Uma defesa do Livro de Tobias

Traduzido por: Lucas Falango

Texto Original: https://dapacemdomineonline.wordpress.com/2020/12/25/a-defense-of-the-book-of-tobit/?fbclid=IwAR1sxqdurlCa0GdUaQiIQ0XC-2V9HihmP90UXvb-50itwpady2w3PMBlqps

Textos em vermelho são uma adição ao artigo original

Introdução

“Se estivermos perplexos com uma aparente contradição nas Escrituras, não é permitido dizer: O autor deste livro está errado; mas, ou o manuscrito é defeituoso, ou a tradução está errada, ou você não entendeu.” (Santo Agostinho de Hipona, Contra Faustum 9,5)

Os ataques contra o Livro de Tobias são feitos em duas frentes; histórica e teológica. Como tal, estou dividindo este post em duas seções principais, a primeira para lidar com as objeções históricas contra o livro e a segunda para lidar com objeções teológicas.

Alguns apologistas católicos adotam o caminho de defender o Livro de Tobias como uma obra não histórica, embora seja inspirada. Jimmy Akin, por exemplo, sugere em um artigo para o site Catholic Answers que o livro “pode ​​ser um roman à clef ou uma parábola extensa”. Por mais que eu goste do Jimmy Akin, eu discordo dele. Eu sigo o caminho que o livro é, de fato, histórico, como faço com o Livro de Judite, embora eu ache necessário entrar em mais detalhes sobre Tobias. A suposição entre os primeiros cristãos parece ser de que o livro é realmente histórico. Em sua carta a Africanus, Orígenes de Alexandria defende o seu uso de Daniel 13, a parte deuterocanônica sobre Susana. Ao fazer isso, ele cita Tobias como prova de que haviam exilados judeus que “eram ricos e prósperos”. (A Africanus, 15). Já que ele defende Susana em uma questão histórica, o entendimento de Orígenes é que Tobias é de fato histórico.

Vendo que Orígenes defende uma parte deuterocanônica de Daniel com um livro deuterocanônico, é muito bizarro e um tanto risível que muitos protestantes o mencionem como alguém que rejeitou os supostos “apócrifos”.

Quanto às questões doutrinárias, os Padres da Igreja citam o livro favoravelmente. Santo Agostinho cita Tobias 12,19 (Cidade de Deus 22,13). São Policarpo de Esmirna cita Tobias 12,9 na questão da oferta de esmolas (Epístola aos Filipenses 2,10). São Cipriano de Cartago faz uso de Tobias 12,8 ao tratar sobre o jejum e a oração (Na Oração do Senhor 32), assim como São Clemente de Alexandria, que também chega a chamá-lo de Escritura (Stromata 6,12). O décimo segundo capítulo de Tobias parece ser um favorito.

Como os cristãos dos primeiros séculos sustentaram a historicidade e a veracidade teológica do Livro de Tobias, eu também o faço. Não há nenhuma boa razão para agitar a bandeira branca da rendição, uma vez que esta posição pode ser defendida em ambas as frentes contra os ataques protestantes.


QUESTÕES HISTÓRICAS

Em seu livro “Reasoning from the Scriptures with Catholics”, Ron Rhodes cita John Ankerberg e John Walton dizendo:

“Tobias contém certos erros históricos e geográficos, como a suposição de que Senaqueribe era filho de Salmaneser (1,15) em vez de Sargão II, e que Nínive foi capturada por Nabucodonosor e Assuero (14,5) em vez de Nabopolassar e Ciaxares…”

Rhodes prossegue citando Josh McDowell:

“Tobias estava supostamente vivo quando Jeroboão encenou sua revolta em 931 a.C. e ainda vivia na época do cativeiro assírio (722 a.C.), mas o Livro de Tobias diz que ele viveu apenas 158 anos (Tobias 1,3-5; 14,11)”

Os conquistadores de Nínive?

A alegação de que Tobias atribui erroneamente a queda de Nínive a Nabucodonosor e Assuero, em vez de Nabopolassar e Ciaxares, parece ser baseada na Bíblia Revised Standard Version:

“Mas antes de morrer, ele ouviu falar da destruição de Nínive, que Nabucodonosor e Assuero haviam capturado. Antes de sua morte, ele se alegrou sobre Nínive. (Tobias 14,15 – RSV)”

No entanto, curiosamente, a leitura da New American Bible Revised Edition é a seguinte:

“Mas antes de morrer, ele viu e ouviu sobre a destruição de Nínive. Ele viu os habitantes da cidade sendo levados cativos para a Média por Ciaxares, o rei da Média. Tobias abençoou a Deus por tudo o que havia feito contra os ninivitas e assírios. Antes de morrer, ele se regozijou sobre Nínive e abençoou o Senhor Deus para todo o sempre.”

Você notará que uma versão da passagem supracitada não é apenas divergente, mas também mais curta do que a outra. Na verdade, existem três famílias de manuscritos gregos de Tobias. Em primeiro lugar, existe o GrI, no qual o Codex Vaticanus está incluído, juntamente com o Codex Alexandrinus e Venetus. O Codex Sinaiticus, entretanto, faz parte do GrII. A terceira família, a GrIII, não é relevante para nossa discussão (Otzen, p. 62). A Revised Standard Version segue a variante GrI; mais precisamente, o Codex Vaticanus com o texto relevante: “Ναβουχοδονοσορ καὶ Ασυηρος”. Traduções mais recentes seguem GrII, ou melhor, o Codex Sinaiticus, daí a leitura: “Αχιαχαρος ὁ βασιλεὺς τῆς Μηδίας”.

Muitos estudiosos do século XIX preferiam o GrI, no entanto, foi apontado que o GrII era marcado por mais “semitismos”. Com a publicação dos fragmentos de Tobias encontrados em Qumran – quatro manuscritos aramaicos e um em hebraico – que mais se assemelham a GrII, a versão de Tobias do Codex Sinaitucus pareceu estar mais próxima do original (Otzen, 63; Moore, 57).

Isso não significa, entretanto, que os textos de Qumran nunca se assemelhem ao GrI. Um exemplo notável seria Tobias 14,2 em que diz que Tobit perdeu a visão aos cinquenta e oito anos, enquanto GrII diz que foi aos sessenta e dois. Curiosamente, o verso anterior (Tobias 14,1) segue mais de perto GrII, que fala da morte de Tobit dizendo que ele “morreu em paz”, enquanto GrI guarda esse detalhe para mais tarde em 14,11 com uma redação um pouco diferente descrevendo sua morte como sendo “na cama”.

Antes de prosseguir, sinto-me na obrigação de dizer uma palavra sobre a grafia peculiar que GrII dá ao nome Cyaxares. Como visto acima, a grafia no Codex Sinaiticus é dada como Αχιαχαρος enquanto Heródoto a dá como Κυαξάρης. Em seu comentário sobre Tobias, Carey A. Moore acredita que se refere a um rei Ahiqar, mas aponta que não há nenhum rei conhecido dos medos com esse nome (Moore, 296-7). Ele não dá argumentos para isso, mas olhando para a grafia dada para Ahiqar, o parente de Tobit e Tobias, conforme fornecida no Codex Vaticanus, posso ver por que ele chegou a tal conclusão. No entanto, Robert J. Littman, em seu comentário, aponta que a grafia peculiar faz sentido quando se considera que o Codex Sinaiticus está usando uma transliteração do hebraico ou aramaico:

“A forma acadiana de seu nome é Umakištar, e no antigo persa Uvachištar. A forma do nome Αχιαχαρος é facilmente explicada se entendermos que o grego representa uma transliteração de uma forma hebraica ou aramaica. Embora não exista uma citação hebraica/aramaica do nome, podemos assumir que o hebraico teria colocado um aleph inicial antes da palavra para indicar o som do persa ou para marcá-lo como uma palavra persa. Vemos isso na transliteração do persa khšayarša que se torna אחשורוש em hebraico. Quando o hebraico é transliterado para o grego, torna-se Ασυηρος. Quando o persa é transliterado diretamente para o grego, ele se torna ξέρξης. Da mesma forma, a palavra אחשדרפנים sátrapas é uma tradução em hebraico (ocorrendo apenas no plural) do persa khšaçapavan, e no grego σατράπης. Mesmo no grego, às vezes há uma vogal inicial, como a forma ἐξατράπης. Portanto, Αχιαχαρος tanto linguística quanto historicamente parece ser Cyaxares.” (Tobit: The Book of Tobit in Codex Sinaiticus, p. 159, 60)

Como Littman aponta, citações em hebraico/aramaico do nome Cyaxares não sobreviveram. É uma pena que a passagem relevante não tenha sobrevivido nos manuscritos de Tobias de Qumran; poderíamos realmente ter tido um. O que Moore deixa de levar em consideração é que não podemos esperar que o mesmo nome pareça o mesmo quando é transliterado de diferentes idiomas. A fonte da transliteração usada por Heródoto seria diferente daquela usada por aqueles que traduziram Tobias para o grego do aramaico.

Joseph Fitzmyer concorda que Αχιαχαρος é uma tentativa de escrever Cyaxares e que, apesar da grafia, não tem nada a ver com Ahiqar. Ele acrescenta sobre a inserção dos nomes de Nabucodonosor e Assuero no GrI, que: “os copistas gregos substituíram os nomes de reis mais conhecidos que afetaram a história israelita” (Fitzmyer, página 337).

No fim, uma vez que GrII é dito refletir mais semitismos, parecendo estar mais próximo do original e que está mais em conformidade com o que temos dos Manuscritos do Mar Morto, atrevo-me a argumentar que o apologista católico está no direito de assumir que o texto normalmente traduzido como “Cyaxares” está mais próximo do original. Portanto, não há razão para assumir que o autor errou. Talvez seja por causa de ignorância sincera, mas o que o anticatólico está fazendo aqui é escolher a pior leitura possível do manuscrito e acusar o autor inspirado de erro, sem levar em consideração a evidência manuscrita mais ampla.

O “filho” de Salmaneser

O próximo suposto erro histórico de Senaqueribe V ser chamado de filho de Salmaneser em vez de filho de Sargão II, lembra muito a maneira de como os ateus atacam a historicidade do Livro de Daniel porque Nabucodonosor é chamado de “pai” de Belsazar embora saibamos que Nabonido era seu pai. – O estudioso bíblico protestante Gleason Archer defende Daniel como tal:

“No entanto, ainda se objeta que Belsazar é referido no capítulo 5 como um filho de Nabucodonosor, enquanto seu pai era na verdade Nabonido (Nabuna’id), que reinou até a queda da Babilônia em 539. Alega-se que apenas um autor posterior teria suposto que ele era filho de Nabucodonosor. Este argumento, entretanto, ignora o fato de que, pelo uso antigo, o termo filho frequentemente se referia a um sucessor no mesmo cargo, houvesse ou não uma relação de sangue. Assim, na história egípcia “Rei Quéops e os Magos” (preservado no Papiro Westcar do período Hicso), o Príncipe Quéfren diz ao rei Quéops: “Eu relato a Vossa Majestade uma maravilha que aconteceu no tempo de teu pai, Rei Nebeca”. Na verdade, Nebeca pertencia à Terceira Dinastia, um século antes da época de Quéops na Quarta Dinastia. Na Assíria, uma prática semelhante foi refletida no Obelisco Negro de Salmaneser III, que se refere ao Rei Jeú (o exterminador de toda a dinastia de Omri) como “o filho de Omri”. Além disso, é uma possibilidade distinta de que, neste caso, havia uma relação genética real entre Nabucodonosor e Belsazar. Se Nabonido se casasse com uma filha de Nabucodonosor para legitimar sua usurpação do trono em 556 a.C., seguir-se-ia que seu filho com ela seria neto de Nabucodonosor. A palavra para “pai” (‘ab ou’ abba ‘) também pode significar avô (ver Gn 28,13; 32,10; em 1 Reis 15,13 significa “bisavô”).” (A Survey of Old Testament Introduction, p. 365)

