Ave Maria “Tridentina”? [Podcast-Intercessão dos santos Pt.1]

Recentemente alguns amigos nos recomendaram um podcast tratando sobre a Intercessão dos Santos sob uma perspectiva protestante. Diferente do que estamos acostumados a ver, os participantes foram muito cordiais em suas colocações e argumentos, que, apesar de antigos (o mesmo dos Reformadores), não são aqueles mesmos jargões e versículos batidos do mainstream evangélico que vemos sendo repetidos por aí. Felizmente, após décadas de debates, o diálogo no Brasil parece ter avançado um pouco, e já encontramos diversos pontos de concordância, como: o juízo particular após a morte (antes do juízo final), a imortalidade da alma, a intercessão dos anjos, e até mesmo dos santos (apesar de não colocarem tanta certeza, mas concederem que é provável). Vendo que valia a pena dar a nossa opinião, tendo em mente o nosso público cristão católico, decidimos comentar alguns pontos que pensamos ser os mais interessantes, e que, além de poder ser a dúvida dos irmãos, também seria o que mais contribuiria na formação deles. Vamos então aos tópicos:

A Ave Maria.

Neste tópico a impressão que o podcast passou é que antes do período do Concílio de Trento, a Ave Maria era para os cristãos uma mera frase bíblica, onde não havia uma intenção de se dirigir à Virgem Maria, pelo fato da segunda parte da oração ainda não ser universalmente conhecida e padronizada, e que ela teria sido colocada apenas na época do concílio de Trento como uma reação à Reforma. Essa ideia, porém, é absolutamente falsa.

Os reformadores é que inovaram completamente o sentido da Ave Maria, fazendo uma reinterpretação para transformar a oração tão querida pelo povo em uma “oração reflexiva, não dirigida à Maria”, semelhante à maneira que os maometanos repetem versos do Corão como forma de oração. Porém, não era assim que os cristãos entendiam a Ave Maria antes da inovação protestante. Segundo relata o historiador Daniel Rops:

“A Ave-Maria, que ao longo do século XII se completa com a segunda parte que rezamos atualmente, adquire um caráter oficial a partir de 1198, com Sully, bispo de Paris.” (Daniel Rops, Igreja das Catedrais e das Cruzadas, p.70)

Na primeira metade do século XIV também era conhecida uma segunda parte da Ave Maria (erroneamente atribuída a Dante), que dizia:

 “Ó Virgem bendita, rogai a Deus por nós sempre, para que Ele nos perdoe e nos dê a graça para que vivamos aqui embaixo, para que Ele possa nos recompensar com o paraíso na nossa morte.”

Por volta de 1514, a forma atual da Ave Maria já se encontrava no breviário dos monges Camaldulenses e na da ordem dos Mercedários.[1] A Ave Maria idêntica à atual, exceto pela omissão da palavra “nostrae”, já se encontrava impressa no cabeçalho da pequena obra de Savonarola, Esposizione sopra l’Ave Maria,[2] publicada em 1495:[3]

“Ave Maria gratia plena Dominus tecum Benedicta tu in mulieribus et benedictus Fructus uentris tui Iesus sancta Maria mater Dei ora pro nobis peccatoribus nunc et in hora mortis. Amen

Ainda antes, em uma edição francesa do Kalendrier des bergiers[4] [Calendário dos pastores], de 1493, a Ave Maria já estava presente de forma quase completa:

“Je te salue Marie plene de grace nostre seigneur est avec toy. Tu es benoite fur toutes femmes. et benoist est le fruit de ton ventre Iesus. Saincte marie mere de dieu prie pour nous pecheus Amen.

Ela é repetida em 1506 na tradução inglesa de Richard Pynson, The Kalender of Shepardys,[5] da seguinte forma: “Hayle Mary fulle of grace God is with the, thou arte blessyd amonge woman and blessyd be the fruite of thy wombe Jesus. Holy Mary moder of God praye for us synners. Amen.”

Em uma obra do início do século XIII chamada Ancrene Riwle [Guia dos Anacoretas], encontramos a seguinte instrução:

“Em seguida, volte-se para a imagem de Nossa Senhora e ajoelhe-se, dizendo a “Ave” cinco vezes.” [6]

Deixando ainda mais claro que a intenção dos cristãos era a de dirigir a Ave Maria para a própria Virgem Maria, vemos na mesma obra a seguinte instrução:

Ó graciosa mãe do Redentor, que permanece sendo a porta pela qual o Céu entrou [no mundo], e a estrela do mar; socorra teu povo decadente […], recebendo aquela saudação dos lábios de Gabriel, tenha piedade do pecador. Aqui diga a “Ave, Maria! cinquenta ou cem vezes, mais ou menos, conforme o tempo disponível. [7]

O comentário de Santo Tomás de Aquino (1225-1274) à Ave Maria[8] também revela o caráter mariológico na intenção dessa saudação, não era uma saudação a esmo, mas um louvor direcionado a Virgem. Apesar dele não comentar nenhuma petição posterior, ele diz coisas como: “pois a Santíssima Virgem não era apenas pura em si mesma, mas também obteve pureza para outros”, “pois em todo perigo você pode obter a libertação desta Virgem gloriosa”, e: “pois, assim como os marinheiros são conduzidos ao porto pela estrela do mar, os cristãos são conduzidos por Maria à glória”. A reflexão de Aquino é belíssima e mariológica, para então nos levar ao cristológico, esse sempre foi a verdadeira expressão da Fé Cristã. Aquino então conclui: “Portanto, a Virgem é bendita, mas muito mais bendito é o fruto do seu ventre [Jesus].”

Outro nome de grande envergadura, São Boaventura (1221-1274), na introdução da sua obra Espelho da Virgem, usa a Ave Maria como uma oração à própria Virgem:

“E porque este tratado é, por assim dizer, uma espécie de espelho que reflete a vida, a graça e a glória de Maria, não é inadequadamente denominado o Espelho de Maria. Oh, fazei tu, portanto, minha mais gentil Senhora e Mãe, graciosamente aceite este pequeno presente oferecido a ti por teu pobre amante! Para que com este pequeno presente, com este pequeno trabalho sobre a tua própria Saudação, eu lhe saúde. De joelhos dobrados, com a cabeça baixa, com o coração e os lábios, eu lhe saúdo, e lhe bendigo: Ave Maria, etc.”[9]

Concluímos então que a forma atual da Ave Maria já estava estabelecida muito antes da data alegada; e mesmo as formas anteriores já incluíam algum adendo à frase bíblica como uma súplica simples, e, mesmo sem isso, sem dúvida a intenção dos cristãos pré-Tridentinos era a de dirigir essa saudação à própria Mãe de Deus.


[1] https://www.newadvent.org/cathen/07110b.htm

[2] https://archive.org/details/ita-bnc-in2-00000229-001/page/n9/mode/2up

[3] Rare Books Department, shelfmark: IA 27542

[4] https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k87105966/f82.item

[5] https://books.google.com.br/books?id=XkJKAQAAMAAJ&vq=Mary&hl=pt-BR&pg=PA76#v=onepage&q&f=false

[6] https://archive.org/details/ancrenriwletreat00mortuoft/page/18/mode/2up

[7] https://archive.org/details/ancrenriwletreat00mortuoft/page/42/mode/2up

[8] https://www.dominicanajournal.org/wp-content/files/old-journal-archive/vol39/no1/dominicanav39n1stthomasexplanationthehailmar.pdf

[9] https://archive.org/details/St.BonaventureMirrorOfTheBlessedVirginMary/page/n3/mode/2up



Categorias:Refutações, Santos

Tags:, , ,

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: