A PROFECIA TERMINOU EM 400 A.C.? Refutando conjecturas sobre o suposto período “interbíblico” – (Parte 4)

Por: Joe Heschmeyer

Tradução: Lucas Falango

Texto Original: https://shamelesspopery.com/did-prophecy-end-in-400-b-c/

O Caso Bíblico Contra os 400 Anos de Silêncio Divino

A mudança do Antigo para o Novo Testamento não foi uma questão de Deus se revelar parcialmente a Israel, ficar em silêncio por 400 anos e depois voltar à cena. Em vez disso, foi um processo de revelação contínua de Deus, culminando na Encarnação. Podemos ver isso mais claramente quando olhamos para os profetas bem no ápice entre a Velha e a Nova Aliança. Por exemplo, Jesus descreve João Batista como “um profeta” e “mais do que um profeta”, o mensageiro que vem antes da chegada do próprio Deus à história (Mt 11,9-10). No entanto, em um certo sentido, João é um profeta da Antiga Aliança, como Jesus disse (Mt 11,11-14):

Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.

Quando Jesus diz que “todos os profetas e a lei profetizaram até João”, Ele está declarando que a revelação da Antiga Aliança foi encerrada com João Batista. As coisas não param de repente e sem motivo aparente em 400 a.C. Elas continuam até João, e só terminam porque não há mais nada a preparar. De um lado está a Lei e os Profetas, até João. Do outro lado está Jesus e o Reino.

Se você pensa em “Antiga Aliança” como “Antigo Testamento”, provavelmente isso fica confuso. João Batista está na metade errada do livro! E mais, ele nunca escreveu nenhuma Escritura. Ao longo deste artigo, estive trabalhando com a suposição de Kayser (em última análise, a suposição de Josefo) sobre a relação entre os profetas e a escrita dos livros da Bíblia. Mas vale a pena notar que alguns dos maiores profetas do Antigo Testamento nunca escreveram uma palavra sequer das Escrituras. Por exemplo, na Transfiguração, vemos Moisés e Elias, a personificação (por assim dizer) da Lei e dos Profetas, respectivamente. No entanto, aquele associado aos “Profetas” não é aquele associado à escrita das Escrituras. Portanto, não é tão estranho que Jesus veja a revelação da Antiga Aliança como continuando, ininterruptamente, até a Sua própria chegada.

Os dois outros profetas situados entre as duas alianças, são Simeão e Ana. De Simeão, São Lucas diz (Lucas 2,25-32):

Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E fora-lhe revelado, pelo Espírito Santo, que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. E pelo Espírito foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei, Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, A qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel.

Simeão é apresentado como alguém sobre quem está o Espírito Santo, e que recebe revelações de Deus. Isso não o torna um profeta, por definição? E não significa que Deus ainda está falando? É significativo que ele seja um homem velho, que está pronto para morrer agora que Cristo veio. Comentando sobre Jeremias 31, Hebreus 8,13 diz que “ao falar de uma nova aliança [Deus] trata a primeira como obsoleta. E o que está se tornando obsoleto e envelhecendo está prestes a desaparecer.” É apropriado, então, que Simeão sirva como uma espécie de personificação dos profetas fiéis da Antiga Aliança, esperando pacientemente a vinda do Messias.

O mesmo é verdade para Ana, que também saúda o menino Jesus em sua apresentação. Mas aqui, a linguagem é ainda mais explícita, tanto ela é uma profetisa, quanto ela é velha (Lucas 2: 36-37):

E estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Esta era já avançada em idade, e tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade; E era viúva, de quase oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus em jejuns e orações, de noite e de dia.

João Batista, sendo apenas um pouco mais velho que Jesus, é um jovem arauto de algo novo e emocionante que está para surgir em cena. Ana e Simeão, enquanto isso, são duas testemunhas da fiel tradição profética de Israel finalmente alcançando seu cumprimento.