Só para constar, baseado em Baruc 1,1-12, sou compelido a acreditar que Belsazar era de fato parente de Nabucodonosor, e que ele era mais velho do que Archer parece pensar. No entanto, meu ponto aqui é que ele apresenta um argumento eficaz a favor de Daniel de que, no uso do antigo Oriente Próximo, era perfeitamente apropriado que Belsazar fosse chamado de filho de Nabucodonosor, embora Nabonido fosse seu pai direto.

Também é muito relevante que Archer cite o uso assírio dessa prática, visto que o suposto “erro histórico” em Tobias é em relação aos monarcas assírios. Visto que um rei assírio não tem problema em chamar Jeú, o rei israelita, de “filho de Omri”, apesar de Jeú não ser seu filho biológico, o termo está claramente sendo usado para denotar um sucessor. Como tal, não deveria haver nenhum problema com Tobias se referindo a Senaqueribe V como o filho de Salmaneser, já que o primeiro era de fato um sucessor do último.

Se é bom o suficiente para Belsazar, filho de Nabucodonosor, e Jeú, filho de Omri, então certamente é bom o suficiente para Senaqueribe, filho de Salmaneser.

A idade de Tobit

Muito parecido com os nomes dos conquistadores de Nínive, as idades de Tobit e até mesmo de Tobias dependem da família do manuscrito. GrI dá a idade de Tobit no momento de sua morte como 158, enquanto GrII dá como 112. Por sua vez, a Vulgata Latina dá sua idade como 102. O aparente erro cronológico ocorre quando Tobias 1,4-5 parece dizer que Tobit era um jovem durante a rebelião de Jeroboão I que o tornaria muito mais velho:

“Quando ainda jovem, eu morava em meu próprio país, na terra de Israel, toda a tribo de meu ancestral Naftali se separou da casa de Davi, meu ancestral, e de Jerusalém, a cidade que havia sido separada dentre todas as tribos para que toda a Israel pudesse oferecer sacrifícios ali. Foi o lugar onde o templo, a morada de Deus, foi construído e consagrado para todas as gerações vindouras. Todos os meus parentes, bem como a casa de Naftali, meu ancestral, costumavam oferecer sacrifícios no topo de cada colina da Galileia ao bezerro que Jeroboão, rei de Israel, fizera em Dã.” (Tobias 1,4-5)

Carey Moore aponta uma leitura peculiar da Vulgata Latina de Tobias 1,4 onde a maioria dos textos dizem que Tobias era jovem na época da rebelião de Jeroboão:

Apenas na Vulgata consta um comentário gratuito: “E embora Tobit fosse mais jovem do que qualquer membro da tribo de Naftali, ele não fazia nada infantil em seu trabalho”. Possivelmente, isso fazia parte do texto aramaico usado por Jerônimo, e não algo do seu próprio feitio. (Moore, p.107)

Ele prossegue dizendo que “este enigmático comentário em latim” pode evitar dar a impressão de que Tobit estava presente durante a época de Jeroboão I. Anteriormente, Moore disse que “a Vulgata é uma testemunha secundária e, portanto, de valor limitado” (Ibid, 62). Porém, uma vez que ele sugere que o curioso comentário que a Vulgata dá em Tobias 1,4 pode ter vindo de um texto aramaico usado por São Jerônimo, isso implica que as leituras da Vulgata não devem ser descartadas imediatamente.

Ainda assim, devo enfatizar que não devemos ser muito afobados em aceitar esta explicação particular. Como disse o Papa Leão XIII:

“É verdade, sem dúvida, que os copistas cometeram erros no texto da Bíblia; esta questão, quando surgir, deve ser cuidadosamente considerada em seus méritos, e o fato não muito facilmente admitido, mas apenas nas passagens onde a prova é clara.” (Providentissimus Deus, 20)

E embora eu pessoalmente ache a sugestão de Moore interessante – certamente esclareceria as coisas se ele estivesse correto – faltam evidências. Frustrantemente, Tobit 1,4 não sobreviveu entre os fragmentos do Manuscrito do Mar Morto, e não temos acesso à cópia aramaica do Livro que São Jerônimo teria usado. Como um resultado infeliz, a conjectura de Moore não pode ser testada. Também temos que ter em mente que embora a Vulgata varie das duas principais tradições textuais gregas, a divergência pode ser o próprio São Jerônimo, ou pode ser aquele que a traduziu oralmente para ele do aramaico para o hebraico conforme ele transmitiu em latim. Sendo assim, as palavras do Papa Leão XIII são deveras instrutivas.

