecias cessaram em 400 a.C.” e que “esta era a visão judaica padrão dos dias de Cristo”. uma vez que o argumento é (a) de peso [se verdadeiro, desqualificaria os sete livros deuterocanônicos], (b) flagrantemente falso, (c) contrário ao Sola Scriptura [por depender de fontes extra-bíblicas], e (d) um tópico que já conheço. E não tenho nenhuma razão particular para acreditar que essa parte da obra seja substancialmente melhor ou pior do que qualquer outra parte dela, mas se ela refletir a qualidade geral do livro, você não está perdendo nada em não a ler. Então, sem mais delongas…

Todas as profecias cessaram em 400 a.C.?

“Todas as profecias cessaram em 400 AC: Esta era a visão judaica padrão nos dias de Cristo.” (Kayser, p. 89)

O argumento de Kayser que quero examinar mais de perto é este:

“Era um axioma entre os judeus que toda a Escritura era profética. Em segundo lugar, era um axioma entre os judeus que a Escritura predisse a cessação de todas as profecias de 400 a.C. até que o Messias surgisse como o Grande Profeta. Se essas duas afirmações podem ser apoiadas pelas Escrituras, então 100% dos apócrifos encontrados no cânone católico romano podem ser automaticamente descartados. (Kayser, p. 86)”

O argumento aqui está na forma de um silogismo, mas um enganoso. A primeira afirmação é que “era um axioma entre os judeus que toda a Escritura era profética”. Seja ou não um “axioma entre os judeus”, acho que podemos conceder com segurança que qualquer judeu ou cristão ortodoxo poderia afirmar a dimensão profética das Escrituras. Mas Kayser vai tomar “toda a Escritura era profética” como se significasse “toda a Escritura foi escrita por um profeta”, e isso não é a mesma coisa. Salomão é o autor tradicionalmente aceito de vários livros do Antigo Testamento, e São Lucas é o autor de um dos quatro Evangelhos, e vários Salmos (cf. Salmos 42,1 por exemplo) foram escritos pelos “filhos de Coré”, que serviam como porteiros do Templo (1 Cr 26,19) e ajudavam a liderar o povo em louvor (2 Cr 20,19). Mas essas não são normalmente as pessoas a que nos referimos quando falamos sobre “os Profetas”. Tendemos a nos referir a pessoas como Elias e Eliseu, que não escreveram nenhum livro. Portanto, preste atenção a essa mudança no argumento – de “a Escritura é profética” para “todos os autores das Escrituras foram profetas”. Não é uma conclusão válida, mas é um ponto essencial para a argumentação de Kayser.

Mas eu quero focalizar especificamente na segunda afirmação, de que “era um axioma entre os judeus que a Escritura predisse a cessação de todas as profecias de 400 a.C. até que o Messias surgisse como o Grande Profeta”. Pelo que eu posso dizer, Kayser está literalmente inventando essa afirmação. As fontes que ele cita não dizem isso e, de fato, várias delas contradizem diretamente as afirmações que ele está fazendo.


Os argumentos de autoridade

Ao ler qualquer tipo de argumento, é útil perguntar: “como posso saber se isso é verdade?” E deveríamos estar perguntando exatamente isso quando lemos afirmações como esta: “Mas todas as profecias cessaram entre 400 a.C. e a vinda de Cristo? Essa era certamente a visão dos judeus no primeiro século. Como já declarado, era um princípio axiomático para os judeus que a profecia cessou com a escrita de Malaquias e 2 Crônicas.” (Kayser, p. 89). Qual é a prova para esta afirmação de que os judeus do primeiro século sabiam axiomaticamente que todas as profecias haviam cessado 400 anos antes?

Eu originalmente pensei em uma análise muito mais detalhada, mas foi um trabalho árduo para ler todo o material, pois lendo muitas de suas notas de rodapé, descobri que elas realmente não apoiavam suas afirmações. Mas deixe-me resumir:

  • Para apoiar esta afirmação, Kayser não cita uma única fonte judaica antiga.
  • Em vez disso, ele cita alguns outros protestantes: a saber, Milton C. Fisher em “The Canon of the Old Testament,” do “Expositor’s Bible Commentary”; George L. Robinson e R.K. Harrison em “Canon of the Old Testament,” da “International Standard Bible Encyclopedia”; David G. Dunbar em “The Biblical Canon” da obra “Hermeneutics, Authority, and Canon” de D.A. Carson e John D. Woodbridge.

As duas primeiras dessas fontes se apoiam em uma única evidência: algumas linhas da obra “Contra Apion” de Flávio Josefo, em que ele diz:

“Pois não temos uma multidão inumerável de livros entre nós, discordando e contradizendo uns aos outros [como os gregos têm], mas apenas vinte e dois livros: que contêm os registros de todos os tempos passados, que se acredita com justiça serem divinos. E deles, cinco pertencem a Moisés: que contêm suas leis e as tradições da origem da humanidade, até sua morte. Esse intervalo de tempo foi de pouco menos de três mil anos. Mas quanto ao tempo desde a morte de Moisés, até o reinado de Artaxerxes, Rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os Profetas, que foram depois de Moisés, escreveram o que foi feito em seus tempos, em treze livros. Os quatro livros restantes contêm hinos a Deus; e preceitos para a conduta da vida humana. É verdade, nossa história foi escrita desde Artaxerxes muito particularmente; mas não foi considerado da mesma autoridade por nossos antepassados; porque não houve uma sucessão exata de Profetas desde aquela época.”

