O Purgatório nos Padres da Igreja

Como as citações que tratam apenas sobre as orações pelos mortos são facilmente encontradas pela Internet (e muitos alegam que elas não implicam a noção da Igreja de purgatório), postaremos aqui aquelas que demonstrem mais especificamente: o fogo como meio purificador e/ou uma pena como meio/processo de purificação.

Caso encontrem algum texto patrístico com essas características, podem nos mandar a sugestão e, caso seja interessante, postaremos aqui.

+ Purgatório +

Santa Perpétua (182-203 d.C.)

“Imediatamente, nessa mesma noite, isto me foi mostrado em uma visão: eu vi Dinocrate saindo de um lugar sombrio, onde se encontravam também outras pessoas; e ele estava magro e com muita sede, com uma aparência suja e pálida, com o ferimento de seu rosto quando havia morrido. Dinocrate foi meu irmão carnal, tendo falecido há sete anos de uma terrível enfermidade… Porém, eu confiei que a minha oração haveria de ajudá-lo em seu sofrimento e orei por ele todo dia, até irmos para o campo de prisioneiros… Fiz minha oração por meu irmão dia e noite, gemendo e lamentando para que [tal graça] me fosse concedida. Então, certo dia, estando ainda prisioneira, isto me foi mostrado: vi que o lugar sombrio que eu tinha observado antes estava agora iluminado e Dinocrate, com um corpo limpo e bem vestido, procurava algo para se refrescar; e onde havia a ferida, vi agora uma cicatriz; e essa piscina que havia visto antes, vi que seus níveis haviam descido até o umbigo do rapaz. E alguém incessantemente extraía água da tina e próximo da orla havia uma taça cheia de água; e Dinocrate se aproximou e começou a beber dela e a taça não reduziu [o seu nível]; e quando ele ficou saciado, saiu pulando da água, feliz, como fazem as crianças; e então acordei. Assim, entendi que ele havia sido levado do lugar do castigo” (Martírio de Perpétua e Felicidade)

Clemente de Alexandria (150-217 d.C.)

“Através de grande disciplina o crente se despoja das suas paixões e passa a mansão melhor que a anterior; passa pelo maior dos tormentos, tomando sobre si a penitencia das faltas que possa ter cometido após o seu batismo. Então, é torturado mais por ver que não conseguiu o que os outros já conseguiram. Os maiores tormentos são imputados ao crente porque a justiça de Deus é boa e sua bondade é justa; e estes castigos completam o curso da expiação e purificação de cada um.” (Estrômatos, Livro VI,14)

“Porém, nós dizemos que o fogo santifica não a carne, mas as almas pecadoras; referindo-se não ao fogo devorador comum, mas o da sabedoria, que penetra na alma que passa pelo fogo” (Estrômatos, Livro VII,6)

Orígenes (185-253 d.C.)

“Pois se sobre o fundamento de Cristo construístes não apenas ouro e prata, mas pedras preciosas e ainda madeira, cana e palha, o que esperas que ocorra quando a alma seja separada do corpo? Entrarias no céu com tua madeira, cana e palha e, deste modo, mancharias o reino de Deus? Ou em razão destes obstáculos poderias ficar sem receber o prêmio por teu ouro, prata e pedras preciosas? Nenhum destes casos seria justo. Com efeito, serás submetido ao fogo que queimará os materiais levianos. Para nosso Deus, àqueles que podem compreender as coisas do céu, encontra-se o chamado ‘fogo purificador’. Porém, este fogo não consome a criatura, mas aquilo que ela construiu: madeira, cana ou palha. É manifesto que o fogo destrói a madeira de nossas transgressões e logo nos devolve o prêmio de nossas grandes obras” (P.G. 13, col. 445,448).

Tertuliano (160-220 d.C.)

“Em suma: já que entendemos “A Prisão” dita no Evangelho como sendo o Hades, e interpretamos que por “pagar até o último centavo” signifique que é necessário que as faltas mais ligeiras sejam compensadas nesses mesmos lugares, no intervalo anterior à ressurreição; ninguém hesitará em crer que a alma recebe no Hades algum castigo compensatório, sem prejuízo da plenitude da ressurreição, quando receberá a recompensa juntamente com a carne” (Tratado sobre a Alma, 58)

Cipriano de Cartago (210-258 d.C.)

“Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa é receber imediatamente o salário da fé e da coragem. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purgado pelo fogo; outra coisa é ter sido purgado [ainda em vida] de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser imediatamente coroado pelo Senhor.” (Epístola 51,20)

Ambrósio (340-397 d.C.)

“Não há apenas um batismo. Uma é aquele que a Igreja administra aqui pela água e pelo Espírito Santo. Outro é o batismo de sofrimento, pelo qual cada um é purificado por seu próprio sangue. Também há um batismo na entrada do Paraíso. Este último batismo não existia no início; mas depois que o pecador foi expulso do Paraíso, Deus colocou ali uma espada de fogo […]. Mas embora haja uma purgação aqui, deve haver também uma segunda purificação lá, para que cada um de nós, queimados, mas não queimados por aquela espada de fogo, possamos entrar no deleite do Paraíso […]. Mas este fogo pelo qual os pecados involuntários e casuais são queimados […] é diferente daquele que o Senhor designou ao diabo e seus anjos, do qual ele diz: Entre no fogo eterno.” (Explicação do Salmo CXVIII, 3.14-17)

Agostinho (354-430 d.C.)

“Não é de se duvidar que algo semelhante suceda após esta vida, e podemos investigar se é manifesto ou não que alguns dos fieis sejam salvos através de um certo fogo purgatório, mais cedo ou mais tarde, quanto mais ou menos amaram as coisas passageiras [deste mundo]; sempre que, porém, não estejam entre aqueles de quem está escrito que “não possuirão o reino de Deus” (1Cor 6,9), e a não ser que, convenientemente arrependidos, sejam perdoados de seus crimes.” (Enchiridium 69)

“Senhor, não me repreendas em teu furor. Corrige-me, mas não em tua ira”. Haveriam alguns de ser corrigidos com a ira de Deus, e serem corrigidos com o seu furor. E talvez nem todos os que serão corrigidos se emendarão; mas alguns que serão salvos, estarão entre os que são corrigidos. Isto sucederá, porque faz-se referência a emenda, que, no entanto, se realizará como que através do fogo. Alguns serão corrigidos e não se emendarão. Pois, são arguidos aqueles aos quais se dirá: “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber” etc.; ali, prosseguindo, o Senhor repreende certa desumanidade e esterilidade nos maus, colocados à esquerda, aos quais diz: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25,41.42). O salmista, receando estes males piores do que os desta vida, que o faz chorar e gemer, roga com estas palavras: “Senhor, não me repreendas em teu furor”. Não seja do número daqueles aos quais dirás: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. Corrige-me, mas não em tua ira”. Purifica-me nesta vida, e faz-me tal que já não precise do fogo purificador, como aqueles que se salvarão, mas como que através do fogo. Por que, senão por terem edificado aqui com madeira, feno e palha, sobre fundamento? Edificassem com ouro, prata, pedras preciosas, e estariam garantidos contra ambos os fogos. Não somente livrar-se-iam do fogo eterno que há de atormentar eternamente os ímpios, mas ainda daquele que purificará os que se salvarão através do fogo. Pois, foi dito também: “Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo” (1Cor 3,12.15). E como foi dito: “será salvo”, desprezasse aquele fogo. Apesar de salvos, através do fogo, este será mais doloroso do que tudo o que o homem pode sofrer nesta vida. (Comentário ao Salmo 37,3)

Depois da morte deste corpo até chegar aquele dia final da condenação e da remuneração que se verificará depois da ressurreição dos corpos, há quem diga que durante esse intervalo as almas dos defuntos sofrem desse gênero de fogo eterno não sofrido pelos que tiveram durante a vida deste corpo hábitos e preferências tais que a sua madeira, feno ou palha tenha que se queimar; quanto aos outros, porém, não há dúvida de que o não suportarão embora tenham levado consigo edificações dessa matéria, mas veniais, não merecedoras de condenação: talvez venham a sofrer apenas então, ou talvez agora e então ou só agora, sem terem que sofrer então: será um fogo, abrasador embora, mas de sofrimento passageiro. (Cidade de Deus XXI,26)

“É isso que havemos de sofrer todos os dias de nossa vida, isto é, desta vida que haverá de passar. E isso foi dito àquele que cultivar seu campo, porque padece tudo isso até retornar à terra da qual foi tirado, ou seja, até terminar esta vida. Pois aquele que cultivar esse campo interior e conseguir seu pão, embora com trabalho, pode sofrer este trabalho até o fim desta vida. Depois desta vida não é preciso que sofra. Mas aquele que talvez não cultivar o campo e permitir que os espinhos o sufoquem, tem nesta vida a maldição de sua terra em todos os seus trabalhos, e terá depois desta vida o fogo da purificação ou o castigo eterno. Desse modo, escapa dessa sentença, mas é preciso proceder de modo a suportá-las apenas nesta vida.” (Comentário ao Gênesis XX,30)

Cesário de Arles (470-543 d.C.)

“E ainda, se como bons filhos, damos graças a Deus que como um pai bondoso permite que isso seja tirado, e admite com verdadeira humildade que soframos menos do que merecemos, desta forma os próprios pecados são purificados neste mundo. Além disso, aquele fogo do purgatório não encontrará nada na vida futura, ou pelo menos muito pouco, para queimar. Mas se não dermos graças a Deus nas tribulações, nem amortizarmos nossos próprios pecados pelas boas obras, teremos que permanecer naquele fogo do purgatório enquanto os pecados insignificantes acima mencionados forem consumidos como madeira, feno e palha. Talvez alguém diga: Não faz diferença para mim quanto tempo terei de ficar, desde que eu passe para a vida eterna. Que ninguém diga isso, queridos irmãos, porque aquele fogo do purgatório será mais difícil do que qualquer punição neste mundo pode ser vista, imaginada ou sentida. […] Portanto, aqueles que desejam ser libertados desse castigo eterno e do fogo do purgatório não deve cometer pecados graves. Se já os cometeram, devem realizar uma penitência fecunda, não cessando de redimir por boas obras também as ofensas pequenas e mesmo diárias.” (Sermão 179)

Gregório Magno (590-604 d.C.)