Talvez haja outra maneira de lidar com isso, isto é, ancorando os 112 anos da vida de Tobit e procurando por certos eventos na história israelita que, da perspectiva de Tobit, poderiam ser relacionados. Conforme mencionado, os fragmentos do Manuscrito do Mar Morto de Tobias 14,2 são citados como confirmando que ele tinha 58 anos de idade quando perdeu a visão de acordo com a reconstrução de Joseph Fitzmyer (Fitzmyer 318). Tobias 2,1-10 afirma que isso aconteceu durante o reinado de Assaradão da Assíria, que foi de 681 a 669 a.C. Deve ser mencionado que, embora a reconstrução de Fitzmyer receba toda a atenção da comunidade acadêmica, nem todos parecem concordar com ela. Wilfred Watson, em sua tradução e reconstrução dos fragmentos de Qumran dá uma idade diferente: oitenta e cinco. (Martinez, 294, 299). Embora eu seja a favor da visão de Fitzmyer, permitirei que Watson seja um ponto máximo e Fitzmyer como mínimo.

Conhecendo a época aproximada da cegueira de Tobit, vamos supor que tenha ocorrido no primeiro ano de Assaradão, em 681 a.C. Permitindo ambas as reconstruções dos Manuscritos do Mar Morto, isso colocaria o nascimento de Tobit entre 766 e 739 a.C., ou seja, durante ou logo após o reinado de Jeroboão II (783 a 741 a.C.). Sim, muitas vezes esquecemos que houve outro rei Jeroboão de Israel, distinto de Jeroboão I, filho de Nebate. Então, o que aconteceu durante e depois do reinado deste segundo Jeroboão?

“No décimo quinto ano do reinado de Amazias, filho de Joás, rei de Judá, Jeroboão, filho de Jeoás, rei de Israel, tornou-se rei em Samaria e reinou quarenta e um anos. Ele fez o que o Senhor reprova e não se desviou de nenhum dos pecados que Jeroboão, filho de Nebate, levara Israel a cometer. Foi ele quem restabeleceu as fronteiras de Israel desde Lebo-Hamate até o mar da Arabá, conforme a palavra do Senhor, Deus de Israel, anunciada pelo seu servo Jonas, filho de Amitai, profeta de Gate-Héfer. O Senhor viu a amargura com que todos em Israel, tanto escravos quanto livres, estavam sofrendo; não havia ninguém para socorrê-los. Visto que o Senhor não dissera que apagaria o nome de Israel de debaixo do céu, ele os libertou pela mão de Jeroboão, filho de Jeoás.” (2 Reis 14,23-27)

Não confunda. Judá, o reino do sul, ainda era um reino independente, mantendo a dinastia davídica. De acordo com a Enciclopédia Britânica, neste período sob Jeroboão II e o rei Uzias de Judá:

“[…] os dois reinos cooperaram para alcançar um período de prosperidade, tranquilidade e domínio imperial inigualável desde o reinado de Salomão. A ameaça do crescente Império Assírio sob Tiglate-Pileser III logo reverteu essa situação.”

Com a fronteira israelita restaurada e este tipo de cooperação descrita acima entre Israel e Judá, e obviamente sabendo de que isso não durou para sempre, o fim desta relação e a dissolução da fronteira poderiam ter sido vistos como o norte ser separados do sul… novamente.

Algum tempo depois da morte de Jeroboão II, Menahem, um rei israelita do norte posterior pagou Tiglate-Pilessar III para que ele pudesse manter seu reino (2 Reis 15,17-21). No entanto, foi este mesmo monarca assírio que deportou as tribos de Ruben e Gad, e metade da tribo de Manassés (1 Crônicas 5,26). E mostrando como as relações entre os reinos do norte e do sul azedaram desde a morte de Jeroboão II, o rei Peca do reino do norte junto com o rei Rezim de Aram atacou Jerusalém. Acaz, o rei de Judá, então pediu ajuda a Tiglate-Pilessar, que então a concedeu (2 Reis 16,1-10).

Esses seriam eventos que Tobit saberia. Se esta reconstrução histórica estiver correta, e presumindo que seja precisa a reconstrução dos Manuscritos do Mar Morto, de que Tobit tinha 58 anos, Tobit poderia ter nascido nos estágios posteriores de um certo ambiente, onde Israel e Judá tinham relações amigáveis ​​- um uma espécie de unidade – com uma antiga fronteira restaurada, que foi seguida por um infeliz colapso. Relações amigáveis ​​seguidas de hostilidade, uma espécie de unidade seguida de separação. Portanto, minha proposta é que em vez de ser uma referência à separação das dez tribos do norte sob Jeroboão, filho de Nebate e de Roboão, filho de Salomão, que Tobias 1,4 se refere ao rompimento das relações depois de Jeroboão II.

No entanto, se for esse o caso, por que a referência óbvia ao primeiro Jeroboão no versículo seguinte? Talvez pela mesma razão que ele é mencionado em outro lugar nas Escrituras. 2Reis 14,24 mostra que Jeroboão II continuou no mesmo caminho pecaminoso de Jeroboão, filho de Nebate. Outras referências de Jeroboão I são dadas no caso do rei Zacarias (2Reis 15,9) do rei Menaém (2Reis 15,18) do rei Peca (2 Reis15,28) e do rei Jeú (2Reis 10,29), todos persistindo no mesmo erro. Quer minha proposta esteja certa ou errada, se em Tobias 1,5 ele simplesmente quisesse dizer que seus parentes e tribos seguiram os passos do filho de Nebat, faria sentido de qualquer maneira.

Uma possível resposta poderia ser “Supondo que você esteja certo de que estamos perdendo o contexto e que Tobit não pretende realmente afirmar que estava vivo durante a separação imediatamente após a morte de Salomão, por que ele não insinua isso?” Eu diria que ele, de fato, o faz; a dica é a idade de Tobit de 112.

