Mediadores da Redenção; Medo de Jesus e Devoções Extravagantes [Podcast-Intercessão dos santos Pt.3]

Mediadores da Redenção?

Para os Católicos, ao morrer na Cruz Jesus nos mereceu a salvação, a qual recebemos mediante a Fé por meio de um sistema sacramental (Deus, porém, pode agir fora dele, se assim o aprouver). Citando o Decreto sobre a Justificação do Concilio de Trento, o Catecismo da Igreja Católica diz:

“A justificação é, ao mesmo tempo, acolhimento da justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo. Justiça designa, aqui, a retidão do amor divino. Com a justificação, são difundidas nos nossos corações a fé, a esperança e a caridade, e é-nos concedida a obediência à vontade divina. A justificação foi-nos merecida pela paixão de Cristo, que na cruz Se ofereceu como hóstia viva, santa e agradável a Deus, e cujo sangue se tornou instrumento de propiciação pelos pecados de todos os homens. A justificação é concedida pelo Batismo, sacramento da fé. Conforma-nos com a justiça de Deus que nos torna interiormente justos pelo poder da sua misericórdia. E tem por fim a glória de Deus e de Cristo, e o dom da vida eterna.” (CIC § 1991-1992)

Como podem então os santos serem tidos como mediadores de redenção? Se recebemos a redenção no batismo (1Pd 3,21) ao sermos introduzidos no corpo de Cristo (O Santo), e não de um santo. Se na Eucaristia recebemos o corpo de Cristo que dá a vida eterna, por meio do qual vivemos por Ele (Jo 6,51.57). Se cumprimos o preceito do Dia do Senhor participando da adoração na liturgia, onde o sacrifício ofertado pelo Filho a Deus Pai se torna presente. Se na confissão pedimos perdão por termos ofendido a Deus, pois quebramos os mandamentos de Deus, não dos santos. Como então um católico crerá que os santos podem alcançar redenção para ele no sentido soteriológico? Podemos até pedir que eles nos auxiliem a alcança-la, que por meio de suas orações nos consigam a graça de Deus para perseverar no caminho da salvação. Mas quem acha que o santo vai lhe alcançar a redenção no primeiro sentido, nem ao menos leu o catecismo, nem deveria se dizer Católico. Tendo a confiança em Jesus e no sistema sacramental por ele instituído não tem sentido acusar que a devoção aos santos se torna uma “idolatria disfarçada” e que a confiança será colocada neles ao invés de Deus.

Viver na Graça, pela Fé, no caminho das boas obras (Ef 2,8-10) preparado para nós, é nossa adoração, nosso culto espiritual, nossa adoração em espírito e verdade (Jo 4,23). O conceito não surgiu exclusivamente no cristianismo, era uma ideia que já circulava no mundo antigo:

“A filosofia grega pagã desenvolveu a noção de [λογικὴ θυσία], – sacrifício racional ou espiritual, que rejeitava sacrifícios cruentos, bem como as características litúrgicas formais do culto de adoração e enfatizava a disposição interior do espírito humano.” (Casel, Jahrbuch für Liturgiewissenschaft 4 [1924] 37ff.)

Em Romanos 12,1 Paulo usa palavras similares [λογικὴν λατρείαν] – culto racional ou espiritual – para o mesmo conceito:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Romanos 12,1)

E é provavelmente o que Jesus se refere quando diz: “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João 4,23). Por isso que mesmo os sacramentos ou a liturgia eucarística nada aproveitam para o homem se ele não tiver a Fé, e não estiver bem disposto para receber a graça de Deus, como explica o Catecismo:

1131. Os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, pelos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis, com os quais são celebrados os sacramentos, significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Eles dão fruto naqueles que os recebem com as disposições requeridas.

Sem essa fé que o leva a se arrepender e estar na graça de Deus, o sacramento pode se tornar até fonte de condenação (1Cor 11,27).

Essa adoração em espírito e verdade, o culto de latria, atinge seu ápice na santa comunhão, pois nela e por ela, vivemos para Deus, buscando ser participantes da natureza divina (2Pd 1,4). Não buscamos isso de um santo, não fazemos isso por um santo. Dizer que não há distinção alguma entre isso tudo e o ato de pedir a intercessão dos santos é absurdo. Claro que em nossas orações podemos (e devemos) fazer atos de adoração a Deus, mas é perfeitamente possível distinguir as coisas.

