A CORTE DE DEUS (O Concílio Divino)

Por: James Akin

Tradução: Lucas Falango

Texto Original: http://jimmyakin.com/the-court-of-god

Nota do tradutor: Em inglês o termo “Court” pode ser usado para Corte, ou para Tribunal. No artigo essas palavras são usadas em ambos os sentidos, mas os termos são realmente intercambiáveis, é por isso que no Brasil se diz “Supremo Tribunal Federal” e nos Estados Unidos “Suprema Corte”. O Rei era o juiz supremo, o qual o povo podia apelar em ultima instância. Podemos dizer que no sentido das antigas monarquias, a Corte e o Tribunal tinham as mesmas funções. Nas escrituras esse é exatamente o sentido, Deus é Rei e Juiz sobre o mundo.

O Concílio Divino no Céu

Cristãos e judeus são monoteístas, o que significa que eles acreditam em um só Deus. Mas existem dois tipos de monoteísmo, que podemos chamar de monárquico e solitário. O monoteísmo monárquico é a crença em um Deus que supervisiona uma hierarquia de seres celestiais, mas não divinos (anjos ou santos), enquanto o monoteísmo solitário é a crença em um Deus sem uma hierarquia celestial. O deísmo filosófico (o tipo de crença possuída por aqueles que afirmam que existe um Deus, mas que ele tem muito pouco a ver com o mundo) geralmente ensina monoteísmo solitário, mas o teísmo bíblico (o tipo de crença possuída por judeus e cristãos históricos) é definitivamente monárquico.

Isso fica muito claro em 1 Reis 22,19-23:

“Miquéias replicou: Ouve o oráculo do Senhor: Eu, vi o Senhor sentado no seu trono e todo o exército dos céus ao redor dele, à direita e à esquerda. O Senhor disse: Quem seduzirá Acab, para que ele suba e pereça em Ramot de Galaad? Um disse uma coisa e outro, outra. Então um espírito adiantou-se e apresentou-se diante do Senhor, dizendo: Eu irei seduzi-lo. O Senhor perguntou: De que modo? Ele respondeu: Irei e serei um espírito de mentira na boca de seus profetas. – É isto, replicou o Senhor. Conseguirás seduzi-lo. Vai e faze como disseste. O Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos os profetas aqui presentes, mas é a tua perda que o Senhor decretou.” (1 Reis 22,19-23)

Aqui o Senhor é apresentado como um rei que preside sua corte celestial com seus cortesãos angelicais que o assistem. Este tema está presente em todo o Antigo e Novo Testamento, que regularmente retratam Deus dessa maneira. Na verdade, estamos tão acostumados a ele que muitas vezes deixamos de notar essas referências ao ler a Bíblia.

Por exemplo, várias figuras mencionadas nas Escrituras são retratadas como membros da corte celestial e deixamos de notar. Em Josué 5,13-15, lemos sobre o chefe do exército do Senhor:

“Josué encontrava-se nas proximidades de Jericó. Levantando os olhos, viu diante de si um homem de pé, com uma espada desembainhada na mão. Josué foi contra ele: És dos nossos, disse ele, ou dos nossos inimigos? Ele respondeu: Não; venho como chefe do exército do Senhor. Josué prostrou-se com o rosto por terra, e disse-lhe: Que ordena o meu Senhor a seu servo? E o chefe do exército do Senhor respondeu: Tira o calçado de teus pés, porque o lugar em que te encontras é santo. Assim fez Josué.” (Josué 5,13-15)

Isso corresponde ao papel do comandante terreno do exército de Israel (cf. 1 Sam. 17,55; 1 Reis 1,19). Mark Smith, a quem devo este insight, também observa:

“Da mesma forma, o ‘destruidor’ divino, mashit, de Êxodo 12,13 e 1 Crônicas 21,15 (cf. Is 54,16; Jr 22,7), pode ser atribuído, em última instância, ao mashit militar de 1 Samuel 13,17 e 14,15, talvez como uma classe de lutadores personificados ou individualizados e secundariamente incorporados ao reino divino.” [1]

Em outro lugar, lemos sobre o Arcanjo Miguel como um dos grandes príncipes da corte do Senhor, que é o patrono angelical especial de Israel diante de Deus e contra os demônios:

“Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande príncipe, o protetor dos filhos do seu povo. Será uma época de tal desolação, como jamais houve igual desde que as nações existem até aquele momento. Então, entre os filhos de teu povo, serão salvos todos aqueles que se acharem inscritos no livro.” (Daniel 12,1)

E, de fato, o próprio Satanás tem um nome que significa “o promotor” ou “o acusador” e serve como promotor no tribunal divino. Assim, lemos sobre quando ele foi excluído do céu:

“Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos. Eu ouvi no céu uma voz forte que dizia: Agora chegou a salvação, o poder e a realeza de nosso Deus, assim como a autoridade de seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do nosso Deus.” (Apocalipse 12,7-10)

Vimos anteriormente Satanás realizando esta função no livro de Jó:

“Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, disse Satanás, e passeando por ele. O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra: íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal. Mas Satanás respondeu ao Senhor: É a troco de nada que Jó teme a Deus? Não cercaste como de uma muralha a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoas tudo quanto ele faz e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui; juro-te que te amaldiçoará na tua face.” (Jó 1,6-11)