Confesso abertamente que minha proposta não é a maneira mais fácil de ler Tobias, e o protestante pode, compreensivelmente, basear sua objeção à minha proposta apenas nesse fato. No entanto, é justo apontar que os ateus baseiam suas objeções até mesmo nos livros do cânone protestante com base na leitura mais fácil das Escrituras. Um exemplo famoso é o caso frequentemente citado da aparente inconsistência entre os relatos da natividade de Mateus e Lucas. Os céticos geralmente acusam a Bíblia de se contradizer porque Lucas diz que Jesus nasceu durante um censo, mencionando Quirino (Lucas 2,1-7), enquanto Mateus diz que ele nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande (Mateus 2,1). O historiador Josefo menciona um censo sob Quirino em 6 d.C., mas deixa claro que foi anos após a morte de Herodes em 4 a.C. Portanto, o cético acusa a Bíblia de contradição com base… na leitura mais fácil do texto. Se a leitura mais simples fosse necessariamente o entendimento correto, então pela mesma lógica os protestantes teriam que jogar fora pelo menos um dos Evangelhos.

Em resposta, os protestantes defendem os relatos da natividade desses ataques céticos com várias explicações, algumas mais prováveis ​​do que outras. Concordo com eles que os relatos dos Evangelhos, apesar da leitura mais fácil, não se contradizem. Mas por que eles defendem a cronologia de Mateus e Lucas enquanto atacam a cronologia de Tobias? Resposta simples: eles gostam dos Evangelhos, mas simplesmente não gostam de Tobias.


QUESTÕES TEOLÓGICAS

  • A adoração dos anjos?

Rhodes lista diversas passagens dos livros deuterocanônicos em que ele afirma conter doutrinas antibíblicas. Entre eles está Tobias 12,12, que ele afirma ensinar “a adoração de anjos”, citando-a em contraste com Colossenses 2,18 (Rhodes, p. 38). É relevante que ele nunca realmente cite esta passagem:

“Vou descobrir-vos a verdade, sem nada vos ocultar. Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do demônio Sara, mulher de teu filho.” (Tobias 12,11-14)

Esta passagem é de fato prova da intercessão dos santos. Mas se você ler com atenção, estritamente ninguém está realizando um culto de latria ou mesmo de dulia para São Rafael neste momento em particular. Ele está simplesmente falando com eles, explicando que ele ofereceu a Deus as orações de Tobias e Sara.

Se a oferta de orações de São Rafael a Deus constitui “a adoração de anjos”, então os protestantes têm outro problema, porque o mesmo ocorre no Livro do Apocalipse:

“Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os ofere­cesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus.” (Apocalipse 8,3-4)

Assim como o arcanjo São Rafael, os anjos no Apocalipse também são descritos oferecendo as orações dos santos a Deus. Se em Tobias isso deve ser entendido como “a adoração de anjos” e, portanto, uma justificativa para removê-lo do cânon como não inspirado, então logicamente o mesmo também seria verdadeiro para o Apocalipse.

  • A acusação de magia

Alguns protestantes acusam o livro de Tobias de promover a magia:

“Entretanto, Tobias interrogou o anjo: “Azarias, meu irmão, peço-te que me diga qual é a virtude curativa dessas partes do peixe que me mandaste guardar”. O anjo respondeu-lhe: “Se puseres um pedaço do coração sobre brasas, a sua fumaça expulsará toda espécie de mau espírito, tanto do homem como da mulher e impedirá que ele volte de novo a eles. Quanto ao fel, pode-se fazer com ele um unguento para os olhos que foram atingidos por manchas brancas, porque ele tem a propriedade de curar”.” (Tobias 6,7-9)

Um blogueiro protestante se enfurece: “É verdade que a fumaça do coração de um peixe, quando queimada, afasta os maus espíritos? Claro que não. Esse ensino supersticioso não tem lugar na palavra de Deus.” De cara, a acusação de que Tobias faz uso de magia é ridícula. Você tem que lembrar que é o anjo São Rafael quem está dando a Tobias essas instruções. Acrescente a isso o fato de que o livro deixa bem claro que ele foi enviado por Deus para curar Tobias e Sara (Tobias 2,17; 12,14). Portanto, a receita para essas curas foi dada pelo próprio Deus. [Uma outra possibilidade é que o Anjo usou isso para ocultar sua identidade, e Tobias não notasse que quem de fato expulsou o demônio foi Anjo Rafael (Tb 8,3)].

Se, ao argumentar contra o Deuterocanônico, os protestantes insistem na acusação de magia, então o cânone bíblico que eles próprios defendem contém episódios que, de outra forma, classificariam como magia. Um exemplo é encontrado no livro de Gênesis:

“Jacó tomou então varas verdes de álamo, de amendoeira e de plátano; tirou-lhes parte da casca, fazendo faixas brancas e deixando a nu o ramo. Colocou as varas assim preparadas sob os olhos das ovelhas, nas pias e nos bebedouros onde vinham beber. Indo a beber, entravam em calor. E como entrassem no calor do coito diante dessas varas, concebiam cordeiros riscados, manchados e malhados.” (Gênesis 30,37-39)

O contexto da passagem acima era que Jacó e Labão estavam fazendo um acordo sobre o salário que Jacó deveria receber. Jacó pediu pelas ovelhas que estavam listradas, salpicadas e malhadas. A implicação é que o método descrito está relacionado aos animais que produzem essa prole. Se o que Tobias fez deve ser considerado mágico, a mesma conclusão poderia ser feita a partir do que Jacó fez. Além do mais, o texto não diz que Deus ou um anjo lhe deu tais instruções.

