Citações dos Padres sobre a Invocação dos santos e o conceito de adoração em Ireneu de Lyon [Podcast-Intercessão dos santos Pt.5]

Seguindo o que disse Melancton no artigo 21 da “Apologia da Confissão de Augsburgo” (que faz parte do “livro de Concórdia”, um documento de fé para muitos luteranos), foi alegado que antes de Gregório Magno, supostamente ninguém mencionou nada sobre a invocação dos santos. Vamos analisar então os Padres que foram citados para sustentar tal afirmação.

Santo Atanásio

O podcast cita Atanásio, em seu Discurso contra os Arianos da seguinte forma: “Não invocamos nada criado, nenhum homem, mas o natural e verdadeiro Filho de Deus”. Antes de prosseguir analisando essa citação, gostaríamos de usar também uma citação do Discurso contra os Arianos:

“[…] o bendito Davi na maioria dos Salmos convida, não apenas os Anjos, mas as Potestades a louvar a Deus.” (Discurso II contra os Arianos, cap. 37)

Atanásio entende que nos Salmos (que são orações), Davi se dirige a seres criados no céu, anjos e potestades,[1] convidando-os a louvar a Deus. Será que para Atanásio é permitido se dirigir aos anjos somente para convida-los a se unir a você em adoração a Deus, mas não pode se dirigir a eles convidando-os a interceder por você a Deus? De qualquer forma, isso já não seria uma invocação de um ser criado?

Voltando a citação usada no podcast:

“Por essa causa, então, de forma consistente e apropriada, tais afeições não são atribuídas a outro, mas ao Senhor; que também a graça venha Dele, e que possamos nos tornar, não adoradores de qualquer outro, mas verdadeiramente devotos para com Deus, porque não invocamos coisa com origem, não um homem ordinário, mas o natural e verdadeiro Filho de Deus, que se tornou homem, e ainda sim é Senhor, Deus e Salvador.” (Discurso III contra os Arianos)

Ele não está definindo um princípio que: “os cristãos não devem invocar nada criado”, como se Atanásio estivesse impondo ou descrevendo uma regra. O discurso é complexo e o contexto é a heresia Ariana. Ao dizer sobre os “adoradores de outro”, Atanásio está dirigindo uma crítica aos arianos que adoravam um Jesus que não era uno (consubstancial) com o Pai, afirmando que ele era de substancia diferente e que não era eterno, mas teve uma origem no tempo (ou seja: criado), e ainda assim o tinham como “um deus” (como os TJs de hoje). Atanásio os acusa então de estarem crendo em dois deuses, caindo no politeísmo dos gentios. Mas os cristãos católicos adoravam a Deus, e invocavam Jesus como o próprio Deus que se fez carne, e não um homem ordinário ou ser criado, como os arianos. E nós católicos afirmamos isso, exatamente como disse Atanásio, invocamos Jesus não como ser criado, como um homem ordinário, ou um Anjo poderoso, mas como Deus. Nada nessa citação tem a ver com a invocação dos santos, mas especificamente uma crítica à visão dos arianos sobre Jesus.

Sobre a citação de Santo Antão do deserto, o contexto não é sobre um “milagre recebido por suas relíquias ou intercessão”, mas a atitude do santo ainda em vida perante os milagres que operava pelo poder de Deus, e como ele, por humildade, se esquivava de qualquer atribuição de mérito a ele próprio; nada mais que a atitude esperada de um santo.

“Estes eram os conselhos a seus visitantes. Com os que sofriam unia-se em simpatia e oração, e amiúdo e em muitos e variados casos, o Senhor ouviu sua oração. Nunca, porém, se jactou quando atendido, nem se queixou não o sendo. Sempre deu graças ao Senhor, e animava-se os que sofriam a ter paciência e a se aperceberem de que a cura não era prerrogativa dele nem de ninguém, mas de Deus só, que a opera quando quer e a favor de quem Ele quer. Os que sofriam ficavam satisfeitos, recebendo as palavras do ancião como cura, pois aprendiam a ter paciência e a suportar o sofrimento. E os que eram curados aprendiam a dar graças, não a Antão, mas a Deus só.” (Vida de Santo Antão, 56)

De fato, essa é a postura que devemos ter quando recebemos um milagre pela intercessão dos santos, agradecer primeiramente a Deus que fez o milagre, no entanto, Atanásio não diz que devemos anular e esquecer a figura do santo, pelo contrário, é a vontade de Deus que eles sejam reconhecidos, mas não é o homem que vai pedir para si este reconhecimento, pois não seriam diferentes daqueles que fazem as suas obras a fim de serem vistos pelos homens (Mt 23,5), os que já receberam o seu galardão (Mt 6,2), mas, aos que forem como Santo Antão, é o próprio Deus que os glorificará diante dos homens:

“Sejam ansiosos em serem seguidores, primeiramente de Deus e depois dos Santos, para que depois de sua morte eles os recebam como bons amigos nas moradas eternas [Lc 16, 9] […] Como explicar, efetivamente, que este homem, que viveu escondido em uma montanha, fosse conhecido em Espanha e Gália, em Roma e África, senão por Deus, que em toda parte faz que os seus sejam conhecidos […] nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo glorifica aos que o glorificam.” (Vida de Santo Antão, 92-94)

Santo Ambrósio

É dito que Santo Ambrósio negava a invocação dos santos, por supostamente dizer: “Somente você ó Senhor deve ser invocado…só você deve ser suplicado”, como seria cansativo buscar a obra original e lê-la em seu contexto, e esse texto já se prolongou demais; deixo uma outra citação do grande Santo Ambrósio que não deixa dúvidas:

Os anjos devem ser suplicados por nós, pois têm sido guardas para nós; os mártires devem ser suplicados, cujo patrocínio buscamos reivindicar para nós pelo penhor, por assim dizer, dos seus restos mortais [as relíquias]. Eles podem suplicar pelos nossos pecados, os quais, se eles tiveram algum, os lavaram com seu próprio sangue; pois eles são os mártires de Deus, nossos pontífices, espectadores da nossa vida e das nossas ações.” (Sobre as Viúvas, IX, 55)

Gregório de Nissa

É dito que Gregório, o Teólogo, negava a invocação dos santos, por supostamente dizer que “devemos pedir a remissão dos pecados do Rei eterno…diretamente do Senhor”. Nisso nós não discordamos, o perdão dos pecados nós devemos pedir ao Senhor, pois foi a ele que ofendemos, mesmo a confissão ao sacerdote é feita somente após um ato de contrição diante de Deus. Mas São Gregório não negava a oração aos santos:

“Certamente vocês se lembram dos nossos comentários sobre aquela doce multidão [de mártires] que orava fervorosamente pelos que estavam reunidos para implorar sua intercessão.” (Homilia I (b) sobre os Quarenta Mártires)

São João Crisóstomo

É dito que Crisóstomo negava a invocação dos santos, por supostamente dizer: “o diabo introduziu o pedido em nome dos anjos”; curiosamente, o mesmo também diz:

“Por conseguinte, se temos anjos, vigilantes, comportemo-nos como na presença de um pedagogo. Pois o demônio também está presente. Por isso oramos, e suplicamos ao anjo da paz, e sempre pedimos a paz. Nada se equipara a isto: paz nas igrejas, nas orações, nas preces, nas saudações.” (Homilia 3 aos Colossenses)

O culto dos Mártires com certeza não era uma honra de uma “simplicidade inocente”, os cristãos sabiam muito bem o que estavam fazendo. A celebração não era feita em favor dos mártires como se eles precisassem de orações, mas em sua honra, pois sempre foi crido que os mártires era os que iam diretamente para a presença de Deus, não havia necessidade de interceder por eles. Ter um dia dedicado à sua memória na divina liturgia (o ato de adoração per se da Igreja), assim como cristãos se arriscando para conseguir suas relíquias mesmo diante dos perseguidores, tendo-as como mais preciosas que ouro e pedras preciosas, é a prova escancarada da importância que os cristãos atribuíam aos santos.

Se os santos padres do IV século podem ser acusados de ter introduzido uma novidade, um “abuso anticrístico”, que levou toda a cristandade ao erro por mais de um milênio, então todo o testemunho deles é nulo, incluindo o cânon das escrituras, a sua defesa Trinitária… tudo pode ser jogado no lixo, tragam novamente Ário, Nestório, Êutiques, Pelágio, pois suas ideias então são tão validas quanto a de qualquer um dos Padres, pois todos eles juravam de pé junto que estavam seguindo as escrituras (como todo herege).

Ireneu de Lyon, oração = adoração

Outra citação que achei interessante comentar são as de Santo Ireneu, que foram usadas para fazer uma relação intrínseca entre oração e adoração e então nos acusar de Idolatria. Na primeira citação, Ireneu não está condenando a súplica aos anjos de Deus; o contexto é sobre os milagres que aconteciam na Igreja cristã e dizendo que isso não são como os falsos prodígios ocorridos nos meios gnósticos e ocultistas que eram realizados por meio da magia.

“E não é com a invocação dos anjos que ela faz estas coisas [os milagres], nem com encantamentos ou outras práticas torpes, e sim de maneira lícita e clara, elevando preces a Deus, que fez todas as coisas; invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo faz prodígios para o bem dos homens e não para os enganar.” (Contra as Heresias, II,32,5)

Ele está dizendo que os milagres são feitos por Deus, e não por rituais mágicos e práticas ocultistas, a invocação referida aqui, como foi explicada anteriormente, é aquela dos gnósticos e pagãos que invocavam anjos e elementais (na realidade, demônios) para conseguirem poderes ocultos e a capacidade de realizar prodígios, falsos milagres. O problema, novamente, é pegar a palavra “invocação” e colocar tudo no mesmo balaio.

O outro texto de Ireneu usado para relacionar oração e adoração é lida da seguinte forma pelo participante: “O altar então é um céu e pra esse lugar são para onde nossas orações e as nossas ofertas são dirigidas…” Encontrei a citação de forma um pouco diferente:

“Há, portanto, altar nos céus, aonde sobem as nossas preces e oferendas; e há templo, como diz João no Apocalipse…” (CE, IV,18,6).

Em lugar algum nessa citação Ireneu diz que: oração = adoração. Isso é uma inferência indevida do participante, que então procede dando a sua interpretação do texto de Ireneu, colocando Cristo como um altar que colocamos nossas orações como os sacrifícios da antiga Israel. Muito bonito, mas isso passa longe do que o texto em seu contexto está tratando. Ireneu está fazendo um comentário sobre a adoração da Igreja e diz que a adoração da Igreja é uma oblação pura (clara referência a Malaquias 1,11, como já expomos anteriormente sobre o sistema sacramental e a adoração na teologia católica), essas são as ofertas oferecidas no altar descrito acima:

“E a Igreja é a única a fazer ao Criador esta oblação pura, oferecendo-a com ação de graças por meio de suas mesmas criaturas. Os judeus já não oferecem: suas mãos estão cheias de sangue, porque não receberam o Verbo pelo qual é oferecido a Deus, como não o oferecem todas as assembleias dos hereges. […] Como poderão ter certeza de que o pão sobre o qual foram dadas graças é o corpo do Senhor e a taça de vinho o seu sangue se não o reconhecem como Filho do Criador do mundo. […] Então, ou mudam sua maneira de pensar ou se abstenham de oferecer as ofertas de que falamos acima. Quanto a nós, nossa maneira de pensar está de acordo com a Eucaristia e a Eucaristia confirma nossa doutrina. Pois lhe oferecemos o que já é seu […] Assim como o pão que vem da terra, ao receber a invocação de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia, feita de dois elementos, o terreno e o celeste…” (CE, IV, 18,4-5)