“[…] A oração é oferecida a uma pessoa de duas maneiras: primeiro, a ser cumprida por ele, em segundo lugar, a ser obtida através dele. No primeiro sentido, oferecemos oração somente a Deus, pois todas as nossas orações devem ser dirigidas para a aquisição da graça e da glória, que só Deus nos dá, de acordo com o Salmo: “O Senhor dará graça e glória” (Sl 83,12).  Mas, na segunda maneira, oramos aos santos, quer sejam anjos ou homens, não para que Deus possa por meio deles conhecer nossas petições, mas que nossas orações possam ser eficazes por meio de suas orações e méritos. Por isso, está escrito (Ap 8,4) que “a fumaça do incenso”, ou seja, “as orações dos santos subiram diante de Deus”. Isso também fica claro pelo próprio estilo empregado pela Igreja ao orar: já que pedimos à Santíssima Trindade: “Tenha piedade de nós”, enquanto pedimos aos santos: “Rogai por nós”. […] Somente a Deus oferecemos adoração religiosa quando oramos, de quem buscamos obter o que oramos, porque, ao fazê-lo, confessamos que Ele é o Autor de nossos bens. Mas, não, aos que pedimos como a intercessores nossos juntos de Deus.” (Suma Teológica, IIa IIae, q. 83 art. 4 e 11)

Percebemos que alguns dos participantes fazem uma relação intrínseca entre adoração e oração, e não conseguem conceber nenhuma distinção entre as duas coisas. Isso lembra um pouco os estrangeiros que não conseguem conceber o costume dos brasileiros de se cumprimentarem com um beijo. Isso acontece porque sua cultura relaciona duas coisas que a nossa não relaciona. Para eles o beijo é algo intrínseco à intimidade sexual, enquanto para nós é perfeitamente possível e simples distinguir as duas coisas.

Assim se dá com a oração aos santos e a oração a Deus, não é porque dirigimos uma oração aos santos que isso signifique que os temos no mesmo patamar de Deus. Mas para uma tradição que relaciona fortemente as duas coisas, e que eliminou a necessidade das obras de misericórdia com a qual agradamos a Deus, assim como o sacrifício eucarístico (o ponto alto da adoração, cf: Ml 1,11),[1] isso vai ser quase impossível de se desatrelar, e compreendemos que o escrúpulo é forte. Mas, assim como expõe Orígenes em seus tratados,[2] sabemos que nem toda as orações são iguais; sabemos distinguir entre o sentido absoluto e o sentido relativo de oração.[3] Existe para nós uma oração em seu sentido pleno,[4] aquela que fazemos ao Deus Triúno, de quem esperamos todas as coisas, essa é a oração por excelência, na qual há adoração religiosa, mas há também aquelas súplicas que podemos dirigir aos anjos e santos (os membros de Cristo que temos como nossos irmãos e intercessores), onde não haverá a mesma intenção, como bem expôs o supracitado Doutor Angélico.

Cristo é “brabo”, então eu vou aos santos

Lutero teve uma infância dura, com pais muitos rigorosos, isso acabou criando uma percepção de Jesus como um juiz ranzinza e extremamente rigoroso, pois seu próprio pai era assim,[5] e dessa forma ele encarou toda a figura paterna. Com a de Deus não foi diferente. Não temos como saber se ele imputava a sua própria percepção de Cristo e o motivo dele se dirigir aos santos (quando católico), como sendo o sentimento de todos os católicos, quando na verdade era apenas um problema pessoal dele, ou se talvez ele descreveu a prática de maus católicos.

Por toda a Europa durante a Idade Média, foi abundante o número de santos que pregavam com fervor a invocação do nome de Jesus, dentre eles: Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109), São Bernardo de Claraval (1090-1153), Bem-aventurado Henrique Suso (1295-1366), São Bernardino de Siena (1380-1444),[6] São João de Capistrano (1386-1456), entre outros. Inspirado por Bernardo de Claraval, o eremita e escritor Richard Rolle (1300-1349) afirmava que o Santo Nome era um “unguento medicinal para a alma”, como o nome de YHWH era tido no Velho Testamento (Jl 2,32), ele diz: “Se você pensar no nome de Jesus continuamente e se agarrar a ele de maneira firme, isso te purificará do pecado e inflamará seu coração [na caridade].”