Os Evangelhos também possuem sua parcela disso:

“Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego? “Disse Jesus: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele. Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. Tendo dito isso, ele cuspiu no chão, misturou terra com saliva e aplicou-a aos olhos do homem. Então lhe disse: “Vá lavar-se no tanque de Siloé” (que significa Enviado). O homem foi, lavou-se e voltou vendo.” (João 9,1-7)

Eu perguntaria ao protestante se colocar lama nos olhos de um cego e lavá-lo o fará ver. É claro que ele pode responder que foi o próprio Jesus realizando um milagre. Sim, mas esse é o ponto. Lavar a lama dos olhos de um cego vai curá-lo, desde que seja a vontade de Deus. Da mesma forma, a fumaça que queima o coração e o fígado de um peixe pode exorcizar um demônio se Deus quiser. Assim como o sangue de um cordeiro pôde afastar o anjo destruidor (Ex 12,23), ou a harpa de Davi expulsar espíritos malignos (1Sm 16,23), e Naamã, a mando de Eliseu, ao se banhar sete vezes no Jordão ser curado da lepra (2Rs 5,10-11), e o mero cataplasma de figos de Isaias curar uma doença mortal após Deus assim decretar (2Rs 20,1.7; Is 38,1.21). Deus age na sua criação e pode fazer isso por meio dela se assim desejar.

Um aspecto muito ignorado é o da tipologia ou prefiguração: Assim como o sangue do Cordeiro salvou os hebreus da ação do anjo destruidor, o sangue do Cordeiro de Deus (Jo 1,29) nos salva da ação do anjo caído (Cl 1,13-14; 1Pd 1,19; Ap 1,5). O efeito exorcizante do peixe no Livro de Tobias prefigura a ação de Cristo contra o demônio (Jo 12,31; Cl 2,15; Hb 2,14; 1Jo 3,8; Ap 20,1-3). O peixe também é usado para curar a cegueira do pai de Tobias, prefigurando Jesus que realizou muitos milagres desse tipo (Mt 20,29-34; Mc 8,22-26; 10,46-52; Lc 18,35-43; Jo 9,1-41). Santo Agostinho, Santo Optato e São Beda são um dos que comentam esses paralelos, e veem esse peixe como uma clara figura de Cristo. Não é por acaso que, além do cordeiro, o peixe também era visto pelos primeiros cristãos como um símbolo de Cristo, usando as iniciais da frase “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” eles formavam a palavra ΙΧΘΥΣ (Ichthys), que quer dizer “Peixe”.

Como foi apontado anteriormente, o Livro de Tobias era citado favoravelmente pelos primeiros cristãos. Se este livro estava mostrando uma aceitação da magia, então é bastante estranho que ninguém pareça ter notado até que os protestantes decidiram arquitetar essa objeção.

  • São Rafael mentiu?

Uma acusação comum é de que o Arcanjo São Rafael mentiu para Tobit sobre sua identidade:

“Tobit então perguntou-lhe: “Rogo-te que me digas de que família e de que tribo és tu?”. O anjo respondeu: “Que é que procuras: a raça do servo ou o próprio servo para acompanhar teu filho? Mas, para tranquilizar-te: eu sou Azarias, filho do grande Hananias”.” (Tobias 5,15-18)

Superficialmente, a acusação é compreensível. Certas coisas, entretanto, devem ser levadas em consideração. Em algumas ocasiões, os anjos mostraram relutância em revelar suas identidades. Quando o patriarca Jacó perguntou o nome de um anjo, o anjo respondeu: “Por que você pergunta meu nome?” (Gênesis 33,30) Uma resposta semelhante é dada a Manoá, o pai de Sansão (Juízes 13,18)

A resposta comum que eu defendo é que o nome que ele dá a Tobit não é uma mentira, mas sim um código para sua missão. Traduzido, “Azarias” significa “Yahweh ajudou” e “Ananias” significa “Yahweh é misericordioso”. Deus enviou o anjo para ajudar Tobit e Sara por causa de sua misericórdia. É quando a missão é cumprida que ele torna conhecido o seu verdadeiro nome, Rafael, que significa “Deus cura”, um momento apropriado para revelá-lo depois que Deus curou Tobit e Sara.

Curiosamente, as palavras do arcanjo para Tobit refletem seu verdadeiro nome. Quando Tobit reclama de sua cegueira, São Rafael responde: “Coragem! A cura de Deus [רָפָאֵל – Rafa’el] está próxima; então tome coragem!” (Tobit 5,10)

Azarias e Ananias eram nomes bem comuns. Quando Tobias responde: “Conheci Ananias e Natã, os dois filhos do grande Semeías” (5,14), ele está presumindo. Observe que ele é quem adiciona os nomes Natã e Semeías; O próprio São Rafael não os menciona. Pode-se argumentar que, mesmo que não seja uma mentira verbal, ainda assim foi enganoso. Essa crítica assume, porém, que Tobit tinha realmente o direito de saber quem era São Rafael.

Diz o Catecismo da Igreja Católica:

2488. O direito à comunicação da verdade não é incondicional. Cada um deve conformar a sua vida com o preceito evangélico do amor fraterno, mas este requer, em situações concretas, que avaliemos se convém ou não revelar a verdade a quem a pede.

2489. É a caridade e o respeito pela verdade que devem ditar a resposta a qualquer pedido de informação ou de comunicação. O bem e a segurança de outrem, o respeito pela vida privada e pelo bem comum, são razões suficientes para calar o que não deve ser conhecido ou para usar uma linguagem discreta. Muitas vezes, o dever de evitar o escândalo impõe uma estrita discrição. Ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de a conhecer.

