A PROFECIA TERMINOU EM 400 A.C.? Refutando conjecturas sobre o suposto período “interbíblico” – (Parte 3)

Por: Joe Heschmeyer

Tradução: Lucas Falango

Texto Original: https://shamelesspopery.com/did-prophecy-end-in-400-b-c/

2º Argumento da Escritura: Amós 8,11-14

O segundo argumento bíblico que Kayser apresenta é de Amós 8,11-14. Ele afirma que “Amós nos fornece instruções claras que excluem completamente qualquer forma de profecia nos anos 400-5/4 a.C.” (p. 96). Eu vou deixar você decidir por si mesmo. Aqui está o texto que ele cita, Amos 8,11-14:

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR. E irão errantes de um mar até outro mar, e do Norte até ao oriente; correrão por toda a parte, buscando a palavra do SENHOR, mas não a acharão. Naquele dia as virgens formosas e os jovens desmaiarão de sede. Os que juram pela culpa de Samaria, dizendo: Vive o teu deus, ó Dã; e vive o caminho de Berseba; esses mesmos cairão, e não se levantarão jamais.

O ponto crucial do argumento de Kayser é que isso deve ser sobre a cessação da profecia, porque “menciona uma ausência total da palavra do Senhor”, “o próprio Deus envia essa ausência de profecia”, “a ausência de profecia não é porque as pessoas falham para buscá-lo”, “a ausência de profecia é universal” e “esta cessação particular de profecia é temporária e não final” (p. 100 – 102). Esta última afirmação (sobre a natureza temporária da fome) não é por causa de qualquer coisa dentro do próprio texto: é que Kayser precisa que isso seja verdadeiro para justificar o prazo [de 400 anos] que ele estabeleceu. “antes da época de Cristo, a revelação não estava completa. Deus estava preparando as pessoas para ansiar pela vinda do Grande Profeta, Jesus Cristo” (p. 102).

Mesmo uma leitura superficial dos outros exemplos em que as Escrituras falam de ouvir a palavra do Senhor mostram que a interpretação que Kayser está fazendo é forçada. Quando Deus fala de fome por Sua palavra, por que isso significaria falta de novas revelações? Por meio do profeta Zacarias, Deus diz aos fiéis de Sião “Sejam fortes as vossas mãos, vós que nestes dias ouvistes estas palavras da boca dos profetas” (Zacarias 8,9), e elas são contrastadas com aqueles que “tornaram os seus corações inflexíveis para que não ouvissem a lei e as palavras que o Senhor dos exércitos enviara pelo seu Espírito por meio dos antigos profetas” (Zacarias 7,12). Não se trata de pessoas recebendo ou não novas revelações. É sobre o que eles fazem com a revelação que já receberam. Da mesma forma, o Rei Josias reuniu “todo o povo, pequenos e grandes. Leu então, diante deles, todas as palavras do livro da Aliança que fora descoberto no templo do Senhor.” (2 Rs 23,2), chamando o povo de volta à sua fé ancestral. E quando Deus deu o maná ao povo para lembrá-los de que “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8,3), Ele não estava lhes dizendo para exigir uma nova revelação profética todos os dias. Na opinião de Kayser, a fome “de ouvir as palavras do Senhor” é porque as pessoas têm as Escrituras, mas nenhuma nova revelação.

Tal como acontece com sua estranha visão de Oséias 3, em que Deus aparece como o adúltero infiel, Kayser aqui vê Deus como retendo arbitrariamente Sua revelação profética, simplesmente porque Ele quer:

“Deus tem a liberdade de dar ou não revelação, e não podemos reter Sua mão se Ele assim o escolheu. O conceito de cessação da profecia não é uma limitação de Deus. Pelo contrário, é a liberdade soberana de Deus para dar ou não dar. A pergunta não é “O que Deus pode fazer?” mas sim, “O que ele escolheu fazer?” […] Alguns argumentam que a falta de profecia não é porque Deus não está falando, mas sim porque não estamos ouvindo. Mas esta passagem mostra claramente que a falha [dos judeus] em receber revelação foi por causa de Deus faltar em dá-la (“Eu enviarei fome”).” (p. 100)

Kayser tem que se agarrar a essa ideia de uma retirada arbitrária da revelação de Deus para que sua linha do tempo faça sentido. Afinal, seu argumento é que Deus ficou em silêncio por 400 anos e que Israel nada fez para merecer isso.

Então, quais razões Kayser dá para aceitar a ideia de que Amós 8 é uma profecia sobre o período de 400 a.C. a 5 a.C.? Que “Amós 8,1-10 é 607 a.C. e 8,11-12 é depois de 607 a.C.” e que “Samaria e a tribo de Dã ainda existiam” (p. 98). Dizer que esses argumentos não são convincentes é muito brando. Eles são completamente bizarros. Em primeiro lugar, a tribo de Dan não existia em nenhum momento entre 607 a.C. e 5 a.C. Dan foi uma das dez tribos do norte que se separaram da Judéia durante a rebelião de Jeroboão após a morte do rei Salomão (1 Reis 11,29-38). Este reino do norte ficou conhecido como Samaria, e em 733 a.C., “o rei da Assíria capturou Samaria e levou os israelitas para a Assíria, e os colocou em Hala e no Habor, o rio de Gozan, e nas cidades dos medos” (2 Reis 17,6). Não há menção na Bíblia sobre o que aconteceu com a maioria desses exilados, ou se eles estão, além do nome, relacionados de alguma forma com os samaritanos que viviam na terra na época de Cristo (e até hoje). Por este motivo, essas dez tribos são frequentemente chamadas de “tribos perdidas” de Israel:

Na tradição pós-bíblica, os israelitas nortenhos deportados são frequentemente chamados de “as dez tribos perdidas”. Dada a falta de documentação relativa ao destino dos exilados do norte, os escritores posteriores referiram-se àqueles dispersos em locais obscuros do (antigo) império Assírio como “perdidos”. O número “dez” é dado pois representava o número tradicional das tribos do norte (por exemplo, 1 Reis 11,29-38). No caso dos exílios posteriores dos judeus na Babilônia (c. 598 e 586 AEC), há uma literatura histórica significativa sobre o retorno ou, mais precisamente, os retornos de alguns judeus à sua terra natal nos séculos que se seguiram. Com uma exceção importante, referindo-se ao reassentamento dos exilados de Manassés e Efraim em Jerusalém (1 Cr 9,3; Knoppers 200b), não há relatos bíblicos comparáveis ​​dos residentes exilados do antigo reino do norte.

A tribo de Dã foi varrida do mapa permanentemente durante a vida do profeta Amós, então seria um erro considerar a frase “Vive o teu deus, ó Dan” (Amós 8,14) como algum tipo de promessa não cumprida que a tribo existiria geograficamente em alguma data posterior. Isso não aconteceu, como revela um mapa de Israel na época de Cristo. É isso que é tão peculiar sobre o argumento de Kayser: uma grande parte do argumento gira em torno do que parece ser um erro geográfico e histórico bastante básico, semelhante a dizer que algo deve ter acontecido em 2016 em vez de 2017 porque as Treze Colônias ainda existiam.