“Por essas palavras é claro que, no mesmo estado em que um homem parte desta vida, ele é apresentado em juízo diante de Deus. Mas, ainda assim, devemos crer que antes do Juízo Final haverá um fogo purgatório para certos pecados leves. A razão para isso é que a Verdade afirma que se alguém disser uma blasfêmia contra o Espírito Santo, isto não lhe será perdoado nem neste século nem no vindouro. Com esta sentença se dá a entender que algumas culpas podem ser perdoadas neste mundo e algumas no outro, pois o que se nega em relação a alguns, deve-se compreender que se afirma em relação a outros (…) No entanto, tal como já disse, deve-se crer que isto se refere a pecados leves e de menor importância.” (Diálogos 4,39)

Juliano de Toledo (642-690 d.C.)

“Sabemos que há um fogo purificador após a morte, conforme definido pelos escritos de muitos comentaristas. Entre eles o eminente doutor Agostinho, embora afirme que isso já pode acontecer com os crentes nesta vida, ele acredita que também é possível depois da morte expiar alguns pecados leves, mostrando que este mesmo fogo purificador, agora desprezado e considerado por alguns como nada, é na realidade mais doloroso “do que qualquer coisa que um homem possa sofrer em esta vida”. Sobre este fogo purificador, Gregório também afirma: “É para ser crido que antes do julgamento final, há um fogo purificador para os pecados leves, pois a verdade diz que ‘todo aquele que falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem nesta era nem na vindoura’ [Mt 12,32]. Nessa frase, entende-se que alguns pecados podem ser expiados nesta vida, enquanto outros, ao contrário, devem ser expiados no mundo futuro. Na verdade, o que parece ser negado para o primeiro, posteriormente é concedido para outros. No entanto, como afirmei anteriormente, deve-se acreditar que isso pode acontecer para os pecados menores e mais leves, como por exemplo: conversa fiada persistente, riso desenfreado ou o pecado da preocupação com os assuntos familiares, coisas que dificilmente são praticadas sem culpa, ou por aqueles que sabem como se manter longe do pecado, ou pelo erro de ignorância sobre coisas que não são sérias; todas essas coisas também continuam a ser um peso após a morte, se enquanto ainda estão presentes nesta vida, não são totalmente remidas. Da mesma forma, Paulo, quando diz que Cristo é o fundamento, acrescenta: ‘Agora, se alguém construir sobre o fundamento com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha … o fogo provará que tipo de trabalho cada um fez. Se o que foi construído sobre o fundamento sobreviver, o construtor receberá uma recompensa. Se a obra for queimada, o construtor sofrerá prejuízo; o construtor será salvo, mas somente como pelo fogo’ [1 Cor 3,12.13.15]. Embora isso possa ser entendido sobre o fogo da tribulação como aplicado a nós nesta vida, não obstante, se alguém interpreta essas coisas sobre o fogo da purificação futura, ele deve considerar cuidadosamente que ele [Paulo] disse que pelo fogo pode ser salvo quem constrói sobre este fundamento não com ferro, bronze ou chumbo, isto é, com os maiores e, portanto, mais graves e portanto imperdoáveis pecados; mas com madeira, feno e palha, isto é, os pecados menores e mais leves, que o fogo consome facilmente. No entanto, devemos saber que nenhuma purificação ocorrerá no mundo futuro, nem mesmo pelos menores pecados, se durante esta vida alguém não se comprometeu a fazer boas obras para obtê-la no outro.
[…] Sobre a razão pela qual os castigos purificadores serão realizados antes do julgamento final, Santo Agostinho, propondo uma certa opinião, diz: “De nossa parte, reconhecemos que mesmo nesta vida alguns castigos são purificadores. Mas os castigos temporários são sofridos por alguns nesta vida apenas, por outros após a morte, por outros, agora e depois; mas, porém, antes desse último julgamento mais rigoroso; no entanto, entre aqueles que devem sofrer punições temporárias após a morte, nem todos caem em dores eternas que se seguirão a esse julgamento. Para alguns, o que não é remido neste mundo é remido no próximo, isto é, para que não sejam punidos com o castigo eterno do mundo vindouro.” Por isso, e após outras considerações, o mesmo doutor diz: “Quem, portanto, deseja escapar dos castigos eternos, não só seja batizado, mas também justificado em Cristo, e assim passe realmente do diabo a Cristo. E ousamos pensar que qualquer dor purificadora será antes desse julgamento final e terrível”. Portanto, confirmados pelo pensamento de tão grande doutor, cremos que este fogo purificador atua aqui antes do julgamento final e que antecede o fogo no qual todos os ímpios, pelo julgamento de Cristo, serão lançados.” (Prognosticum futuri saeculli, II,19 e 21 – 675 d.C.)



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