É preciso considerar qual teria sido a reação se São Rafael tivesse acabado de aparecer e revelado que era um anjo. A incredulidade certamente vem à mente como uma possibilidade, o que certamente não teria ajudado muito. Se fosse esse o caso, ele provavelmente teria sido visto como desonesto ou louco; de qualquer forma, não confiável como companheiro de viagem para Tobias. No entanto, na história bíblica, havia um medo da morte associado a ter visto um anjo. (Juízes 6,22-23; Juízes 13,21-23) O medo de ver um anjo sobreviveu até mesmo na época do Novo Testamento e pode ser visto nos Evangelhos. Na verdade, quando São Rafael finalmente revela sua identidade a Tobit e Tobias, é dito que: “Muito abalados, os dois caíram prostrados de medo. Mas Rafael disse ‘Não tenhais medo; que a paz esteja convosco!” (Tobias 12,16-17)

Tendo afirmado tudo acima, o anjo realmente afirma ter parentesco com Tobit. Quando Tobias encontra São Rafael pela primeira vez, o anjo diz a ele: “Eu sou um israelita, um de sua parentela” (Tobias 5,5). A acusação agora parece inevitável, mas não necessariamente. Lembre-se das palavras de São João Batista: “Deus pode suscitar filhos a Abraão destas pedras” (Mateus 3,9). Se uma dessas pedras anteriores dissesse: “Sou filho de Abraão”, ele estaria mentindo? Se Deus pode fazer tal coisa com uma pedra, então não há razão para que ele não pudesse ter feito o mesmo com um anjo enquanto o enviava em sua missão, fazendo de São Rafael um israelita e parente de Tobit de alguma forma, embora não fisicamente, pois certas ações que ele foi observado fazendo, como comer e beber, foram uma visão (Tobias 12,19). Embora isso seja admitidamente apenas uma conjectura de minha parte, certamente não é irracional e não pode ser descartado. Segundo a teologia escolástica, os anjos, sendo puramente espirituais, assumem um corpo criado instantaneamente para poderem ter contato com os homens; nesse caso o anjo assumiria um corpo com os traços étnicos dos hebreus, podendo se identificar (por semelhança física) como sendo do povo/etnia de Tobias. Os judeus no exílio dificilmente confiariam nos nativos pagãos, e para criar esse vínculo de confiança foi necessário que Rafael se apresenta-se como um deles.

  • Ensinando a salvação por méritos?

E agora nos deparamos com a acusação muito comum de que a Igreja Católica ensina a salvação pelas obras:

“Boa coisa é a oração acompanhada de jejum e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos, porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna(Tobias 12,8-9)

A passagem acima é frequentemente citada por protestantes como uma objeção ao livro. No entanto, ao contrário de sua caricatura, a Igreja não ensina que merecemos nossa salvação. Nas palavras de Ludwig Ott, “A Teologia Católica distingue nitidamente entre a religião natural e a sobrenatural e a moralidade”. Mais tarde, ele aponta que, “A graça não pode ser merecida por obras naturais de condigno ou de côngruo.” (Fundamentals of Catholic Dogma, p. 251, 254) Da mesma forma, o Concílio de Trento diz:

“Se alguém disser, que o homem pode se salvar para com Deus por suas próprias obras, feitas com apenas as forças da natureza, ou por doutrina da lei, sem a graça Divina, conseguida por Jesus Cristo, seja excomungado.” (Sessão 6, cânon 1)

Muitos protestantes não fazem essa distinção, portanto, eles combinam obras salutares com obras naturais e, consequentemente, concluem que os católicos acreditam que podem ganhar seu caminho para o céu. Alguns chamam nosso ensino de Pelagiano ou Semi-pelagiano; uma acusação irracional porque ambas as posições são condenadas como heresia pela Igreja. No entanto, uma discussão completa sobre as diferenças entre as doutrinas de justificação católica e protestante está além do meu escopo atual.

Como se constatou, como a maioria das outras supostas razões pelas quais os protestantes rejeitam este livro, este também tem equivalentes em seu cânone bíblico:

“Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e põe fim aos teus pecados, praticando a justiça, e às tuas iniquidades, usando de misericórdia com os pobres, pois talvez se prolongue a tua tranquilidade” (Daniel 4,27 ACF)

Por um fim aos pecados praticando a justiça e a misericórdia com os pobres, é basicamente o mesmo conceito da passagem de Tobias.

“Então o Senhor lhe disse: “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e da maldade. Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? Mas deem o que está dentro do prato como esmola, e verão que tudo lhes ficará limpo.” (Lucas 11,39-41)

Como Jesus disse, o interior dos fariseus estava cheio de “ganância e maldade”. O que é isso senão pecado? Se dar esmolas fosse para purificá-los, então não vejo problema com o que São Rafael diz. Além disso, há a história do jovem rico:

“Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais? perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me! Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens.” (Mateus 19,16-22)

A resposta vem da pergunta “o que devo fazer para ganhar a vida eterna?” O jovem governante rico guardou todos os mandamentos, só faltou uma coisa. Este mesmo episódio também aparece em Marcos 10,17-22 e em Lucas 18,18-23 (Lucas omite o detalhe da saída do jovem.) Se em Tobias, a declaração de São Rafael sobre esmolas deve ser considerada uma justificativa válida para removê-lo do cânone da Escritura, então também nos deparamos com a posição incômoda do próprio Jesus, nos três Evangelhos Sinópticos, fazendo afirmações que estão em completa harmonia com ele.

Conclusão

É certo que nem todas as objeções possíveis ao Livro de Tobias foram abordadas aqui, mas acho que isso dificilmente é necessário. A maioria deles tem equivalentes dentro do cânon bíblico que os próprios protestantes também aceitam, tanto nos pontos históricos quanto teológicos, a ponto dessas objeções parecerem dissimuladas. Quando os protestantes defendem Daniel por chamar Belsazar de filho de Nabucodonosor e ainda atacam Tobias por chamar Senaqueribe de filho de Salmaneser, quando ambos podem ser historicamente harmonizados usando a mesma metodologia, então eu suspeito fortemente de que sua rejeição ao livro, bem como a dos outros deuterocanônicos, está simplesmente motivada por eles não quererem que eles estejam no Cânon das Escrituras.

