A “lógica” de Lutero/Ninguém cria em purgatório? [Podcast-Intercessão dos santos Pt.2]

A “lógica” de Lutero

O segundo ponto que vale a pena comentar é o da conclusão “lógica” de Lutero contra a invocação dos santos que o podcast apresenta da seguinte forma:

“Basicamente tu podes orar por mim […] mas disso não se segue que eu deva adorar nenhum deles ou invocar o [Fulano] durante a minha oração […] Como não se segue essa lógica aqui na terra, não se segue no que diz respeito ao céu…”

Vamos por bem ignorar o “adorar” e outras bobagens provocativas e acusatórias que é típica da linguagem deste e de outros indivíduos da época da Reforma.

O pensamento de Lutero parece se resumir em algo mais ou menos assim:

  • Eu não tenho poder telepático para contatar um amigo aqui neste mundo e pedir suas orações.
  • Então, quando eu estou orando, eu não faço tal coisa.
  • Logo, mesmo se ele estivesse no céu isso deve continuar assim.

Ora, isso não se segue de maneira alguma. A pessoa aqui neste mundo, mesmo sendo parte do corpo de Cristo, ainda está fora da visão beatifica e, portanto, está limitada pelas barreiras do mundo material. Porém, não é essa a realidade celestial que vemos na escritura. No Apocalipse vemos que os que estão no céu sabem dos eventos aqui da terra. Por exemplo: os santos exultam pela queda da Babilônia (Ap 19,1), mas, se eu estivesse vivo naquele momento em algum lugar do mundo (afastado da infame cidade), não saberia que ela caiu, mas ao contrário, os santos no céu observam o evento e exultam sem a necessidade de estarem lá presentes. Os que lucravam com ela lamentaram apenas quando “viram a fumaça de seu incêndio” (Ap 18,9). Nosso Senhor disse que todo o céu (ou seja, seus habitantes, santos e anjos) exulta pela conversão de um só pecador (Lc 15,7.10), eles são capazes disso sem estarem materialmente próximos ao pecador. Claramente a realidade e os limites da ciência daqueles que estão no céu é bem diferente da dos que estão ainda neste mundo. Estando no céu, não veem mais por um espelho, como um enigma, mas veem face a face o seu Criador (1Cor 13,12), sendo, como diz João, semelhante a Ele (1Jo 3,2), participando dos seus atributos, da sua natureza (2Pd 1,4). Explica Santo Tomás:

“[…] Gregório diz: A alma que vê o Criador vê também o universo como encerrado num pequeno espaço. Pois, por pouco que contemple a luz do Criador, vê como próximas todas as causas criadas”. Ora, o maior obstáculo para as almas dos santos conhecerem as nossas orações e os nossos atos é a distância que delas nos separa. Mas, como essa distância não é mais um empecilho, do modo explicado pela autoridade citada, parece que as almas separadas conhecem as nossas orações e todos os nossos atos.” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, supl., q.72 art. 1)

O Apóstolo dos gentios diz aos santos ainda neste mundo: “Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da caridade que é dada pelo Espírito, combatei comigo, dirigindo vossas orações a Deus por mim” (Rm 15,30), isso é uma súplica pela intercessão dos santos da Igreja militante, a diferença é que nós dizemos o mesmo aos da Igreja Triunfante, pois:

  • Como São Paulo, eu suplico a intercessão dos santos que estão ainda nesse mundo, pois somos partes do corpo de Cristo (1Cor 12,12-27).
  • A morte não nos separa de Cristo (Rm 8,38-39), os santos no céu não deixam de fazer parte desse mesmo corpo.
  • Segue-se então que continuo a suplicar por suas orações agora que estão no céu.

Se isso fosse errado, Paulo estaria errado em Romanos 15,30, segundo a própria lógica com que nos acusam:

– [Ironia mode: ON] Bastaria ele confiar na providencia de Deus, e não ficar pedindo orações para todo mundo, como se a dele não bastasse, colocando a oração de terceiros no lugar da confiança que ele devia ter “ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE em Deus”, praticando então uma “idolatria disfarçada”!!!!! [Ironia mode: OFF]

Não temos uma “ordem” de invoca-los?

Não encontramos também uma ordem explicita de guardar o Domingo; ou de batizar crianças, mas a partir de certos elementos na escritura nós fazemos uma dedução lógica pois todos os elementos dessas doutrinas apostólicas se encontram na escritura, mesmo que não explicitamente. Não encontramos também uma ordem de que devamos invocar o Espírito Santo; é dito que ele intercede, que ele é o Paráclito e o Consolador, mas assim como no caso dos santos, não diz expressamente que devamos invoca-lo, mas nem por isso vou dizer que isso é proibido; podemos inferir logicamente que não é contrário às escrituras. Sabemos que nas primeiras liturgias a Epiclese[1] sempre esteve presente, mostrando que eles não precisavam ver na Bíblia explicitamente para ter como doutrina.