O monge alemão Tomás de Kempis na aclamada obra Imitação de Cristo escreve coisas como:

Bem-aventurado quem entende o que significa amar Jesus e desprezar-se a si mesmo por Deus. Convém abandonar qualquer outro amigo pelo Amigo, pois Jesus quer ser amado sozinho sobre todas as coisas. […] Se em tudo a Jesus procurares, encontrarás, certamente, Jesus. (Livro II, cap. 7)

O homem devoto leva consigo, por onde quer que vá, o seu consolador Jesus, e Lhe diz: Fica comigo Senhor Jesus, em todo tempo e lugar. (Livro III, cap. 16)

O sentimento de Lutero não é de maneira alguma o sentimento da Cristandade, e sim as suas próprias angustias; como também as superstições e má catequização dos cristãos da sua região. Essa ideia de que o cristianismo medieval tinha medo de Jesus e o via como um tirano só se sustenta se tudo o que lermos sobre a Idade Média for a propaganda inflamada da Reforma. As Escrituras nos ensinam sim a ter o santo temor de Deus (Pv 9,10; Sl 111,10; Lc 12,4-5), isso é até mesmo um dos dons do Espírito Santo (Is 11,2), mas o pavor que Lutero desenvolveu devido a seus escrúpulos não era normal, nem mesmo para os padrões mais rigorosos da época.

A comunhão dos santos se dá justamente por haver comunhão com Jesus, e não o contrário. Vamos aos santos porque são nossos irmãos; a nossa relação com Deus é uma comunhão em seu corpo místico (1Jo 1,3), não vamos a um desprezando ou temendo o outro. E por isso a oração pública e comunitária oficial da Igreja Católica é o Ofício Divino (popularmente chamado de Liturgia das Horas), baseada principalmente nos Salmos, para cumprir o mandato de Cristo de orar incessantemente, louvando e pedindo a Deus por todos os homens. Esse é o alicerce da vida de oração. Nos aproximamos do Trono da Graça (Hb 4,16) em toda oração, cheios de confiança no amor de Deus, e considerando também que é bom ter também muitas orações em nossa intenção, para que uma graça possa ser obtida por intervenção de muitas pessoas (2Cor 1,1) e assim Deus é glorificado em seus santos (Jo 17,10; 2Ts 1,10). Se essa lógica procede com as orações dos irmãos neste mundo, procede também com as orações dos santos na glória, não será as orações dos irmãos na pátria celeste que ofenderão a Deus.

A historinha de Maria desobedecendo Jesus

Sobre o ponto da história de São Pedro fechando as portas do céu sob as ordens de Cristo, e Maria desobedecendo, tenho que concordar, é realmente lamentável. E como foi dito, nosso catecismo realmente condena tal ideia. Quem contou essa história não conhece a doutrina da Igreja: Fora da Cruz não existe outra escada por onde subir ao céu” (CIC § 618). É a própria Virgem Maria que, segundo as Sagradas Escrituras, diz: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Ela obviamente segue seu próprio conselho, não é nem ao menos possível para um santo ou anjo no céu ser desobediente, a vontade deles está perfeitamente conformada com a de Deus. Essa Maria desobediente ao plano de Jesus exposta nessa história, não é a Virgem Santíssima como a Igreja Católica ensina:

“Maria é a orante perfeita, figura da Igreja. Quando Lhe oramos, aderimos com Ela ao desígnio do Pai, que envia o seu Filho para salvar todos os homens.” (CIC § 2679)

Os santos só podem fazer algo que esteja no plano de Deus. O que a história poderia estar tentando dizer é que, pelas orações de Maria, Cristo concedeu muitas graças e muitos foram salvos por essa graça divina concedida por suas súplicas, e que de outro modo isso talvez não aconteceria.[7] Se cremos que Maria intercede, é pela vontade de Deus e não contrario a ela.

Deixando claro: os santos não executam milagres por poderes próprios, e qualquer intervenção direta, como a aparição de Anjos, ou Santos (como a de Moisés e Elias no Monte Tabor), são eventos extraordinários da parte de Deus e a iniciativa parte sempre dele e não da vontade humana. Os padres da Igreja nos relatam muitas aparições de Mártires e Anjos, mas sabemos que eles não fazem isso por conta própria, isso é obra da providência divina.