Este tema de seres angélicos monitorando as atividades dos humanos e reportando-se ao próprio Senhor espelha a prática de uma corte terrestre enviar espiões pelos territórios e reportar ao seu rei. Esta é a explicação provável de porque os seres angélicos são referidos no livro de Daniel como “Sentinelas”:

“Nas visões que tive deitado em minha cama, olhei e vi diante de mim uma sentinela, um anjo que descia do céu.” (Daniel 4,13)

“A decisão é anunciada por sentinelas, os anjos declaram o veredicto, para que todos os que vivem saibam que o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e os dá a quem quer, e põe no poder o homem mais simples. (Daniel 4,17)

“E tu, ó rei, viste também uma sentinela, o anjo que descia do céu e dizia: ‘Derrubem a árvore e destruam-na, mas deixem o toco e as suas raízes, presos com ferro e bronze; fique ele no chão, em meio a relva do campo. Ele será molhado com o orvalho do céu e viverá com os animais selvagens, até que se passem sete tempos’. (Daniel 4,23)

Também vemos o conceito de anjos como espiões que aparecem em Zacarias:

“Tive uma visão durante a noite. Percebi, entre as murtas do fundo do vale, um homem montado num cavalo vermelho, e atrás dele estavam cavalos ruços, alazões e brancos. Eu perguntei: Meu senhor, que cavalos são estes? E o anjo porta-voz respondeu-me: Vou explicar-te. O homem que se encontrava entre as murtas respondeu: Estes são os {mensageiros} que o Senhor mandou para percorrer a terra. Então os cavaleiros disseram ao anjo do Senhor que permanecia entre as murtas: Acabamos de percorrer toda a terra, e vimos que toda a terra está em tranquilidade e descanso.” (Zacarias 1,8-11)

Na verdade, o próprio nome “anjo” (hebraico: Malak, grego: angelos) ou “mensageiro” é um termo da corte divina. A ideia é que os anjos sirvam como mensageiros da corte divina enviados para levar os decretos do Senhor ao seu povo. Na verdade, o termo hebraico para anjo vem de uma raiz que significa “despachar como representante”. No Novo Testamento, a imagem de um tribunal/corte (e seu oposto, governado por Satanás) está por trás das declarações de Paulo:

“Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da sabedoria divina…” (Efésios 3,10)

“Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal {espalhadas} nos ares.” (Efésios 6,12)

“Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz.” (Colossenses 2,15)

Em outro lugar, Paulo nos diz que nós também seremos incorporados no tribunal divino:

“Não sabeis que os santos julgarão o mundo? E, se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância? Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais as pequenas questões desta vida!” (1 Coríntios 6,2-3)

Isso é algo que o próprio Jesus enfatizou aos apóstolos:

“E vós tendes permanecido comigo nas minhas provações; eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como meu Pai o dispôs a meu favor, para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino e vos senteis em tronos, para julgar as doze tribos de Israel.” (Lucas 22,28-30)

E no livro do Apocalipse ele afirma:

“Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.” (Apocalipse 3,21)

Verdadeiramente, o Apocalipse diz que os santos já estão reinando sobre a terra com Cristo no céu:

“Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos.” (Apocalipse 20,6)

E os humanos manterão este lugar no concílio divino eternamente:

“Já não haverá noite, nem se precisará da luz de lâmpada ou do sol, porque o Senhor Deus a iluminará, e hão de reinar pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 22,5)

A imagem bíblica da corte divina se torna particularmente clara com referência aos querubins. No Salmo 17 (18), os querubins, cuja algumas representações incorporam elementos humanos e animais, com corpos de animais alados, são retratados como corcéis divinos, bem como um rei cavalgaria um cavalo de guerra:

“Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei para meu Deus: do seu templo ele ouviu a minha voz, e o meu clamor em sua presença chegou aos seus ouvidos. […] Ele inclinou os céus e desceu, calcando aos pés escuras nuvens. Cavalgou sobre um querubim e voou, planando nas asas do vento. Envolveu-se nas trevas como se fossem véu, fez para si uma tenda das águas tenebrosas, densas nuvens. Do esplendor de sua presença suas nuvens avançaram: saraiva e centelhas de fogo.” (Salmo 17,7.10-13)

A apresentação mais comum dos querubins na Bíblia, no entanto, não é como os corcéis do Senhor, mas como seus assistentes no trono. Eles são tão intimamente identificados com o trono do Senhor que eles foram até mesmo trabalhados no propiciatório ou ‘kapporeth’ da arca da aliança:

“Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada. Colocarás a tampa sobre a arca e porás dentro da arca o testemunho que eu te der. Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, que te darei todas as minhas ordens para os israelitas.” (Êxodo 25,18-22)

Os querubins são constantemente associados ao trono do Senhor no Antigo Testamento. Na verdade, além dos dois querubins no kapporeth, quando Salomão construiu o templo, ele também incluiu duas estátuas de querubins de aproximadamente 5 metros de altura, revestidas de ouro, no Santo dos Santos junto com o trono de Deus, a arca:

