Reflexões Sobre o Ministério do Bispo de Roma e o Oriente

É comum que em conversas com cristãos ortodoxos a respeito do papado, sempre seja mencionado que “Pedro é o príncipe dos apóstolos” e que Roma, tinha a primazia, mas essa, era apenas de “honra”.

Mas afinal, qual era o comportamento do oriente para com o ocidente?

Pois bem, o pensamento das duas Igrejas, atualmente e principalmente no pós cisma, são totalmente opostos. Aquilo que para nós é uma clara prova em favor do ministério do Bispo de Roma, pode ser visto (e será) de forma diferente pelos ortodoxos. Enquanto para um católico (romano ou oriental sui iuris), todas as direções que o oriente fazia rumo a Roma é uma clara prova de que os orientais, pelo menos até o ano 800 d.C., olhavam para Roma não apenas como uma Igreja que tinha uma espécie de “autoridade de honra para apelação final”, mas como a:

Igreja amada, digna de Deus, digna de honra, digna de louvor, digna de sucesso, digna da pureza, que preside no amor e que porta a lei de Cristo” (Sto Inácio de Antioquia, aos Romanos, 107 d.C.).

Para os ortodoxos, nos dias de hoje, é apenas uma ideia de uma Igreja que era respeitada pelas demais. 

Enquanto olhamos para Santo Irineu (180 d.C.) e cremos que sua afirmação de que:

Deve necessariamente estar de acordo com ela (isto é, a Igreja de Roma – adição minha), por causa da sua origem mais excelente, toda a Igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares” (Contra as Heresias, III Livro; 3,2)

É de total acordo de que o primado do sucessor de Roma é uma prova clara na Tradição, um ortodoxo irá dizer que isso é apenas porque na época, a Igreja de Roma portava uma ortodoxia que hoje, não tem mais.

Para o ocidente, Clemente de Roma (80 d.C.), fez uma intervenção direta em uma Igreja Grega (Epístola aos Coríntios), que aliás, poderia ter sido ajudada por Igrejas da Ásia Menor ou Mesopotâmia (414 a 450 KM de distância), mas, foi Roma (quase 1300KM de distância) que exerceu uma jurisdição “além mar”. Isso para nós, é uma prova direta, para o ortodoxo, é apenas um sinal de que a Igreja Latina, era importante, mas não com poder sobre as demais.

Para nós, católicos (romanos ou orientais), as antigas sedes patriarcais, sendo Roma a primeira, cultivavam uma plena comunhão entre si. Alexandria e Antioquia também eram sedes petrinas e seus sucessores, como já disse Bento XVI, tinham consciência de sua responsabilidade como “bispos petrinos”, mas a sede primaz era/é Roma, por conta de Pedro e das chaves que o acompanham, assim como por conta de Paulo, apóstolo dos gentios. Constantinopla foi reconhecida canonicamente só em 381 d.C., mas ainda sim, atrás da cidade eterna (cânon 03 de Constantinopla).

Para a Igreja Católica, a importância desse direto do Bispo de Roma, sucessor do príncipe dos apóstolos é de cunho divino e é aqui a diferença entre nós e os ortodoxos. Cremos que isso foi instituído pelo próprio Cristo, seja pela fundação (Mt 16,18), seja no pastoreio (Jo 21,15-18) ou na confirmação da fé (Lc 22, 32). Seu sucessor carrega esse múnus, por isso que para nós, não estar unido a essa Sé, trata-se cisma.

Todas as demais sedes tinham poder, importância e governavam suas jurisdições locais no quesito de subsidiariedade. Roma também e reconhecemos essa importância no cânon 06 de Niceia, mas entendemos que além do poder local, regional, patriarcal, havia o universal que competia ao sucessor de Pedro. São Leão Magno (450 d.C.), enfatizou isso em sua epístola 65,2:

 “Por causa de Pedro, o bem-aventurado príncipe dos apóstolos, a santa Igreja romana possui a primazia sobre todas as Igrejas do mundo inteiro”.  

É por isso que quando os orientais recorriam a Roma, para nós, católicos, é uma prova de que eles entendiam essa jurisdição sobre as demais Igrejas.

Por exemplo: o Papa Victor (190 d.C.), se equivocou ao querer excomungar a Igreja do Oriente por conta da data da páscoa, mas em linhas gerais, ele entendia que podia fazer isso, porque tinha poder para tal.

Júlio I, quando enviou uma carta à Igreja de Antioquia em 341 d.C., afirmou que o costume era: “Escrever primeiro a nós (Roma) e daí venha a ser estabelecido o que é justo“.

Em Sérdica (343 d.C.), cânon 03, diz que a ” causa seja determinada pelo julgamento do Bispo de Roma_” e na carta “Quod Semper“, é mencionado que: “as províncias recorram à cabeça, isto é, a Sé do Apóstolo Pedro“.

No Sínodo de Cartago (417 d.C.), na carta “In requirendis”, é mencionado que os “julgamentos competem a Sé Apostólica”. 

Na carta “Manet Beatum” aos bispos da Macedônia, em 422 d.C., é dito: “As Igrejas Orientais, para as grandes questões, nas quais fosse necessário maior investigação, sempre tem consultado a Sé Romana e que, toda vez que necessário, tem pedido o seu auxílio “.

O “Decreto Gelasianum¹” (496 d.C.), é enfático em dizer que: “A santa Igreja romana foi anteposta às outras Igrejas não por decisões conciliares, mas obteve seu primado da palavra evangélica do Senhor e Salvador“.

1 – (Nesse documento, os concílios também são confirmados).

A própria fórmula de Hormisdas, 514 d.C., subscrita pelo Patriarca de Constantinopla, é a maior prova para nós, católicos, de que o oriente entendia o papel do Bispo de Roma em relação a toda a cristandade:

(…) Seguimos em tudo a Sé Apostólica e proclamamos tudo quanto foi por ela estabelecido (…) esta minha profissão, pois, [eu] a subscrevi de própria [minha] mão e a ofereci a ti, Hormisdas, santo e venerável Papa da cidade de Roma“.

Por fim, no CIC (parágrafo 834), há uma citação de “São Máximo, o confessor” (Constantinopla) que traduz a plena essência de como o oriente não apenas reconhecia, mas, também entendia que a jurisdição universal de Roma, através do sucessor de São Pedro, era importante para a unidade de fé:

 “Desde que o Verbo Encarnado desceu até nós, todas as Igrejas cristãs de todo o mundo tiveram e têm a grande Igreja que vive aqui (em Roma) como única base e fundamento, porque, segundo as próprias promessas do Salvador, as portas do inferno nunca prevalecerão sobre ela” (S. Máximo Confessor; Opusc.: PG 91.137-140)

A verdade é que o oriente sempre reconheceu a primazia de Roma e infelizmente, muitos anos depois e talvez por soberba, deixaram de olhar o sucessor daquele que o próprio Cristo disse: “apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-18).

Escrito por: Érick Augusto Gomes.



Categorias:História, Papado

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