A PROFECIA TERMINOU EM 400 A.C.? Refutando conjecturas sobre o suposto período “interbíblico” – (Parte 2)

Por: Joe Heschmeyer

Tradução: Lucas Falango

Texto Original: https://shamelesspopery.com/did-prophecy-end-in-400-b-c/

1º Argumento da Escritura: Oséias 3,4-5

É igualmente difícil levar a sério a afirmação de Kayser de que “era um axioma entre os judeus que a Escritura predisse a cessação de todas as profecias de 400 a.C. até que o Messias surgisse como o Grande Profeta” (Kayser, p. 86). Até mesmo Josefo não diz nada sobre como as “Escrituras predisseram” o fechamento do cânon ou o fim da profecia. Pelo que posso dizer, Kayser está inventando essa parte, porque há passagens na Bíblia que ele acha que sustentam 400 anos de silêncio divino. Mas para chegar lá, ele tem que distorcer o significado das passagens a ponto delas se tornarem irreconhecíveis, e de uma forma totalmente contrária de como os antigos judeus e os primeiros cristãos realmente as liam.

Então, quais são os argumentos bíblicos que Kayser considera tão persuasivos? O primeiro é Oséias 3,4-5 que diz que “os filhos de Israel ficarão muitos dias sem rei ou príncipe, sem sacrifício ou coluna sagrada, sem éfode ou terafins. Depois os filhos de Israel voltarão e buscarão ao Senhor seu Deus e a Davi, seu rei. Eles temerão ao SENHOR e à sua bondade nos últimos dias.”

A primeira coisa a notar é que esta é uma passagem sobre Israel sendo afastada de Deus, ficando sem reis ou sacrifícios no Templo. Não há nenhuma referência clara aos profetas nesta passagem. Isso não abala Kayser tanto quanto deveria. Ele está convencido de que o éfode e os terafins, objetos que estavam ligados à divinização, seriam uma referência implícita aos profetas. Isso está longe de ser claro, porque embora saibamos basicamente o que é um éfode (é uma vestimenta usada pelo sumo sacerdote. Cf: Êx 25,7; 28,4), não está claro o que são terafins. (Se você quiser saber mais sobre isso, eu recomendo o artigo The Nature of the Biblical Teraphim in the Light of the Cuneiform Evidencede Karel van der Toorn).

Sabemos que eram usados ​​na adoração, especialmente no culto ou no templo, e possivelmente relacionados com a previsão do futuro. Juízes 18,17 lista um sacerdote apóstata tendo “a imagem de escultura, o éfode, os terafins e a imagem de fundição” (Jz 18,17), portanto, o terafim é de alguma forma algo distinto de uma “imagem de escultura” ou uma “imagem de fundição”, mas talvez com alguma relação. O que quer que sejam, estavam na própria casa do Rei Davi (1 Sm 19,11-13). Portanto, o melhor que podemos dizer é que fossem algo como uma “imagem religiosa”, e se era bom ou mau provavelmente depende do contexto. No contexto de Oséias 3, 4, o profeta está claramente apresentando como algo ruim Israel estar “sem éfode ou terafins”, não estando totalmente reconciliados com Deus. Portanto, dificilmente faz sentido dizer que o profeta estivesse lamentando que Israel não tinha seus ídolos. Em vez disso, os terafins aqui são provavelmente os adornos do Templo, ou mesmo algo relacionado às próprias vestes do sacerdote. Isso explicaria por que a Septuaginta traduziu esta passagem como dizendo que “os filhos de Israel viverão muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício e sem altar, e sem um sacerdócio, e sem manifestações”.

Ainda assim, a teoria de Kayser faz algum sentido ao ver as implicações proféticas. Se ele estiver certo, existem três conjuntos de pares:

Rei: “Rei ou Príncipe”

Sacerdote: “Sacrifício ou Pilar” (LXX: Sacrifício ou Altar)

Profeta: “Éfode ou Terafim” (LXX: Sacerdócio e Manifestações)

Ele pode muito bem estar certo nesta parte, visto que o éfode é usado no peitoral do sumo sacerdote e está conectado ao oráculo do juízo, Urim e Tumim (Eclo 45,10; cf.: Ex 28,30, Lv 8,8; Nm 27,21), e que os terafins eram usados ​​para tentar prever o futuro (Ez 21,21; Zc 10,2). Supondo que ele esteja certo sobre isso, então estamos olhando para um tempo em que Israel está sem sacerdotes, profetas ou reis.

A pergunta óbvia é: de quando se trataria essa profecia? Kayser apresenta um argumento circular de que só pode ser o “período intertestamentário”, embora todo o ponto de seu argumento fosse supostamente provar que existiu mesmo esse tal “período intertestamentário” para começar. Aqui está o que ele escreve:

“O fato de que Zacarias (520 a.C. e depois) profetiza contra pessoas que usam terafins (Zc 10,2) mostra que o período que está sendo antecipado como sem terafins deve ser um pouco posterior à profecia de Zacarias. Mas houve um tempo em que, pelo menos externamente, o uso de ídolos foi completamente rejeitado por Israel? Sim. O Israel restaurado permaneceu fiel a Deus na maior parte do tempo entre 400 e 4/5 a.C. Portanto, o versículo 4 deve ocorrer algum tempo depois dos profetas pós-exílio e antes de 5/4 a.C. (quando Jesus nasceu). Essa janela de tempo é o que tradicionalmente se chama de “quatrocentos anos de silêncio”.” (Kayser, p.91-92).