“Fez no santuário dois querubins de pau de oliveira, que tinham dez côvados de altura. Cada uma das asas dos querubins tinha cinco côvados, o que fazia dez côvados da extremidade de uma asa à extremidade da outra. O segundo querubim tinha também dez côvados; os dois tinham a mesma forma e as mesmas dimensões. Um e outro tinham dez côvados de altura. Salomão os colocou no fundo do templo, no santuário. Tinham as asas estendidas, de sorte que uma asa do primeiro tocava uma das paredes e uma asa do segundo tocava a outra parede, en­quanto as outras duas asas se encontravam no meio do santuário. Revestiu também de ouro os querubins.” (1 Reis 6,18-23)

E Ezequiel então vê quatro querubins (talvez com base nos dois da arca e nos dois do Santo dos Santos) atendendo ao trono de Deus em sua visão:

“Olhei. Na abóbada estendida acima da cabeça dos querubins, havia como que uma pedra de safira, uma espécie de trono, que aparecia sobre eles. […] De repente, a glória do Senhor deixou a soleira do templo e pousou sobre os querubins. Estes desdobraram as asas, e eu os vi alçarem-se da terra com as rodas ao lado, para partirem. Eles pararam à entrada da porta oriental do templo, dominados pela glória do Senhor. Estavam lá os seres vivos que eu tinha visto debaixo do Deus de Israel, às margens do Cobar, e reconheci os querubins: cada um tinha quatro figuras e quatro asas, e sob as asas algo parecido com mãos humanas. Suas figuras assemelhavam-se àquelas que eu tinha visto às margens do Cobar. Cada um deles ia para a frente diante de si.” (Ezequiel 10,1.18-22)

E assim como Ezequiel chama os querubins de “seres vivos” [outras traduções: “viventes”; “animais”] (cf. 10,20 e várias dezenas de outras referências em Ezequiel), João vê os quatro querubins (combinados com elementos dos serafins de Isaías) atendendo ao trono de Deus no Apocalipse:

“Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal. Dian­te do trono e ao redor, quatro Viventes cheios de olhos na frente e atrás.” (Apocalipse 4,6)

Além de estarem intimamente associados ao trono do Senhor, os querubins também são mais geralmente associados à sua corte, e os ícones deles são trabalhados nos painéis do Tabernáculo, nas paredes do Templo de Salomão e nas paredes do Templo da visão de Ezequiel [2]:

“Farás o tabernáculo com dez cortinas de linho fino retorcido de púrpura violeta, púrpura escarlate e de carme­sim, sobre as quais alguns queru­bins serão artisticamente bordados.” (Êxodo 26,1)

“Mandou esculpir em relevo em todas as paredes da casa, ao redor, no santuário como no templo, querubins, palmas e flores abertas.” (1 Reis 6,29)

“Acima da porta, no interior e no exterior do templo, e por toda a parede em redor, por dentro e por fora, tudo estava coberto de figuras: querubins e palmas, uma palma entre dois querubins. Os querubins tinham duas faces: uma figura humana de um lado, voltada para uma das palmeiras, e uma face de leão voltada para outra palmeira, do outro lado, esculpidas em relevo em toda a volta do templo.” (Ezequiel 41,17-18)

A imagem bíblica da corte divina também tem implicações importantes para a nossa compreensão do templo e da natureza da adoração corporal [material].

II. O Concílio Divino na Terra

Já mencionamos o fato de que a arca da aliança é representada como o trono (e uma vez como o escabelo) de Deus. Isso é encontrado em várias passagens, por exemplo:

“O povo mandou, pois, buscar em Silo a arca da aliança do Senhor dos exércitos, que se senta sobre querubins. Os dois filhos de Heli, Ofni e Finéias, acompanhavam a arca da aliança de Deus.” (1 Samuel 4,4)

“E Davi pôs-se a caminho com toda a sua gente, indo a Baalé de Judá, para trazer dali a arca de Deus, sobre a qual é invocado o nome, o nome do Senhor dos exércitos, que se assenta sobre os querubins.” (2 Samuel 6,2)

“O rei Davi, de pé, disse-lhes: Escutai-me, meus irmãos e meu povo. Tinha eu a intenção de construir uma residência para a arca da aliança do Senhor e o escabelo dos pés de nosso Deus. Já havia feito preparativos para esta construção.” (1 Crônicas 28,2)

“Ó Senhor dos exércitos, Deus de Israel, vós que estais sentado sobre os querubins, não há outro Deus, senão vós, por todos os reinos da terra. Vós, que fizestes os céus e a terra.” (Isaías 37,16)

Como a arca servia como trono/escabelo de Deus, o lugar onde a arca deveria ser mantida – o Santo dos Santos – era, portanto, a sala do trono de Deus. É por isso que o Tabernáculo e mais tarde o Templo continham ícones e estátuas dos querubins, os cortesãos celestiais de Deus.

O entendimento do Templo como a corte ou palácio de Deus é ainda mais claro quando é lembrado que não existe um termo distinto para “templo” (a morada ou centro de adoração de um deus) em hebraico. O termo hebraico normal traduzido como “templo” em nossas versões em vernáculo (heykal) significa simplesmente “casa” e pode ser usado para o palácio de um rei. O outro termo hebraico traduzido como “templo” (bayith) também significa “casa”.

O paralelismo entre o Templo como o palácio de Deus em contraste com o palácio terreno de um rei aparece especialmente em 2 Samuel 7:

“Ora, tendo o rei Davi acabado de instalar-se em sua residência, e tendo-lhe o Senhor dado paz, livrando-o de todos os inimigos que o cercavam, disse ele ao profeta Natã: Vê: eu moro num palácio de cedro, e a arca de Deus está alojada numa tenda! Natã respondeu-lhe: Pois bem: faze o que desejas fazer, porque o Senhor está contigo! Mas a palavra do Senhor foi dirigida a Natã naquela mesma noite, e dizia: Vai e dize ao meu servo Davi: eis o que diz o Senhor: Não és tu quem me edificará uma casa para eu habitar. Desde que tirei da terra do Egito os filhos de Israel até o dia de hoje, não habitei casa alguma, mas, qual um viandante, tenho-me alojado sob a tenda e sob um tabernáculo improvisado. E em todo esse tempo que andei no meio dos israelitas, falei eu porventura a algum dos chefes de Israel que encarreguei de apascentar o meu povo: por que não me edificas uma casa de cedro?” (2 Samuel 7,1-7)

O paralelismo entre o Templo proposto como a casa do Senhor e o palácio real como a casa de Davi é inconfundível.

Isso também ajuda a explicar a relutância de Deus em ter um templo construído para ele. Um rei terreno precisa de um palácio para governar. Sem uma habitação fixa e estabelecida, um rei não pode estabelecer seu poder sobre seu reino; reis não vivem um estilo de vida nômade como pastores em tendas. Assim, a introdução da passagem começa com a consolidação do poder de Davi – Deus concedeu-lhe descanso de todos os seus inimigos e permitiu-lhe construir um palácio para si mesmo. Assim, agora que Deus consolidou o poder de Davi sobre a terra e construiu uma casa para Davi, Davi procura agradecer a Yahweh construindo uma casa para Ele.

Deus concorda com este plano (2 Sam. 7,13), mas não antes de deixar claro que ele nunca pediu uma casa e, portanto, não precisa de uma. Ao contrário de um rei terreno, Deus, como rei divino, não precisa de uma casa terrestre para consolidar seu governo sobre a terra.

É provável que isso também transmita um ataque implícito às divindades cananéias adoradas pelas pessoas que Davi acabou de conquistar ou combater. Na mitologia cananéia, os deuses precisavam de casas (templos) para governar, e uma quantidade considerável de discussão é feita sobre esse fato no ciclo de Baal, conforme registrado nas tabuas cuneiformes descobertas em Ras Shamra.

“A consternação irrompeu entre os deuses quando souberam que Yam teria sua própria casa, o que simbolizaria seu alto status entre os membros do panteão. Athtar [o jovem deus da irrigação] correu até El e pediu ao pai dos deuses que evitasse essa exaltação de Yam. Athtar ficou desapontado, no entanto. . .

“O jovem Athtar foi incapaz de desafiar o poder de Yam, mas um desafiador mais eficaz veio na pessoa de Baal, o deus cananeu da fertilidade e das tempestades. Acusando Yam de agir de maneira arrogante, Baal pediu a destruição do tirano. . .

“Posteriormente, uma batalha furiosa estourou entre Baal e Yam. . . Baal. . . estava prestes a destruir Yam quando Athtar o repreendeu por tirar vantagem injusta de um prisioneiro. Baal concordou em libertar Yam, mas a competição garantiu a Baal o lugar de supremacia.

“Baal tinha provado seu poder, mas, ainda, ele não tinha casa. Sem um palácio adequado, ele não poderia realmente governar. A fiel Anat decidiu ir até El e exigir uma casa para Baal. Houve atrasos inevitáveis.

“Até que Baal realmente tivesse uma casa própria, os outros deuses se recusavam a mostrar-lhe o devido respeito. Para levar a questão a um ponto crítico, Athirat fez um apelo em nome de Baal, que El aceitou com relutância. Ele disse a Baal para reunir os materiais necessários e os trabalhadores começaram a construir a casa.” [3]

Com isso como pano de fundo para as ideias contemporâneas da necessidade dos deuses terem templos, não é surpresa que quando Davi se ofereceu para construir uma casa para Deus, Deus tenha deixado absolutamente claro antes de aprovar o plano que ele – ao contrário de Yam e Baal – não precisa de uma casa para consolidar seu poder e governo divinos. A casa era algo com o qual o homem pudesse honrar a Deus, mas não algo pelo qual o homem pudesse ajudar a Deus.

Isso explica porque, depois de parecer despreocupado com o fato de que Davi e os israelitas estavam morando em casas quando ele mesmo não tinha uma, o Senhor diz em Ageu:

“Eis o que diz o Senhor dos exércitos: este povo diz: não é ainda chegado o momento de reconstruir a casa do Senhor. […] É então o momento de habitardes em casas confortáveis, estando esta casa em ruínas? Eis o que declara o Senhor dos exércitos […]: Assim fala o Senhor dos exércitos: refleti no que fazeis! Subi a montanha, trazei madeira e reconstruí a minha casa; ela me será agradável e nela serei glorificado, – oráculo do Senhor. Esperastes uma abundante colheita e esta foi magra; dissipei com um sopro o que queríeis armazenar. Por quê? – oráculo do Senhor. Porque minha casa está em ruínas, enquanto cada um de vós só tem cuidado da sua. […] Então o Senhor inspirou coragem a Zorobabel, filho de Salatiel, governador de Judá, e ao sumo sacerdote Josué, filho de Josedec, bem como a todo o resto do povo: todos puseram-se a trabalhar na construção da casa do Senhor dos exércitos, seu Deus.” (Ageu 1,2.4.7-9.14)

Aqui em Ageu, o Senhor insiste em ter um templo construído para si mesmo e indica que a construção de sua casa é mais importante do que a construção das casas dos israelitas. Este é o reverso do que ele indicou a Davi quando ele morava em sua própria “casa confortável”.

O clima religioso diferente explica a diferença nas duas passagens. Nos dias de Davi, quando as divindades cananéias (que precisavam de templos para consolidar seu poder) eram populares, Deus assumiu uma atitude indiferente em relação a ter seu próprio templo, indicando que ele não precisava de um. Mas, uma vez que essa mensagem foi comunicada e aceita pelos israelitas, uma vez que eles reconheceram que o Senhor é o único Deus verdadeiro e as divindades cananéias são deuses falsos (como era o caso nos dias de Ageu), então Deus insistirá em ter um templo construído, não porque ele precisa, mas porque era uma questão de honra.

A compreensão do Templo como o palácio terreno do Senhor também desempenha um papel na compreensão da teologia do sacrifício. Na Bíblia existem vários tipos de sacrifícios, mas todos eles têm em comum a ideia de dar algo à divindade. Isso reflete a antiga prática de levar um presente a um homem de grande importância, a fim de ganhar uma audiência com ele e buscar seu favor. O historiador Ramsay MacMullen explica esse costume como era praticado no mundo antigo:

“A ideia de que qualquer tipo de devoção diária ou lealdade perpétua era devido à divindade tinha pouca aceitação [fora dos círculos judaico-cristãos]. Tampouco havia a menor preocupação com a natureza egoísta da adoração. Só se fazia oferendas para se obter o favor de seres poderosos. Exatamente da mesma maneira, pessoas muito pobres traziam presentes para um grande homem quando eles vinham pedir alguma coisa; portanto, seria bom garantir com antecedência uma audiência gentil.” [4]

Isso representa uma corrupção e uma distorção da ideia bíblica de sacrifício, mas, não obstante, é fundamentalmente correta em sua essência – a ideia de sacrifícios e ofertas como presentes dados à divindade para obter seu favor. A diferença entre a ideia pagã e a ideia bíblica de sacrifício é que existe uma fidelidade perpétua devida à divindade, que os sacrifícios são obrigatórios – como o tributo dado a um governante – e que Deus realmente possui tudo e não precisa dos sacrifícios, então para honrá-lo, estamos devolvendo a ele o que ele nos deu primeiro.

Assim, o Deuteronômio afirma:

“Três vezes por ano, todos os vossos varões se apresentarão diante do Senhor teu Deus, no lugar que ele tiver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa dos tabernáculos: não aparecerão diante do Senhor com as mãos vazias.” (Deuteronômio 16,16)

E o Salmo 50 afirma:

“Não te repreendo pelos teus sacrifícios, pois teus holocaustos estão sempre diante de mim. Não preciso do novilho do teu estábulo, nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes. Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos. Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém. Porventura preciso comer carne de touros, ou beber sangue de cabrito?…Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos para com o Altíssimo. Invoca-me nos dias de tribulação, e eu te livrarei e me darás glória. (Salmos 50,8-15)

Podemos ver como o costume de dar presentes como forma de ganhar audiência e favor funcionava na Bíblia:

“Logo que José entrou em casa, ofereceram-lhe os presentes que tinham trazido, prostrando-se diante dele até a terra.” (Gênesis 43,26)

“Saul voltou também para sua casa, em Gabaa, acompanhado de homens valentes, cujos corações tinham sido tocados por Deus. Houve, porém, alguns homens maus que disseram: Que poderá este fazer por nós? Por isso desprezaram-no e não lhe levaram presente algum. Mas Saul não fez caso disso.” (1 Samuel 10,26-27)

“Por isso o Senhor confirmou o poder em suas mãos. Todo o Judá lhe trazia presentes; teve riqueza em abundância e glória.” (2 Crônicas 17,5)

“Mesmo os filisteus vieram trazer a Josafá presentes e um tributo em prata; os árabes também lhe trouxeram gado miúdo: sete mil e setecentos carneiros e sete mil e setecentos bodes.” (2 Crônicas 17,11)

“Muitos foram os que levaram a Jerusalém oferendas para o Senhor e ricos presentes para Ezequias, rei de Judá, que conquistou desde então um grande prestígio aos olhos das nações pagãs.” (2 Crônicas 32,23)

A conexão entre os sacrifícios como tributo a Deus e a ideia de dar tributos a um governante é apresentada de maneira especialmente clara em Malaquias:

“O filho respeita seu pai e o servo, seu senhor. Ora, se eu sou Pai, onde estão as honras que me são devidas? E se eu sou o Senhor, onde está o temor que se me deve? – diz o Senhor dos exércitos a vós, sacerdotes, que desprezais o seu nome e dizeis: que desprezo temos tido por teu nome? Ofereceis sobre o meu altar alimentos impuros! E ousais dizer: Em que desprezamos o teu nome? E julgais que a mesa do Senhor seja de pouca importância. Se ofereceis em sacrifício um animal cego, não haverá mal algum nisto? E se trazeis um animal coxo e doente, não vedes mal algum nisto? Vai, pois, oferecê-lo ao teu governador; crês que lhe agradarias, que ele receberia bem? – diz o Senhor dos exércitos. Ide agora rogar a Deus que nos perdoe! Tendo feito tudo isto com vossas próprias mãos, ouvir-vos-á ele favoravelmente? – diz o Senhor dos exércitos.” (Malaquias 1,6-9)

Observe a conexão entre o altar do Senhor e a mesa do Senhor nesta passagem. Os dois conceitos estão intimamente ligados, e o conceito de um altar como a mesa da divindade aparece regularmente nas Escrituras. Malaquias então profetiza o fechamento do Templo de Jerusalém e da mesa do Senhor que estava lá e a subsequente promulgação do sacrifício cristão entre os gentios em todos os lugares sob o sol:

“Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar. Não tenho nenhuma complacência convosco – diz o Senhor dos exércitos – e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável. Porque, donascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações – diz o Senhor dos exércitos. Vós, porém, o profanais quando dizeis: A mesa do Senhor está manchada; o que nela se oferece é um alimento comum. E dizeis ainda: Ai, que cansaço! E mostrais desprezo pelo altar. Trazeis o animal roubado, o coxo, o doente. Julgais que vou aceitá-lo de vossas mãos? – diz o Senhor. Maldito seja o homem fraudulento que consagra e sacrifica ao Senhor um animal defeituoso, tendo no rebanho animais sadios! Sou um grande Rei – diz o Senhor – e o meu nome é temível entre as nações.” (Malaquias 1,10-14)

A ideia de um altar como mesa está implícita no Salmo 50, onde os sacrifícios eram retratados como alimento divino, mas com o risco de serem mal interpretados como algo de que Deus necessita. Também é assumido em ofertas em que parte do sacrifício foi dado a Deus pelo fogo (e, portanto, simbolicamente consumido por ele, assim como o derramamento de uma oferta de bebida [a libação] simbolizava ele consumindo a bebida) e o adorador era então permitido comer parte do sacrifício e, portanto, ter uma comunhão na mesa com Deus, participando da generosidade da mesa de seu mestre:

“Ali as oferecerás em holocausto, carne e sangue, sobre o altar do Senhor, teu Deus. Quanto aos outros sacrifícios, o seu sangue será derramado sobre o altar do Senhor, teu Deus, e comerás as suas carnes.” (Deuteronômio 12,27)

A ideia do altar como uma mesa também é explícita em Ezequiel:

“Diante do santuário, havia alguma coisa como um altar de madeira. Sua altura era de três côvados, enquanto a largura era de dois côvados. Havia ângulos {protuberantes}; sua base e suas paredes eram de madeira. Disse-me o homem: É aqui a mesa que está diante do Senhor.” (Ezequiel 41,21-22)

Também está contido na referência de Paulo ao sacrifício eucarístico em comparação com os sacrifícios judeus e os sacrifícios pagãos de seus dias. É por meio da Eucaristia que Paulo vê o cumprimento da profecia de Malaquias de que “a mesa do Senhor” em Jerusalém será substituída pelo sacrifício cristão e, portanto, pela “mesa do Senhor” cristã:

“Portanto, caríssimos meus, fugi da idolatria. […] Considerai Israel segundo a carne: não entram em comunhão com o altar os que comem as vítimas? Que quero afirmar com isto? Que a carne sacrificada aos ídolos ou o próprio ídolo são alguma coisa? Não! As coisas que os pagãos sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios. Não podeis beber ao mesmo tempo o cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes do que ele?” (1 Coríntios 10,14.18-22)

Observe como nesta passagem Paulo coloca os sacrifícios do Templo Judaico, os sacrifícios pagãos e a Eucaristia na mesma categoria – como mesas de sacrifício nas quais as pessoas participam comendo os sacrifícios e, portanto, mantendo a comunhão com a mesa ou comunhão com a divindade. [5]

Assim, não apenas o Santo dos Santos no Templo é apresentado a nós como a sala do trono de Deus, mas o altar é apresentado a nós como a mesa em seu salão de banquetes. Isso descreve o templo para nós como a casa ou palácio do Senhor e, de fato, o templo é frequentemente referido como “a casa do Senhor”. É, portanto, a manifestação terrena da corte do Senhor.

Assim, ao participar da adoração no Templo, a pessoa estava participando da adoração celestial. Ao cantar salmos no Templo, o coro do Templo estava acrescentando suas vozes ao coro angelical que adorava a Deus. Assim, os Salmos invocam os anjos do céu, implorando-lhes:

“Bendizei o Senhor todos os seus anjos, valentes heróis que cumpris suas ordens, sempre dóceis à sua palavra. Bendizei o Senhor todos os seus exércitos, vós ministros que executais sua vontade.” (Salmos 102,20-21)

Este versículo é especialmente rico em imagens da corte divina, uma vez que menciona três tipos (sobrepostos) de membros da corte: mensageiros (anjos), soldados (exércitos) e servos (ministros). Mostra-nos exortando todos os três tipos – mensageiros celestiais, soldados e servos – a adorar a Deus conosco.

E da mesma forma, Isaías viu os serafins cantando o Trisagion ou Sanctus para Deus:

“No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par {de asas} velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Isaías 6,1-3)

O Apocalipse descreve esta oração em particular como ainda fazendo parte da liturgia divina no céu:

“Estes Animais tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. Não cessavam de clamar dia e noite: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar. E cada vez que aqueles Animais rendiam glória, honra e ação de graças àquele que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro Anciãos inclinavam-se profundamente diante daquele que estava no trono e prostravam-se diante daquele que vive pelos séculos dos séculos, e depunham suas coroas diante do trono, dizendo: Tu és digno Senhor, nosso Deus, de receber a honra, a glória e a majestade, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade é que existem e foram criadas.” (Apocalipse 4,8-11)

Isso é algo que a Igreja ainda reza, seja como o Hino Querúbico da Liturgia Eucarística nos Ritos Orientais ou como o Sanctus da Missa, onde é unido com o grito de Hosana da entrada triunfal de Cristo:

Sacerdote: “Agora, com todos os anjos e arcanjos, e toda a companhia do céu, cantamos seu hino interminável de louvor. . .

Congregação: “Santo, santo, santo, Senhor Deus Todo-Poderoso, o céu e a terra estão cheios da tua glória! Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”

A descrição que a Missa faz do Trisagion como um hino de louvor interminável de Deus está de fato correta, pois o Apocalipse nos diz que os Viventes ao redor do trono de Deus nunca param de dizê-lo, dia ou noite, e que sempre que o dizem, os vinte e quatro Anciãos prostram-se diante de Deus, colocam suas coroas a seus pés e recitam sua antífona. Assim, o Trisagion é descrito como parte da contínua liturgia celestial, cantada como uma antífona pelo coro de Viventes com a resposta do coro dos Anciãos, assim como alguns dos Salmos foram projetados para serem cantados por dois coros no Templo de Jerusalém (cf: especialmente o Salmo 135, que é uma ladainha antifonal).

O próprio cenário desta liturgia é digno de comentário. Diz-se que no centro está o trono de Deus (Ap 4,2), do qual o Cordeiro se aproxima (Ap 5,7). Ao redor do trono estão os quatro Viventes (Ap 4,6), e ao redor delas, provavelmente em um semicírculo, estão os vinte e quatro Anciãos em vinte e quatro tronos próprios (Ap 4,4). Ao redor deles, novamente provavelmente em outro semicírculo dos vinte e quatro Anciãos estão centenas de milhões de anjos (Ap 5,11), e além deles está a multidão inumerável de redimidos (Ap 7,9). Portanto, temos um padrão que começa com Deus e o Cordeiro no centro, depois vai para os líderes dos anjos (os Viventes), depois vai para os líderes dos humanos (os vinte e quatro Anciãos) e depois vai para a multidão de anjos, então indo para a grande multidão de humanos.

Podemos ver essa estrutura litúrgica em ação em 7,9; 8,1 e em 19,1-6.

Na primeira passagem, a grande multidão de redimidos clama em louvor a Deus (7,10) e “todos os anjos estavam ao redor do trono, e dos Anciãos, e dos quatro Viventes; e prostraram-se diante do trono sobre seus rostos, e adoraram a Deus” (Ap 7,11), na sequencia após o Cordeiro remover outro selo fez-se silêncio (Ap 8,1). Se olharmos para a direção para a qual a visão aponta nossa atenção, ela se move para dentro do círculo dos redimidos em direção ao Cordeiro no trono.

Vemos o mesmo movimento na segunda passagem. Lá a grande multidão clama novamente a Deus (Ap 19,1), então nos movemos internamente para os vinte e quatro Anciãos e os quatro Viventes que também louvam a Deus (Ap 19,4), nos movemos então mais para dentro, para o Cordeiro: “E do trono saiu uma voz que dizia: Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes.” (Ap 19,5), após isso todo o céu se irrompe em louvor (Ap 19,6).

Assim, enquanto na primeira passagem o Cordeiro quebra um dos selos do juízo de Deus, levando ao silêncio, na segunda passagem ele pede que o louvor seja dado a Deus em júbilo, o que leva a um rugido ensurdecedor de louvor. Assim, em ambas as passagens, vemos um movimento litúrgico de adoração indo para a região interna [para o trono], um levando à antecipação no silêncio, o outro levando à consumação no louvor.

Embora o Templo na visão de João seja o celestial, vemos uma série de artigos que correspondem aos do Templo terrestre. João primeiro vê os sacerdotes celestiais [6] usando vestes brancas (Ap 4,4), assim como os da terra (Ex 28,39-43). Então ele vê a menorá de ouro com suas sete lâmpadas (Ap 4,5), correspondendo àquela na terra (Ex 25,31-37). Então ele vê o mar de cristal (Ap 4,6), correspondendo ao mar de bronze (1 Rs 7,23-26). Então ele vê o altar do sacrifício, sob o qual estão as almas dos mártires (Ap 6,9), correspondendo ao altar terrestre no Monte do Templo em Jerusalém, sob o qual está a gruta conhecida como o “poço das almas”. Então ele vê o altar do incenso (Ap 8,3-5), correspondendo ao altar terreno do incenso (Ex 30,1-8). E finalmente ele vê a arca da aliança (Apocalipse 11,19), correspondendo à arca terrestre (Ex 25,10-22).