“[…] o próprio Verbo prescreveu ao povo que faça as oblações, embora não precisasse delas, para que aprendessem a servir a Deus, como quer que nós também ofereçamos continuamente e sem interrupção nossos dons no altar. Há, portanto, altar nos céus, aonde sobem as nossas preces e oferendas.” (CE, IV, 18,6)

Ou seja, Ireneu está falando do altar literal da Igreja (altar, e não púlpito) que está ligado com o dos céus; neste contexto específico o altar não é Cristo, mas verdadeiramente o altar da Igreja onde o corpo de Cristo é ofertado por Ele mesmo (por meio de suas criaturas) como sacrifício, ali está presente o único e perfeito sacrifício que ele mesmo ofertou ao Pai na cruz, isso se torna presente novamente nas espécies eucarísticas sobre o altar da Igreja. Eis aí a adoração da Igreja, o sacrifício.

Esse sacrifício que sobe ao altar celeste é acompanhado das orações de adoração a Deus. E exatamente da mesma forma como Ireneu descreve, nós, ainda hoje, temos nossa oração de adoração, a Divina Liturgia, que é a oração oficial da Igreja, a oração de adoração oferecida a Deus juntamente com a supracitada oblação pura, o sacrifício eucarístico. Longe de dizer que apenas a oração é a adoração, ou que toda a oração é adoração (sem as devidas distinções que já fizemos anteriormente entre a oração aos santos x oração a Deus), Ireneu nos da testemunha de como era, e ainda é, a adoração católica, a qual não oferecemos a nenhum dos santos. Uma pena que muitos se abstenham dela.

Concluindo

Por diversos fatores, está além do nosso alcance comentar com profundidade tudo o que foi falado, comentamos os pontos que pensamos mais valerem a pena e que poderiam gerar alguma dúvida, pois, muito das coisas que foram ditas o católico médio deveria saber responder apenas pela leitura do catecismo. Muito do que foi dito são coisas que a Igreja buscou e ainda busca combater, formando melhor os seus fiéis. Nesses pontos nós podemos e devemos aproveitar a crítica, e buscar corrigir certos abusos, crendices, e conceitos errôneos que não fazem parte da doutrina da Igreja; alertando aos irmãos que caem no engodo de práticas sincréticas e contrárias a fé, crescendo então em uma fé mais madura. Termino com as palavras de um protestante notório, o filósofo e polímata alemão, Gottfried Wilhelm Leibniz, um dos homens mais eruditos do século XVII, que, após analisar a questão em seu livro Systema Theologicum, concluí: 

“Vendo, portanto, que as almas bem-aventuradas, em seu estado atual, estão muito mais intimamente presentes em todos os nossos afazeres, e veem todas as coisas muito mais de perto, do que enquanto viveram na terra (pois os homens estão familiarizados apenas com as poucas coisas que ocorrem à sua vista, ou são relatados a eles por outros); vendo que sua caridade, ou desejo de nos ajudar, é muito mais ardente; vendo, enfim, que suas orações são muito mais eficazes do que aquelas que ofereciam anteriormente nesta vida, que é certo que Deus concedeu muitos favores até mesmo às intercessões dos vivos, e que esperamos grande proveito da união das orações de nossos irmãos com as nossas; Não compreendo como pode ser considerado crime invocar uma alma bem-aventurada ou um santo Anjo, e implorar a sua intercessão ou a sua ajuda, conforme a vida e a história do mártir, ou outras circunstâncias, parecem sugerir: especialmente se esta adoração é considerada apenas como um elegante acessório daquela adoração suprema que é imediatamente dirigida somente a Deus.”


[1] Os judeus criam haver anjos por trás dos elementos /poderes cósmicos (cf: Jubileus 2,1-3), é um conceito presente também no Novo Testamento (Ap 7,1; 14,18; 16,5), e na teologia cristã (ST, Ia, q. 110, art.1).



Categorias:Eucaristia, Refutações, Santos

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