Mas entender errado a história de Israel é compreensível: muitos cristãos se confundem sobre as Doze Tribos. O que é pior é a afirmação de Kayser de que Amós 8,1-10 está descrevendo 607 a.C., o que (por alguma razão) torna Amós 8,11-12 cerca de 400-5 a.C. O preocupante é que em sua ânsia de encontrar algo que refute os Livros Deuterocanônicos, ele está acabando com uma explícita profecia messiânica. Aqui está a profecia de Amós de volta em seu contexto apropriado, Amós 8: 9-12:

E sucederá que, naquele dia, diz o Senhor Deus, farei que o sol se ponha ao meio-dia, e a terra se entenebreça no dia claro. E tornarei as vossas festas em luto, e todos os vossos cânticos em lamentações; e porei pano de saco sobre todos os lombos, e calva sobre toda cabeça; e farei que isso seja como luto por um filho único, e o seu fim como dia de amarguras. Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR.E irão errantes de um mar até outro mar, e do norte até ao oriente; correrão por toda a parte, buscando a palavra do Senhor, mas não a acharão.

Compare isso com o relato de São Lucas sobre a crucificação de Cristo: “E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol; E rasgou-se ao meio o véu do templo.” (Lucas 23,44-45). A “hora sexta” é meio-dia, Lucas não poderia ser mais claro do que isso. Ele está dizendo que a Sexta-feira Santa é o cumprimento de Amós 8.

Embora Kayser tenha deixado passar despercebido o significado cristológico óbvio da passagem, os primeiros cristãos não deixaram. Santo Irineu de Lyon, escrevendo em 180 d.C., explicou que Amós 8,9-10 “anunciou claramente o obscurecimento do sol que ocorreu no momento de sua crucificação a partir da hora sexta, e que após este evento, aqueles dias que eram seus festivais de acordo com a lei, e seus cânticos, deveriam ser transformados em tristeza e lamentação quando fossem entregues aos gentios.”. Em outras palavras, a “fome da palavra” não foi um capricho arbitrário da parte de Deus. O povo que rejeitou a Palavra de Deus, o Pão da Vida, encontrou-se separado de Deus, em uma fome da Palavra, e então rapidamente em um exílio literal: a Diáspora de 70 DC Irineu conecta esses eventos a Jeremias 15, em que Deus diz a Jerusalém: “Tu me deixaste” e avisa que “A que dava à luz sete se enfraqueceu; expirou a sua alma; pôs-se-lhe o sol sendo ainda de dia, confundiu-se, e envergonhou-se; e os que ficarem dela entregarei à espada, diante dos seus inimigos, diz o Senhor.” (Jeremias 15,6.9) Observações semelhantes foram feitas por Tertuliano (155-240 d.C.), São Cipriano (200-258 d.C.), Lactâncio (250-325 d.C.) e inúmeros outros.

Em outras palavras, o erro de Kayser ao interpretar Amós 8 é exatamente o mesmo que seu erro ao interpretar Oséias 3. Ambas as passagens são sobre Jesus Cristo e as consequências para Israel de rejeitá-lo, e é assim que os primeiros cristãos entenderam ambas as passagens. Ignorante ou indiferente a dois mil anos de interpretação bíblica clara, Kayser reinterpreta essas passagens como sendo, não sobre a rejeição de Cristo, mas de Deus se recusando arbitrariamente a dar profetas a Seu povo. Não apenas nada no texto requer tal interpretação, mas para apoiar tal interpretação, Kayser tem que reduzir Oséias 3 a ininteligibilidade, enquanto redescobre a tribo perdida de Dan para fazer sua interpretação de Amós 8 funcionar.

Neste ponto, vimos que os principais argumentos de Kayser são falsos. Quando ele afirmou que “era um axioma entre os judeus que a Escritura predisse a cessação de todas as profecias de 400 a.C. até que o Messias surgisse como o Grande Profeta ”, o que ele realmente quis dizer parece ter sido mais como “a minha interpretação particular de Amós 8 e Oséias 3, contradizendo todas as antigas fontes judaicas e cristãs, me permite imaginar um suporte bíblico para os 400 anos de silêncio divino.” Mesmo assim, você pode estar se perguntando: há um argumento bíblico contra a teoria dos 400 anos de silêncio divino? A resposta curta: existe, mas você provavelmente está exausto de ler tudo isso, então serei breve.

Continua Continua na Parte 4.



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