Não é de se surpreender que o Templo terrestre se assemelhasse tanto ao Templo celestial, pois Deus enfatizou continuamente a ordem de fazer sua habitação terrena refletir o padrão de sua habitação celestial:

“Construireis o tabernáculo e todo o seu mobiliário exatamente segundo o modelo que vou mostrar-vos.” (Êxodo 25,9) (cf. Ex 25,40; Nm 8,4)

“Davi deu a Salomão, seu filho, os planos do pórtico e das construções, salas do tesouro, aposentos superiores, aposentos interiores, assim como os da sala do propiciatório […] Tudo isso, disse Davi, todos os modelos destas obras, foi o Senhor quem me ensinou por um escrito de sua mão.” (1 Crônicas 28,11.19)

“Se estão confusos por causa dos seus atos, tu lhes descreverás a forma deste templo, sua disposição, suas saídas e entradas, suas formas, suas ordens e todas as suas leis. Meterás tudo isso por escrito diante de seus olhos, a fim de que observem todas as leis e todas as regras que a eles digam respeito e as ponham em prática.” (Ezequiel 43,11)

“O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: Olha, foi-lhe dito, faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte.” (Hebreus 8,5)

“Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmo fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores.” (Hebreus 9,23)

Da mesma forma, os cristãos, seguindo o precedente bíblico, procuram modelar sua adoração segundo a liturgia celestial, de modo que seus sacerdotes vestem vestes brancas durante a liturgia e modelam suas igrejas segundo o templo celestial, com lâmpadas ou velas correspondendo as sete lâmpadas, com a fonte [batismal] correspondendo ao mar de cristal, com o altar do sacrifício sob o qual estão as relíquias dos mártires correspondendo ao altar sob o qual as almas dos mártires clamam (Ap 6,9), com incenso correspondendo ao incenso [das orações; cf: Ap 5,8; Sl 140,2], com ícones e estátuas de anjos e santos correspondendo aos do céu [assim como no antigo Templo (cf: Ex 25,18; Ex 26,1; 1 Rs 6,23.29.35; 2 Cr 3,10; Ez 41,17-20), com a diferença de que agora Cristo abriu as portas do céu aos homens, estando eles agora ao lado dos anjos (cf: Hb 12,22-23), e por isso são representados também], e com o tabernáculo contendo o Pão Vivo do Céu (João 6,32-41), correspondendo à arca que continha o pão não vivo do Céu (Hb 9,4; Ex 16,4).

Assim, de todas os modos, os cristãos historicamente procuraram modelar sua adoração a Deus na terra segundo a adoração celestial de Deus e ter sua adoração incorporada e ampliada por esta última.

Notas:

[1] Smith, 10; embora eu deva dizer que discordaria de Smith sobre a ideia do ‘mashit’ ser “secundariamente incorporado” para o céu se isso significar que o ‘mashit’ celestial não existisse antes que o conceito humano fosse aplicado a ela. Devo também salientar que o termo usado em 1 Samuel 13,17; 14,15 e 1 Crônicas 21,15 é ‘shachath’, a raiz etimológica do ‘mashit’ de Êxodo 12,13.

[2] A propósito, uma vez eu estava dando uma palestra em uma paróquia no Novo México e um membro da plateia fez uma pergunta sobre se é licito que os católicos tenham estátuas de santos e anjos; como parte da minha resposta, apontei para as estátuas e ícones de querubins que Deus autorizou na Bíblia, depois apontei para uma estátua do Arcanjo Miguel na parte de trás do santuário da igreja e disse: “Se fosse possível para eles temos estátuas de anjos, é normal termos estátuas de anjos também! – e também de santos, que são ainda mais dignos de honra do que os anjos, porque ‘julgarão os anjos’ (1 Coríntios 6,3). ”

[3] Charles F. Pfeiffer, Ras Shamra and the Bible, 53-54.

[4] Christianizing the Roman Empire, 13.

[5] A propósito, a outra parte da profecia do livro de Malaquias sobre os gentios também é cumprida, pois historicamente os cristãos também têm usado incenso na igreja, seguindo o modelo bíblico apresentado no Antigo Testamento e no livro do Apocalipse.

[6] É certo que os vinte e quatro Anciãos [no grego: πρεσβύτεροι (presbyteroi), traduzido como Presbíteros] representam os sacerdotes celestiais, pois oferecem incenso a Deus (Apocalipse 5,8), o que qualquer pessoa versada na Bíblia sabe que só um sacerdote ministerial pode fazer (Números 16 ), o povo sacerdotal comum (Êxodo 19,6) não é capaz de fazê-lo sem incorrer no julgamento divino (Números 16,16-21.35). Eles são chamados de presbíteros para representar a fusão do Novo Testamento do ofício de presbítero com o ofício de sacerdote, como quando Paulo afirma que os ministros de Cristo têm deveres sacerdotais (Romanos 15,16). Eles, portanto, representam o povo sacerdotal do Novo Testamento (Apocalipse 1,6) como ministros diante de Deus da mesma forma que o povo sacerdotal do Antigo Testamento (Êxodo 19,6) foi representado diante de Deus por seus sacerdotes ministeriais (Êxodo 19,22). Também há vinte e quatro presbíteros no céu, representando os vinte e quatro cursos terrestres de sacerdotes (1 Coríntios 24,3-19).



Categorias:Bíblia, Santos, Traduções

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1 resposta

  1. Grato por compartilhar conhecimento acerca da fé.

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