A Igreja e os Deuterocanônicos

Nome: Luiz Henrique – The Catholic Guy
Data: 17 de Janeiro de 2022
Horário: 23:29
Site –
Pergunta:

Olá, eu gostaria de fazer um questionamento: Eu notei que é bastante argumentado neste site que, Jesus e os Apóstolos teriam usado a Septuaginta, que possuía os Livros Deuterocanônicos, no entanto, o que dizer do fato de que nem uma das Três Versões da Septuaginta (Códice Alexandrino, Códice Vaticano e Códice Sinaítico) era exatamente igual ao Cânon Bíblico Católico? Analisando elas, podemos ver o seguinte:

1) No Códice Alexandrino, há a presença de muitos Livros Apócrifos que não estão presentes na Bíblia Católica Romana, tais como o Apócrifo de Esdras (que não tem nada a ver com o Esdras Canônico das Bíblias católicas e protestantes), e Terceira e Quarta Macabeus, e os Salmos de Salomão.

2) No Códice Vaticano, há novamente a presença do Livro Apócrifo de Esdras, e além disso faltam os Dois Livros dos Macabeus, que nós Católicos temos nas nossas Bíblias.

3) No Códice Sinaítico, há a presença do Quarto Livro de Macabeus, e além disso faltam os livros de Baruque e de 2 Macabeus.

Ou seja, mesmo se Jesus e os Apóstolos tivessem usado a Septuaginta, eles não teriam tido o Cânon Bíblico Católico, como explicar isso? Jesus provavelmente teria usado o Cânon Bíblico Ortodoxo, pois a Igreja Ortodoxa considera Canônicos todos os livros da Septuaginta. Mas os Ortodoxos não concordam nem consigo mesmos sobre quais exatamente são estes Livros, porque, como eu falei, a Septuaginta não tem uma Lista Única ou fixa de Livros, ou um Único Códice. É por isso que os Ortodoxos em geral tem por Canônicos os livros de 1 Esdras, a Oração de Manassés, o Salmo 151, o Apócrifo de 2 Esdras e 4 Macabeus, mas a Igreja Ortodoxa Copta da Etiópia tem ainda os “Atos de Paulo”, 1 Clemente e O Pastor de Hermas, e a Igreja Etíope tem ainda o Livro dos Jubileus, o Livro de Enoque e 4 Baruque. Para aumentar a confusão, a Igreja Ortodoxa Siríaca excluiu o Livro de 2 Pedro, o de 2 João, o de 3 João, o de Judas e o Apocalipse, e a Igreja Ortodoxa Russa retirou alguns “Deuterocanônicos” de suas Bíblias.

Ou seja, como a Igreja Católica pode de fato ser a “Fé dos Apóstolos”, se os Apóstolos não usavam se quer o Cânon Bíblico Católico?

RESPOSTA ACCATÓLICA

Boa noite!

Grato pelo questionamento, porém, antes de partirmos para a resposta, fiquei um pouco intrigado com a sua narrativa.

No meio do seu texto, você usa um plural majestático para se referir ao “nós católicos”, mas, sua questão me parece tipicamente protestante, principalmente pelo final, onde você diz que: “Como a Igreja Católica pode de fato ser a ‘Fé dos Apóstolos’, se os apóstolos não usavam se quer um Cânon Bíblico Católico?”.

Ora, se você de fato é católico, deveria entender que a “fé dos apóstolos”, não tem qualquer relação com o uso de um cânon “X” ou “Y”. A fé apostólica consiste especificamente na unidade de fé no Cristo, na Igreja fundada por Ele (cf. Mt 16,18 & 1 Tm 3,15) e principalmente pela aceitação do credo (Niceno-Constantinopolitano), logo, se pensarmos que no ocidente latino a estruturação de um cânon formal só ocorre a partir do século IV, já percebemos que sua afirmação é um tanto quanto injusta e infantil.

Isto posto, vamos ao imposto.

Você menciona logo no início que em nosso site, é bastante argumentando que Jesus e os Apóstolos teriam usado a LXX e logo em seguida, diz que três códices distintos da septuaginta apresentam diferenças, então, como nós podemos favorecer a bíblia católica mediante a isso?

Vamos por partes:

1 – Jesus e os apóstolos usaram a LXX e o novo testamento está abarrotado de provas com diversas citações [1];[2], entretanto, usar uma versão estendida, não significa que para a época, os livros já estariam canonizados. Quando nós, católicos, afirmamos que os antigos usaram o texto grego, é para reafirmar que a lista de livros em uso na época era muito maior do que a que vocês, protestantes, insistem em usar até hoje. Não importa se Cristo tenha usado uma biblioteca com mais ou menos pergaminhos, o que importa é que os livros que nós utilizamos e são chamados de “deuterocanônicos”, figuravam em boa parte do que as sinagogas tinham na época.

2 – Enfatizamos o uso da septuaginta em um sentido lato, mas isso, não significa que todos livros que ali estão, deveriam figurar como obras canônicas, isto é, a divergência entre os códices a menor ou a maior, pouco importa. A Igreja, tutora da verdade, decidiu guiada pelo Santo Paráclito que apenas 7 livros desse compêndio deveria fazer parte do texto canônico.