É duvidoso que os santos orem por nós?

Ao contrário do que foi dito, para nós, que os santos intercedem não é nada duvidoso, já que temos na escritura[2] o Livro de 2Macabeus que assim o declara explicitamente, e que até nos ajuda a interpretar mais facilmente passagens que mostram o mesmo, como Apocalipse 5,8, onde há uma inegável mediação[3] das orações por meio dos santos.[4] Além do livro frequentemente colocar os santos e mártires em um papel sacerdotal diante do Trono de Deus (Ap 7,15; 20,4-6), há uma inegável participação no sacerdócio de Cristo, o Sumo Sacerdote. Se uma das coisas que Cristo faz é interceder por nós, seus sacerdotes não fariam diferente.

Uma das coisas que Paulo desejava era deixar a carne para estar com Cristo e permanecer sendo agradável a Deus (2Cor 5,9), e uma das coisas que agradam a Deus é justamente a intercessão (1Tm 2,1-3). Pedro diz que a função do sacerdócio universal dos cristãos (coisa que a Igreja Católica não nega) é a de oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (1 Pd 2,5), uma clara referência a oração. Se no céu eles ainda são sacerdotes e permanecem agradando a Deus, obviamente o ato da intercessão como sacrifícios espirituais a Deus por Jesus Cristo ainda permanece. Podemos dizer que os santos estão em um “descanso orante”, assim como era o Sabá judaico, e um descanso sabático é justamente a promessa de Deus aos seus santos (Hb 4,9).

Além disso, assim creu a esmagadora maioria dos padres da Igreja: os santos e mártires oram por nós e por toda a Igreja em conformidade com o plano de Deus.

Outro detalhe digno de nota: A Igreja Católica não diz que santos são apenas os canonizados, mas sim todos os salvos. A canonização é um reconhecimento público que aquela pessoa é exemplar, digna de honra e imitação de suas qualidades; mas a maioria dos santos no céu são anônimos.

Outros ramos cristãos antigos não acreditam em purgatório?

A oração pelos fiéis falecidos é um tema que parecia ser mais aceito entre os participantes. Mas, para a informação dos católicos, vale a pena comentar essa alegação de que os ortodoxos não creem na “teologia do purgatório”, pois da maneira que foi falado, pareceu que o conceito do purgatório foi uma novidade inventada apenas pela Igreja Romana, e que os outros ramos do cristianismo apostólico orariam pelos mortos, mas sem a mesma intenção de auxiliar na purificação dos mesmos, como faz a Igreja Romana. (Talvez não tenha sido essa a intenção do podcast, mas foi essa a impressão que tivemos).

Podemos dizer que os ortodoxos, mesmo discordando nos detalhes, concordam com uma certa “estrutura básica” da teologia do purgatório, podemos ver isso no Concilio de Jerusalém de 1672, onde a igreja ortodoxa se reuniu para resolver a controvérsia de certas ideias calvinistas que estavam sendo introduzida em suas igrejas.

“E as almas daqueles envolvidos em pecados mortais, que não partiram em desespero, mas enquanto ainda viviam no corpo, embora sem produzir quaisquer frutos de arrependimento, se arrependeram – derramando lágrimas, ajoelhando-se enquanto assistiam em orações, afligindo eles próprios, aliviando os pobres, e finalmente mostrando por suas obras seu amor a Deus e ao próximo, e que a Igreja Católica desde o início corretamente chamou de satisfação – [suas almas] partem para o Hades, e aí suportam o castigo devido aos pecados que cometeram. Mas eles estão cientes de sua futura libertação de lá, e são entregues pela Suprema Bondade, por meio das orações dos Sacerdotes e das boas obras que os parentes de cada um fazem por seus mortos; especialmente o Sacrifício incruento que se beneficia mais; que cada um oferece em particular pelos parentes que dormem, e que a Igreja Católica e Apostólica oferece diariamente a todos igualmente.” (Confissão de Dositheus, Decreto 18)

Ou seja, quem morre arrependido de seus pecados, recebendo o perdão de Deus pela contrição, são salvos, mas passam por uma purificação post-mortem em que as nossas orações e o sacrifício eucarístico que se oferece a Deus nas intenções dos falecidos são essenciais. A ideia aqui difere muito pouco da doutrina latina. Em ambos os casos a purificação é para os salvos, não uma segunda chance. As almas destes indivíduos ficaram detidas em um local de penitencia (Purgatório ou Hades). Essa ideia é a mesma presente em autores patrísticos como Clemente de Alexandria, Tertuliano, Cipriano de Cartago, Orígenes, Efrém, Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nissa, Epifânio, Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho, este último usa o termo purgatório explicitamente. (As citações desses Padres são facilmente encontradas na internet, por isso achei desnecessário lista-las). [5]

A verdade é que nenhuma tradição cristã apostólica negou a oração pelos mortos, nem viu nisso uma questão polêmica, nunca sequer discutiram isso em algum sínodo como uma questão polêmica que entraria em contradição com a soteriologia do cristianismo; o que deveria nos levar a refletir seriamente sobre a legitimidade da doutrina do Sola Fide como é apresentada pela esmagadora maioria das igrejas protestantes; pois, se foram salvos apenas pela Fé, que necessidade veriam os primeiros cristãos de orar pelos seus mortos? Só podemos concluir que nenhum ramo do cristianismo jamais creu em tal doutrina, ninguém entendeu o tal “verdadeiro evangelho” dos “Reformadores”.

A única objeção que resta comentar é a suposta questão do “exagero”, que repetiram várias vezes ao tratar da questão. Mas qual seria o exagero? Quem define tal coisa? Com quem está essa régua? Se todos os ramos do cristianismo sempre creram que isso era benéfico aos irmãos falecidos, porque colocaríamos um limite nas orações, fazer o bem a essas almas deveria ser limitado pelos pudores de uma doutrina do século XVI? Uma oração conhecida pelas almas do purgatório, a de Santa Gertrudes, leva em média 15 segundos para ser feita; mesmo uma oração bem extensa, como a Ladainha pelas almas do purgatório (com aprox. 600 palavras), leva em média 3 minutos para ser recitada. 3 minutos de oração dificilmente pode ser considerado um exagero, talvez tenha se tornado costume nas igrejas protestantes o habito de se rezar muito pouco. Coisa essa que não queremos imitar jamais. Mas seguindo o que nos ensinou o Apóstolo, oramos sem cessar (1Ts 5,17) e oramos por alguns minutos por quem precisa, não há exagero nisso.

A oração pelos falecidos era tão presente na vida cristã que Abércio de Hierápolis, um bispo do século II, ainda em vida mandou confeccionar uma lápide que, entre outras coisas, dizia aos que eventualmente passariam pelo seu tumulo: “O irmão que o ler por acaso; Ore por Abércio”. O conceito de um lugar/estágio de purificação estava presente também na teologia judaica,[6] e é mais uma coisa que nós temos como algo explicito nas escrituras (2Mc 12,44-45), caindo na mesma questão do cânon citada anteriormente. Enfim, para nós católicos, a oração pelos mortos, além de bíblico, é algo presente na tradição judaica (da qual os apóstolos vieram), e tão presente na tradição patrística que é estranho ver cristãos tendo alguma dificuldade com o tema.


[1] Invocação do Espírito Santo sobre as espécies eucarísticas.

[2] Cairíamos na questão do cânon, mas isso já era certo para a Igreja Católica, para nós isso foi definido em Concílios do IV e V século, que ainda receberam confirmações papais posteriores; e ainda no Concílio Ecumênico de Florença. Antes da Reforma isso já estava bem resolvido (a despeito de alguns inovadores em um meio universitário já não muito ortodoxo), mas o movimento protestante obrigou a Igreja a confirmar a questão ainda outra vez em Trento; e ela ainda o fez novamente nos concílios Vaticano I e II.

[3] Cai aqui também a falácia interpretativa de “único mediador” (1Tm2,5), passagem muito abusada por alguns ramos do protestantismo e repetida ad nauseam, como se a passagem falasse sobre intercessão de orações (coisa que esses santos estão explicitamente realizando, assim como todos nós) e não do mediador da Redenção (Hb 9,15).

[4] Homens glorificados que oferecem as orações dos santos a Deus, ou seja, as nossas orações.

[5] Alguns padres que citam especificamente um fogo purificador (e até Purgatório explicitamente) e não meramente orações pelos mortos: https://accatolica.com/2021/04/08/o-purgatorio-nos-padres-da-igreja/

[6]  https://www.jewishencyclopedia.com/articles/12446-purgatory

https://www.jewishencyclopedia.com/articles/9110-kaddish



Categorias:Purgatório, Refutações, Santos

Tags:, , , ,

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: