Reflexões sobre o Filioque na Tradição Latina

A palavra Filioque tem origem no latim e significa “e do filho”. O termo aparece no credo niceno-constantinopolitano da Igreja Latina, enquanto que nas Igrejas Ortodoxas, não consta, assim como na recitação das Igrejas Católicas Bizantinas em comunhão com a Sé Romana.

Como faço parte de uma das Igrejas Sui Iuris (Greco-Melquita), decidi escrever rapidamente sobre a questão, a fim de compartilhar como os orientais católicos e romanos, conseguem viver de forma harmoniosa, sem que a adição ao credo por parte do ocidente, sofra qualquer impacto em nós, orientais.

Dividi por partes, a fim de facilitar o entendimento:

1 – O concílio de Constantinopla I (381 d.C.), ao colocar a segunda parte do credo, não menciona a cláusula do Filioque, porém. A reunião de bispos se deu somente por parte do clero oriental e inicialmente, fora tratado somente como um sínodo, tomando caráter ecumênico muito tempo depois. Essa informação é importante, pois, delimita que a segunda parte do credo, ainda que não tivesse a cláusula do “Filioque”, não traria uma obrigatoriedade para que o ocidente compreendesse a visão oriental.

OBS: O concílio de Constantinopla só tomou caráter ecumênico muito tempo depois. Encontramos no Denzinger (Pg 65 / 66; I Concílio de Constantinopla):

Este concílio foi chamado de ‘ecumênico’ já numa carta do sínodo local de Constantinopla (382 d.C.) ao Papa Dâmaso, mas foi universalmente reconhecido como tal só muito mais tarde (…) O sínodo foi recebido implicitamente, e somente quanto às afirmativas dogmáticas, pelo fato de o Papa Vigílio ter confirmado o II Concílio de Constantinopla (553 d.C.)”.

2 – Seguindo as informações do ponto primeiro, temos por tese que pelo menos até Éfeso, a questão não era dogmática. A sexta sessão do concílio de Éfeso (431 d.C.), afirma que nada deve ser mudado da “fé de Nicéia”, ignorando completamente o segundo concílio em Constantinopla. Logo, se de fato a questão da segunda parte do credo já tivesse um critério universal, seria obrigatório a citação por parte dos padres conciliares.

OBS: “6ª sessão, 22 de julho de 431Não é permitido produzir, escrever ou compor qualquer outro credo, exceto o que foi definido pelos santos padres que estavam reunidos no Espírito Santo em Nicéia”.

3 – A primeira vez que o Filioque aparece na profissão de fé Latina, foi em 589 d.C. no sínodo de Toledo. Essa inclusão, se deve ao fato da persistência e continua difusão do arianismo que negava a divindade do filho e do sabelianismo que tratava o pai, o filho e o E.S. apenas como “modelos” (heresia do modalismo) do que viria a ser o único Deus. Logo, a adição se deve a uma defesa em resguardar a divindade de Jesus.

No Denzinger (Pg 168, 470 III Sínodo de Toledo), lemos:

Igualmente devemos confessar e pregar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho e que é de uma única substância com o Pai e com o Filho; na Trindade, portanto, a terceira pessoa é a do Espírito Santo, que todavia tem em comum com o Pai e com o Filho a essência da divindade”.

4 – Partindo do princípio do que vimos no ponto anterior, o oriente conviveu com a Igreja Latina, até o cisma (1054 d.C.), nada mais, nada menos que 465 anos com a ciência de que Roma já aceitava esse conceito.

OBS: O IV Sínodo de Toledo em 625 d.C. (Denzinger, pg 174) e VI Sínodo de Toledo em 638 (Denzinger, pg 177), também usaram o Filioque em seus cânones.

5 – São Hilário, Santo Ambrósio e São Leão Magno ensinaram que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (1).

(1) – It is Tertullian who lays the foundations for Trinitarian theology in the Latin tradition, on the basis of the substantial communication of the Father to the Son and through the Son to the Holy Spirit: “Christ says of the Spirit: ‘He will take from what is mine’ (Jn 16:14), as he does from the Father. In this way, the connection of the Father to the Son and of the Son to the Paraclete makes the three cohere one from the other. They who are one sole reality (unum) not one alone (unus) by reason of the unity of substance and not of numerical singularity” (Adv. Praxean, XXV, 1-2). This communication of the divine consubstantiality in the Trinitarian order he expresses with the verb “procedere” (ibid., II, 6). We find this same theology in St Hilary of Poitiers, who says to the Father: “May I receive your Spirit who takes his being from you through your only Son” (De Trinitate, XII, PL 10, 471). He remarks: “If anyone thinks there is a difference between receiving from the Son (Jn 16:15) and proceeding (procedere) from the Father (Jn 15:26), it is certain that it is one and the same thing to receive from the Son and to receive from the Father” (De Trinitate, VIII, 20, PL 10, 251 A). It is in this sense of communication of divinity through procession that St Ambrose of Milan is the first to formulate the Filioque: “The Holy Spirit, when he proceeds (procedit) from the Father and the Son, does not separate himself from the Father and does not separate himself from the Son” (De Spiritu Sancto, I, 11, 120, PL 16, 733 A = 762 D). St Augustine, however, takes the precaution of safeguarding the Father’s monarchy within the consubstantial communion of the Trinity: “The Holy Spirit proceeds from the Father as principle (principaliter) and, through the latter’s timeless gift to the Son, from the Father and the Son in communion (communiter)” (De Trinitate, XV, 25, 47, PL 42, 1095). St Leo, Sermon LXXV, 3, PL 54, 402; Sermon LXXVI, 2, ibid. 404).

6 – Tendo por base que somente em Calcedônia (451 d.C.) foi aceito o complemento do credo do segundo concílio ecumênico, entendemos o porquê de Santo Agostinho que morreu antes do início do Concílio de Éfeso (430 d.C.), também ter ensinado que o Espírito Santo procede do “Pai e do Filho”:

Comentário ao Evangelho e ao Apocalipse de São João – Tratado XCIX, Cap. 6

Notas:
1. Mt. 20, 10.
2. Gl. 4, 6.
3. Ef. 4, 5 s.
4. Rm. 8, 11.

7 – O “Filioque” não era totalmente desconhecido do oriente grego. Os padres capadócios do século IV, falaram da processão do E.S., sendo o princípio Deus Pai, porém, o paráclito sendo enviado através do filho (1).

(1) – Eastern Catholicism; 20 Answers – Fr. Dcn. Daniel Dozier.

8 – O próprio Vaticano, através do “Pontificial Council for Promoting Christian Unity” (1), já afirmou que o Filioque deve ser entendido conforme o mencionado no ponto 6 (“o Espírito Santo Procede do Pai, através do filho”):

(1) – https://www.ewtn.com/catholicism/library/greek-and-latin-traditions-regarding-the-procession-of-the-holy-spirit-2349

9 – São Máximo, o confessor, teólogo de Constantinopla, defendeu o uso do Filioque pelos Latinos (1) (2).

(1) – Questions to Thalassium, 63, citado por “Eastern Catholicism; 20 Answers – Fr. Dcn. Daniel Dozier.”

(2) – “By nature the Holy Spirit in his being takes substantially his origin from the Father through the Son who is begotten”.

10 – São Teodoro de Cantuária, nascido em Tarso e que possuía ascendência grega bizantina, era um padre com profundo conhecimento em grego. Viveu em Roma por volta do ano 660 d.C. em um monastério oriental. Foi ele quem presidiu o “Concílio de Hatfield” da Igreja Inglesa no ano 680 d.C. Ao defender a ortodoxia da fé, São Teodoro afirma que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho” (1).

(1) – https://erickybarra.org/2017/03/10/st-theodore-of-canterbury-says-filioque-a-d-680/

Concluindo

O Filioque é um patrimônio teológico do ocidente e o oriente católico (ex: Igrejas Bizantinas) embora aceite o uso por Roma sem qualquer risco para a fé do fiel, não recita o “do filho ” em suas divinas Liturgias. Como Greco-Melquita, afirmo que nossa tradição oriental está protegida e podemos, sem qualquer dificuldades, aceitar que o ocidente professe o “Filioque”, enquanto nossas Igrejas professam o credo sem a adição da clausula.

Equipe Accatólica




Categorias:Catolicismo Oriental, Igrejas Sui Iuris

2 respostas

  1. “…em qualquer dificuldades, aceitar que o ocidente professe o “Filioque”, enquanto nossas Igrejas professam o credo sem a adição da cláusula..”
    Então é só uma questão de gosto? se não há nenhum ERRO TEOLÓGICO PORQUE Não INCLUIR NO CREDO?

    • Boa tarde! Como vai?

      Cristo entre nós!

      Não é uma questão de gosto, mas de respeito pelo desenvolvimento de ambas as tradições.

      Não enxergamos o filioque como uma heresia, mas não o professamos, pois não faz parte do patrimônio do oriente católico unido a Roma.

      (Assim como Roma não professa “sem”).

      É isso.

      Fique com Deus!

      IC XC NIKA ☦️

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