Infelizmente uma piedade popular sem instrução formal sempre gera bizarrices. Assim como no meio evangélico vemos pessoas dizendo que a “Palavra” no princípio com Deus era a Bíblia; que Cristo adulterou com a mulher do poço; que Cristo humilhou sua mãe em público; que podemos cometer adultério segundo as ordens do profeta Oséias; “sono da alma”; “arrebatamento”; “reino milenar”; “terceiro templo”; “não existe pecadinho e pecadão”, pastores apoiando o estado de Israel e o Sionismo com base em Gênesis (e em detrimento dos cristãos locais), Teologia da prosperidade, venda de tijolo e vassoura ungida, etc. Sabemos que tais coisas não são o que de fato acreditam os protestantes, e que teólogos e igrejas protestantes sérias não ensinam ou fazem tais coisas.

Devoções extravagantes

Os participantes do podcast comentam também sobre “pedidos” feitos em festas sincréticas (que atribuem a realização dos pedidos ao próprio ídolo sincretizado com um dos santos cristãos), como se isso fosse a doutrina da Igreja. Sobre umbanda, simpatias, etc., oriundas de um sincretismo religioso, como a identificação de demônios como Iemanjá com a Virgem Santíssima, não preciso dizer nada além de expor o que diz a escritura: “Todos os deuses das gentes são demônios” (Sl 95,5). Não deveria ser necessário explicar que o “católico” que participa de qualquer prática do tipo, precisa se reconciliar com Deus agora mesmo se não quiser ser condenado.

Esses eventos e festas populares em que pessoas se ferem (e até se matam), ocorrem principalmente em regiões e países muito precários (Brasil, México, Filipinas).[8] Curiosamente as arruaças e absurdidades que vemos nos países subdesenvolvidos, não ocorre normalmente com os católicos suíços, americanos, franceses, alemães etc. Nem as comunidades católicas da África (onde a Igreja cresce muito), que receberam uma evangelização e catequização recente, nós vemos esses abusos. Esses países hispânicos pobres infelizmente sofrem com uma legião de “pagãos batizados”. Por terem sido países confessionais no passado, as pessoas são batizadas por costume, recebem uma péssima formação, não sabem (e não querem saber) absolutamente nada da fé, mas, quando chega essas festividades, adivinha quem vai estar lá participando? Tenho certeza que o fiel católico que verdadeiramente vive sua fé, que se mantém na graça de Deus, que participa dos sacramentos, medita as Escrituras diariamente, conhece o catecismo, os Santos Padres, etc., jamais se comportaria assim, participando de tal barbárie. Antes de tais atos serem uma “idolatria disfarçada” essa pessoa que machuca a si mesmo e a terceiros nesses eventos já tinha seu coração tomado pela mais grosseira idolatria. Essas festas bem poderiam ser temporariamente suspensas, quiçá abolidas, e os envolvidos em badernas e violências, excomungados. É necessário sim uma purificação desses costumes. Festa Cristã é para quem sabe se portar como cristão!


[1] Cf: Didaquê, cap. 9,10.14; Constituições Apostólicas, Livro VI, cap. 23; Agostinho de Hipona, Sermão 228b; João Damasceno, A Fé Ortodoxa, cap. 13;

[2] Orígenes demonstra certa confusão com relação a cristologia, caindo em alguns erros sobre a natureza do Filho, mas suas distinções sobre a oração são válidas e as adotamos aqui para o caso dos santos.

[3] Orígenes, Contra Celso, Livro V, cap.4

[4] Orígenes, Da Oração, cap.10

[5] Christian History, Issue 34: Martin Luther: The Reformer’s Early Years: The Accidental Revolutionary & The Parents Luther Feared Disgracing.

[6] São Bernardino empolgou até mesmo o Papa Martinho V em aderir a uma procissão do Santo Nome de Jesus em Roma

[7] Como a intercessão de Jó pelos seus amigos (Jó 42,7-10), Deus bem poderia agir diretamente, mas Ele quis conceder o perdão apenas por meio da intercessão do seu servo Jó.

[8] Sobre a citada Espanha eu não tenho muito conhecimento, mas o pouco que eu já vi de eventos como a Semana Santa de Málaga, me pareceram bem ordeiros e são belíssimos.



Categorias:Refutações, Santos

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