Referências e recursos:

A Survey of Old Testament Introduction, by Geason L. Archer

Tobit and Judith, by Benedikt Otzen

Just how many versions of Tobit are there? (Part 01),” (Also see Part 02) from Sacrificium Laudis.

Tobit: The Book of Tobit in Codex Sinaiticus, by Robert J. Littman; A PDF available here

Tobit (Commentaries on Early Jewish Literature), by Joseph A. Fitzmyer

Tobit (The Anchor Yale Bible Commentaries), by Carey A Moore

The Dead Sea Scrolls Translated: The Qumran Texts in English, Florentino Garcia Martinez



Categorias:Bíblia, Refutações, Traduções

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7 respostas

  1. Prezado Erick

    Primeirmente parabéns pelo site sobre Apologética Católica. Na Bíblia de Jerusalém no livro Deuterocanônico de Tobias 5:6 a distância entre Ecbatana e Rages é de dois dias mas parece que foram mais ide dois dias e também está escrito que Rages fica na montanha e Ecbatana na planície quando na verdade é ao contrário. Como explicar isso?

    Um grande abraço e felicidades

    Luiz

    • Eu sou o autor original do artigo. Como eu disse, não entrei em todas as objeções possíveis contra o Livro de Tobias, no entanto, há uma solução possível que eu conheço, e é fornecida no comentário de Robert Littman que usei sobre o tópico de Cyaxares . Vou citar:

      “No entanto, pode ser uma jornada de dois dias de Ecbátana a um ponto no rio Garrah.”

      O mesmo comentarista também menciona que outros escritores antigos mencionam uma “planície de Ecbátana”. Ele faz referência a Diodoro 2.13.6, embora não o cite. No entanto, consegui verificar a referência e vou citá-la para você:

      “Ao chegar a Ecbátana, uma cidade que fica na planície, ela construiu um palácio caro e de todas as outras maneiras deu uma atenção excepcional à região.”

      Em outras palavras, pode-se argumentar que os antigos incluíram a planície como parte de Ecbátana.

  2. Olá Luiz, a Paz de Cristo.
    Obrigado pelas palavras elogiosas.

    Como foi dito no artigo acima, o livro de Tobias possuí diversas variações textuais nos manuscritos disponíveis e, em algumas versões, essa passagem (provinda do Codex Sinaiticus) não aparece, como por exemplo no Codex Vaticanus, que traz:

    “E o anjo disse-lhe: ‘Eu irei contigo e estou familiarizado com a estrada, e fiquei com Gabael, nosso parente’. E Tobias disse para ele: ‘Espere por mim e eu explicarei ao meu pai’.” (Tobias 5,6-7)

    Apenas essa variante bastaria para resolver a questão. Temos também algumas leituras (como a da Vulgata) que dizem que Rages era uma “cidade dos Medos” no “monte de Ecbatana”, podendo então não ser a Rages da planície (atual Rey no Irã) e sim uma outra cidade com o mesmo nome (como no caso das diversas Ramá de Israel https://biblehub.com/topical/r/ramah.htm ).

    As possibilidades são muitas, para se aprofundar nessa discussão geográfica eu posso lhe indicar o seguinte artigo:

    http://www.stseraphimstjohnsandiego.org/St._Seraphim_of_Sarov_and_St._John_of_Kronstadt_Orthodox_Church/THE_GOOD_WORD/Entries/2020/4/25_THE_GOOD_WORD,_Vol_VII,_Issue_5,_May-Jun_2020,_The_Biblical_Book_of_Tobit,_Part_III__Geography_and_Interpretation_files/7-5%20Tobit%20Geography%20%26%20Interpretation%20version2.pdf

    Essa passagem é muito utilizada pelos críticos dos deuterocanônicos como algo que invalidaria o livro. Porém, acusações de “erros geográficos” contra as Escrituras (como um todo) são bem comuns por parte dos céticos, começando logo no Gênesis (na questão dos rios que cercam o Éden). Isso não impede os críticos dos deuterocanônicos de afirmarem a inspiração dos protocanônicos que possuem dificuldades similares e recebem as mesmas acusações.
    Nesses casos é sempre necessário a boa vontade do leitor (o que muitas vezes falta aos críticos dos deuterocanônicos). Como já foi dito, devemos pensar como Santo Agostinho:

    “Se estivermos perplexos com uma aparente contradição nas Escrituras, não é permitido dizer: O autor deste livro está errado; mas, ou o manuscrito é defeituoso, ou a tradução está errada, ou você não entendeu.” (Santo Agostinho de Hipona, Contra Faustum 9,5)

    Ou seja, nós já presumimos que o livro é palavra de Deus, pois assim recebemos da Igreja, e assim creram os santos e doutores.

  3. Obrigado por traduzir minha defesa de Tobias. Eu o editei e revisei um pouco, especialmente no tópico da idade de Tobit e no tópico de São Rafael. Mas eu realmente aprecio que isso esteja disponível em mais de um idioma. Eu falo espanhol, então pensei em fazer uma tradução para o espanhol, embora não tenha decidido isso definitivamente.

    Como disse antes, não falo português. É por isso que Deus fez o Google Translate: D

  4. Olá Erick

    Boa tarde

    Tem um livro que parece ser bom é Book of Tobit de Frank Zimmermann.

    Luiz

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