3 – Divergências entre códices, nem sempre estão estritamente ligadas a uma escolha particular da época ou determinada pessoa. Livros se perdem, são subscritos, gastos, rasgados e você deveria saber que a falta de um ou adição de outro, é algo que entra na margem de risco.

4 – Talvez, seja difícil para você, como um protestante, aceitar isso, mas, nem Jesus e tão pouco os apóstolos entregaram uma lista completa de qual deveriam ser os livros autorizados, logo, seria impossível que uma regra única fosse exclusivamente compartilhada inicialmente pela Igreja. Boa parte dos antigos padres usaram os livros deuterocanônicos [3], mas também, outros os colocavam separadamente apenas como leitura edificante (bem diferente do que os protestantes fazem os chamando pejorativamente de “apócrifos”). Foi responsabilidade da Igreja, através do seu magistério, definir quais obras deveriam ser aceitas.

5 – Livros como o Apocalipse, Hebreus, Tiago e 2a Pedro tiveram aceitação tardia na Igreja [4] e nem por isso, nós somos acusados tão levianamente como no caso dos livros do segundo cânon da versão grega. Somente na carta 39ª de Santo Atanásio é que encontramos pela primeira a coletânea de 27 livros do NT [5]. Aqui, estamos no ano 367, século IV. Como dizer que a Igreja não estaria seguindo a fé dos apóstolos, se ela próprio conduziu essa fé através dos séculos?

6 – No Sínodo de Roma, ano 382 d.C., encontramos através do “Decretum Damasi” a lista escriturística que nós, católicos, romanos e orientais, usamos até hoje [6].

7 – O Sínodo de Hipona, ano 393 d.C., compartilha a lista com os deuterocanônicos [7].

8 – No III Sínodo de Cartago, ano 397 d.C, mais uma vez, a lista do cânon é confirmada com os deuterocanônicos e com aprovação episcopal de Roma [8].

9 – O Papa Inocêncio I, ano 404 d.C., em sua carta “Etsi Tibi” ao bispo Victricio de Rouen, também confirma a escritura com os 7 livros da versão grega [9].

10 – O IV Sínodo de Cartago, ano 419 d.C., também confirma os deuterocanônicos [10].

11 – Você cita a questão dos ortodoxos. Veja, a comunhão ortodoxa é formada por Igrejas Autocéfalas, isto é, independentes e com um primaz final que não “reporta” para nenhum outro bispo. Embora eu seja um católico oriental, membro de uma igreja patriarcal (Greco-Melquita), não posso responder por eles. Boa parte dos ortodoxos aceitam com naturalidade os livros da versão grega e digo isso com felicidade, pois tendo em vista o cisma de 1054, é mais uma prova de que o texto corrente grego, teve uma maior aceitação, do que o cânon enxuto massoreta propagado pelo protestantismo.

12 – Por fim e até para trazer uma proximidade histórica, as duas primeiras citações que temos dos livros deuterocanônicos por escritores, fora dos apóstolos, encontra-se antes do início do século II. Papa Clemente, 80 d.C., cita o livro de Judite em sua primeira Epístola à Igreja de Corinto [11] e a Didaqué, cita Eclesiástico 4,31 [12]. Quer mais provas do que essa em relação ao uso primitivo dessas obras?

Espero que tenha sido elucidativo para você.

IC XC NIKA

Equipe Accatólica.

Bibliografia

[1] – https://accatolica.com/2017/12/08/tema-02-defendendo-os-deuterocanonicos/

[2] – https://accatolica.com/2020/02/10/63-comparacoes-entre-o-texto-massoreta-e-a-lxx/

[3] – https://accatolica.com/2018/06/07/a-patristica-e-a-septuaginta/

[4] – Müller, Gerhard Ludwig. Dogmática Católica, Teoria e Prática da Teologia. Pg 57.  

[5] – Müller, Gerhard Ludwig. Dogmática Católica, Teoria e Prática da Teologia. Pg 57.  

[6] – Denzinger, pg 71 e 72.

[7] – Müller, Gerhard Ludwig. Dogmática Católica, Teoria e Prática da Teologia. Pg 57.

[8] – Denzinger, pg 75.

[9] – Denzinger, pg 80.

[10] – Gonzaga, Waldecir. Compêndio do Cânon Bíblico. Pg 179/180

[11] – 1 Cor 55,4-5; Padres Apostólicos, editora Paulus.

[12] – Akin, Jimmy. The Fathers Know Better. Location 2151.

Caso deseje se aprofundar:

1 – https://accatolica.com/2020/09/18/os-judeus-alguma-vez-aceitaram-os-deuterocanonicos/

2 – https://accatolica.com/2017/08/24/em-defesa-da-biblia-catolica/

3 – https://clubedeautores.com.br/livro/manual-de-defesa-dos-livros-deuterocanonicos



Categorias:Espaço do Leitor

1 resposta

  1. Obrigado, no entanto, eu não sou um Protestante, eu só questionei pois eu realmente havia ficado com dúvida, eu sou Católico Apostólico Romano ._.)

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