Há uma dificuldade óbvia e gritante nisso. Mesmo que você pense (apesar da evidência judaica e da evidência bíblica que apresentarei adiante) que não houve profetas durante este período, havia claramente sacerdotes e sacrifícios. Mas Kayser tem uma resposta: Israel não tem sacrifícios pagãos, e é por isso que Deus se refere à “coluna”, uma imagem tradicional da adoração pagã. Se isso já parece forçado, eis aqui a sua defesa da ideia:

“Por que Jesus, como o último sacerdote, seria contrastado com a adoração pagã em vez dos sacerdotes de Israel? Eu acredito que é porque esses dísticos estão lidando com coisas que Israel estava “sem”, a fim de antecipar a necessidade de um Messias que abrangesse todos os três ofícios. Visto que Israel não estava sem um sacerdócio de 400-5 / 4 a.C., a única coisa que poderia ser contrastada é a adoração pagã. Que a adoração pagã está em vista pode ser vista pelo fato de que a “coluna sagrada” é sempre vista como idólatra (Ex. 23,24; 34,13; Lv 26,1; etc.), Deus não está denegrindo os judeus intertestamentários. Foram preditos santos (Dn 7,18) que seriam poderosos nas façanhas porque conheciam o seu Deus (Dn 11,32).” (Kayser, p. 94).

Em outras palavras, Deus queria usar a imagem do’ sacerdote-profeta-rei’, mas como Israel ainda tinha sacerdotes, Ele teve que usar sacerdotes pagãos para passar a mensagem. [Outro erro gritante: a coluna sagrada não necessariamente era “sempre vista como idólatra”, como podemos ver em Êxodo 24,4]. Para sustentar isso, Kayser tem que dizer que não é ruim que “os filhos de Israel habitarão muitos dias sem rei ou príncipe, sem sacrifício ou coluna, sem éfode ou terafins.” Segundo ele, isso significa que Israel carece de seis coisas, uma mistura aleatória de coisas boas e ruins. Neste ponto, seu argumento é tão complicado que vale a pena traçá-lo:

Reis (Bom) Príncipes (Bom)

Sacrifícios Pagãos (Ruim) Colunas Pagãs (Ruim)

Éfode (Bom) Terafins (Ruim)

Isso destrói o significado da profecia de Oséias, na qual Israel é comparado a uma mulher adúltera que eventualmente se reconcilia com seu marido (Oséias 3,1-2). Da mesma forma “os filhos de Israel ficarão sem rei e sem chefe, sem sacrifício nem monumento, sem éfode e terafim. Depois disso, os filhos de Israel voltarão a buscar o Senhor, seu Deus, e Davi, seu rei; recorrerão comovidos ao Senhor e à sua bondade, no final dos tempos.” (Oséias 3,4-5)

Muito claramente, Israel se afastou de Deus em alguns aspectos importantes e precisa se reconciliar. Ela é apresentada como alguém que escolheu ser adúltera, e é ela quem precisa “voltar e buscar ao Senhor”. Kayser não capta nada disso em sua exegese, na qual é Deus quem se separa de Israel (eliminando os profetas sem razão aparente) e Deus que se reuniu a Israel (por meio da Encarnação). Por mais bizarro que isso possa ser, a exegese de Kayser parece tornar Deus o adúltero, não Israel.

Vale a pena mencionar que, embora Kayser afirme que algo assim foi sustentado axiomaticamente pelos judeus, não era esse o caso. Lembre-se da tradução da Septuaginta, na qual eles entenderam a passagem como sendo cortados da linha davídica e da adoração no Templo, apenas para serem redimidos no futuro. (O Talmud apresenta outra visão diferente, mas que também falha em dar sentido à passagem).

Mas a exegese mais clara da passagem vem dos primeiros cristãos. Orígenes sugere que se trata do povo judeu após 70 d.C., pois “desde a queda do templo, as vítimas não são oferecidas, nem qualquer altar encontrado, nem existe qualquer sacerdócio”. Em outras palavras, Kayser está certo em ver a passagem como profética de Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei de alguma forma. Mas não se tratava de um “período intertestamentário” de 400 anos. E sim sobre um grande número em Israel rejeitando seu sacerdote, profeta e rei … e a eventual restauração por meio da qual “todo o Israel será salvo” (Rm 11,26). Santo Agostinho também leu isso significando “que aqueles israelitas carnais que agora não estão dispostos a acreditar em Cristo acreditarão posteriormente, isto é, seus filhos o farão (pois eles próprios, é claro, irão para seu próprio lugar na morte)”. Esta interpretação parecia tão óbvia para ele que perguntou: “Quem não vê que os judeus agora são assim?” antes dele nos lembrar da esperança que existe para o futuro [dos judeus].

E quando você ouve essa interpretação e percebe que se trata do período presente, fica óbvio. Não há necessidade de uma ginástica mental ou dos absurdos exegéticos que Kayser emprega para tentar amontoar isso no período de 400 a.C. – 5 a.C. (um período de tempo em que, Israel tinha um sacerdócio, e às vezes caía na idolatria, e basicamente parecendo muito pouco com [a descrição de] Oséias 3,4).

Continua na Parte 3



Categorias:Bíblia, Refutações, Traduções

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1 resposta

  1. Muito bom, e que venham muitas outras refutações as mentiras e confusões de linguagem protestante…

    Viva Cristo Rei!
    Salve Maria!

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