Leitor Pergunta: Maria Sempre Virgem?

Nome: Yago Ortolan

Data: 22 de fevereiro de 2021
Horário: 06:27
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Pergunta: Professor acho o trabalho de vocês incrível e posso dizer que foi por causa de vocês que minha fé católica está crescendo cada vez mais, porém graças aos estudos com vocês sobre os vídeos no YouTube sobre a virgindade perpétua de Maria encontrei uma incoerência gigante na doutrina e gostaria de uma explicação. Você disse claramente que a palavra “εως” não indica mudança de estado ao falar da virgindade perpétua de Maria, e deu vários exemplos disso. Porém aceitei o preceito pois é muito bem embasado e fui estudar outros Dogmas católicos e me deparei com o Purgatório. A principal passagens que é usada para provar a existência do Purgatório (Existem outras mas está é a principal) é Mateus 5:26, que claramente indica uma prisão onde serão “purgados” os pecados, no nosso caso, nos católicos entendemos como Purgatório.

MT 5:26
Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último centavo.

Em grego:
MT 5:26  αμην λεγω σοι ου μη εξελθης εκειθεν εως αν αποδως τον εσχατον κοδραντην

É a mesma palavra εως, do mesmo livro e autor. Isso é extremamente problemático, pois agora ou Maria é PERPETUAMENTE virgem ou o Purgatório existe. Os dois não podem conjuntamente serem verdade.

E agora? Estou perdendo o sono por causa disso.

RESPOSTA ACCATÓLICA

Olá Yago, bom dia! 

Como vai? Que Deus te salve! 

Eu vi que você colocou alguns comentários no You Tube e enviou o email, então, vou responder por aqui. 

Primeiro

Agradeço os elogios ao trabalho e peço que continue rezando por nós.

Segundo 

Há alguns anos, gravei um vídeo com o Gabriel para explicar a passagem de Mt 1,23-25 e por qual razão fiz isso? O conhecido pastor “Yago Martins”, havia publicado um vídeo atacando a virgindade de Maria e usando-se da partícula “εως“(héus) para afirmar que em todo o momento que ela aparece na escritura neo-testamentária, significa obrigatoriamente que existe a mudança da ação posterior.

Toda passagem precisa ser lida dentro do seu contexto e principalmente com o auxílio da Tradição que interpreta tais textos. Se “εως” obrigatoriamente significasse que haveria alguma mudança, Cristo não estaria conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20) e Ele só ficaria sentado ao lado de Deus quando os inimigos fossem vencidos (1 Cor 15,25), após isso, precisaria descer de seu trono de glória. Então meu irmão, não se desespere. 

Entretanto, Yago, é bom deixarmos claro que não é porque “héus” seja quase sempre usado sem alteração posterior, como por exemplo em Mt 1,25; Mt 12,18-20 e Mt 28,20, que nunca será aplicada para mudar a ação pós partícula. 

No próprio vídeo do referido pastor, ele cita um texto de Atos para comprovar a sua tese (e fecha os olhos para outros tantos que comprovam a fé católica) e como você mesmo viu, a perícope de Mt 5,26 poderá indicar uma alteração, uma vez que você “pagando até o último centavo”, sairá desse estado de purgação. 

Mas isso não altera nem a virgindade e tão pouco o purgatório, boa parte dos textos asseguram a nossa fé e como mencionei, é sempre importante ler na patrística como os padres liam tais passagens. 

Espero ter ajudado. 

Fique com Deus. 

IC XC NIKA

REPLICA DO YAGO

Muito obrigado pela resposta e atenção, fico muito feliz pela ajuda. Sua resposta foi excelente no ponto de analisar o contexto, mas o que mais me tira o sono é exatamente o contexto. A partícula “Héus” pode ter sentido de continuidade ou não , mas no mesmo livro escrito pelo mesmo autor? Não faz sentido nenhum. O mesmo autor não faria isso. Uma coisa é comparar textos de livros diferentes, autores diferentes, línguas diferentes, novo e antigo tratamentos, isso faz sentido, autores diferentes, culturas diferentes. Mas o mesmo autor, o mesmo livro, mesma língua (idioma que o livro foi escrito)… Não existe possibilidade alguma de ter sentido diferente.

Se o livro de Mateus mostra essa congruência em Mt 1,25; Mt 12,18-20 e Mt 28,20,….