  • Significativamente, Josefo não afirma realmente que “todas as profecias cessaram”. Seu argumento era que a “sucessão exata de Profetas” havia sido interrompida, dando aos livros posteriores uma autoridade inferior. E não há nada em Josefo para apoiar a ideia de que (a) isso duraria apenas até a época do Messias, ou (b) que este silêncio divino foi predito pelas Escrituras. Pelo que eu posso dizer, Kayser está inventando essas partes – elas não se encontram em nenhuma de suas fontes citadas.
  • Mesmo que eles estejam contando com uma única fonte (e não do período de tempo em questão), Robinson e Harrison argumentam que “era a tradição uniforme da época de Josefo que a inspiração profética cessou com Malaquias.” Como eles podem fazer uma afirmação tão abrangente? Eles realmente não corroboram isso, exceto com um argumento pelo silêncio: “[Josefo] não faz uma pausa para dar qualquer relato sobre o fechamento do cânon; ele simplesmente assume, tratando-o como desnecessário.” Mas, como eles próprios admitiram, “as declarações de Josefo sobre a antiguidade do cânone judaico não possui a linguagem de um historiador cuidadoso, mas de um partidário em debate”.
  • Em outras palavras, Josefo está tentando mostrar a superioridade da cultura judaica sobre a cultura grega com base no fato de que “não temos uma infinidade de livros entre nós, discordando e contradizendo uns aos outros: [como os gregos têm:] mas apenas vinte e dois livros.” Portanto, não é difícil entender o motivo dele passar batido pelos bem conhecidos debates internos do Judaísmo, porque esses debates minam seu argumento.

(Analogia: imagine que você escreveu sobre como o Cristianismo é melhor do que o relativismo moral porque há um senso claro de certo e errado. Nesse argumento, você pode não incluir detalhes sobre a quantidade de conflitos dentro do Cristianismo. E agora imagine que esta única evidência foi usada para “provar” que católicos, ortodoxos e protestantes estavam todos unidos em questões morais no ano de 2020. É isso que está acontecendo com o argumento de Josefo).

  • Josefo realmente acreditava que todas as profecias haviam cessado em 400 a.C.? Não. Em seu relato histórico “Antiguidades Judaicas”, Josefo deixa claro que acreditava que continuou a haver profetas mesmo depois da época de Artaxerxes. Por exemplo, ele fala de um essênio chamado Judas “que nunca perdeu a verdade em suas previsões”, previu o dia exato em que Antígono I Monoftalmo morreria em 301 a.C. Quando o dia estava quase acabando, exatamente quando parecia que Judas seria provado ser um falso profeta, a profecia se cumpriu. No entanto, Josefo diz: “este evento colocou o profeta em grande desordem.” Quer você acredite ou não neste relato, fica claro que Josefo acreditava, e considerava Judas, o essênio, um profeta autêntico, apesar de já terem passado 100 anos nos alegados 400 anos de silêncio divino.
  • David Dunbar, a terceira das fontes de Kayser, na verdade não diz (como Kayser afirma) que os judeus antes de Cristo estavam cientes de algum argumento bíblico sobre o fim da profecia, Dunbar diz apenas que “pelo menos um século antes da era cristã, os judeus estavam cientes de que a profecia em sua forma clássica pertencia ao passado. ” Na verdade, ele confia no estudioso luterano David Aune para a proposição de que, embora o termo “profeta” fosse normalmente usado “apenas para os profetas israelitas clássicos ou para os profetas escatológicos que deveriam aparecer no final dos tempos”, “várias manifestações de profecia continuaram entre os judeus palestinos durante o período do Segundo Templo” [516 AC – 70 d.C.], e este é justamente o período durante o qual Kayser afirma (com base em Dunbar!) que a profecia havia cessado.

Então, para resumir: há uma única fonte, Josefo, escrevendo no ano 100 d.C., alegando que a “sucessão exata de profetas” terminou em 400 a.C., e é por isso que os livros escritos depois disso são de autoridade inferior. Não há evidências de que essa era uma crença universal em 100 d.C., ou em 1 d.C., ou em 100 a.C., ou mesmo que alguém além de Josefo acreditasse nela. E as próprias opiniões de Josefo incluem a crença de que a profecia continuou de alguma forma mesmo depois de 400 a.C. Diante disso, é difícil levar a sério a afirmação de que “a visão dos judeus no primeiro século” era que “todas as profecias cessaram entre 400 a.C. e a vinda de Cristo”.

Continua na Parte 2



Categorias:Bíblia, Refutações, Traduções

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