É difícil conciliar figuras como Ana e Simeão com a ideia de que a profecia havia desaparecido de Israel até o nascimento de Jesus. Quando os encontramos na Apresentação, quarenta dias após Seu nascimento, eles parecem estar profetizando já há algum tempo. A questão toda parece demonstrar que eles envelheceram esperando o cumprimento de Deus, a “consolação de Israel”, mas eles confiaram e continuaram esperando. De certa forma, é como a história que Josefo contou do profeta Judas que predisse a morte de Antígono em 301 a.C. O dia chegou e quase passou, e bem quando parecia que a palavra de Deus não se cumpriria, a profecia foi cumprida.

Mas não apenas esses poucos profetas. [Como também] as outras pessoas parecem estar cientes de que ainda existem profetas e profetisas. Eles não são apresentados como algo estranho, ou mesmo como algo novo ou ressurgido. De que outra forma explicar a falta de alarme da parte de alguém quando um estranho chega e pega o bebê [Jesus] e começa a falar de uma espada atravessando o coração de sua Mãe (Lucas 2,34)? E de que outra forma podemos explicar o quão casualmente Lucas menciona que Ana era uma “profetisa”, um termo nunca mencionado no Antigo Testamento?

Em Sua pregação, Jesus pode dizer “Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo. (Mateus 10,40-41), e Ele não tem que parar para dizer: “Olhem, os ‘profetas’ estão de volta”. É verdade que as multidões veem Jesus de uma forma diferente de pessoas como Simeão, dizendo que “um dos antigos profetas” ressuscitou (Lucas 9,8). Mas esse reconhecimento não deve ser levado ao extremo, como uma rejeição do que inspirou Simeão, Ana e João. Depois que os fariseus pensaram na morte dos profetas como algo que aconteceu “nos dias de nossos pais”, Jesus respondeu falando da perseguição como contínua e continuando no futuro (Mt 23,30-36). Ele então lamenta a cidade de Jerusalém, dizendo: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados!” e não há a menor evidência de que ele esteja lamentando pecados antigos, dos 400 anos anteriores (Lucas 13,32; Mateus 23,37).

E, claro, há muito mais que pode ser dito. O fato de que os primeiros cristãos pensavam que alguns ou todos os “apócrifos” fossem Escrituras inspiradas sugere que eles certamente não estavam cientes de qualquer período de 400 anos de silêncio divino. O fato de o Talmud citar um desses livros, o Livro de Sirach [Eclesiástico], como Escritura duas vezes (aqui e aqui), sugere que os judeus também não estavam cientes de qualquer período de silêncio divino.

Se houvesse realmente 400 anos de silêncio divino, eu esperaria ler sobre isso nas Escrituras, mas não há nenhuma evidência disso. Eu esperaria que os judeus da época de Cristo estivessem falando algo sobre isso, com o surgimento de profetas como João, Ana, Simeão e, claro, o próprio Jesus. Mas não, não há nada, nem mesmo uma objeção perdida da parte dos inimigos de Jesus, como: “você não sabe que a profecia não existe mais?”. E eu esperaria que os primeiros cristãos aproveitassem esse período de silêncio de 400 anos, usando como parte de seu argumento de que Deus fez algo radicalmente novo em Jesus Cristo. Mas, novamente, não há nada. Em vez disso, todas as evidências parecem apontar para um caminho, na direção de uma revelação contínua sem uma interrupção de séculos de um inexplicado silêncio divino.

E eu não suponho que nada disso seja irrefutável. Se você está disposto a se envolver no tipo de ginástica mental que Kayser emprega, disposto a jogar fora dois mil (ou mais) anos de exegese do Antigo Testamento, e afirmar que “era um axioma entre os judeus que a Escritura predisse a cessação de todas as profecias de 400 a.C. até que o Messias surgisse como o Grande Profeta” com base em nada além de sua própria afirmação, então tenho certeza de que você pode acreditar em qualquer coisa, e eu não poderia convencê-lo do contrário. Meu ponto é simplesmente que o Novo Testamento fala consistentemente em um ministério profético contínuo até a época de Cristo, e que esta é uma visão consistente com todos os textos do Antigo e do Novo Testamento, sem exigir que nos envolvamos em interpretações forçadas ou anormais.



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