Em Mt 5:26 obviamente teria o mesmo sentido, é o mesmo autor, mesmo idioma, mesma época… É o mesmo texto.

Isso é extremamente sensato ..

Este é o grande problema, seria mesmo até uma deslealdade teológica pensar diferente, neste ponto.

Esta é minha tormenta.

TRÉPLICA ACCATÓLICA

 Yago;

Das quatro oportunidades que o livro de Mateus nos concede essa partícula, em três delas não há mudança de ação pós uso.

Mt 1,25 – “Não a conheceu até que“: sem mudança. 
Mt 12,18-20 – “Não esmagará a cana quebrada (…) até que faça triunfar o juízo”: sem mudança.
Mt 28,20 – “Estou convosco até que os séculos se consumem”: sem mudança.
Mt 5,26 – “Não sairás dali até que pague”: há mudança. 

Para todos esses casos, o contexto sempre precisa ser analisado, por isso eu te digo: fique tranquilo (leia o tratado de São Jerônimo que disponibilizo no vídeo, é bem esclarecedor). 

Eu não posso afirmar que Cristo “estará conosco somente até a consumação dos séculos” (Mt 28,20) e depois disso, não. Tampouco posso afirmar que após o juízo, Jesus se transformará em um juiz tirano (Mt 12,18-20), assim como e com base na Tradição da Igreja e nos santos padres, não posso afirmar que em Mt 1,25 houve mudança do estado inicial. 

Mt 5,26 entraria como exceção e muito bem-vinda por sinal por conta do purgatório. 

Não lembro se comentei isso no vídeo, mas uma coisa que sempre digo é que “Mt 1,25”, não ajuda nem católicos e muito menos protestantes. É uma passagem onde a partícula poderia ser trabalhada de ambas as formas, mas no nosso caso, eu sempre reforço a possibilidade de não alteração da ação posterior, porque o protestante SEMPRE diz que héus indica que há mudança e isso é mentira. Temos inúmeros exemplos onde os escritores usavam sem qualquer alteração. 

Fique com Deus. 

IC XC NIKA




Categorias:Espaço do Leitor

2 respostas

  1. cor 3,15resta provar que se nos padres da Igreja essa parábola Evangelho era apresentada como evidencia do purgatório. Há outras mais claras como as de João 12,47 e de 1Cor 3,15. Doutrina do purgatório ganhou uma definição clara na Idade media e foi solenemente proclamada como verdade de fé no concilio de Trento. No entanto os padres da Igreja já admitiam as orações pelos mortos. Se podiam fazer orações pelos mortos era porque de alguma forma estas poderiam ajuda-las. Não eram úteis para as que já estavam no céu. E os condenados não se beneficiariam destas. Logo só poderiam estar num estado de purificação aludido nas passagens citadas acima. Já texto de Mt 5, 26 parece mais indicar uma situação definitiva assim como aquele outro do servo que não perdoou um que devia pouco a ele e foi jogado na prisão ate que pagasse toda divida. Como poderia pagar se não tinha mais recursos? Desta forma o “até que” de Mt 5 26 reforça uma situação análoga de Mt 1,18. Ou seja não implica mudança de situação. Maria continuou virgem após dar à luz a Jesus e o servo continuou na prisão porque não tinha como saldar sua divida. O purgatório não pode ser provado por este texto.

  2. O Purgatório é explicitado nas obras de Agostinho, Ambrósio, Cesário de Arles, Gregório Magno, entre outros. Isso é muito anterior a Idade Média; assim como a Trindade é muito anterior a Nicéia.
    Alguns padres viam sim essa parábola como evidencia de um perdão dos pecados no mundo vindouro.

    Tertuliano

    “Em suma: já que entendemos “A Prisão” dita no Evangelho como sendo o Hades, e interpretamos que por “pagar até o último centavo” signifique que é necessário que as faltas mais ligeiras sejam compensadas nesses mesmos lugares, no intervalo anterior à ressurreição; ninguém hesitará em crer que a alma recebe no Hades algum castigo compensatorio, sem prejuízo da plenitude da ressurreição, quando receberá a recompensa juntamente com a carne” (Tratado sobre a Alma, 58)

    Cipriano de Cartago

    “Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa é receber imediatamente o salário da fé e da coragem. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purgado pelo fogo; outra coisa é ter sido purgado [ainda em vida] de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser imediatamente coroado pelo Senhor.” (Epístola 51,20)

    Está provado. Abraços.

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